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Tendo em conta que as três obras literárias em análise apresentam um enredo com raízes em acontecimentos que a História registou, não podemos deixar de referir alguns aspetos da narrativa histórica que nos ajudam a compreender a sua aproximação ao texto literário. Para tal, ancorámos a nossa reflexão na perspetiva de Hayden White, nomeadamente no princípio de que o passado é veiculado e representado através da linguagem e que, por isso, os eventos passados são unicamente apreendidos pela leitura da construção narrativa que sobre eles é feita.

No prólogo à obra Metahistory: The Historical Imagination in the 19th-Century Europe, Michael S. Roth refere que se assiste, no final da década de sessenta, a um interesse pela forma como os historiadores escrevem sobre o passado. Até porque a discussão sobre a constituição da História como ciência parecia estar ultrapassada. Acerca desta questão, afirma Roth: “But, despite the desire of many professional historians to acquire the social capital of scientists, the field never developed either the shared protocols or technical language that would have enable it to be taken seriously as a science.” (Roth, 2014: ix).

O próprio White (2014: 429) refere, sobre esta questão, o seguinte: “[…] the nonscientific or protoscientific nature of historical studies is signaled in the inability of historians to agree […] on a specific mode of discourse.”

Este compromisso com o uso de uma linguagem corrente tornou a assimilação da História com a ciência impossível, pelo que a atenção dos teóricos da História se voltou para a forma como o passado é escrito e para o estudo da linguagem que lhe serve de suporte.

Deste modo, Roth apresenta o trabalho de White como um percurso tendente a libertar o discurso histórico e a sua compreensão dos seus “fardos” (“burdens”) modernos, disfarçados sob a imagem de uma profissionalização da História e da busca da objetividade. Acrescenta que a constituição da História como disciplina, a sua profissionalização, no século XIX, foi desenvolvida à custa da repressão da dimensão pessoal, profética e literária do esforço dos escritores para tornarem o passado com sentido. Assim, a aposta de White em Metahistory é a leitura de autores do século XIX através das lentes da teoria literária, em particular através das teorias da retórica e do género. White destaca quatro géneros literários capazes de colocar acontecimentos históricos passados em narrativa - o romance, a tragédia, a comédia e a sátira -, bem como quatro tropos ou figuras de retórica que refletem a forma como os escritores prefiguram o campo histórico: a metonímia, a sinédoque, a metáfora e a ironia. Nesta perspetiva, “the past became to us only through a poetic act of construction. Then writers made the past meaningful to readers by forming it into a plot.” (Roth, 2014: xi).

De notar que White (2014) rejeita a ideia de que um género ou tropo é mais apropriado que outro para determinados eventos históricos ou que corresponde mais realisticamente ao que aconteceu no passado. Trata-se de uma escolha que é feita pelo historiador, de acordo com a sua visão e interpretação dos acontecimentos, de contornos claramente subjetivos e com base em opções morais e estéticas.

O interesse de White reside, pois, naquilo a que Roland Barthes chamou de “efeito de real” do discurso histórico, deslocando questões epistemológicas e sobre objetividade em favor de um questionamento da estrutura literária ou poética. Roth refere a este propósito que “Historians do not find story types in the past; they form the past into story types.” (idem: xiii)

A análise de White (2014) recai no exame do discurso histórico enquanto estrutura retórica, numa aproximação entre História e literatura e no poder de ambas para a apreensão do sentido dos eventos passados.

A narrativa surge, assim, no entender de Roth (idem: xv), como uma estratégia retórica através da qual moldamos a nossa experiência num todo significativo que possa ser comunicado aos outros, e é a experiência que fala por si própria como uma história. Através desta técnica, a história atinge aquilo a que chamamos realismo, uma vez que o relato torna-se homólogo da maneira como as coisas aconteceram.

A abordagem que White (2014) faz do discurso histórico reside no facto de que o passado é dotado de sentido através da sua construção numa narrativa, porque, por si só, o passado é desprovido de significado. Assim, a História chega até nós mediada por textos e formada por tropos numa narrativa.

Para White (2010: 283), os historiadores encontram nos eventos de que falam as formas próprias de uma ou outra estrutura narrativa tipicamente configurada com os diferentes géneros da ficção, mito, fábula ou lenda. Deste modo, em historiografia, esta atividade pode gerar diferentes interpretações de um mesmo fenómeno histórico, isto é, aquilo que um historiador perspetivou como epopeia ou tragédia é narrado por outro como farsa. E é neste âmbito de projeção de um determinado tipo de estrutura narrativa num determinado evento histórico que se situa a questão da natureza ideológica do discurso histórico.

É também este o sentido dado por Assis e Cruz (2010: 113) quando afirmam que “qualquer narrativa histórica é ideológica” até porque “toda interpretação do passado é construída em determinado presente, impossibilitando o historiador de se isentar do seu presente para chegar sem imparcialidade ao passado […]”.

Por isso, partindo do pressuposto de que o passado é reconstruído e representado através da narrativa que o historiador sobre ele constrói e que esta é o único meio de o alcançar, a relação entre a forma e o conteúdo no discurso histórico é a premissa fundamental na qual assenta o trabalho de White.

É deste modo que Assis e Cruz (idem: 117) se referem a esta dupla direção do discurso histórico:

Se considerarmos a narrativa histórica como um sistema de signos, ela vai apontar para duas direções, de um lado teremos os acontecimentos descritos pela narrativa e de outro o tipo de texto que o historiador escolheu para servir de ícone da estrutura dos acontecimentos.

A natureza subjetiva e ideológica da narrativa histórica deriva da sua própria estrutura sem que seja necessário apelar ao conteúdo. Para Roland Barthes (1984: 174), mais do que elaboração ideológica, o discurso histórico é construção imaginária, explicitando a noção de imaginário deste modo: “L’imaginaire est le langage par lequel l’énonçant d’un discours (entité purement linguistique) remplit le sujet de l’énonciation (entité psychologique ou idéologique)”.

Nesta perspetiva, a noção de “facto” histórico suscitou, segundo o autor, uma certa desconfiança, porque a partir do momento em que a linguagem intervém, o facto tem existência unicamente linguística, no entanto tudo se passa como se esta existência fosse apenas a cópia pura e simples de uma outra existência, o “real”. O discurso histórico é o único em que o referente é encarado como exterior ao discurso, porém não é possível atingi-lo fora do discurso. Trata-se daquilo a que Roland Barthes chamou o “paradoxo do discurso histórico”.

Importa, pois, questionar com mais precisão que lugar ocupa o “real” na estrutura discursiva.

Sobre esta problemática, Barthes (idem: 175) refere que o discurso histórico implica uma dupla operação. Em primeiro lugar, o referente é separado do discurso (decomposição unicamente metafórica, nas palavras de Barthes), tornando-se-lhe exterior, fundador e supostamente regulador. Numa segunda fase, o próprio significado é confundido com o referente e este entra em relação direta com o significante; o discurso, encarregado somente de exprimir o real, crê dispensar-se do termo fundamental das estruturas imaginárias, que é o significado. Como qualquer discurso com pretensões realistas, o histórico parece conhecer apenas um esquema semântico com dois termos, o referente e o significante. A confusão ilusória do referente e do significado é própria dos discursos performativos e o discurso histórico é um discurso performativo falsificado, no qual o descritivo aparente é tão-somente o ato de fala como ato de autoridade.

Em suma, é este o modo como Barthes se refere ao “efeito de real”: “[…] dans l’histoire objective, le réel n’est jamais qu’un signifié informulé, abrité derrière la toute- puissance apparente du référent. Cette situation définit ce que l’on pourrait appeler l’effet de réel." (idem : 176).

Ainda a respeito da questão da ilusão do referente e do facto de ele ser produzido pela própria linguagem, o autor afirma : "[…] le discours historique ne suit pas le réel, il ne

fait que le signifier, ne cessant de répéter c’est arrivé, sans que cette assertion puisse être jamais autre chose que l’envers signifié de toute la narration historique." (idem : 176).

Tendo em conta a impossibilidade, em Barthes (idem: 177), de separar o referente da sua asserção, é compreensível que a História tenha instituído a narrativa como significante privilegiado do real e que a verdade histórica seja extraída da própria narração. Este é, no dizer de Barthes, um círculo paradoxal, no qual a estrutura narrativa, elaborada no cadinho das ficções (através dos mitos e das primeiras epopeias), torna-se, simultaneamente, signo e prova da realidade.

Indissociável da linguagem e das estruturas retóricas e de género que lhe estão inerentes, a narrativa histórica é pois, mais do que a procura pela “verdade” objetiva do passado, uma construção literária com naturais implicações ideológicas e o veículo que permite aceder a esse passado.

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