PARTIE II. PRESENTATION DE WAFASALAF
IV. G OUVERNANCE DE W AFASALAF
Um dos aspectos fundamentais no desenvolvimento de uma pesquisa é a escolha da metodologia, do caminho a ser percorrido pelo pesquisador em sua busca, entendendo ser “ o objeto de estudo que define a linha de encaminhamento da investigação”. (CARVALHO, 2007, p. 3). Entendendo ser as práticas ambientais presentes nos destinos ecoturísticos do Rio Grande do Sul o tema de estudo, percebe-se que o mesmo não poderia ser compreendido apenas com dados quantitativos.
Além da aplicação dos questionários aos agentes de turismo selecionados, foram realizadas três visitas com observação direta nos três principais destinos de ecoturismo comercializados pelas agências no Estado do Rio Grande do Sul, no sentido de identificar práticas ambientais adotadas.
Para tanto, foi realizada a observação direta nos destinos – Parque Nacional dos Aparados da Serra; Parque Estadual do Caracol e Parque Nacional da Lagoa do Peixe. Os destinos observados pertencem aos Municípios de Cambará do Sul, Canela e Mostardas, respectivamente.
Os destinos selecionados foram observados de forma direta durante o mês de fevereiro de 2011, na busca de informações de práticas ambientais investigadas na pesquisa realizada com gestores de agências de turismo do Rio Grande do Sul, que comercializam o ecoturismo.
Como possibilidades de observação direta em cada destino e município selecionado, foram identificadas algumas práticas ambientais para a análise da relação dos agentes de viagem com as mesmas, nos locais vendidos como destinos ecoturísticos, buscando identificar:
− as políticas ambientais e sua exposição de forma visível no destino, identificando placas de informação, material de divulgação de políticas ambientais do destino e informações contidas no site do mesmo;
− a existência de programas de Educação Ambiental no destino e como tal programa está formatado, analisando informações locais sobre sua execução;
− como ocorre o gerenciamento de resíduos sólidos no destino e/ou município, observando a política de resíduos sólidos, identificando se há coleta seletiva e cooperativas de catadores nos destinos;
− a existência de programa de controle do uso da água no destino, utilizando a observação direta e informações locais;
− a presença de iniciativas para o controle do consumo de energia elétrica no destino, utilizando a observação direta e informações locais;
− como é apresentada a política de proteção ao ambiente natural no destino, utilizando a observação direta pela presença de placas e material informativo;
− qual tratamento é dado ao esgoto no destino, utilizando a observação direta e informações do destino e dos gestores municipais;
− quais medidas são adotadas para minimizar impactos no destino, utilizando a observação direta de programas possíveis de serem comercializados pelas agências de viagem e análise de placas e material informativo;
− a existência de construções integradas ao espaço natural dos destinos utilizando a observação direta no destino e no entorno;
− de que maneira a visitação auxilia na proteção ambiental do destino e município, utilizando a observação direta e informações locais.
A observação direta realizada na pesquisa, e entendida como uma metodologia “[...] mais voltada a aspectos micro-sociológicos” (MARTINS, 2004, p. 296), se justifica pela possibilidade de complementar as informações recolhidas pelos questionários, por meio da prática do olhar e do escutar impondo, assim, ao pesquisador “um deslocamento de sua própria cultura para se situar no interior do fenômeno por ele ou por ela observado através da sua participação efetiva nas formas de sociabilidade por meio das quais a realidade investigada se lhe apresenta”. (ROCHA; ECKERT, 2008).
Entendendo que a pesquisa científica envolve etapas importantes já vencidas como a construção do tema, a adoção dos recortes teórico-conceituais necessários, a adequação à linha de pesquisa de Turismo, Organizações e Sustentabilidade proposta pelo programa de Mestrado em Turismo e a construção de hipóteses inicias, a observação direta serve como técnica para investigar “os saberes e as práticas na vida social e reconhecer as ações e as representações coletivas na vida humana” (ROCHA; ECKERT, 2008).
Tal entendimento se expressa na fundamentação de que a pesquisa qualitativa pode ser definida como a que “privilegia a análise de microprocessos, através do estudo das ações sociais individuais e grupais, realizando um exame intensivo dos dados, e caracterizada pela heterodoxia no momento da análise” (MARTINS, 2004, p. 289), possibilitando que a cada questão técnica seja agregada uma discussão teórica.
Assim, a existência ou ausência de práticas ambientais nos programas de ecoturismo do Estado do Rio Grande do Sul pode ser analisada como um processo capaz de identificar até quanto o entendimento dos princípios ambientais, que compõem a terminologia do ecoturismo, são transformados em conduta pelos agentes de viagem.
É necessário entender que, em uma pesquisa qualitativa, todo o processo de investigação trata “as unidades sociais investigadas como totalidades que desafiam o pesquisador” (MARTINS, 2004, p. 292) buscando apreender e compreender a realidade da melhor maneira possível, pela elaboração de significados atribuídos aos dados coletados.
A etapa da pesquisa qualitativa utilizada pode ser identificada como saída exploratória e serve para orientar a investigação promovendo um “[...] olhar atento ao contexto e a tudo que acontece no espaço observado”(ROCHA; ECKERT, 2008), orientado pelas questões teórico-conceituais construídas durante o desenvolvimento da pesquisa.
Assim, o espaço observado passa a ser composto em uma escala macro, quando envolve o município detentor das áreas naturais, que servirão de atração ao ecoturista e, em escala menor, ao estar diretamente relacionado ao destino onde ocorre a prática do ecoturismo.
Cabe lembrar que a pesquisa proposta envolve um ser humano, tanto no papel de turista quanto no de agente de turismo e, portanto, identificado como objeto sujeito a modificações, complexo e que “reage a qualquer tentativa de caracterização e previsão”. (MARTINS, 2004, p. 291). Além disso, a pesquisa também é realizada por um observador falível.
Assim, para a realização da observação direta alguns passos foram fundamentais como:
− seleção dos locais a serem visitados para a observação direta: para a realização de tal etapa, foi determinada a observação direta nos três principais destinos de ecoturismo indicados pelos sujeitos da pesquisa;
− obtenção da concordância das secretarias municipais de turismo dos três destinos selecionados: foram contatadas as secretarias dos Municípios de Cambará do Sul
(Aparados da Serra), Canela (Parque Estadual do Caracol) e Mostardas (Lagoa do Peixe);
− obtenção da concordância dos agentes de turismo em transmitir informações quando necessárias, possibilitando analisar de que maneira as informações conceituais do ecoturismo são transmitidas aos clientes e como as questões ambientais estão sendo expostas aos mesmos;
− observação participante, que busca identificar como as práticas ambientais estão presentes no destino, baseando a investigação nos conceitos desenvolvidos pela pesquisa.
Toda observação foi orientada pela motivação científica, buscando superar “as armadilhas de explicar o que observamos pelo senso comum” (ROCHA; ECKERT, 2008), ordenando as descobertas na busca do conhecimento sobre o observado, sobre a aplicação das práticas ambientais e sobre as dinâmicas envolvidas na relação do turismo com o ambiente natural visitado.
A pesquisa de campo buscou auxiliar na compreensão de que os sujeitos, no caso os agentes de viagem responsáveis pela venda de destinos ecoturísticos, possuem das práticas ambientais e como as internalizam e transformam em conduta, na tentativa de investigar como o cliente, participante do momento sagrado do turismo, na expressão do simbólico presente no contato direto com o espaço natural, identifica e está atento às práticas ambientais, reconhecendo a possibilidade de conviver com singularidades e diversidades oriundas tanto da organização local dos destinos quanto das características de cada região onde o destino está inserido.
É importante identificar que o resultado da observação direta não pretende atingir um conhecimento amplo do tema pesquisado, mas identificar o conhecimento produzido e acumulado pela experiência singular do pesquisador com os locais observados, buscando identificar critérios que revelem os cuidados ambientais dos gestores com o ambiente natural, em suas relações com a natureza e em suas preocupações com as práticas ambientais do produto turístico que estão oferecendo.
Assim, as disposições intelectuais, construídas pelo conhecimento adquirido na formação pessoal do pesquisador, possibilitaram delimitar a pesquisa na busca do entendimento das relações que se estabelecem quando da organização de um destino natural para a prática turística. Envolve os agentes interessados em tais práticas e a comunidade local, como direta ou indiretamente influenciada, por sua estruturação, como produto a ser
comercializado, contando com a importante participação do agente de viagem e do entendimento do que o pesquisador identifica como sendo importante em um destino ecoturístico.
A indagação que surge diante de tal método leva ao questionamento do quanto seria representativa a análise dos destinos investigados no conjunto de casos que poderiam compor o chamado produto ecoturístico.
Para Martins (2004, p. 293), a “representatividade está relacionada às possibilidades de generalização e se baseia na noção estatística de amostra”. Assim, partindo de um conjunto ordenado de forma aleatória, entende-se que o mesmo pode ser representativo da população que utiliza o meio natural para as práticas turísticas, restando sempre o questionamento acerca de tal representatividade.
Para o exercício da metodologia foram realizadas anotações buscando traduzir acontecimentos vivenciados, para uma possível análise dos procedimentos, das atitudes, das expectativas e orientações, de acordo com os conceitos teóricos e metodológicos identificados pela pesquisa.
Tal prática busca identificar o que o pesquisador “vê e ouve entre as pessoas com que ele compartilha um certo tempo de suas vidas cotidianas” (ROCHA; ECKERT, 2008), anotando em um caderno de notas de campo, os acontecimentos que poderiam auxiliar na compreensão das práticas ambientais e sua relação com o tema pesquisado.
É importante entender que em uma pesquisa social, como a que está proposta, uma vez que dependente de análise quantitativa, o pesquisador está diretamente influenciado por sua posição, história bibliográfica, seus interesses e sua formação, ou seja, “[...]a neutralidade não existe e a objetividade é relativa[...]” (MARTINS, 2004, p. 289), devendo a mesma provir de critérios que sejam identificados para as questões investigadas pelo pesquisador.