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O código de endereçamento postal (CEP) é uma sequência numérica de ampla utilização e funcionalidade. Trata-se de um conjunto numérico de oito dígitos que tem como objetivo principal orientar e acelerar o encaminhamento, o tratamento e a distribuição de objetos postados nos Correios, por meio da sua atribuição a localidades, logradouros, unidades dos Correios, serviços, órgãos públicos, empresas e edifícios (CORREIOS, 2015).

A proposta para estruturar o CEP utilizado atualmente no Brasil consiste na divisão desses oito dígitos em duas partes (NNNNN-NNN). A primeira é composta por cinco dígitos que representam região, sub-região, setor, sub-setor e divisor de subsetor, respectivamente. A segunda parte denominada sufixo, é composta por três dígitos, que, separada da primeira por um hífen, representa os identificadores de distribuição. Desse modo, consideramos oportuno contemplar o código de endereçamento postal nessa pesquisa, como uma sequência numérica amplamente utilizada socialmente.

Nessa seção, apresentamos análises da distribuição de frequências (numérica e decimal), bem como da distribuição entoacional das unidades prosódicas dos números de CEP, enunciados de forma lida e espontânea. Além de proceder à análise acústica de f0 (variação de f0, declínio de f0 e diferença de tom), intensidade, duração, taxa de articulação e pausa entre tais unidades prosódicas. Posteriormente, mostramos resultados de análises acústicas das sílabas, quanto à tonicidade e à proeminência.

Tal estrutura de apresentação dos resultados é apresentada de forma intercalada para ambas as enunciações, lidas e espontâneas, dos números de CEP. Além disso, demonstramos os resultados da análise de taxa de articulação do agrupamento numérico de CEP enunciado por meio de leitura comparando com o enunciado espontaneamente.

Para a leitura de números de CEP, foram exibidos dois números reais de CEP, a partir da disposição gráfica NNNNN-NNN: 57057-440 e 57036-850. Ambos constituíram a coleta de dados lidos, já que cada participante os enunciou a partir da exibição em uma tela de computador. Dos 242 arquivos de áudio gerados a partir da enunciação lida dos números de CEP, verificamos erros de leitura em quatro deles, que foram descartados da análise. Já para a enunciação espontânea dos números de CEP, solicitamos apenas que eles fornecessem seus números pessoais, sem consulta. Dos 121 participantes que compuseram o corpus dessa pesquisa, 87 forneceram seus números pessoais de CEP.

5.2.1 Distribuição de frequências do CEP

A partir desses dados, realizamos o levantamento das estratégias de leitura e enunciação espontânea utilizadas pelos participantes, tanto no que se refere à distribuição numérica quanto à distribuição decimal, durante a enunciação dos números de CEP. Essa seção apresenta as análises da distribuição de frequência (numérica e decimal) dos números de CEP, e está subdividida em uma subseção de apresentação dos resultados provenientes dos dados lidos e outra em que apresentamos resultados referentes à enunciação espontânea, bem como efetuamos alguns comentários comparativos.

5.2.1.1 Distribuição de frequências das estratégias de leitura do CEP

Essa subseção destina-se a apresentar como foram enunciados os números de CEP durante a leitura dos estímulos, no que se refere à distribuição numérica e posteriormente, a partir da distribuição numérica mais recorrente, qual a distribuição decimal preferida para a leitura do CEP.

A maioria dos participantes dessa pesquisa leu os números de CEP, através da distribuição numérica 2-3-3, 77,73%, utilizando três unidades prosódicas, sendo a primeira binária e as outras duas ternárias. Isso revela uma forte associação entre a forma gráfica do número em questão e a maneira como os usuários o enunciam, fato também constatado no CPF. Dentre outras formas apresentadas por um total de 238 ocorrências, essa representou a mais frequente, com 185 ocorrências.

Tabela 5.28: Resultados das estratégias de leitura da distribuição numérica encontrados para o número de CEP

Distribuição numérica Ocorrências %

2 3 3 185 77,73 3 2 3 30 12,61 2 2 1 3 6 2,52 2 2 2 2 5 2,10 2 1 2 3 4 1,68 2 3 2 1 2 0,84 1 1 1 1 1 1 2 1 0,42 1 1 1 1 1 3 1 0,42 1 1 3 3 1 0,42 1 3 2 2 1 0,42 2 1 2 1 1 1 1 0,42 3 2 1 2 1 0,42 Total 238 100 Fonte: Autora (2017)

Quanto à distribuição decimal dessa sequência 2-3-3, foi muito recorrente a realização em D-UD-C, ou seja, a primeira unidade prosódica enunciada em dezena, a segunda em unidade e dezena e a última em centena. Outras distribuições decimais também foram enunciadas na leitura dos números de CEP, como mostra a Figura 5.5.

Figura 5.5 - Representação gráfica das distribuições decimais da distribuição 2-3-3 de números de CEP enunciados de forma lida

Fonte: Autora (2017)

Desse modo, 77,73% dos participantes enunciaram os números de CEP 57057-440 e CEP 57036-850 em agrupamentos binário, ternário e ternário, 2-3-3. Desses, 47,03% revelou

0.54% 0.54% 1.62% 2.70% 2.70% 4.32% 6.49% 10.27% 23.78% 47.03% 0% 10% 20% 30% 40% 50% D-UD-UD UU-UD-UUU D-UD-DU D-UUU-UUU UU-UD-C D-UD-UUU D-UUU-C UU-UUU-C UU-UUU-UUU D-UD-C

preferência pela distribuição decimal D-UD-C, falando cinquenta e sete, zero cinquenta e

sete, quatrocentos e quarenta ou cinquenta e sete, zero trinta e seis, oitocentos e cinquenta.

Enquanto que 23,78% dos participantes utilizou a distribuição decimal em unidades UU- UUU-UUU.

A Figura 5.5 mostra ainda uma terceira possibilidade que apresentou alguma preferência por parte dos participantes (10,27%). Tal possibilidade foi enunciada em unidades, porém finalizada com uma centena UU-UUU-C. Todas as três formas de distribuições decimais estão estritamente relacionadas com a proposta gráfica, assim como também verificamos nos dados numéricos de CPF.

O teste estatístico do Qui-quadrado (χ2) mostra que as duas distribuições decimais mais recorrentes são estatisticamente diferentes (χ2 = 111,74, p < 0,05, df = 1). Constatação que nos faz admitir ser mesmo D-UD-C a mais recorrente, de forma estatisticamente significativa, dentre as distribuições decimais encontradas. Ou seja, a distribuição D-UD-C parece ser a forma representativa de uma organização decimal característica de uma enunciação lida de CEP.

A subseção seguinte apresenta resultados de distribuição numérica e decimal dos dados pessoais de CEP dos participantes, bem como comparações com os dados de leitura.

5.2.1.2 Distribuição de frequências das estratégias de enunciação espontânea do CEP

Essa subseção apresenta os resultados referentes à distribuição de frequência (numérica e decimal) dos números pessoais de CEP que foram enunciados pelos participantes da pesquisa.

Desse modo, encontramos 74,71% dos agrupamentos enunciados em uma unidade binária finalizando com duas ternárias, assim como aconteceu com os estímulos lidos. O resultado do teste χ2, realizado com as duas distribuições numéricas mais recorrentes, demonstrou haver uma diferença significativa entre tais distribuições (χ2 = 40,333, p < 0,05,

df = 1). Portanto, parece haver uma tendência voltada a uma distribuição numérica que

organiza os números de CEP em 2-3-3, como é possível observar na Tabela 5.29.

Tabela 5.29: Resultados das estratégias de distribuição numérica encontrados para o número de CEP enunciado espontaneamente

Agrupamento Ocorrências % 2 3 3 65 74,71 3 2 3 10 11,49 2 2 2 2 3 3,45 5 3 3 3,45 2 2 1 3 2 2,30

1 2 1 1 3 1 1,15 1 2 2 3 1 1,15 2 2 1 1 1 1 1 1,15 2 6 1 1,15 Total 87 100 Fonte: Autora (2017)

Além disso, esse resultado reforça ainda mais a ideia de que a disposição gráfica, como o agrupamento numérico do CEP costuma aparecer em envelopes, pode interferir na forma como o mesmo é enunciado. Assim, a distribuição numérica 2-3-3 é uma forma representativa de enunciação do CEP, independentemente de ser um dado lido ou espontâneo.

Com relação às estratégias de distribuição decimal decorrentes da distribuição numérica mais abrangente, 2-3-3, constatamos que a distribuição decimal: D-UD-C, foi a mais recorrente (38,46%), o que também representou outro resultado convergente com o encontrado nos dados lidos. A segunda distribuição decimal mais frequente, D-C-UUU, foi enunciada por 12,31% dos participantes ao enunciarem seus números pessoais de CEP, conforme evidenciado na Figura 5.6.

Figura 5.6 - Representação gráfica das distribuições decimais da distribuição 2-3-3 de números de CEP enunciados de forma espontânea

Fonte: Autora (2017)

No resultado do teste estatístico do Qui-quadrado, já encontramos uma diferença significativa (χ2 = 8,757, p < 0,05, df = 1) entre as duas distribuições decimais mais recorrentes (D-UD-C e D-C-UUU) na enunciação de dados pessoais de CEP. Tal resultado

1.54% 3.08% 4.62% 4.62% 4.62% 4.62% 6.15% 6.15% 6.15% 7.69% 12.31% 38.46% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% 45% UU-UUU-UU D-C-C D-UD-UUU D-UUU-UUU UU-UD-C UU-UUU-UUU D-UD-UD D-UUU-C UU-UUU-C D-UUU-UD D-C-UUU D-UD-C

evidencia a preferência em enunciar números de CEP por meio da distribuição decimal D- UD-C.

Quando comparamos esses achados com os resultantes da leitura do CEP, identificamos por exemplo que a segunda forma de distribuição decimal mais frequente durante a leitura (UU-UUU-UUU) foi enunciada apenas por 1,54% dos informantes ao enunciarem seus dados pessoais, ou seja, a forma UU-UUU-UUU parece ser muito mais uma estratégia de leitura do que uma forma de enunciação natural de números de CEP. Entretanto, fica evidente que houve um padrão de distribuição numérica e decimal para a enunciação lida ou espontânea do CEP quais sejam, 2-3-3 e D-UD-C, respectivamente.

As seções seguintes apresentam resultados das análises das unidades prosódicas resultantes da leitura e enunciação espontânea do CEP, no que se refere ao seu contorno entoacional, variação da f0, declínio da f0, diferença de tom, intensidade, duração, taxa de articulação, duração e pausa. Além de análises acústicas de variação de f0, intensidade e duração de sílabas, quanto à tonicidade e à proeminência.

Assim como aconteceu com os dados referentes aos números de CPF, procedemos a essas análises de características prosódicas com dados provenientes da distribuição numérica e da distribuição decimal mais frequente separadamente. No entanto, os resultados dessas análises individuais não divergiram, o que nos levou a optar por uma análise da distribuição numérica mais abrangente, 2-3-3. Por essa razão, nas seções seguintes, foram analisados 185 agrupamentos numéricos de CEP, enunciados de forma lida, e 65 enunciados de forma espontânea.

Na subseção seguinte, apresentamos resultados referentes às formas de distribuição entoacional da enunciação do número de CEP, de forma lida e espontânea, baseados na anotação dada pelo Momel/Intsint (HIRST, 2007) e corroborada pela curva representativa do contorno entoacional gerada a partir do ProsodyPro (XU, 2013).

5.2.2 Distribuição entoacional do CEP

A presente subseção evidencia os resultados das análises da descrição entoacional encontrada para os números de CEP, enunciados de forma lida e espontânea, provenientes da distribuição numérica mais recorrente, 2-3-3.

Para tanto, procedemos a uma ressegmentação dos áudios dos agrupamentos numéricos, conforme suas unidades prosódicas, utilizando o script PraatSegmentation (FERREIRA, 2016), com o objetivo de gerarmos, através do uso do Momel/Intsint (HIRST,

2007), uma descrição entoacional com uma representação simbólica o mais precisa possível. Depois disso, utilizamos o ProsodyPro (XU, 2013) para elaborar curvas representativas do contorno entoacional de cada unidade prosódica, conforme já explicado na metodologia.

Além disso, realizamos ajustes na transcrição entoacional, seguindo orientações de Hirst (1999, 2007, 2011) e Louw e Barnard (2004). Portanto, os símbolos utilizados foram: M (para o tom médio), U (subida), T (topo), D (descida) e B (base). A subseção seguinte apresenta os resultados de distribuição entoacional provenientes dos dados de leitura dos números de CEP.

5.2.2.1 Distribuição entoacional da leitura do CEP

Nessa subseção, apresentamos as distribuições entoacionais provenientes da simbologia anotada pelo Momel/Intsint, bem como as representações dos contornos entoacionais a partir do ProsodyPro, de cada unidade prosódica e do agrupamento numérico como um todo, dos números de CEP enunciados de forma lida. A Tabela 5.30 apresenta as frequências (Freq.) das estratégias de distribuição entoacional (DE) de cada unidade prosódica (UP) enunciada na leitura dos números de CEP.

Tabela 5.30: Resultados das estratégias de distribuição entoacional das unidades prosódicas do CEP lido

UP_01 UP_02 UP_03

DE Freq. DE Freq. DE Freq.

MDU 57 MUDU 49 MUDUB 54

TDU 28 BUDU 30 TDUD 33

MUDU 22 MDU 23 MUD 22

MUD 17 MDUD 16 MDUB 15

MUDUD 14 TDU 16 BUDUD 11

MDUD 12 BUDUD 12 MDU 9

TDUD 10 TBUDU 7 BUDU 8

TBUDB 8 TDUD 7 MUDU 8

BUD 7 MDUDBU 6 TDUDB 8

BUDU 6 BUD 4 MDUD 7

BUDUD 4 BUT 4 TDU 6

- - MUDUD 4 BUD 2

- - BUDUBT 3 BUDB 2

- - MUD 2 - -

- - TBUDUDT 2 - -

Total 185 Total 185 Total 185

Fonte: Autora (2017)

É possível perceber que a estratégia de distribuição entoacional mais frequente para a primeira unidade prosódica, composta de dois números, é representada pela simbologia MDU. A segunda unidade prosódica, composta de três números, foi preferencialmente enunciada por

meio da estratégia MUDU, assim como aconteceu com as três primeiras unidades prosódicas dos números de CPF. Já a última unidade, também constituída de três números, apresentou como distribuição mais frequente MUDUB. Para verificar se tais frequências foram significativas, realizamos o teste estatístico Qui-quadrado, com as distribuições mais recorrentes em cada unidade prosódica, cujos resultados estão apresentados na Tabela 5.31.

Tabela 5.31: Resultados do teste estatístico para as frequências mais recorrentes de distribuição entoacional por unidade prosódica do CEP lido

Unidade prosódica Teste estatístico 01 (χ2 = 9,89, p < 0,05, df = 1)

02 (χ2 = 4,57, p < 0,05, df = 1)

03 (χ2 = 5,07, p < 0,05, df = 1)

Fonte: Autora (2017)

A Tabela 5.31 mostra que a distribuição entoacional mais recorrente se mostrou estatisticamente diferente da segunda maior distribuição entoacional, em todas as unidades prosódicas, o que demonstra ser mesmo MDU uma preferência de distribuição entoacional entre os falantes na enunciação da primeira unidade prosódica, MUDU na enunciação da segunda unidade prosódica, e MUDUB na enunciação da última unidade prosódica de um CEP, de forma lida.

Tem-se, portanto, o seguinte padrão preponderante de descrição entoacional obtida para as unidades prosódicas na leitura de um CEP:

Quadro 5.3- -Distribuição entoacional mais frequente por unidade prosódica de CEP lido

Unidade prosódica Simbologia do Intsint ajustada

01 MDU

02 MUDU

03 MUDUB

Fonte: Autora (2017)

Após a obtenção do padrão de anotação gerada pelo Momel/Intsint e ajustada conforme critérios explicados no capítulo metodológico, utilizamos o script ProsodyPro para gerar a curva representativa do contorno entoacional a partir de dez pontos alvo de f0 distribuídos equidistantemente, e comparar a descrição acústica encontrada com as curvas representativas dos contornos entoacionais de cada unidade prosódica.

O resultado das análises permite a geração de gráficos representativos do contorno entoacional referente a cada unidade prosódica, conforme observa-se abaixo:

Gráfico 5.36 - Representação gráfica do contorno entoacional da primeira unidade prosódica do CEP lido

Fonte: Autora (2017)

Gráfico 5.37 - Representação gráfica do contorno entoacional da segunda unidade prosódica do CEP lido

Fonte: Autora (2017)

Gráfico 5.38 - Representação gráfica do contorno entoacional da terceira unidade prosódica do CEP lido Fonte: Autora (2017) 100 120 140 160 180 200 220 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 100 120 140 160 180 200 220 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 100 120 140 160 180 200 220 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 M U D U M D U M U D U B

Verificamos, portanto, que a anotação gerada pelo Momel/Intsint para o padrão de enunciação de CEP lido é condizente com as curvas geradas a partir dos valores de média dos dados de f0 fornecidos pelo ProsodyPro.

Vale destacar que tanto as curvas representativas do contorno entoacional quanto as anotações geradas pelo Momel/Intsint são resultantes da segmentação dos números em unidades prosódicas, mas quando consideramos o agrupamento numérico como um todo, essas representações se unem de modo a constatarmos uma tendência em enunciar um CEP, por meio da distribuição numérica 2-3-3, com um contorno entoacional representado por uma curva iniciada com um tom médio, seguido por uma descida, finalizando com uma subida. A segunda unidade, ternária, continua a subida do final da primeira, seguido de um tom baixo, e concluindo com uma subida. Na terceira e última unidade, continua a segunda com uma subida e depois tem-se uma descida seguida de uma subida, e finaliza com um tom de base. Assim, a figura abaixo ilustra uma típica curva de uma enunciação lida de um número de CEP.

Figura 5.7 - Representação gráfica e simbologia do padrão de contorno entoacional da leitura do número de CEP com a distribuição numérica de maior frequência, 2-3-3

Fonte: Autora (2017)

Vale esclarecer que, a despeito da visível compatibilidade, a relação que se estabelece aqui entre a descrição simbólica gerada pelo Momel/Intsint e a representação gráfica do contorno entoacional padrão para a distribuição numérica mais frequente para o CEP é exclusivamente fonética, limitando-se a uma abordagem acústica, baseada nos valores de f0.

A seguir, apresentamos resultados referentes à distribuição entoacional das unidades prosódicas e do agrupamento numérico do CEP, enunciado espontaneamente.

5.2.2.2 Distribuição entoacional da enunciação espontânea do CEP

As estratégias de distribuição entoacional dos dados pessoais de CEP enunciados espontaneamente, a partir da simbologia de anotação do Momel/Intsint, estão demonstradas nessa subseção, assim como as curvas representativas do contorno entoacional a partir das médias dos valores de f0 gerados pelo ProsodyPro. A Tabela 5.32 contém resultados das

M U D U D U D B

ocorrências (Freq.) de distribuição entoacional (DE) de cada unidade prosódica (UP) dos números de CEP enunciados espontaneamente.

Tabela 5.32: Resultados das estratégias de distribuição entoacional das unidades prosódicas do CEP pessoal

UP_01 UP_02 UP_03

DE Freq. DE Freq. DE Freq.

MDU 20 MUDU 23 MUDUD 18

MUDU 8 BUDU 11 BUDUD 7

TDU 7 MDU 9 TDUD 7

BUDU 6 MDUD 7 MDU 6

MUDUD 6 BUDUD 6 MDUB 6

TDUD 6 TDU 5 BUD 4

BUDUD 4 MUDUD 2 MUB 4

MDUD 4 TDUD 2 TDU 4

MUD 3 - - BUDU 3

TBUDU 1 - - MUDU 3

- - - - TDB 2

- - - - MDB 1

Total 65 Total 65 Total 65

Fonte: Autora (2017)

Assim como aconteceu com os dados decorrentes da leitura do CEP, verificamos que a estratégia de distribuição entoacional mais frequente para a primeira unidade prosódica, binária, é representada pela simbologia MDU, para a segunda unidade MUDU, enquanto a última unidade apresentou um padrão de contorno entoacional representado pela simbologia mais frequente MUDUD. Para verificar se tais frequências diferiram de forma significativa da segunda maior frequência em cada unidade prosódica, realizamos o teste estatístico Qui- quadrado cujos resultados estão apresentados na Tabela 5.33.

Tabela 5.33: Resultados do teste estatístico para as frequências mais recorrentes de distribuição entoacional por unidade prosódica do CEP pessoal

Unidade prosódica Teste estatístico 01 (χ2 = 5,14, p < 0,05, df = 1)

02 (χ2 = 4,23, p < 0,05, df = 1)

03 (χ2 = 7,56, p < 0,05, df = 2)

Fonte: Autora (2017)

A partir do teste estatístico verificamos que as duas distribuições entoacionais mais recorrentes se mostraram estatisticamente diferentes na primeira e segunda unidades prosódicas. Já na terceira unidade, realizamos o teste estatístico com as três distribuições entoacionais mais frequentes pois a segunda e a terceira distribuições apresentaram o mesmo número de ocorrências, e também constatamos que a frequência da primeira distribuição foi significativamente maior do que as demais.

Os resultados evidenciaram que a primeira unidade prosódica (constituída de dois números) de um número de CEP foi enunciada com um contorno entoacional que pode ser representado pela simbologia MDU, a segunda unidade (composta de três números) pelo símbolo MUDU, enquanto a última unidade prosódica (também ternária) parece seguir um padrão entoacional MUDUD. Esses símbolos representam os contornos entoacionais das unidades prosódicas dos números de CEP, tanto em dados de enunciação espontânea (Tabela 5.32) quanto em dados de leitura (Tabela 5.30).

Portanto, os resultados apontam para um comportamento entoacional de números de CEP em que a primeira unidade prosódica se inicia com um tom médio, seguido de uma descida e terminando com uma subida, pois ainda há algo mais a ser enunciado, a segunda unidade que continua a subida que encerrou a primeira unidade, seguida de uma descida e terminando com uma subida para iniciar a última unidade prosódica, seguida de uma descida, uma subida e finalizando com um tom de descida, que chega em um tom base, nos dados de leitura, mas não nos dados espontâneos, mas em ambas as formas de enunciação há uma descida no final do agrupamento numérico do CEP, assim como também aconteceu com o CPF.

O tom de subida no final das duas primeiras unidades prosódicas indica a presença de uma fronteira prosódica, e o tom de descida no final da última unidade prosódica é típico de encerramento de enunciado assertivo, conforme achados anteriores para o português brasileiro (OLIVEIRA JR, 2000; FERNANDES, 2007; SERRA, 2009) e para o holandês (SWERTS e GELUYKENS, 1994; SWERTS, 1997), por exemplo.

Dessa forma, encontramos o seguinte padrão de descrição entoacional para as unidades prosódicas dos números de CEP enunciados de forma espontânea:

Quadro 5.4 - Distribuição entoacional mais frequente por unidade prosódica de CEP pessoal

Unidade prosódica Codificação gerada pelo INTSINT

01 MDU

02 MUDU

03 MUDUD

Fonte: Autora (2017)

No intuito de ratificar a descrição fonética oferecida pelo Momel/Intsint, utilizamos o script ProsodyPro (XU, 2013) para obter valores de f0 cujas médias foram utilizadas na elaboração de gráficos representativos do contorno entoacional para cada unidade prosódica dos números de CEP enunciados de forma espontânea, conforme segue.

Gráfico 5.39 - Representação gráfica do contorno entoacional da primeira unidade prosódica do CEP enunciado espontaneamente

Fonte: Autora (2017)

Gráfico 5.40 - Representação gráfica do contorno entoacional da segunda unidade prosódica do CEP enunciado espontaneamente

Fonte: Autora (2017)

Gráfico 5.41 - Representação gráfica do contorno entoacional da terceira unidade prosódica do CEP enunciado espontaneamente

Fonte: Autora (2017) 100 120 140 160 180 200 220 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 100 120 140 160 180 200 220 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 100 120 140 160 180 200 220 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 U M D U U D M U M U D D

Assim como aconteceu com os dados de leitura, os dados decorrentes de enunciações espontâneas também demonstraram que a anotação do Momel/Intsint considerada padrão para cada unidade prosódica do número de CEP condiz com a correspondente curva representativa do contorno entoacional, gerada a partir dos valores de média das frequências fundamentais provenientes do ProsodyPro.

Ao considerarmos todo o agrupamento numérico, essas representações se fundem de modo a apresentar uma tendência em enunciar espontaneamente um número de CEP, através da distribuição numérica 2-3-3, com um contorno entoacional representado por uma curva ilustrada na Figura 5.8.

Figura 5.8 - Representação gráfica e simbologia do padrão de contorno entoacional da