No intuito de investigar os termos mais frequentemente utilizados pelos grupos que produzem mídia para classificar ou descrever o tipo de comunicação que realizam, mapeamos as palavras e expressões presentes no universo de conhecimento compartilhado pelos grupos. Ressaltamos que o uso de tais termos não se constitui em uma conceitualização formal e refletida por parte dos grupos. Consideramos esta aproximação como um sintoma da circulação e troca de informações, debates e reflexões em torno da comunicação, que de certa forma acabam por instaurar um vocabulário compartilhado. Entretanto, há termos cujo conteúdo é intuitivamente associado a determinadas práticas e não a outras, conforme buscaremos comentar a seguir. A tabela abaixo reúne a terminologia utilizada segundo as respostas explícitas no questionário aplicado.
Tabela 7 Terminologia Adotada
•Comunicação como direito humano •Educação para e pela comunicação •Comunicação para mobilização social
Auçuba
•Direito Humano à Comunicação
Sinos
•Comunicação livre, independente, responsável
Ventilador Cultural
•Comunicação comunitária livre (libertação comunitária)
Rede Resistência Solidária
•apenas Comunicação (como prática social, propriamente humana, como encontro)
Coque Vive
•Comunicação Livre, Autogestionada, Comunitária
Coletivo Gambiarra
•Comunicação Alternativa
Desclassificados
•Comunicação como Direito Humano
CCJ
•Comunicação Comunitária
Agência Roda
•Mídia cidadã, Democratização da Comunicação
Observatório comunicação como direito humano (3) comunicação livre (3) comunicação comunitária (3) comunicação alternativa comunicação auto- gestionada Mídia Cidadã Encontro, diálogo Educação para e pela comunicação Comunicação para mobilização social democratizaçã o da comunicação
Aqui, evidencia-se mais uma vez a força da noção de comunicação como um direito humano. Entretanto, no contato com os grupos é possível perceber que tal noção é na maioria dos casos bastante intuitiva. Reivindica-se a comunicação como direito como fundamento da própria ação dos grupos, sem que propriamente uma compreensão mais aprofundada dos direitos humanos como um campo com acumulos históricos e desafios jurídicos e sociais específicos esteja presente, exceto em alguns poucos casos, com destaque para a Sinos, que tem uma boa apropriação teórica nesse quesito.
Afora isso, há a presença do termo “comunicação livre”, que remete a uma mídia autônoma, independente e, sobretudo, livre de uma perspectiva de associação direta ao lucro ou a objetivos econômicos. Essa é uma terminologia recente que vem ganhando espaço junto com movimentos de cultura livre, software livre, discussões sobre propriedade intelectual e copyleft, que buscam instaurar uma cultura da colaboração e da partilha como alternativa à patentealização da cultura para fins de acumulação econômica.
“Mídia cidadã” é uma terminologia associada à democratização da comunicação em diversas instâncias, ligada a iniciativas da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação), Cátedra UNESCO de Comunicação e outras organizações que têm realizado nos últimos anos uma conferência anual para discutir a mídia cidadã de forma a fortalecer tal debate. Por fim, comunicação comunitária é aqui um termo que aparece associado a localidades ou territórios cujo perfil socioeconômico e lugar simbólico no imaginário social têm demandado uma mobilização especial por parte de seus moradores.
No geral, é possível perceber que as terminologias utilizadas pelos grupos de certa forma refletem as redes de relações nas quais os mesmos estão inseridos, e não necessariamente dizem respeito a uma escolha terminologia baseada em algum tipo de reflexão conceitual. De fato, é possível mesmo afirmar que tal reflexão é rara entre os grupos, em sintonia com o que constata Dagron (2008), quando afirma que a vontade de instituir a designação das práticas em conceitos diz respeito muito mais aos pesquisadores em comunicação que aos grupos que realizam tais práticas. Assim, as considerações feitas em torno das terminologias, nesta pesquisa, partem mais de uma participação atenta junto aos grupos, que possibilitou sistematizar tendências e nuances de cada termo a partir das atividades e linguages dos grupos e suas redes, do que de uma clareza nas respostas dos integrantes em entrevistas ou questionários.
Uma outra questão de fundo bastante relevante nessa discussão conceitual ou terminológica desse campo é a polaridade entre segmentação/universalização das iniciativas,
que se faz visível, por exemplo, entre o termo “comunicação comunitária” (que tende à especifização ou segmentação) e o termo “comunicação livre” (que é universalizante por princípio). De um lado, uma abordagem generalizante que ignore as especificidades de cada iniciativa, seu perfil, suas estratégias, dificuldades e metas específicas, dificilmente obterá algum grau de fidelidade com relação à realidade, necessário para conhecer os fenômenos e desafios em curso. De outro, a segmentação das lutas e necessidades sociais por melhoria e transformação têm sido um difícil entrave para a disseminação efetiva de uma alternativa solidária a uma cultura crescentemente individualista e fracionante. Essa é uma discussão que se assemelha àquela em torno dos direitos a igualdade versus os direitos a diversidade, discussão que já obteve significativos avanços, na compreensão de que tal polaridade não constitui um obstáculo real.
Não se trata de escolher um pólo em detrimento do outro, mas sim de estabelecer uma abordagem que possa dar conta de ambos, cada um dentro do momento necessário. Assim, no que diz respeito à democratização da comunicação, a compreensão de que a comunicação é um direito de todos pode seguir ao lado da constatação de que a demanda por esse direito e os desafios para sua concretização se dão de maneiras distintas entre diferentes setores da sociedade, aspecto que precisa ser reconhecido inclusive nos processos de formulação de políticas.