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Manifestação (in)voluntária das forças íntimas, do pensamento e do sentimento de um povo num determinado passo da sua vivência histórica, a Literatura revela-se o campo privilegiado do ensaísmo lourenciano sobre o destino português.10 Partindo, pois, da leitura crítica e conjugada da História e da Literatura,

esteticamente configurada em códigos próprios, a reflexão lourenciana «tem como preocupação fundamental o estudo das auto-representações dos portugueses e da forma como estas condicionam a sua identidade cultural, ou mais latamente, o imaginário cultural português.»11

Já ficou dito de passagem que é n’O Labirinto da Saudade que Eduardo Lourenço pela primeira vez entre nós se refere a uma imagologia portuguesa, atribuindo-lhe um significado específico dentro da hermenêutica cultural que desenvolve. A imagologia portuguesa identificada em 1978 é oriunda do campo semântico da psicanálise e pode ser traduzida de forma simplista por imagens

8 Maria Manuel Baptista, «Mito, História e Filosofia na obra de Eduardo Lourenço», in Eduardo Lourenço

– Estudos. Vol. I (coord. Maria Manuel Baptista), Maia, Ver o Verso, 2006, p. 19-20.

9 ANP, «Contornos da ‘Preocupação por Portugal’ no ensaísmo de Eduardo Lourenço», p. 343. 10 Talvez seja oportuno observar que a semântica do destino português no sentido que lhe dá Eduardo

Lourenço interpretando o papel do homem português como agente, aponta para a deslocação do sujeito da história para fora do homem português, como se Portugal fosse uma fatalidade autónoma, uma existência cujo agente é da ordem divina, secundarizando o papel activo da vontade e da acção do homem português.

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mentais, conceitos que temos de nós próprios. Aliás, como é sabido, o subtítulo desta obra é precisamente Psicanálise Mítica do Destino Português. Assim, imagologia aparece traduzida na mesma obra por outras expressões equivalentes: imagerie, «nossa imagem enquanto produto e reflexo da nossa existência e projectos históricos ao longo dos séculos e em particular na época moderna», «imagens que de nós mesmos temos forjado», «imagem de Portugal», mitologia, ficção, etc.

Para chegar à descrição das imagens mentais que povoam e condicionam o homem português, Eduardo Lourenço procede a uma revisitação dos mais invocados episódios da história de Portugal articulando-os com uma leitura de ordem simbólica dos textos literários mais representativos. Ou seja, o ponto de partida para a formulação desta imagologia lourenciana é, em parte, comum ao da Imagologia Literária. Aquilo a que o autor de O Labirinto da Saudade chama Imagologia compreende um conjunto de ideias, preconceitos, crenças dos portugueses sobre si como colectividade nacional. Este imaginário cultural português – a galeria de imagens que os portugueses forjaram de si próprios e da sua história, maioritariamente ficcionadas, embora não assumidas como tal –, está intrinsecamente ligado aos processos operacionais identificados pela Imagologia Literária, designadamente nas construções da representação de mentalidade no texto literário.

É certo que o ponto de vista de Eduardo Lourenço assenta numa base de reflexão de pendor filosófico-psicanalítico enquanto a perspectiva da Imagologia Literária se liga mais ao mecanismo de organização da língua e do texto literário e à sua inserção cultural. São duas vias de análise cultural que se complementam mutuamente. A imagologia portuguesa configurada pela Literatura ganhou com Eduardo Lourenço um estatuto próprio nos Estudos de Cultura Portuguesa que não podem já ignorar os textos lourencianos sobre a questão da imagem e da representação da identidade nacional.

Há três momentos cruciais na reflexão ensaística de Eduardo Lourenço sobre a identidade cultural portuguesa, correspondentes à publicação de outras tantas obras incontornáveis, separadas por três décadas: O Labirinto da Saudade (1978), Nós e a Europa ou as Duas Razões (1988) e Portugal como Destino seguido de Mitologia da Saudade (1999). Embora a sua atenção sobre Portugal, a sua

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Literatura, História e Cultura tenha permanecido nuclear – no sentido do questionamento e reinterpretação permanente da cultura portuguesa, daquilo que ela é ou se julga ser e daquilo que configura a sua imagologia – a abordagem mais recente desviou-se um pouco do ambiente psicanalítico de O Labirinto da Saudade em favor do campo lexical mítico-literário, mais próximo do pensamento filosófico- cultural. Mas a relação do homem português com a História e a sua tendência mitificadora ou o sentido trágico e supostamente universalista do destino português são linhas interpretativas que Eduardo Lourenço continuou a desenvolver reiteradamente a partir da Literatura, e concretamente, no que respeita ao século XIX, na fundação da nossa modernidade, a partir da obra de Almeida Garrett e de Eça de Queirós.

A leitura da nossa História – o destino português – proposta por Eduardo Lourenço não se cinge, evidentemente, ao que se encerra num livro de História, mas antes sugere uma abordagem de problematização das ideias, imagens e narrativas da existência portuguesa. «Da cultura à literatura, a estratégia de Eduardo Lourenço é sempre genuinamente fenomenológica: interessa-lhe menos, por exemplo, conhecer a realidade histórica, concreta e objectiva que foi Camões do que analisar a forma como ele tem sido representado e imaginariamente vivido pelos portugueses ao longo da sua própria história. E o que é válido para Camões aplica-se a todos os vultos da cultura que analisa ou a qualquer outra realidade que desperte a sua insaciável curiosidade. (…) São, assim, as análises à essência dessas mesmas representações no imaginário colectivo que Lourenço procura e nos oferece nos seus ensaios, partindo da suposição, ainda fenomenológica, de que é aí que se encontra o ‘ser da cultura portuguesa’, quer dizer, não nas modalidades da sua existência objectiva, mas o seu sentido e significação, o que se plasma no e configura o imaginário colectivo.»12 Esta é uma constante da

hermenêutica cultural de Eduardo Lourenço: incidir a sua atenção e discurso não tanto sobre os objectos mas mais sobre as representações. Mas estas representações são já uma transfiguração, releitura mediada e incorporada colectivamente, como é próprio de quem defende uma relação do homem com a realidade de índole essencialmente simbólica, divergente do discurso filosófico clássico, ortodoxo, racional e globalizante. Eduardo Lourenço incorpora na sua

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análise à cultura portuguesa e no seu discurso ensaístico a matriz simbólica omnipresente na própria linguagem, que é a forma esfíngica de se aproximar da verdade.13 Ora, ao fazer incidir a sua atenção nas representações, Eduardo

Lourenço posiciona-se numa perspectiva próxima da que caracteriza a Imagologia Literária, para quem o texto literário é a suprema arte da representação de uma cultura.

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