A linguagem é uma das faculdades cognitivas mais flexíveis e plásticas adaptáveis às mudanças comportamentais e a responsável pela disseminação das constantes transformações sociais, políticas, culturais geradas pela criatividade do ser humano. As inúmeras modificações nas formas e possibilidades de utilização da linguagem em geral e da língua, em particular, são reflexos incontestáveis das mudanças tecnológicas emergentes no mundo e, de modo particularmente acelerado nos últimos 30 anos, quando os equipamentos informáticos e as novas tecnologias de comunicação começaram a fazer parte de forma mais intensa da vida das pessoas e do cotidiano das instituições. Certamente, tudo isso tem contribuído para tornar as sociedades letradas cada vez mais complexas.
MARCUSCHI, Luís Antônio e XAVIER, Antônio Carlos, 2005, Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção do sentido, 2ª ed., Rio de Janeiro: Lucerna, http://www.lucerna.com.br/downloads/8586930369.pdf (consultado a 29/07/2006)218.
Quem usa, afinal, este tipo de comunicação?
Tentar-se-á, a partir de agora, traçar um perfil dos utilizadores portugueses desta forma de comunicação, feita com base em diversos tipos de dados:
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⋅ Na entrevistas mencionadas no Capitulo 2 deste trabalho (a alunos e professores);
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⋅ Nas discussões tidas com os diversos Focus Groups criados para esta investigação;
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⋅ Nos dados recolhidos em diversos artigos publicados nos órgãos de Comunicação Social portugueses (Jornais, revistas, sítios da Internet, que se referenciam na Bibliografia deste trabalho); ⋅
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⋅ Nos dados fornecidos pela TMN e pela Optimus através de contactos via e-mail;
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⋅ Nos dados constantes do estudo Mediappo (2006), no qual se inclui o “Relatório Final Europeu” e a “Síntese Portuguesa”219 –
218Luís Antônio Marcuschi é Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Brasil, tal como Antônio
Carlos Xavier. O primeiro já foi citado e mencionado no Capitulo anterior deste trabalho. O segundo é doutorado em Linguística pela UNICAMP e Mestre em Letras e Linguística pela UFPE, onde ministra aulas nos cursos de
graduação e pós-graduação [dados recolhidos a partir dos sítios
esta última realizada por Vítor ReiaBAPTISTA, NeuzaBALTAZAR
e SamanthaMENDES (2006)–, que se referenciam na Bibliografia
deste trabalho; ⋅
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⋅ Dados constantes do estudo levado a cabo por Amanda LENHART, Mary MADDEN e Paul HITLIN (2005) para a Pew Internet &
American Life Project.
O estudo efectuado nos EUA por LENHART, MADDEN e HITLIN (2005) para a
Pew Internet & American Life Project220 revela que cerca de 87% dos adolescentes americanos entre os 12 e os 17 anos usam regularmente a Internet e 51% usa-a diariamente. No que diz respeito ao uso de programas de Instant Messaging (como o MSN), 75% dos adolescentes usam-nos e 45% fazem-no pelo menos uma vez por dia, sendo esta a forma preferida por 24% deles para comunicar com os amigos.
Outro aspecto curioso tem a ver com o facto de os alunos do 6th Grade (equivalente ao 6º ano do sistema de ensino português, ou seja, estudantes na faixa etária dos 11 aos 13 anos) serem aqueles que começam a revelar verdadeiro interesse por experimentarem o uso da Internet e esse interesse vai aumentando exponencialmente e regularmente até ao final do ensino (11th/12th Grades), o que não deixa de ser interessante, já que veremos, mais adiante, que no que toca à posse/utilização de telemóveis, em Portugal a percentagem de utilizadores também vai progredindo com o avanço da faixa etária dos estudantes.
Relativamente aos utilizadores do telemóvel, o mesmo estudo mostra que 45% dos adolescentes têm telemóvel e 33% recorre ao “chatês” (texting) para enviar mensagens SMS, salientando, mesmo, que esses jovens que usam mais frequentemente o SMS utilizam regularmente a Internet e outras ferramentas. Também os que já usam o computador, a Internet e os diversos serviços disponibilizados on-line são maiores produtores de SMS. Curiosamente, também uma investigação levada a cabo na Noruega
219Esta “Síntese Portuguesa” foi consultada em duas versões: a versão disponibilizada em CD-Rom pelo próprio
projecto Mediappro, com o título “National Results: Portugal” (2006b) e a versão em papel, que tem como título
“Apropriações dos Novos Media – Jovens Europeus dos 12 aos 18 anos” (2006c) e que me foi fornecida pela
investigadora Neuza Baltazar.
220Este projecto é um dos que o Pew Research Center apoia e financia. Este Centro americano de investigação e
sondagens realiza estudos de interesse social e é considerado uma espécie de instituição de interesse público nos EUA, uma fundação que se dedica a actividades de beneficência [dados recolhidos a partir dos sítios
por Berit SKOG (KATZ e AAKHUS, 2003: 265 e 269)221, com o título “Mobiles and
Norwegian Teen: Identity, Gender and Class”, apresenta dados que comprovam esta ideia, nomeadamente, que 48% dos possuidores adolescentes de telemóvel usam a Internet, contra, apenas, 43% dos que não possuem este aparelho.
Na Europa, segundo dados apurados pelo estudo Mediappro222, levado a efeito por instituições Universitárias de nove países, entre eles Portugal (através do Centro de Investigação em Comunicação Social – CICCOM, da Universidade do Algarve), nove em cada dez jovens utilizam regularmente a Internet, sendo que 96% dos jovens portugueses já a utilizou (BAPTISTA, BALTAZAR e MENDES,2006c:8).
Também a percentagem dos utilizadores de programas de Instant Messaging é elevada: sete em cada dez jovens europeus recorrem a estes serviços e 77% dos jovens portugueses também o faz (44% refere mesmo usar o MSN), colocando o país no 4º lugar entre os nove que participaram neste estudo.
No que toca ao uso do telemóvel, em Portugal 93% dos jovens tem um destes aparelhos e os mesmos 93% afirmam enviar SMS’s. O “chatês” é usado com muita frequência («very often») por 36% dos jovens europeus e com frequência («often) por 20% (Meddiapro, 2006: 12).
Curiosamente, todos os entrevistados ouvidos para a realização desta dissertação também afirmam serem os mais novos, os jovens, aqueles que mais utilizam/recorrem a estas formas de comunicar.
Essa adesão será motivada por vários factores, alguns deles explicadas pelos meus entrevistados de faixa etária mais baixa (alunos). A facilidade de adaptação às novidades é uma das razões que levará os mais novos a experimentar e usar este tipo de comunicação, já que «os jovens são a classe etária que mais uso dão a algumas tecnologias e se adaptam, por vezes, um pouco melhor que os adultos», como explica o Entrevistado 1, de 17 anos, aluno do 11º Ano (Curso Científico-Natural)223. A Entrevistada 4, de 17 anos, aluna do 12º Ano, também destaca o facto de os jovens terem «mais facilidade a lidar com “as novas tecnologias”» e de terem «acesso a telemóveis/computadores/Internet». A Entrevistada 5, de 17 anos, aluna do 12º Ano
221Esta investigadora, tal como todos os outros citados a partir da obra de K
ATZ e AAKHUS (2003) são reconhecidos
cientistas, com trabalhos publicados e cujos Curricula são reproduzidos nessa mesma obra. Neste caso particular, a investigadora é docente da Norwegian University of Science and Technology, em Trondheim.
222 Este estudo abrange, ainda, a situação do Canadá, que resumindo
223Todas as citações relativas aos Entrevistados são retiradas das entrevistas feitas a professores e alunos, tal como se
confirma a ideia, salientando que os jovens «estão numa fase de “descoberta” da vida» e que «[à] medida que a idade avança (…) as pessoas perdem esse interesse»
Indicar as idades em que há mais utilizadores já se torna mais complexo, embora a faixa etária compreendida entre os 12 e os 26 anos seja a mais referida e existam, apenas, pequenas variações nas idades mínimas e máximas apontadas como sendo as que mais recorrem aos Chats, SMS e MSN (Apêndice C, “Entrevistas”, questão nº3). O Entrevistado 2, também de 17 anos, mas a terminar o 12º Ano na área de Informática, considera que é entre «os 12 e os 26 anos» que se está mais preso a este tipo de comunicação e justifica:
A indicada faixa etária é a que vejo como fase em que os jovens sentem uma maior necessidade de estar em constante comunicação com as pessoas que lhes são mais próximas e também pelo seu estilo de vida, nessa fase, reunir as condições em termos de tempo e responsabilidades para passar algumas horas em frente ao monitor a falar com o ppl [people – acrónimo usado comummente pelos utilizadores do “chatês”,
que indica “os outros”]. Penso que a utilização dos vários serviços de mensagens é
mais notória na fase do 2º e 3º ciclos e ensino secundário, visto na fase posterior ao secundário ser cada vez mais complicado arranjar tempo para os Chats e estes deixarem de ter a importância que haviam tido.
A Entrevistada 9, de 23 anos, a terminar a licenciatura em Ciências da Comunicação, tem uma visão ligeiramente diferente:
Na minha opinião, são os jovens e adultos (diria dos 14 aos 35 anos) quem mais utiliza esses serviços. Todavia, muitas são as pessoas de uma faixa etária superior a aderirem a esses mesmos serviços e por diversos motivos – entretenimento, curiosidade ou trabalho. Deste modo, considero ser difícil indicar como dado exacto a idade das pessoas que usufruem dos mesmos.
Tanto homens como mulheres usam os Chats, SMS e MSN, mas a Entrevistada 9 acha que «os homens são mais dependentes do computador do que a mulher» e que, por isso, os usam «com maior frequência que a mulher». Ao contrário, a Entrevistada 3, de 17 anos, a terminar o 12º Ano, entende serem as mulheres («raparigas») quem mais usa estes media.
A formação académica também não é relevante no que toca a este tipo de comunicação, pelo menos de acordo com os participantes nesta investigação224: ela é
224S
fácil de usar, é económica, não exige grande preparação e treino (como, aliás, veremos mais adiante), o que leva a que qualquer pessoa a possa experimentar. Ainda assim, o Entrevistado 2 afirma: «A utilização destes meios de comunicação está directamente associada aos grandes centros populacionais e ao desenvolvimento tecnológico que nestes se verifica» e as Entrevistadas 3 e 4 defendem existirem mais utilizadores nas regiões do Litoral/Sul e nas grandes cidades. Já a Entrevistada 6, de 18 anos, a terminar o 12º Ano, considera que tanto rapazes como raparigas recorrem a estes serviços, «independentemente da formação académica ou localização geográfica, desde que possuam uma condição financeira que lhes permita ter um PC e pagar uma ligação telefónica». Esta ideia também é defendida pelo Entrevistado 7, de 18 anos, a terminar o 12º Ano, que destaca a necessidade de verbas, porque, afirma, «para poder “teclar” na Internet é preciso ter um computador e ter Internet e nem todos os pais têm possibilidades económicas para tal».
Pode-se, pois, efectuar um resumo das características referidas pelos entrevistados do Grupo composto por alunos, como sendo as que definem um “utilizador regular” dos Chats, MSN e SMS:
uma percentagem maior de possuidores adolescentes de telemóvel nas famílias de classe média ou baixa, em que os progenitores são trabalhadores pouco qualificados, do que em famílias onde os pais trabalham em “serviços” («service-class parents»), o que lhe permite concluir que o telemóvel constitui, de algum modo, um “capital simbólico” de status e honra.
Características dos utilizadores de “chatês” mencionadas pelos entrevistados/alunos
Assim, se tivéssemos de traçar um perfil do utilizador do “chatês” a partir do que nos foi transmitido por estes entrevistados, poderíamos chegar ao seguinte resultado:
. Terá entre os 12 e os 26 anos (predominantemente, embora possam surgir utilizadores de faixas etárias diferentes);
. Poderá ser do sexo feminino ou masculino;
. Estará em qualquer ponto do território nacional, mas com tendência a
concentrar-se em maior número nas áreas urbanas (que no nosso país existem em
maior quantidade no Litoral);
. Não necessita de uma formação académica especial;
. Terá de possuir uma condição económica que lhe permita suportar os custos
de aquisição de um PC e uma ligação à Internet.