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Na página anterior, Takamuí fabrica peneiras com grafismo. Nesta página, Manuka mostra banco em fabricação e pronto. Objetos produzidos por homens, como peneiras e bancos, podem interromper o crescimento do corpo se colocadas acima da cabeça da criança.
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Dentre as espécies animais desenhadas, cobras e onças se destacaram pela natureza extraordinária, digna de admiração e medo. A aparição de algum no cotidiano motivava um mosaico de narrativas, onde histórias dos antigos, encontros fortuitos, caçadas, invasões noturnas e rituais pintavam um único quadro. Cobras e onças eram chamadas simplesmente de pajés por alguns desenhistas. A cobra pajé está presente tanto nos rituais do Turé, associada às flautas (Müller 1990:118-119), quanto dos maraká, onde tem lugar entre os yvara (cilindros de madeira que delimitam o espaço ritual) e o banco de madeira do pajé, “a cobra, ela própria princípio vital, é o ynga materializado no yvara em mingaus e outros elementos rituais” (Müller 1990:156). Em ambos os contextos rituais, a cobra está associada com a reprodução da vida e, portanto, com crianças. Nos desenhos (Prancha 34, a seguir) o leitor talvez possa identificar o tratamento gráfico peculiar dedicado à forma da cobra, sugestivo do seu caráter simbólico, do qual tratamos no 4º capítulo.
Sobre onças (Pranchas 35 e 39, adiante), qualquer criança Asuriní suficientemente grande para entender histórias sabe que um dia os pajés se transformavam em jawara, já ouviu descrições detalhadas sobre garras saindo da pele, dentes crescendo, olhos arregalados e, via de regra, demonstra conhecimento sobre os feitos de grandes pajés do passado, que caçavam com dentes e unhas, depois comiam a carne crua, sangrando, como onças, pois, de fato, eram. O pajé sempre foi temido pelos parentes próximos que podem ser atacados durante as metamorfoses, pois a habilidade de virar onça é feita inicialmente sem muito domínio. Nestes casos, o cheiro de sangue representa um grave risco de vida, especialmente para as mulheres, por conta da menstruação e do pós-parto. Um kunumi sabe que pajés passam pela experiência de quase morte, seja por doença ou ferimento graves, antes de desenvolverem essas capacidades. São, em parte, espíritos e um dia vão embora, “não morrem, passam do estado de contato íntimo com os espíritos para os mundos por eles habitados” (Müller 1990:172).
Se as diferenças entre animais, pajés e espíritos soavam um tanto irrelevantes no discurso infantil, a divisão essencial entre viventes e anhynga, além da evitação dos segundos, era cuidadosamente reiterada. O anhynga humano guarda memórias fragmentadas de parentes vivos e pode encontrá-los, daí a troca de nomes durante o luto. Animais pajé e animais em geral, não são anhynga. Quando morto, o animal libera um anhynga, tido como menos perigoso. Mas, para o caçador, principalmente para o que já matou muito, o anhynga animal pode representar
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uma grave ameaça67. Na mata, mata-se, e onde se mata e se morre, há anhynga. Por isso, as mulheres protegem seus caçadores, jovens ou maduros, com jenipapo sobre as tatuagens, com pintura nos ombros e nas pernas (imagem 8), com tanta frequência, ou mais, quanto o fazem para suas crianças.
Imagem 8: Boakara
Takamui recebe pintura de perna (tamakyjuak)e ombros para proteção pelas muitas caçadas.
Caçadores em ação (Prancha 36) integram o conjunto seguinte de imagens. Ouvi dos meninos animadas histórias de caçadas com os homens mais velhos, relatos carregados de uma adrenalina que não identifiquei em nenhuma outra ocasião. As primeiras caçadas solitárias acontecem no limiar da idade adulta e são marcadas pelo medo dos anhynga, comuns nas copas das árvores, e pelas poucas probabilidades de sucesso. Essas caçadas representam também o amadurecimento do corpo e da vontade, abordados no capítulo 4, por agora, friso que meninos fabricam desde bem pequenos seus arcos e flechas , com os quais “caçam” animais domésticos nos terreiros, passarinhos nas imediações, derrubam frutas, guerreiam com outros ou se dedicam simplesmente a irritar os adultos. Para as mesmas finalidades servem os estilingues, muito populares atualmente (vide Prancha 37).
67Informação dada porTakamuí, que também explica a Müller (1990:191) que há os anhynga da mata (anhynga oata), os do céu (Yvaca-nhynga) e os da água (ypianhynga), além dos anhynga dos mortos humanos.
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Depois das caçadas, de volta à aldeia, grupos de crianças curiosas acompanham ou participam do corte das carnes. Parte da carme secará ao sol, no varal como a roupa lavada, para consumo posterior. Mas a cabeça será assada e consumida rapidamente, além de receber uma atenção diferenciada, ao menos por parte das crianças. Crianças brincando com cabeças (conf. Prancha 38) são uma idiossincrasia Asuriní destacada por eles para registro fotográfico. A cabeça, assim como as outras partes do corpo morto, não são considerados efetivamente corpo, mas ex-corpo. O sufixo -er/-per/-wer, que indica passado nominal, é utilizado para marcar esta diferença entre o corpo íntegro, que contém ynga e o corpo que não é uno, é pedaços, desmembrado, o ex-corpo. Precisamente, os Asuriní se referem a ex-partes de corpos68.
A imagem do corpo inteiro está partida, é anhynga, perigosa, mas suas ex-partes não. Os adultos assentem que as crianças observem e explorem longamente as ex-partes da presa antes do consumo. No caso das carnes mais raras, permitem inclusive a presença de crianças de grupos domésticos alheios que, como retomaremos no capítulo 3, não costumam ser bem vindas. Quando Bá, filho de Manuka, matou uma onça, o corpo foi colocado no terreiro do matador, pessoas de todos os grupos vieram olhar e suas crianças puderam examinar tranquilamente (Prancha 39). Ao contrário dos animais consumidos, a cabeça não foi retirada, apenas os dentes. A jawara, como se comentava, rondava o Koatinemo há meses, queria comer carne de gente e só foi pega com a ajuda do pajé. Os Asuriní consideram o anhynga da onça majestosamente perigoso e, por isso, não guardam a pele. Como no caso humano, não se guarda nada do morto. Tratamento contrastante com o descaso com que são tratados os restos de outras espécies.
A caça e a preparação da carne para consumo são momentos que evidenciam uma questão usual, mas basilar neste estudo - a morte, que aqui vem pelas mãos dos homens. A contiguidade com o corpo da caça, que permite a investigação curiosa e pedagógica das suas ex-partes, faz a morte físicamente presente na rotina infantil. E salienta a importância dos boakara, guerreiros, caçadores, matadores que trabalham intensa e cotidianamente para garantir carne aos grupos domésticos, repletos de bocas a serem alimentadas. Nos permite, ainda, discriminar entre a imagem do corpo desmembrado pela morte, que é anhynga e o ex-corpo, partido pela morte e literalmente repartido para consumo, que é carne.
68 Se relacionados ao corpo são sufixos que indicam a morte, Monserrat (1988: 33) cita alguns exemplos: jauti papera “ex- pata do jabuti”, jauti apepera, “ex-casco de jabuti”. O sufixo também é aplicado para enfatizar que algo já não é como em tava “aldeia” e tavera, “ex-aldeia”, aldeia que já não é habitada.
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Prancha 34 – Maia/Baia, a cobra:
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