claudia Góes
resumO Análise da relação da música popular com o processo de revitalização da região denominada
“Rio Antigo”, no Centro histórico Rio de Janeiro. Avaliou-se em que medida o movimento musical do samba e do choro colaborou de forma significativa na revitalização do bairro da Lapa na última década. Parte-se do pressuposto de que a reocupação do bairro está sendo redefinida pelas novas casas de espetáculo (e também por projetos urbanísticos do Estado e pelo mercado imobiliário). Nas últimas dé- cadas, a região do Rio Antigo - que compreende a Lapa, Praça Tiradentes e Cinelândia -, está se reestru- turando e desenvolvendo atividades econômico-culturais através de casas noturnas, centros culturais, bares e restaurantes, dedicados a tocar diversos estilos musicais onde o samba e, especialmente, o choro são destaques. Isto é, o sucesso alcançado por essas casas noturnas - que em grande medida realizam concertos ao vivo de choro - é um dos principais responsáveis pela reocupação dos antigos casarios reformados e dos novos espaços socioculturais criados. Este movimento social que gira em torno da música está revelando uma região com uma economia bem definida, baseada na música, no entretenimento, no turismo e na gastronomia.
IntrOduÇÃO
A reocupação do bairro da Lapa teve uma ligação direta com o fortalecimento nas últimas décadas do movimento musical do samba-choro, a partir das reformas de infra-estrutura do Centro da cidade do Rio de Janeiro. Este momento permitiu a abertura de inúmeros bares e casas de concertos na Lapa e, conseqüentemente, o surgimento de diversos grupos musicais compostos por jovens, além do re- torno dos músicos “da antiga”, os chamados “chorões”, ao bairro. Atualmente, a região que com- preende a Rua do Lavradio, a Praça Tiradentes e a Cinelândia, conhecida como Rio Antigo e, o entorno da praça mauá, está se reestruturando e recebendo em suas casas noturnas, centros culturais, bares e restaurantes, diversos estilos musicais onde o samba e mais precisamente o choro são um dos princi- pais responsáveis pela reocupação dos antigos casarios e dos novos espaços que surgem a cada dia.
Breve HIstórIa dO CHOrO
Dizer que a música popular feita no Brasil é caracterizada por sua riqueza é essencial para defini-la. A história da música popular do Brasil acontece quando do encontro entre a música dos jesuítas e a música dos indíge- nas. Ela se tornaria mais forte no final do século XVII, com o lundu que tem origem no batuque africano e nos ritmos portugueses, e com a modinha, de cunho intimista, amoroso e sentimental. Já no século XIX surge o choro e os conjuntos de chorões — nome que se dá aos músicos que integram os conjuntos de choro — que adaptam formas musicais européias ao gosto brasileiro. Os primeiros grupos de chorões eram compostos por flauta, violão e cavaquinho. No final do século XIX são incorporados instrumentos de sopro e corda, tais como o bandolim, o flautim e a clarineta. Em termos de estrutura musical, o choro costuma ter três partes (ou duas, posteriormente), que seguem a forma rondó (sempre se volta à primeira parte, depois de passar por cada uma).
Músicos como Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim e Pixinguinha foram fundamentais para a formação da linguagem do gênero. Este último foi essencial pois introduziu elementos da música afro-brasileira e da música rural nas polcas, valsas, tangos e schottisch vindas do exterior. Jacob do Bandolim, por sua vez, fun- dou o mais importante grupo de choro de todos os tempos, o Época de Ouro.
O choro acabou por tornar-se o gênero mais representativo da música brasileira por seu caráter de elo entre diversos segmentos sociais e estéticos que persiste até hoje. Pode-se pensar o choro como uma síntese pri- mordialmente instrumental de toda uma história musical brasileira.
Breve HIstórIa da lapa
O bairro da Lapa no Rio de Janeiro é historicamente ligado à música. Seus cabarés, teatros e cafés eram o ponto de encontro de músicos, artistas, intelectuais e também de malandros no inicio do século passado. A Lapa se destaca ainda por suas obras arquitetônicas como a Sala Cecília Meireles, o Passeio Público, a Escola Nacional de Música e os Arcos da Lapa. Mas nem sempre foram brilhantes a noites do bairro, com as sucessivas crises econômicas do país, a região conheceu épocas de decadência. (inserir imagens da Lapa antiga, e do casario).
Entre os anos 80 e 90, os antigos prédios abandonados foram restaurados fazendo surgir no local diversos centros culturais e casas de espetáculos. O bairro foi rejuvenescido com a presença de jovens de diferentes classes sociais e identidades culturais. Nesse momento, ali se instalou o Circo Voador com suas oficinas de teatro, dança e espetáculos musicais. (inserir imagem do Circo Voador).
A reforma urbanística da rua do Lavradio foi o marco para a revitalização da região que passou a atrair uma série de investidores e produtores musicais com suas casas de espetáculos, bares e restaurantes. Por sua vez, a Lapa passou a agregar profissionais ligados ao mundo da música atraindo assim músi- cos de outras regiões da cidade. Primeiramente surgiu o Empório 100, bar de samba-choro montado num antiquário no número 100 dessa mesma rua. Em seguida surgiu o Bar Carioca da Gema, o Bar Se- mente, a Casa da Mãe Joana, o Estrela da Lapa, o Rio Cenarium, e, atualmente, o Clube Democráticos, a Fundição Progresso, dentre outros. Hoje, a Lapa é o ponto de encontro de todas as tribos, idades e class- es sociais do Rio de Janeiro. (inserir imagem da esquina do Semente e do Democráticos e Fundição).
revItalIzaÇÃO dO BaIrrO
Assim como o samba, há muito o choro faz parte da cena musical da Lapa. Em meados da década de 90, houve uma grande proliferação de espaços para apresentação de rodas de choro que tinham como público profissionais liberais, músicos, jornalistas, escritores e estudantes.
Este circuito criado por esses dois gêneros, expressões emblemáticas da cultura musical brasileira, refletiu significativamente na reformulação dos espaços da região, que por sua vez foram revitalizados com o início das obras, na década de 1990, de melhoria da infra-estrutura urbana de modo a favorecer a segurança e o bem-estar dos freqüentadores e turistas que circulam no bairro. Antes disso, a Lapa só era notícia na mídia quando chovia e havia inundações nas ruas, o que afetava todo o comércio local. Depois das obras, ali foi in- stalada a Feira do Rio Antigo. Os antiquários empoeirados desta rua passaram a reformar e pintar suas facha- das, a limpar os móveis, a construir banheiros. Foi o momento da construção da auto-estima do comerciante local. Assim, a rua passou a ser motivo de notas simpáticas e espontâneas dadas pela mídia. Isso trouxe mais gente para o bairro, e, conseqüentemente, houve uma demanda maior pelos imóveis.
Podemos dizer que de tempos em tempos a Lapa viveu o que Jerzy Kociatkiewicz e Monika Kostera denomi- naram de “espaços vazios”. Para os autores as ruas pobres, distritos perigosos e periferias, são exemplos de espaços vazios:
lugares a que não se atribui significado. Não precisam ser delimitados fisicamente por cercas ou barreiras. Não são lugares proibidos, mas espaços vazios, inacessíveis porque invisíveis. Se ... o fazer sentido é um ato de padronização, compreensão, superação da surpresa e criação de sig- nificado, nossa experiência dos espaços vazios não inclui o fazer sentido. (Bauman, 2001: 120).
De alguma forma, esse processo de revitalização da Lapa e Centro do Rio nos leva a acreditar que a Lapa não se inclui mais nesses espaços vazios. Acreditamos que a música, em especial o samba e o choro se tornaram o que Caiafa chamou de a “força criadora” do repovoamento da região. “A força criadora das cidades vem, precisamente do ato de se chamar à rua e de se ocupá-la.” (Caiafa, 2001: 130).A ocupação dos espaços tem uma dependência direta com o poder público. Mas a Lapa é um caso raro no Brasil porque foi uma iniciativa que partiu dos comerciantes locais. Em outras cidades brasileiras como é o caso do Pelourinho na cidade de Salvador, e da cidade de São Luis do Maranhão, foi o governo que promoveu a reforma dos antigos casarios e a reocupação desses antigos espaços.
Transformada agora em pólo cultural seguro, o turismo pôde ali se instalar. Segundo pesquisa realizada em 2007, 90% dos freqüentadores daquela região sentem-se seguros no local. Jane Jacobs observa que a mel- hor medida de segurança nas ruas de uma cidade são as próprias pessoas. Uma rua habitada não precisa de polícia. De fato, a violência é muito mais provável nas regiões despovoadas, onde as pessoas preferem permanecer entre conhecidos em ambientes familiares, onde o espaço público está abandonado. São os
A ocupação coletiva é a nossa garantia. É a mistura urbana, a concentração e a circulação, o contágio em plena rua que garantem a nossa presença e a nossa liberdade de circular e, portanto, a nossa relação ativa com a cidade. (Caiafa, 2001: 130)
mesmo entendendo as várias facetas dos meios urbanos, capazes de concentrar, circular e ao mesmo tempo de dispersar, é fato que este movimento musical foi sem duvida um divisor de águas na vida desta região. De diferentes maneiras em cada configuração urbana, a história das cidades envolve o povoamento, a ocupação do espaço. Trata-se de uma ocupação coletiva, da produção de espaços públicos. Esse coletivo urbano se cara- cteriza por possibilitar, de alguma forma, uma experiência com o outro. Nesse espaço coletivo, se dá a mistura propriamente urbana, mesmo que provisória e local. Cria-se um espaço de contágio com outros e estranhos onde há uma imprevisibilidade que o confinamento familiar não permite, onde há mesmo ou pode haver uma criatividade maior dos processos subjetivos. (Caiafa, 2001: 125)
Bauman (2001) afirma: “uma cidade é um assentamento humano em que estranhos têm chance de se en- contrar”. O autor comenta que esse encontro não tem necessariamente que partir de um encontro anterior. Para ele, um encontro entre estranhos pode acontecer sem referências e sem lembranças.
o encontro de estranhos é um evento sem passado. Freqüentemente é também um evento sem futuro (o es- perado é não ter futuro), uma história para “não ser continuada” uma oportunidade única a ser consumada enquanto dure e no ato, sem adiamento e sem deixar questões inacabadas para outra ocasião. (Bauman, 2001: 111)
Sobre essa convivência entre estranhos, podemos afirmar que a Lapa tem a capacidade de ter tudo con- vivendo em harmonia. Tem os travestis na esquina da Rua do Lavradio com Mem de Sá convivendo em har- monia com o movimento dos bares. Eles transitam pelas calçadas sem conflito. Já as meninas de programa da Praça Tiradentes trabalham ao lado da casa de espetáculo Centro Cultural Carioca sem incomodar nem causar constrangimentos aos freqüentadores daquele estabelecimento. Se a vida urbana requer habilidades como conviver com as diferenças, então a civilidade é uma tradição do carioca. Esta acontece dentro de espaços onde as pessoas se relacionam como pessoas públicas sem serem cobradas a tirar suas máscaras. a atividade que protege as pessoas umas das outras, permitindo, contudo, que possam estar juntas. Usar uma máscara é a essência da civilidade. As máscaras permitem a sociabilidade pura, distante das circun- stâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger os outros de serem sobrecarregados com o nosso peso (Bauman 2001: 112).
O autor afirma ainda que civilidade é a capacidade de interação entre estranhos e o que carac- teriza o espaço público onde acontece esse encontro é a “dispensabilidade dessa interação”. Logo, a Lapa que sempre foi um espaço de encontro entre diversos grupos de pessoas com determi- nado gosto e comportamento, pode ser vista como um espaço de encontro entre estranhos. Para Caiafa (2001) “estar entre estranhos é livrar-se em algum grau de sua identidade ou sua definição”. Hoje o samba e o choro ocupam cerca de 80% da programação das casas noturnas da Lapa. A mesma pes- quisa de 2007 confirmou também que 68% do público que freqüenta aquela região vai em busca de en- tretenimentos ligados à cultura brasileira. É um público de classe média-alta e de todas as idades com idade entre trinta e cinqüenta anos. São profissionais que trabalham em museus, centros culturais, estudantes e professores universitários. Existe ainda um numero significativo de turistas estrangeiros que passam por ali com a intenção de conhecer a cultura brasileira. É um turismo cultural que deve ocupar cerca de 20 a 30%, das casas de espetáculos.
Mas nem todos vibram com a vitrine musical que a Lapa se tornou. O consagrado violonista Mauricio Car- rilho, diretor da Acari Records, editora especializada em choro, diz que o que aconteceu na Lapa não rep- resenta quase nada, se pensarmos que existe na cidade uma enorme rede de casas de concertos e bares administrados por espanhóis que só divulgam espetáculos de baixíssima qualidade musical. E isso acontece porque não existe uma política cultural que proteja o nosso produto musical, assim como acontece com o tango em Buenos Aires ou com a musica Flamenca em Sevilha, na Espanha, e em tantos outros lugares. O Rio de Janeiro deveria ser reconhecido pela sua música mas não existe um política governamental que integre essa produção musical ao turismo.
merCadO ImOBIlIárIO: a lapa se prepara para um nOvO mOmentO
Se o choro ganhou nova vida com a revitalização da Lapa e adjacências, a região também voltou a brilhar com a sua presença. Mas se essa retomada tem até agora reflexos tímidos sobre a indústria da música, para o mercado imobiliário, o cenário é outro. Seis anos após a fundação do Distrito Cultural da Lapa, foram lançados novos imóveis para a classe média no bairro. O maior empreendimento foi o Condomínio Cores da Lapa na Rua do Riachuelo.
Com 688 apartamentos de 1, 2 e 3 quartos, nas primeiras horas de lançamento, todas as suas unidades foram vendidas. O condomínio oferecia a seus moradores, serviços que não existiam na Lapa, como ginásio, cinemas e lojas especializadas. Assim, o perfil do novo morador da Lapa começou a ser traçado. O uso resi- dencial do bairro gerou um novo mercado, qualificou o comércio e passou a exigir melhorias. Mas nem todos ficaram satisfeitos com esses novos tempos na Lapa. Alguns moradores lembraram que essas mudanças na vida do bairro iriam atrair um morador de classe média e isso iria trazer uma reformulação no comércio em geral para atender a esse novo morador. E isso traria conseqüências diretas para a região como a descarac- terização das ruas, em função do número de carros que iriam circular nesses espaços.
Uma questão lembrada pela maioria dos entrevistados para minha tese de mestrado é que a freqüência e a futura permanência da classe média alta na região da Lapa implicaria também na abertura de bares e restau- rantes “chiques”, onde se passaria a pagar um preço fixo de entrada e conseqüentemente bebida e comida bem mais caras. Essa descaracterização atingiria diretamente a boemia, que é a marca do bairro. Alguns freqüentadores das noites da Lapa, chamaram essa “evolução” de manobra social para retirar as pessoas dos bares de rua em nome de uma nova organização mas que faria com que a Lapa ficasse enclausurada em bares fechados perdendo a sua essência que é a rua.
Alguns entrevistados apontaram ainda para o futuro do atual morador da Lapa: essa população seria expulsa do bairro e iria morar nos morros ou na periferia da cidade pois só permaneceria na Lapa aquele que puder pagar altos impostos e tivesse maior poder aquisitivo para consumir os novos serviços disponibilizados pelo comércio mais requintado.
Bauman (2001) afirma que alguns espaços públicos servem para transformar cidadãos em consumidores. A Lapa corre o risco de perder seus botecos e lojas de esquina e se transformará em um grande “templo de consumo” - ao ar livre - como pensa George Ritzer. Muito se fala da Lapa na mídia, mas pouco se falou sobre a questão da especulação imobiliária, das transformações físicas, socioculturais e suas conseqüências. Se por um lado a Lapa não é mais um espaço vazio, por outro essa ocupação consumista poderá transformar o bairro e seu entorno em uma grande Copacabana, um grande centro de consumo que, mesmo com um belo passado, aos poucos foi perdendo o glamour.
REFERêNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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