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chapitre III Résolution du problème d’optimisation principal par la méthode de

IV. Formulation des différents modules de résolution

Uma das categorias que selecionamos na biblioteca da família Fernandes Pinheiro é a de “medicina”, onde estão listados manuais domésticos de medicina e livros específicos sobre algumas doenças, que possivelmente eram lidos pela Viscondessa e pelo Visconde, a fim de auxiliar na manutenção da saúde familiar. Uma dessas obras é o livro “Domestic Medicine”, escrito por Guilherme Buchan em 1769 e traduzido para o português em 1788. Acredita-se que esse tenha sido o primeiro manual de medicina popular que se espalhou pelo Brasil, ainda durante o século XVIII. Esses manuais tinham o objetivo de difundir o conhecimento médico entre a população, através da escrita de diversos saberes sobre os remédios que poderiam ser úteis ao povo e formas de evitar as doenças, bem como combater as práticas de cura que os médicos chamavam de “charlatanismo”.

Os dicionários de medicina popular surgiram, na segunda metade do século XVIII, como parte da estratégia de vulgarização da medicina empreendida pelos médicos europeus, compondo o esforço de profissionalização de suas atividades. A aceitação entusiasmada do dicionário popular foi, portanto, uma

48A palavra coquete, segundo o dicionário Aurélio, significa “pessoa, geralmente mulher, que procura

despertar o interesse amoroso de outrem através da sedução; pessoa que pretende buscar a admiração de outrem através da aparência”.

49CAMARA, R. P. Carta recebida por Maria Rita Fernandes Pinheiro de seu esposo José Antonio Correia

da Camara. Tuyu-Cué, 16 fev. 1868. In: CÂMARA, Rinaldo Pereira. O Marechal Câmara sua vida militar. Vol. II. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1970.

manifestação da ideologia médica da época, marcada profundamente pela ideia de profissionalização (ROSEYNE REY, apud, FERREIRA, 2003: p. 117)50

Na maioria versões de obras estrangeiras, estes manuais já circulavam no Brasil no final do século XVIIII, marcados crescentemente por um uso doméstico, no interior das casas, voltado para a cura dos males familiares. (FERREIRA, 2003, p. 117)51 Segundo

Maria Regina Guimarães (2003), esses livros circulavam entre as famílias e vizinhos, tornando-se cada vez mais populares nas conversas informais e nos ambientes domésticos. Claro que a intenção era uma, mas a popularidade destes manuais gerou uma circulação de práticas médico-curativas que aumentou ainda mais o hibridismo oitocentista.52

A popularidade desses manuais, no entanto, revelou-se uma faca de dois gumes. Se, por um lado, ajudou a convencer a população da necessidade de obedecer às ordens médicas, de outro, proporcionou que as concepções de cura e doença populares se mesclassem aos saberes letrados dificultando a separação entre eles (WITTER, 2001, p. 72).

Segundo Figueiredo (2002)

Alguns médicos indicavam, além dos medicamentos, procedimentos mais adequados ao mundo da fé, enquanto havia curadores que se apoiavam também nos avanços da medicina acadêmica, consultando manuais, conversando com os médicos, adaptando este aprendizado informal ao exercício da sua função. (FIGUEIREDO, 2002, p. 234)

Outra obra presente na biblioteca era “Elementos de hygiene”, escrita por Francisco de Mello Franco em 1814, que explicita uma medicina mais preventiva, valorizando a higiene como uma forma de fortalecer o corpo e incentivando a prática de exercícios físicos para garantir saúde. O autor se inspirava na concepção de Buchan de pensar no corpo enquanto máquina, assim necessitando do exercício para auxiliar na circulação do sangue, entre outros benefícios.

50 FERREIRA, Otávio Luiz, Medicina Impopular. Ciência Médica e Medicina Popular nas Páginas dos

Periódicos Científicos (1830-1840). In. CHALOUB, Sidney. Artes e Ofícios de Curar no Brasil. Campinas, São Paulo, Editora da UNICAMP, 2003: p.117.

51 Os usos curativos destes manuais eram usados na cura da família extensa, que incluía escravos e

agregados, além dos círculos consanguíneos. (SAMARA, Eni de Mesquita. As Mulheres, o Poder e a Família. São Paulo, século XIX. São Paulo, Editora Marco Zero, 1989)

52 Conforme Figueiredo (2002, p. 77), “apesar de ser o século XIX considerado o século da razão,

observamos a utilização, como práticas de saúde rotineiras e habituais, daquelas adotadas pela tradição secular: partos com parteiras, receitas de chás para quase todos os tipos de males, crendices populares e assim por diante”. Sobre este assunto, ver: WEBER, Beatriz Teixeira. As Artes de Curar. Medicina, Religião, Magia e Positivismo na República Rio-Grandense - 1889 - 1928. Santa Maria: Ed. da UFSM; Bauru: EDUSC - Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1999; e WITTER, Nikelen Acosta. Dizem que foi Feitiço: As práticas de Cura no Sul do Brasil. 1840-1880. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001.

Um médico que foi muito popular no período e cujos manuais eram encontrados na maioria das casas dos brasileiros, tanto urbanas quanto rurais, era Louis Chernoviz. O médico, nascido na Polônia em 1812, foi obrigado a sair de seu país, quando ainda era jovem e estudante de medicina na Universidade da Varsóvia, por ter participado de um levante contra o domínio russo. Recebeu abrigo na França, onde continuou seus estudos e em 1840 o veio para o Brasil. Chernoviz então escreve uma carta53 para o Visconde de

São Leopoldo solicitando proteção para estabelecer-se como médico em país estrangeiro, por indicação de Saint-Hilaire e Silvestre Pinheiro. O manual “Dicionário de medicina popular” era bastante difundido no período, porém, não aparece listado na biblioteca dos Fernandes Vieira.

Outras obras de medicina presentes na biblioteca eram manuais mais gerais como a “Conservação da saúde dos povos” e o “Diccionario médico prático”, além de livros mais específicos como “Sobre a bronchocele”, “Medicina legal” e “Cura do antraz ou carbúnculo”. Um livro de valor mais elevado do que os demais, avaliado em 4$000 réis enquanto os manuais eram avaliados em $400 ou $500 réis, era o “Du climat et des maladies du Brésil” escrito por Sigaud, que trazia as estatísticas médicas do período do império brasileiro.

Os livros franceses eram muito difundidos no Brasil no século XIX, havendo uma grande atração dos intelectuais por eles, sendo significativos como capital cultural e simbólico para a elite. Na biblioteca dos Fernandes Vieira haviam 209 obras no idioma francês, o segundo idioma com maior quantidade de livros, ficando na frente somente os livros em português. Segundo Bessone, as obras nesse idioma predominavam nas bibliotecas particulares, principalmente na segunda metade do século XIX. Autores como Corneille, Racine, Molière, Montesquieu, Rousseau, Benjamin Constant e Chateaubriand eram as preferencias, sendo muito listados em leilões. No próximo capítulo, serão exploradas as outras categorias da biblioteca da família Fernandes Pinheiro, bem como as redes de relações que eram criadas a partir dos livros.

53 A fonte encontra-se no fundo Visconde de São Leopoldo, no Instituto Histórico Geográfico do Rio