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Gabriel Moacyr Rodrigues

resumO Pela análise do percurso biográfico do célebre compositor cabo-verdiano B. Lèza (1905 –

1958) e questionando-nos sobre a relação estabelecida com a sua época e o seu país natal, veremos como ele interagiu fortemente com o ambiente musical da cidade do Mindelo na sua adolescência, sendo a sua socialização musical fruto deste ambiente. De tal forma ele integrou e foi influenciado pelo ambiente musical que lhe era oferecido pela sua cidade natal que foram criadas condições para que mais tarde desempenhasse o papel de compositor.

Para percebermos em que medida se deu esta socialização de B. Lèza, procederemos a uma breve cara- cterização do ambiente musical no Mindelo durante o primeiro quartel do século XX.

IntrOduÇÃO

Pretende-se neste artigo, pela análise do percurso biográfico do célebre compositor cabo-verdiano B. Lèza (1905 – 1958) e questionando-nos sobre a relação estabelecida com a sua época e o seu país natal, ver como ele interagiu com o ambiente musical da cidade do Mindelo na sua adolescência, sendo a sua socialização musical fruto deste ambiente.

De forma a levar a cabo o nosso estudo, e mais especificamente, as entrevistas conduzidas, foram-nos úteis as reflexões metodológicas de Paul Connerton, no livro Como as Sociedades Recordam (1999), dedicado à questão de como se transmite e conserva a memória dos grupos. No entanto, foi-nos sobejamente útil para o nosso trabalho de campo, e nomeadamente, para a realização de entrevistas, as considerações feitas sobre o trabalho de Maurice Halbwachs, em Les cadres sociaux de la mémoire e La mémoire collective. este segundo autor considera que é através da pertença a um grupo social que os indivíduos são capazes de adquirir, lo- calizar e evocar as suas memórias. Connerton especifica: ”Os grupos dotam os indivíduos de quadros mentais no interior dos quais as suas memórias se localizam, e as memórias são localizadas por uma espécie de car- tografia.” (Connerton 1999:45). Este foi um aspecto muito importante a ter presente aquando da realização das entrevistas realizadas para o nosso trabalho, e nomeadamente, na condução das mesmas.

Adoptámos a linha de reflexão de Georg Simmel, sociólogo que deu importância ao estudo das estruturas de socialização dos artistas, considerando que quanto maior for o talento de um artista, mais ele beberá da sua tradição artística, parte da qual ele terá, por conseguinte, de aceitar e refinar. Citando Simmel, Etzkorn afirma: “A música é como um aspecto das relações sociais através das quais os indivíduos comunicam entre si e que por sua vez, mantém, estrutura e reestrutura estas relações”(Etzkorn 1964: 105).

Adoptámos uma combinação de abordagens etnográficas e históricas, seguindo a metodologia de Christo- pher Waterman, na sua obra Jújù – A Social History and Ethnography of an African Popular Music, uma das primeiras obras que se ocupa detalhadamente da evolução e significado social de uma música popular na África Ocidental, mais especificamente, na Nigéria.

Para a reconstituição de dados biográficos de B. Lèza no período em apreço, recorremos a publicações do próprio autor e a entrevistas ou depoimentos publicados de pessoas que com ele privaram.

levámos também a cabo entrevistas, nomeadamente, com luís rendall, antónio aurélio Gonçalves e Jorge Monteiro.

Depois de ter regressado definitivamente a S. Vicente em 1979, vindo de Angola, aí me encontrei com Luís Rendall, regressado da Boavista, faroleiro reformado, conhecedor da música cabo-verdiana e companheiro do B. Lèza. Entrevistei-o sobre Mindelo/S. Vicente do seu tempo, a sua vida e a do B. Lèza. Em 1983, no Mindelo também, entrevistei o meu antigo professor de História e Filosofia, o escritor António Aurélio Gon- çalves sobre a vida na Boavista da sua infância, sobre sérgio Frusoni, o escritor ítalo-cabo-verdiano e sobre B. Lèza. António Aurélio Gonçalves escreveu sobre o Mindelo profundo. São “noveletas”, como ele próprio as classificou. Ainda em 1983, entrevistei Jorge Monteiro, músico, chefe da Banda Municipal do Mindelo e da Praia, compositor culto e dos últimos prolíferos “mornistas” da geração de B. Lèza. Jorge Monteiro usou o pseudónimo de Jotamont (J. Mont, de Monteiro), mas era mais conhecido por Jorge Cornetim por ele utilizar esse instrumento de entre os vários que ele tocava, com eficiência.

Algumas vezes, em conversas esporádicas com o meu professor e mestre Baltazar Lopes da Silva, falei-lhe de B. Lèza por saber da profunda amizade e admiração que ele nutria pelo compositor e da sua quota-parte na inspiração da morna Eclipse. É importante referir conversas levadas a efeito com familiares e amigos, mesmo Gabriel Moacyr Rodrigues

nos anos 70, como com Armando Silva, companheiro de boémia do poeta e Malaquias Costa, violinista e ao tempo servente no Hospital, onde B. Lèza morreu.

Foi já no quadro do Mestrado em Etnomusicologia que, em 2008, no Mindelo, entrevistei o sobrinho do po- eta, Humberto Cruz.

a CIdade dO mIndelO nOs fInaIs dO sÉCulO xIx e prInCÍpIOs dO sÉCulO xx

A cidade do Mindelo, do Porto Grande, nos finais do século XIX, é a cidade industrial e comercial por excelên- cia de Cabo Verde, de grande importância para o Arquipélago. Cabo Verde deixava de ser o entreposto de escravos para o novo mundo, para assumir o seu papel de interposto industrial e comercial mais importante do Atlântico médio, fazendo parte do sistema Imperial Britânico1.

Um viajante inglês, Major Ellis, de passagem por S. Vicente, em 1873, deixou algumas notas sobre uma noite em que esteve no Brazilian Hotel, e que permitem concluir que durante 40 anos de controlo inglês, o Mindelo cresceu de tal maneira, que se transformou num “pequeno enclave do capitalista, com uma formação social típica de capitalismo periférico, de hotéis com dancings nocturnos” com o seu respectivo ambiente promís- cuo próprio das cidades portuárias (Ellis, Ibid.).

S. Vicente vivia, nessa altura, um momento de prosperidade devido ao movimento portuário e à importação de matéria prima, como o carvão, que depois de armazenada era revendida aos barcos de passagem aos quais se fornecia frescos e carne verde2, de modo a poderem continuar a viagem ao longo do Atlântico. No centro desse “Oceano Negro”, S. Vicente, com o seu porto, desempenhava um papel importante, nos finais do século XIX, de modo a ter a mais próspera economia de todo o Arquipélago:“a much higher level of prosperity and economic security than anywhere else in Cape Verde” (Gatlin 1990:108). Para além disso, em 1874 instalou-se a Western Telegraph Company e pouco depois S. Vicente tornou-se num dos pólos mais importantes no sistema telegráfico mundial, trabalhando com cabos submarinos.

Dois factos farão do Mindelo uma cidade cosmopolita: a visita de barcos turísticos e o facto de ser um inter- posto de carvão, o que também permitiu a abertura à importação de produtos europeus, antes da Iª Grande Guerra e mesmo depois. Por estar no meio do Atlântico, onde se desenrolava grande parte das batalhas nav- ais, o mindelo albergava, no seu seio, muitos dos náufragos de variadas nações, cujos barcos eram afundados não muito longe das ilhas.

O quadro administrativo do Mindelo em geral, e o seu professorado em particular era na sua maioria con- stituído por cabo-verdianos e portugueses. Vinham do Seminário Liceu da Ilha de S. Nicolau e mais tarde do Liceu Nacional Infante D. Henrique, fundado nesta cidade em 1917, depois do encerramento do seminário de S. Nicolau, com o advento da República.

A população da ilha de S. Vicente era maioritariamente oriunda das ilhas vizinhas de Santo Antão, São Nico- lau e Boa Vista. Essa população veio à procura do trabalho que a ilha lhe pudesse oferecer, e já em 1850 há registos de concorrência no mercado de trabalho. Os ingleses mandaram construir casas para os seus trabal- hadores. Madeirenses e os cabo-verdianos abastados das outras ilhas mais a sul vieram instalar aqui os seus negócios de shipschandlers, a fim de fornecer os navios de víveres frescos, carnes e frutas. Muitos vieram da Madeira e alguns dos Açores. Pode-se ver através dos nomes das famílias que ostentam. Os madeirenses e os homens da Boa Vista eram os que tinham mais prática da vida marítima e portuária. Os portugueses trans- plantaram para S. Vicente, na área da pesca, e Santo Antão, na área da pesca e cana-de-açúcar, o mesmo tipo

de colonização que já se havia feito na Madeira e noutras ilhas e terras atlânticas.

A herança inglesa é bem visível no estilo de quarteirão de casas que mandaram construir, com os seus en- feites rendilhados em ferro, vindos de Londres, visíveis ainda hoje, e que atestam a sua permanência na ilha. A prática desportiva tão do seu agrado foi dos hábitos deixados na ilha. A equitação, o golf, o cricket o hóquei em campo, atletismo, o ténis e o snooker, são também dos finais do século XIX, e falam deles in- sistentemente. A capela anglicana, no seu estilo tradicional, é semelhante às deixadas fora da Inglaterra. As enfermeiras inglesas impressionavam pela sua indumentária característica, com a touca e o avental brancos, havia um vigário anglicano e, inclusive, tinham um cemitério onde enterravam os seus mortos.

Criaram em S. Vicente o hábito de passeios pelo campo, nos fins-de-semana. Faziam uma vida bastante privada seguindo os seus hábitos. Dentro das instalações de uma das suas empresas, a Western Telegraph, havia uma piscina para as suas famílias. Raríssimas vezes iam às praias públicas. Dentro da Western tinham o seu clube e a sua biblioteca3.

Com o tempo, os hábitos ingleses entram na vida quotidiana do mindelense em geral, sem excepção de classes. Os passeios pelo campo, a casa de campo, piqueniques e os desportos foram praticados a ponto de passarem a desafiar os ingleses e os seus barcos que passassem pelo Porto Grande. No Mindelo também se toma ainda o five o’clock tea.

como se depreende, a comunidade britânica era a maior comunidade estrangeira instalada no mindelo, constituída pelos empregados das empresas carvoeiras, dos telégrafos, e também por comerciantes. Estes últimos eram, na sua maioria, judeus do norte de África detentores do passaporte britânico. Havia também uma comunidade italiana, composta por comerciantes que aí se instalaram por causa dos navios que faziam escala levando a bordo os seus compatriotas que emigravam para a América do Sul. A ilha teve represen- tações consulares de vários países4. Com efeito, a cidade do Mindelo estava ligada em poucos dias ou sema- nas aos grandes portos europeus e sul-americanos5.

No início do século XX havia na ilha de S. Vicente quatro escolas para rapazes, duas para raparigas, uma es- cola particular e periodicamente, uma aula particular no Mato Inglês.

Uns anos mais tarde, em 1917, havia já doze escolas.

Continuou a haver na cidade do Mindelo uma Banda Filarmónica Municipal, cuja existência data de 1889 e uma Biblioteca, que tinha sido criada em 1887. Por iniciativa particular, funcionava também um Cinema, criado em 1922.

Foi na década de 1920 que se assistiu a um surto dos clubes desportivos, alguns só para os súbditos britânic- os, outros para cabo-verdianos. Também se fundaram nessa década clubes recreativos que marcaram pro- fundamente a sociedade mindelense.

Em 1917 criou-se no Mindelo o primeiro liceu laico da África Ocidental portuguesa, que também se tornou o único no arquipélago, após o fechamento do Seminário-Liceu de S. Nicolau, com a implantação da República em 1910. Chamado Infante D. Henrique e depois, Gil Eanes, durante décadas, continuou a ser o único, e como lembra o autor Nobre de Oliveira, foi a partir dessa época que o ensino secundário se tornou gratuito e que as mulheres passaram a ter acesso a este nível de ensino. O autor também refere que os jovens es- tudantes iam já adultos para Portugal e mantinham assim uma maior ligação à terra natal.

3 Gatlin, Ibid.

4 Nomeadamente Alemanha, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Estados Unidos, Grécia, Inglaterra, Itália, Países Baixos, Uruguai, Rússia, Suécia, Noruega e Turquia.

5 Como por exemplo Londres, Liverpool, Hamburgo, Lisboa, Le Havre, Marselha, Génova, Rio de Janeiro, Santos, Buenos Aires,

Durante os anos 20 e 30 do século XX, a França e a Espanha começaram a investir no equipamento dos portos de Dakar e Las Palmas, o que o governo português da época não fez em S. Vicente. Assim, estes por- tos tornaram-se cada vez mais competitivos. Este factor, aliado à utilização de outros combustíveis para a navegação de longo curso nas décadas que se seguiram, mais precisamente, o fuel, criou uma grave crise económica na ilha, e por conseguinte, no arquipélago.

Para além disso, desde os finais dos anos 20, a maioria dos navios transatlânticos já utilizavam rádios sem fios, pelo que a sua paragem no Porto Grande se tornava desnecessária.

As possibilidades para emigrar também foram-se tornando mais difíceis. Brito Semedo6 refere a restrição da emigração para os EUA a partir de 1915 e outras limitações entre 1924 e 1928. O mesmo autor considera que a corrente emigratória se intensificou então para a América do Sul, Argentina e Brasil.

Apesar da crise na ilha, as autoridades consideraram, no ano de 1927, que a ilha de S. Vicente era “o refúgio de todas as misérias de Santo Antão, São Nicolau e mesmo das outras ilhas.” (MHOP 1994)7 Já em 1915 cria-se o Albergue para tratamento de indivíduos de ambos os sexos que sofriam de carência absoluta de “rendimentos, cuidados de alimentação e higiene e em 1927 constrói-se a “Cozinha Económica” para oferecer comida barata aos habitantes.8

A década de trinta, de grande crise mundial após a 5ª feira negra de 1929 em Nova York, não deixa de atingir muito duramente a economia de S. Vicente. Com efeito, as trocas comerciais diminuem a nível mundial e o Porto Grande, que já vinha verificando uma diminuição da frequência de navios que aí aportavam, conheceu uma descida drástica. Segundo Nobre de Oliveira, em 1927 houve 1163 vapores que foram aí abastecidos em carvão, e já em 1932, foram somente 3209.

Brito Semedo refere que no último trimestre desse mesmo ano fecharam cerca de 60 estabelecimentos do pequeno comércio10.

O desemprego aumentou muito consideravelmente, e com ele a dificuldade de muitas famílias em suprir as suas necessidades mais básicas.

Há quem refira que não faltavam mercadorias na ilha; no entanto, o desemprego, a falta de remessas dos emigrantes, também atingidos pela crise mundial e a subida dos preços devido à seca tornava os próprios bens alimentares inacessíveis para uma parte da população.

Estes factores terão originado, em 1934, a célebre Revolta de Nhô Ambose, descrita mais tarde por poetas e pintada por artistas plásticos.

Diz a tradição popular e os relatos que os manifestantes se dirigiram à Câmara Municipal e que a Alfândega e algumas lojas foram saqueadas. Desta manifestação resultaram um morto e dois feridos entre os mani- festantes.

O ano de 1933 marca a instituição da ditadura salazarista, o regime do Estado Novo. As elites do arquipélago

6 Brito-semedo, manuel (2006) A construção da Identidade Nacional: Análise da Imprensa entre 1877-1975. Praia, Insituto da Biblioteca nacional e do livro

7 Ministério da Habitação e Obras Públicas – Cabo Verde, CABO VERDE (1984) Linhas Gerais da História do Desenvolvimento

Urbano da Cidade do Mindelo. Praia, MHOP

e das colónias africanas de então foram atingidas por leis discriminatórias a partir dessa data e contra elas lutaram acerrimamente. Apesar de terem sido mais tarde revogadas, a sua existência deixou a marca da ex- periência de uma clara e inequívoca diferença de tratamento entre “brancos da terra” e “brancos da metró- pole”, legitimada legalmente, o que terá certamente tido as suas consequências mais tarde.

É curioso constatar que a decadência económica da cidade e as dificuldades enfrentadas pela sociedade con- trastam com o dinamismo a nível das actividades culturais: com efeito, este terá sido o primeiro período de grande produção cultural na cidade e talvez o maior até aos dias de hoje.

Todo o dinamismo das sociedades recreativas e desportivas que teve início na década de 20 prossegue. Os grupos carnavalescos também continuam as suas actividades, sendo que na década de 30 os cabo-verdianos começam a compor as suas próprias marchas e sambas.

A grande novidade desta década faz-se sentir, no entanto, no âmbito da imprensa: em 1931 Leça Ribeiro funda a Sociedade de Tipografia e Publicidade Lda. e no mesmo ano começa a sair o jornal Notícias de Cabo Verde, dirigido pelo mesmo, que teve a maior longevidade em toda a época colonial no arquipélago, à excepção, obviamente, do órgão oficial de imprensa, Boletim Oficial. com efeito, o Notícias de Cabo Verde conseguiu resistir durante três décadas.

e em 1936, é publicado o primeiro número da célebre revista de artes e letras Claridade, que segundo os críticos literários, marcou de forma definitiva a literatura em Cabo Verde. alguns de entre os mais consagra- dos escritores do arquipélago revelaram-se nesta revista criada por Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes em 1936. Composta por nove números publicados até 1960, nela publicaram-se poemas, estudos literários, extractos de romances, análises da sociedade, da História e da Cultura do arquipélago. Inspirados pelos autores do nordeste brasileiro como José lins do rego, Jorge amado, manuel Bandeira, entre outros, estes autores cabo-verdianos viraram as costas aos arquétipos europeus, consagrando-se a temáticas cabo- verdianas, numa tomada de consciência e afirmação da identidade cultural cabo-verdiana, afirmada pela primeira vez no domínio literário.

Durante este período, e em particular na década seguinte, o arquipélago foi também atingido por períodos cíclicos de secas. Esta situação provocou dezenas de milhares de mortos por inanição num território que tinha cerca de 200 000 habitantes. O facto de que Salazar não tenha aceite ajuda humanitária vinda de out- ros países agravou particularmente a situação nos anos 40. Nessa década e na de 50, provavelmente mais de 16 000 cabo-verdianos emigraram para S. Tomé e Príncipe, escapando assim à fome e tentando depois sobreviver a condições de trabalho que não se distanciavam muito da escravatura. A economia de S. Vicente sofreu um golpe muito duro com a partida definitiva das últimas companhias carvoeiras britânicas no início dos anos 50. Apesar de tudo, em 1957, o Porto Grande de S. Vicente participava ainda em 75% no orçamento desta então província portuguesa.

INFâNCIA E ADOLESCêNCIA DE B. LèzA: A SOCIALIzAçãO MUSICAL

De forma a compreender a relação do artista com a sua época no seu país natal, ser-nos-á necessário começar por contextualizar a infância e adolescência de B.Lèza na cidade do Mindelo. Para isso, tal como fez Water- man, em Jújù: A Social History and Ethnography of an African Popular Music, iremos recorrer a uma com- binação de abordagens etnográficas e históricas, ou seja, faremos uma descrição etnográfica recorrendo a fontes históricas e a entrevistas.

Nos princípios do Século XX, quando Francisco Xavier nasceu, os pais trabalhavam, directa ou indirecta- Gabriel Moacyr Rodrigues

mente, para os ingleses, como a maior parte da população do Mindelo, num período em que a cidade era ainda bastante próspera11. Frank, como lhe chamava a velha mãe, crescia sem grandes preocupações, à von- tade no bairro do Lombo de Trás, povoado de gente que dependia quase completamente do mar e, de entre essa gente, destacavam-se negociantes de bordo, encarregados intermediários dos estaleiros das compan- hias de Carvão e pequenos funcionários públicos. B. Lèza nasceu nesse bairro, hoje quase completamente desaparecido.12

A mãe trabalhava como cozinheira, enquanto que o pai nos quintais de carvão. “A situação económica era saudável, embora a concorrência fosse grande”13. Havia muitos estabelecimentos de pequeno comércio, nas zonas suburbanas, da Salina, da Rua do Coco e Lombo; zonas das gentes humildes e “remediadas”14.

Em chegando à idade escolar, fez todo o percurso primário igual ao de todas as crianças, até o completar. Após o que, Luís Rendall, maestro e grande músico, amigo de família, pediu permissão à mãe para interceder por ele, junto do Reitor do Liceu, justificando que ele era um rapaz prendado e que não fazia jeito nenhum que ficasse apenas pelo ensino primário. Não foi nada difícil, na medida em que Rendall era contínuo do Liceu e sabia percorrer esses corredores da influência15.

Nos anos 20, quando lhe faltava pouco para terminar o 2º ciclo liceal, antigo Curso Geral, Francisco Xavier, (B.

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