Un magistère des plus classiques
Chapitre 1 - Elisabeth, le maître et le savoir
2- Le geste de Descartes : reprise
A nova divisão internacional do trabalho, a globalização da actividade económica, a forte expressão ou mesmo a predominância de políticas económicas de cariz neo- liberal, e a consequente redução do poder dos sindicatos, (o que tem levado a novos desequilíbrios nas relações laborais e no mercado de trabalho), a difusão das tecnologias da informação e da comunicação, entre outros factores, têm desafiado e provocado impactos significativos na natureza do trabalho, na estrutura do emprego e alterações nas competências requeridas. Poderá, mesmo afirmar-se, como refere Kovács (2002) que estamos perante um claro desafio aos conceitos e representações do trabalho, emprego e empresas que foram construídos desde o início do século XX. O processo de mudança referido, cada vez mais complexo e acelerado, tem despertado de modo crescente o interesse de cientistas, políticos e jornalistas e é identificado ao nível da literatura científica com a emergência de um novo paradigma técnico-económico, sendo este compaginável com vários registos teóricos e também diversas designações, embora as mais correntes sejam pós-fordismo, produção flexível, sociedade da informação.
Em qualquer dos registos, a competitividade de sectores, regiões e países dependerá, cada vez mais da sua capacidade em passar da produção em massa intensiva para a produção de bens e serviços intensivos em conhecimento, com as consequentes repercussões nos processos de trabalho, nos produtos, nas tecnologias utilizadas e no mercado de trabalho6.
As produções discursivas referidas, independentemente da designação utilizada (pós- fordismo, produção flexível, sociedade da informação) têm surgido, de modo frequente, numa versão optimista, apresentando um único caminho a seguir, caminho esse que seria determinado pela tecnologia e traria inevitavelmente para as regiões, países e sectores, que o percorressem, um aumento do emprego, tanto em termos quantitativos, como qualitativos. São abordagens simplistas que “subtraem” da análise diversos factores a ter em conta e sobre os quais importa reflectir.
Em primeiro lugar, os estudos empíricos têm mostrado que o processo de mudança é bem mais contraditório e complexo do que todas as previsões futuristas, traduzindo-se em consequências distintas. Em alguns casos criaram-se mais empregos, melhorou-
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Os autores aprofundam neste ponto 2.1 do estudo aspectos iniciados em Neves e Santos (2005).
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se a sua qualidade e alterou-se a estrutura de qualificações e também a organização do trabalho (rompendo com a separação entre concepção e execução de tarefas). Noutros, regista-se o aumento do desemprego e uma crescente polarização do emprego, através da qual se assiste, de um lado, ao aumento da intensidade do trabalho e da sua duração, a um número significativo de pessoal ao serviço com trabalho precário, rotineiro e mal remunerado e, por outro lado, ao reforço de uma elite bem remunerada, ligada ao saber e ao conhecimento, com emprego estável e boas condições de trabalho.
Em segundo lugar, contrariando abordagens evolucionistas unilineares, importa realçar que não se assiste à implosão de um paradigma e à sua substituição mecânica por outro com características completamente novas (Lyon, 1992 e Kóvacs e Castillo,1998). As abordagens dicotómicas que obrigam a pensar em termos da predominância exclusiva de um ou outro modelo, de modelos que apenas se podem suceder no tempo, reduzem a capacidade de compreensão de fenómenos concretos e também a eficácia na definição de políticas, incluindo as que visam a melhoria quantitativa e qualitativa do emprego. Essa abordagem «impede-nos de ver realidades organizativas (eventualmente) paralelas, simultâneas, a extensão de formas organizativas “em manchas de pele de leopardo”, inclusivamente dentro de uma mesma empresa» (Castillo, 1998: 45)
É empiricamente verificável, por exemplo, que o fordismo continua a ter uma expressão importante em certos sectores de actividade, regiões e países. Importa pois, não esquecer, como refere Kovács (1998: 7-8) que a globalização e a diversificação simultânea dos mercados de consumo permitem, dentro da mesma empresa e sobretudo no seio de redes de subcontratação, articular a estratégia de produção em massa (lógica da economia de escala) com a estratégia de diversificação e inovação tecnológica (lógica da economia de gama), sendo várias as razões invocadas. Por um lado, padrões de consumo globalizados implicam “homogeneização” de consumos e, por consequência, a produção em grandes séries de produtos estandardizados.
Por outro lado, a crescente diversificação dos produtos finais está a ocorrer em paralelo com a estandardização em larga escala de processos, subconjuntos e/ou componentes, podendo as empresas de produtos intermédios continuar a funcionar numa lógica fordista. Por fim, se são visíveis novos modelos de consumo em sectores da população de classe média/alta, que procuram produtos de boa qualidade, singulares e diversificados, os sectores da população, sem emprego, ou com emprego
precário ou mal remunerado tenderão a manter-se dentro dos padrões de consumo “tradicionais”.
Em terceiro lugar, nas teses mais simplistas não se tem em conta que o caminho a percorrer dependerá também do contexto socio-histórico e cultural, dos factores competitivos em que esses países e regiões apostarem, das escolhas e das estratégias adoptadas pelos governos, da sua capacidade de influenciar o tecido empresarial, das política económicas e de emprego que vierem a ser definidas, do sistema local de inovação, da cultura empresarial dominante, da capacidade de concertação e negociação de todos os actores ligados às questões do emprego e recursos humanos, da capacidade de negociação dos sindicatos
Por fim, fazendo uma análise no âmbito quer das teses da sociedade da informação, quer do pós-fordismo ou da produção flexível, importa em cada uma desta visões, dados os vários significados que lhes são atribuídos, especificar de modo muito explícito do que se está a falar. Por exemplo, quando nos referimos ao fordismo, se há um leque de caminhos possíveis, é necessário, como refere Castillo (1998), explicar de que pós-fordismo se trata. No campo do pós-fordismo, face ao leque de caminhos possíveis que passam pelo neo-taylorismo, produção magra (lean production), antropocentrismo, entre outros, mantendo o primeiro linhas de continuidade do taylorismo/fordismo e apontando o último para alterações significativas no emprego, qualificações e organização do trabalho, terá maior valor heurístico para a análise e investigação empírica considerar o neo-taylorismo e o antropocêntrismo como dois ideias-tipo polares, sendo as situações concretos uma mistura de características de ambos. Veja-se, para o efeito o quadro seguinte.
Sendo mais habitual a reflexão em torno dos diversos caminhos no âmbito do pós- fordismo, opta-se, neste estudo, por fazer uma análise em torno do impacto das tecnologias da informação e da comunicação no emprego e nas qualificações, onde também há um longo debate em torno de posições bem diversas.
Importa, no entanto, reter que centrando a análise no pós-fordismo ou nas diversas teses em torno do impacto das TIC, os diversos caminhos possíveis decorrem também de concepções político/ideológicas distintas que darão origem a políticas diversas. Caminhos diversos implicam políticas distintas, uma vez que estas não são neutras.
Quadro 2.1 – Composição e conteúdo do emprego: modelo neo-taylorista e modelo antropocêntrico
(neo-)taylorismo antropocêntrismo
Objectivos Gerir a mão-de-obra como variável de ajustamento
Aumentar o emprego tanto em qualidade como em quantidade
Estratégia Redução dos custos da mão-de-obra Centrada na qualidade dos recursos humanos
Instrumentos “Gestão” adaptativa dos recursos humanos Gestão previsional dos recursos humanos;
Coordenação entre as políticas económica, de emprego e ensino/formação definida a nível nacional;
Existência de uma estratégia concertada para a competitividade, para o emprego e para a formação;
Mecanismos de reconversão profissional com carácter antecipatório; Políticas sociais adequadas para os sectores expulsos do mercado de trabalho e com dificuldades de inserção; Mecanismos que ajustem a procura e oferta de emprego
Organização do trabalho
Práticas de trabalho rígidas baseadas no taylorismo (separação horizontal e vertical das tarefas e funções); hierarquização e fronteiras profissionais rígidas
Descentralização e polivalência (integração horizontal e vertical das tarefas; novos perfis profissionais Inovação Inovação tecnológica Inovação social e organizacional, para
além da tecnológica Criatividade e
autonomia
Não se estimula a inovação, nem se promove a autonomia de decisão
Estimula-se a inovação, a autonomia de decisão, a corresponsabilização, a capacidade de trabalhar em qualidade total
Qualificações Polarização das qualificações Maior homogeneização das qualificações
Dinâmica institucional
Ausência de funcionamento em rede; Pulverização e atomização das medidas de política;
Fraca ligação entre as empresas e os CT/Es e entidades de formação
Funcionamento em rede das instituições ligadas ao emprego, formação e competitividade;
Concertação entre empresas, instituições do ensino e instituições de formação.
Dinâmica dos sub-sistemas de ensino e formação
Ensino e formação pouco indutores de transformações do tecido produtivo; Ensino e formação com níveis de desadequação em relação ao tecido empresarial;
Ensino e formação adequados às necessidades do tecido empresarial e também como antecipadores de novos perfis profissionais;
Dinâmica empresarial
Continuação da aposta na utilização de mão-de-obra barata e com baixos níveis de habilitações e de qualificações;
Modernização tecnicista e desqualificante; Flexibilização quantitativa da mão-de-obra e polivalência desqualificante;
A formação profissional é encarada como um custo.
Recrutamento privilegiado de da mão- de-obra qualificada;
Modernização tecnológica acompanhada por qualificação de recursos humanos e alterações na organização e conteúdos do trabalho; Flexibilização qualitativa e polivalência qualificante;
Formação é encarada como um investimento.
Impacte global Trajectória de degradação e precarização do emprego;
Competitividade ainda assente na mão-de- obra barata
Aumento da capacidade de adaptação à mudança;
Passagem para patamares superiores de competitividade;
Melhoria da qualidade de vida
Fonte: Adaptado de LEITÃO, João (2001) “Organização do trabalho e gestão da mão-de-obra” em Maria João Simões e Berta Rato (coords.) Potencialidades de desenvolvimento de Concelhos da Zona da Serra da Estrela, Lisboa: OEFP.
A escolha de um caminho ou outro é uma escolha política e económica, umas estão mais associadas a concepções neo-liberais, outras a concepções mais centradas na qualidade do trabalho e das condições de vida. Estas escolhas têm a curto, médio e longo prazo consequências distintas.