Analisando a missão dos grupos, é possível perceber que a perspectiva da comunicação como direito tem-se inserido nos debates, instituindo-se como uma linguagem comum às mais variadas iniciativas, significativamente entre aquelas criadas na presente década. Uma característica relevante na prática de quase metade dos grupos aqui observados é a inserção territorial em um espaço geográfico com cujas questões sociopolíticas e
comunicacionais o grupo se afirma comprometido. Tais espaços são chamados pelos grupos de comunidades. Essa dimensão do território nas práticas dos grupos ganha centralidade na medida em que vários deles afirmam ser a causa motriz de suas ações reverter um determinado estigma sobre uma comunidade, prestar um serviço de melhor informação, ou oferecer formações e atividades voltadas à melhoria da vida de pessoas residentes na comunidade em questão.
Tabela 3 Missão do Grupo
1. Auçuba Contribuir para a melhoria da qualidade de vida de crianças, adolescentes e jovens, através do potencial pedagógico e mobilizador da comunicação, fomentando uma atitude socialmente responsável e cidadã.
2. Sinos Contribuir para o reconhecimento e a efetivação do direito humano à comunicação, entendendo este como um direito universal, interdependente e indivisível dos demais direitos humanos, imprescindíveis para a radicalização democrática da sociedade
3. Ventilador Efetivar o Direito Humano à Comunicação e com isso colaborar para efetivação dos outros direitos humanos.
4. RRS Libertação Comunitária, através de uma arte, economia e comunicação que servem realmente para a comunidade.
5. Coque Vive Transformar as representações sociais negativas sobre o bairro do Coque.
6. Gambiarra Uma comunicação para todos. Mostrar outra realidade. Trazer a comunicação para a favela. Mostrar que a favela também tem arte, não tem só violência. Acessar os meios de produção [da comunicação] e garantir esse acesso a todos.
7. Desclassificados Despertar o pensamento crítico e reflexivo das pessoas sobre a realidade, na perspectiva das periferias urbanas, trazendo a público sua forma de ver e escrever. 8. CCJ Potencializar a organização da juventude do meio popular para atuar com a
comunicação como direito humano.
9. Agência Roda Colocar em prática o direito humano à comunicação, democratizando-a, em especial na comunidade de Roda de Fogo; resgatar a memória de luta da comunidade e constituir-se assim como espaço político de discussões dentro da comunidade.
10. Observatório Formar uma comunidade científica e política voltada para a pesquisa e ações de controle social dos meios de comunicação, com foco no respeito, promoção e proteção dos direitos humanos. Acompanhar a produção midiática da região no que se refere à valorização e não violação dos direitos humanos. Fomentar a pesquisa e a produção de conhecimento sobre a comunicação e os direitos humanos, focando na construção de uma cultura de direitos humanos nos espaços de educação, pesquisa e extensão.
A partir da análise das missões, atrelada à observação da atuação dos grupos, categorizamos aqueles em que se evidencia uma perspectiva de compromisso territorial como “grupos com inserção comunitária regular”. Dentre eles, percebemos que alguns funcionam mais semelhantemente a uma escola, outros como coletivos autônomos.
Além de afirmarem a dimensão do direito humano à comunicação, os grupos com inserção comunitária regular demonstram o compromisso de efetivar esse direito dentro de
Adultos Jovens Sem inserção comunitária regular Com inserção comunitária regular Perfil Escola Perfil Coletivos Autônomos CCJ Coque Vive Agência Roda Gambiarra RRS Desclassificados Ventilador Auçuba Observatório Sinos
um recorte territorial, seja em uma comunidade específica – como no caso do Coque Vive e da Agência Roda, que até no nome afirmam seu vínculo territorial – ou para as comunidades em geral. É importante frisar que esse recorte geográfico nada mais é que a localização de aspectos essencialmente sociais, ligados a níveis de renda e acesso à garantia de direitos básicos, sejam eles civis, econômicos ou sociais. No caso dos Desclassificados, por exemplo, o termo Periferias Urbanas é utilizado em sua missão para descrever esse enfoque, enquanto a RRS utiliza o termo “comunitário” para se referir, na prática, ao mesmo universo: as comunidades pobres, favelas ou bairros populares da RMR.
O CCJ vincula sua atuação à “juventude do meio popular”, o que na prática se efetiva com a formação direta de jovens moradores de comunidades pobres em seus projetos. Já o Auçuba, que adota uma perspectiva universal em sua missão, demonstra desde o início de suas atividades uma opção propriamente política de priorizar o atendimento a adolescentes e jovens também do meio popular, ou das comunidades, o que se expressa concretamente na dinâmica do programa Canal Auçuba, tanto no projeto Kabum quanto na construção do Núcleo de Comunicação Comunitária, cuja base tecnológica atualmente se situa num bairro “comunitário” na Zona Norte da Cidade, chamado Bomba do Hemetério.
Tabela 4 Perfil dos Integrantes do Grupo
Grupos faixa etária classe social / local de residência
Escolaridade Jovens1 Adultos2 A-B /
bairros nobres ou classe média C-D / comunidades ou bairros pobres
Alta3 Média4 Funda- mental5 1. Auçuba X X X X X 2. Sinos X X X 3. Ventilador X X 4. RRS X X X X X X 5. Coque Vive X X X X X 6. Gambiarra X X X 7. Desclassificados X X X X 8. CCJ X X X X 9. Agência Roda X X X X 10. Observatório X X X
1 Maioria com até 25 anos. 2 Maioria com mais de 25 anos. 3 Ensino Superior.
4
Ensino médio completo. 5 Ensino médio incompleto.
O barateamento da tecnologia e a capilarização do acesso tanto aos debates quanto aos meios de produção midiática têm fortalecido estratégias de resistência em todas as camadas do tecido social, desde as universidades, passando pelo movimento social formalizado, até estratégias comunitárias e dos setores mais pobres da população. Se a concentração é um problema para todos, ele rebate especialmente sobre os mais excluídos, como é o caso das comunidades.
Pode-se assim constatar que as periferias urbanas aglutinam hoje desafios que constituem um território de lutas específico. Para além de reivindicações clássicas de melhorias infra-estruturais, que sempre pautaram a luta de movimentos sociais urbanos no país, constata-se aqui que a dimensão simbólica de dominação é um ponto que tem ganhado relevância, pautando a ação dos grupos, com destaque para coletivos juvenis. A associação simbólica desses espaços ao crime e à violência urbana, e a representação estereotipada de seus moradores são problemas reforçados pela mídia comercial, e que se somam ao amplo quadro de violação de direitos ao qual essas populações em geral já estão submetidas. A
comunicação, assim, assume relevância na medida em que, de um lado, reforça estigmas, mas de outro, tem o potencial de veicular vozes e visões que vêm sendo sistematicamente silenciadas no espaço público instituído e, sobretudo, tem-se constituído como espaço de encontro entre grupos de realidades diferentes, o que, em um contexto de segregação, já efetiva transformações num sentido da vivificação de uma cultura de solidariedade.