A pesquisadora carioca Raquel Paiva apresenta uma reflexão importante sobre o tema, atrelando a abordagem comunitária a uma perspectiva de inserção territorial. Em sua pesquisa intitulada Espírito Comum – mídia, comunidade e globalismo, a autora compreende a ascensão contemporânea da perspectiva comunitária como decorrência da globalização; recorrendo a pesquisadores como Featherstone, atribui o surgimento de localismos como reação ao global, que, por provocar “níveis ascendentes de complexidade cultural” que gerariam “dúvidas e ansiedades”, motivariam por sua vez um “desejo de permanecer numa localidade delimitada”, de “voltar ao lar”. A autora, portanto, atesta a pertinência “em se falar e adotar o modelo comunitário nos dias atuais” a partir da compreensão de que “os processos de globalização e localização são indissociáveis” (PAIVA, 2003, p. 29).
É possível reconhecer que, se a atualidade é norteada pelo propósito da globalização, cada vez mais e com maior vigor invoca-se não apenas o nome, como também facetas características do ambiente comunitário. Pode- se supor que talvez no indivíduo, ao defrontar-se dentro da globalização com ordens tão variadas, acione uma estrutura que lhe permita reconhecer-se e não ser pulverizado. (ibid., p. 30)
Nesse trabalho, Paiva realiza uma revisão dos estudos clássicos sobre comunidade, que conjuga a um esforço de investigar o sentido contemporâneo, apontado por ela como sendo necessariamente diferente daquele elaborado sobretudo a partir do pensamento do romantismo alemão ou da tradição cristã no alvorecer da era industrial. Ao marcar essa diferença, a autora recusa a idéia de que a comunidade poderia „salvar‟ de alguma maneira a sociedade, afirmando que “falar em comunidade sob esta ótica romântica é desaguar na ilusão do passado, na vã perspectiva do retorno e na incapacidade de construir”. Por outro lado, defender ser “possível conceber comunidade não apenas como um estágio anterior à sociedade” (ibid., p. 71), propondo que se desenhem as possibilidades da elaboração e aplicação do “modelo comunitário” na vida atual, a partir da percepção das “maneiras como o
sujeito tem realizado esse projeto de dividir o espaço e de que maneiras outras poderia rearranjar seu cotidiano” (PAIVA, 2003, p. 79), tendo como horizonte a construção de um mundo mais digno e justo (ibid, p. 103).
O projeto comunitário, neste momento, caracterizado pelo desencanto, principalmente por terem se perdido referenciais básicos de pertencimento do sujeito, surge muito menos a partir de seu ideário do que como formulação capaz de viabilizar a existência humana. (ibid., p. 124)
Se comunidade pode ser compreendida a partir de várias configurações, é preciso definir com clareza sob que condições é possível apropriar-se dessa possibilidade. (...) Faz-se pertinente esclarecer que defender a estrutura comunitária implica no reconhecimento de que se lança mão de uma instância propiciadora de pertencimento e comprometimento com o
território16, o que não coíbe o desfrute de todo o aparato tecnológico da era atual que favorece ao desenraizamento. (ibid., p. 123)
A título de sistematização, a autora vislumbra duas possibilidades de inserção de uma perspectiva comunitária no contemporâneo: A primeira, formulada principalmente a partir da proposição norte-americana17 – na linha do que tem sido chamado “cultura do sobrevivencialismo” – a parte de uma concepção que prevê que no futuro apenas as cidades pequenas serão capazes de oferecer adequadas condições de vida. Trata-se de uma perspectiva relativamente instrumental e potencialmente sectarista de comunidade.
A segunda possibilidade refere-se à que “emerge em situações de gritantes desigualdades sociais”, nas quais “o acesso aos bens e serviços faz-se de maneira totalmente desigual, com uma grande maioria de indivíduos vivendo totalmente à margem das condições mínimas de sobrevivência”.
Nessas sociedades, recorrer à estrutura comunitária significa o reconhecimento da situação, a ativação do sentimento de agregação e a busca conjunta de soluções. A estrutura comunitária atuaria com o propósito de pressão, como uma estratégia para participação efetiva nos dispositivos sociais e como possibilidade de descentralização do poder. Por esse viés pode-se vislumbrar a aplicabilidade do conceito de comunidade na sociedade contemporânea. (ibid., p. 128 e 129)
16 Grifo nosso.
17
Segundo a autora, os Estados Unidos têm-se tornado nos últimos anos o centro produtor de estudos nessa direção em que se privilegia o comunitarismo como via de ordenamento da sociedade contemporânea (PAIVA, 2003, p. 27).
Importa aqui destacar que essas possibilidades apontadas por Paiva têm relação direta com a formulação das duas hipóteses de estruturação e efetivação da demanda por segurança no mundo atual a partir do impulso comunitário às quais nos referimos no início deste capítulo.
A autora considera ainda a “comunidade” como a possibilidade da instituição de “sujeitos coletivos” que podem funcionar como “unidades de gerência e pressão”, e ressalta que o mero agrupamento de sujeitos segundo interesses relativos ao consumo, conforme a estratégia de segmentação do mercado que buscam justamente ativar sentimentos de pertença e identificação, não institui o surgimento de comunidades reais.
No que diz respeito à sua compreensão de comunidades reais, por sua vez, Paiva (2003, p. 54) as afirma como o lugar da “gênese de princípios, para que o indivíduo não apenas estabeleça relações concretas, mas possa também alcançar meios de atuar como agente de transformação”. Quanto à comunicação, para ela, “o entendimento que se persegue de comunicação é aquele que efetivamente possa comprometer o indivídulo com o exercício de sua cidadania, que possa permitir-lhe uma atuação no seu real histórico, podendo transformar, inclusive, sua existência e a das pessoas à sua volta” (ibid., p. 49).
Referindo-se então à comunicação comunitária, Paiva afirma:
É indispensável que se possa avançar, não no sentido de recuperar um tempo passado, e sim de resgate da compreensão do que pode vir a significar o sistema comunicacional, envolvendo o aprimoramento da condição humana, da sua qualidade de vida, bem como o aspecto de comprometimento com o território e com as bases que o fundam. Isso não significa abrir mão de toda a espacialidade alcançada com o desenvolvimento tecnológico, mas, sim, sua utilização na melhoria do espaço urbano, como lugar de convivialidade entre os sujeitos.
A compreensão da comunicação por essa via implica necessariamente a revisão de suas mensagens, a produção do seu sentido, bem como a transparência e educação para os seus processos produtivos. Torna-se inconcebível nessa postura a defesa pura e simples de mercado e de manuseio dos processos técnicos. (ibid., p. 46)