chapitre II Le module d’optimisation du régulateur court terme
II. Bibliographie sur les méthodes de résolutions candidates
II.3. Etat de l’art sur le GHP et ses extensions
O político é uma das expressões mais altas da identidade coletiva. O que às vezes se chama cultura política e que resume a singularidade do comportamento de um povo não é um elemento entre outros da paisagem política; é um poderoso revelador do ethos de uma nação e do gênio de um povo.
(René Remond)
2.1 – A tarefa do Coronel Brito
A instalação da Fazenda Estrela pelo Coronel Victorino José Ribeiro, em terras que pertenciam administrativamente à freguesia de São José do Taquari, entre os anos de 1854 a 1856, deu início ao processo de colonização primeiramente com imigrantes luso-brasileiros e, posteriormente, por colonos alemães. Esse novo núcleo colonial foi denominado de Estrela, seguido do de Teutônia que fora criado dois anos depois pelo empresário Carlos Arnt. Com a comercialização dos lotes coloniais e a crescente expansão do povoado, em 1872, o Coronel Vitor de Sampaio Menna Barreto, detentor de grandes lotes coloniais, fundava o povoado com o nome de Santo Antônio da Estrela. Logo após chegou a família dos Ruschel que era numerosa e dinâmica a qual lançaria as bases da indústria e comércio local e o desenvolvimento econômico deu um salto quantitativo.
Um ano depois foi solicitada a elevação do povoado de Estrela à freguesia, separando- o administrativamente de Taquari. Junto com esse processo de emancipação política, a área da freguesia foi aumentada com a incorporação do território da margem direita do Rio Taquari – que são os atuais municípios de Lajeado, Arroio do Meio, Encantado e parte de Guaporé – formando uma imensidão de terras a serem colonizadas posteriormente. O crescimento econômico da freguesia e à chegada constante de novos imigrantes alemães fizeram com que o então Presidente da Província Tristão Alencar Araripe, através da Lei n° 1.044, de 20 de maio de 1876, criasse o município de Estrela. A instalação da nova comuna aconteceu somente seis anos depois com o instalar da Vila no dia 21 de fevereiro de 1882 com a eleição dos vereadores municipais.19
Com a implantação do regime republicano no país alteraram-se as relações de poder e com grande domínio dos liberais nas administrações municipais, que incluía grande parte dos
19 A Câmara Municipal teve a presidência de João Caetano Pereira, que deu posse aos primeiros vereadores
eleitos: Henrique Theodoro Rohenkohl, Patrício Antônio Rodrigues, Jorge Carlos Lohmann, Tristão Gomes da Rosa, Miguel Ruschel, Bento Manoel de Azambuja e Luis Paulino de Morais. O predomínio dos luso-brasileiros somente foi perdido após a Proclamação da República, quando da realização do primeiro pleito intendencial. O Conselho Municipal passou a ser dominado por lideranças germânicas, ao serem eleitos em 15 de novembro de 1891: Julio May, Jacob Schenck, Henrique Arnt, Nicolau Gerhardt, João Ubaldo Nery, Miguel Ruschel e Jacob Wiedt.
comerciantes e industrialistas locais, a Vila de Estrela viu a ascensão dos partidários de Júlio de Castilhos admitirem muitos signatários do Partido Conservador a fim de articular o domínio nos municípios gaúchos. De certa forma, apeados do poder pelos castilhistas, os liberais estrelenses buscaram respaldo junto aos federalistas com a nítida tentativa de enfrentamento aos republicanos. Na primeira eleição, na era republicana, em novembro de 1891, elegeu-se o primeiro Conselho Municipal que elaborou a primeira Lei Orgânica do Município nomeando Joaquim Alves Xavier como o primeiro intendente, em 18 de outubro de 1892. Esse governo durou somente sete meses, quando foi forçado a abandonar o cargo em razão da eclosão da Revolução Federalista, sendo então nomeado como subintendente do 1º distrito em 26 de maio de 1893 o senhor Pércio de Oliveira Freitas.
Tabela 2 - Executivo e Legislativo de Estrela (1893-1934)
Mandato Intendente Vice-Intendente Conselho Municipal
1893-1896 Pércio de Oliveira Freitas Não havia.
1896-1900 Pércio de Oliveira Freitas
João Ubaldo Nery (presidente 1896-98), Antônio Soares Izaguirre (presidente 1898- 1900), Jacó Schüller, Frederico Genehr Filho, Henrique Mallmann, Adolfo Martins Ribeiro e Valentim Kern.
1900-1904 Francisco Ferreira de Brito
Ernesto Zietlow e Geraldo Nicolau Snel
José Buchmann (presidente 1900-02), Carlos da Costa Bandeira (presidente 1902-04), Nicolau Ruschel Sobrinho, Jorge Steyer, Antônio Vítor Mena Barreto, Henrique Schüller e Olympio Cavagna.
1904-1908 Francisco Ferreira de Brito
Nicolau Müssnich (presidente), Antônio Carlos Porto, Luiz Dexheimer, Carlos Wildner, Frederico Dreyer, Adolfo Martins Ribeiro e Olympio Cavagna.
1908-1909 Nicolau Müssnich Manoel Ribeiro Pontes Filho João Ubaldo Nery (presidente), Adolfo
Zimmermann, Leonardo Kortz, Paulo Berti, João Gerhardt, Jacó Lang e André Göllner.
1909-1912 Manoel Ribeiro Pontes Filho Fernando Erdmann Scheeren
1912-1916 Manoel Ribeiro Pontes Filho Fernando Erdmann Scheeren
Manuel Pereira de Miranda (presidente), Filipe Mallmann, Henrique Guilherme Schwingel, Roberto Pilz, Henrique Júlio Hoerlle, Pedro Erpen e Guilherme Lengler.
1916-1920 Manoel Ribeiro Pontes Filho Fernando Erdmann Scheeren
Henrique Senger (presidente 1916-18), André Marcolino Mallmann (presidente 1918-20), Henrique Schneider, Pedro Braun, Henrique Beckmann, Emílio Lengler e Adolfo Fensterseifer.
1920-1924 Manoel Ribeiro Pontes Filho Frederico Neuhaus Fº
André Marcolino Mallmann (presidente 1920- 24), Leopoldo Adolfo Marder (presidente 1924), Augusto Frederico Markus, Manuel Dillenburg, Pedro Schaeffer Filho, Adolfo Gerhardt e Guilherme Tiggermann Filho.
1924-1928 André Marcolino Mallmann Helmuth Fett
Frederico Neuhaus Filho (presidente),
Frederico Schneider, Affonso José Horn, Henrique Hergemöller, Henrique Franken Filho, Pedro Schneider Sobrinho e Cristiano Fensterseifer.
Alberto Schmitz (presidente 1929-30), Edvino Schaeffer, Reinoldo Willrich, Henrique Afonso Hoffmann, Clemente Afonso Mallmann e Reinaldo Dahmer.
1930-1934 Augusto Frederico Markus Eugênio Ruschel Conselho Consultivo. André Marcolino Mallmann (presidente), Helmuth Fett e
Edmundo Alfredo Steyer.
Tabela elaborada pelo autor. Fonte: ABM/IHGRGS e SCHIERHOLT (2002).
Com o começo da Revolução Federalista e as movimentações no território gaúcho, os padres jesuítas resolveram convocar as lideranças republicanas e federalistas para buscar uma negociação de paz e fazer com que a região não fosse atingida pelo conflito. Apesar dos esforços pela tentativa da pacificação na região, os federalistas militantes foram incisivos na decisão de combater os republicanos locais e de dar apoio ao exército revolucionário de Gumercindo Saraiva.
A reunião que ocorreu no Centro Católico localizado na Vila teve a presença dos líderes republicanos Adolfo Martins Ribeiro, Joaquim Alves Xavier, José Antero de Siqueira, Afonso Martins Ribeiro e dos federalistas Luís Paulino de Morais, Luís Pereira de Azevedo, João Antônio da Cunha e João Ubaldo Nery. Os acontecimentos militares na fronteira, no planalto e nas zonas altas do vale do Taquari precipitaram o envolvimento desta região na Revolução. (SCHIERHOLT, 1989, p. 116-119)
O constante boato de uma possível invasão de tropas federalistas era sempre comentado nas delegacias, nas repartições públicas e nas vendas interioranas. Na manhã do dia 27 de maio de 1893, um sábado, a pacata vila de Estrela foi invadida por um grupo de federalistas comandados por José Altenhofen porém até a assinatura de um acordo de paz, em 23 de agosto de 1895, ocorreram outras três invasões à sede administrativa estrelense. A sustentação do domínio era frágil em virtude do avanço constante de tropas republicanas, o que forçava os federalistas a recuarem e se abrigarem no então distrito de Encantado, principal reduto das forças oposicionistas ao castilhismo.
Amenizado todo o período conturbado que fora a Revolução Federalista na região20,
principalmente no município de Estrela, a aparente acefalia do domínio republicano foi somente concretizada com a posse definitiva do Coronel Francisco Ferreira de Brito que
20 A vila de Taquari, durante toda a Revolução Federalista, foi o quartel-general dos castilhistas, servindo de
refúgio para todas as lideranças republicanas de Estrela e Lajeado que não aderiram à luta armada. Políticos republicanos, federalistas, intendentes, conselheiros municipais, juiz de direito, pároco, proprietários de casas comerciais e chefes de família reuniram-se na cidade de Taquari para decidir como enfrentar o problema [do começo da Revolução]. Ficou firmemente decidido que a comunidade não se envolveria. (SCHIERHOLT, 1989, p. 117-118).
recebeu essa incumbência de Pércio de Oliveira Freitas. Mas afinal, quem era essa liderança republicana?
Legítimo soldado republicano, Coronel Brito, que ficou conhecido como Chico Brito, foi designado para consolidar o recente regime republicano, nas regiões coloniais e segundo dados colhidos pelo historiador José Alfredo Schierholt, Brito nasceu no dia 14 de maio de 1862, provavelmente em Rio Pardo. Seus pais eram Joaquim José de Brito21 e Domiciana
Ferreira Andrade Neves, que eram ligados à importante família dos Andrade Neves. Na capital gaúcha, cursou o primário e o preparatório no Colégio Gomes, formando-se guarda- livros.22
Figura 3 - Coronel Francisco Ferreira de Brito que foi o chefe político estrelense de 1900-1908
Fonte: Álbum Comemorativo do Cinquentenário do município de Estrela, p. 17
21 Pai dos castilhistas Antônio Augusto Ferreira de Brito, secretário da Junta Municipal de Lajeado e de Francisco
Ferreira de Brito, engenheiro de obras públicas e mais tarde intendente de Estrela, Joaquim José de Brito foi um republicano adeso. Era sócio da Companhia de Navegação do Alto Taquari, juntamente com João Marques de Freitas, uma importante liderança federalista militante. (SCHIERHOLT , 1989, p. 79)
22 A função de guarda-livros é atualmente substituída pelo contador, podendo possuir um curso de contabilidade,
seja técnico ou em nível superior. Na época, quem detinha esse cargo era empregado do comércio, ou mesmo um profissional autônomo, que tinha a função de fazer o registro da contabilidade e das transações de uma empresa de negócios, escriturando seus livros mercantis.
Com a expansão acelerada da colônia alemã de Santa Cruz do Sul, mudou-se, no ano de 1884 com apenas 22 anos de idade, para estabelecer uma casa comercial. Bem provável que já havia aderido à causa republicana, mas mesmo assim assumiu a secretaria da Câmara Municipal de Vereadores e permanecendo no cargo até o ano de 1892. Fiel ao castilhismo, não concordou com o “Governicho” e pediu demissão do cargo, deslocando-se para Lajeado que fora recém-emancipado de Estrela.
Recebeu o título de Coronel da Guarda Nacional por defender o republicanismo na região do Alto Taquari, sendo nomeado Delegado de Polícia pelo seu pai Joaquim José de Brito23, então presidente nomeado da Junta Municipal de Lajeado. Durante sua curta gestão de
5 de agosto a 15 de novembro de 1891, desempenhou a função de advogado e empreiteiro de estradas, principalmente na localidade de São Gabriel, atual município de Cruzeiro do Sul.
Já prestigiado partidário do castilhismo, o Coronel Brito foi designado secretário municipal de Estrela no dia primeiro de abril de 1898, além de acumular as funções de presidente do Conselho Escolar. Indicado por Borges de Medeiros para o cargo de intendente, eleito em duas oportunidades e ficou na chefia política do Partido Republicano local de setembro de 1900 até outubro de 1908.
Vale ressaltar que a família Brito, histórica lutadora pela causa castilhista, foi a consoladora do regime, na região, assumindo vários cargos de comando durante os primeiros anos da concretização do PRR. Além do Coronel Brito ter se tornado intendente em Estrela, seu irmão, João Luís Ferreira de Brito, exerceu a chefia intendencial em Venâncio Aires. Ambos eram detentores de uma confiança elevada por parte de Júlio de Castilhos e posteriormente por Borges de Medeiros.
A primeira referência encontrada no ABM/IHGRGS ao município de Estrela e relatada pelo coronel intendente Francisco Ferreira de Brito foi um pedido de garantias do Estado para a obtenção de um empréstimo junto ao Banco do Comércio situado na Capital. Esclarecendo o suplemento orçamentário para Borges de Medeiros, mediante às condições expostas pelo estabelecimento bancário, Brito justifica o mesmo que “pelos próprios recessos, nas reduzidas abolições do imposto sobre estradas, não poderá, a administração local, ocorrer aos compromissos contraídos”.24 A realização de diversas obras de infraestrutura rodoviária no
extenso município aponta para o desenvolvimento colonial bem como a abertura de novas
23 Também era um dos sócios da Companhia de Navegação do Alto Taquari, tornando-se gerente da empresa no
mesmo período que exercia a função de presidente da Junta Municipal de Lajeado. Foi ele que garantiu a realização da primeira eleição do novo município de Lajeado, em 15 de novembro de 1891, quando transmitiu o cargo para Frederico Heineck, eleito para o cargo.
picadas no interior da colônia e a construção de pontes de pedra sobre os diversos arroios existentes comprovam o crescimento da produção e a constante reivindicação de melhorais das vias e trajetos e ao mesmo tempo apontam para um dos principais problemas encontrados por todos os governos das regiões coloniais como o escasso poder financeiro para a melhoria das estradas de rodagem.
Mesmo com o incremento dos impostos coloniais de exportação e de terras, os recursos nunca eram suficientes para atender às grandes demandas de obras. Por isso a necessidade constante das intendências em contrair empréstimos com empresários e comerciantes locais e também com os bancos de Porto Alegre. Mas mesmo que a “garantia será simplesmente nominal: o município saberá honrar o compromisso” como o intendente mencionou na missiva, as suas “relações com essa praça são tão limitadas” que o propósito principal da correspondência para Borges de Medeiros era que o Governo do Estado desse a efetividade da transação como devida salvaguarda.
Esses empréstimos também eram um empecilho para a administração intendencial que primeiramente constava na dificuldade de obter as devidas quantidades solicitadas, porque normalmente os bancos cobravam um alto juro sobre qualquer montante e muitas vezes poderiam alcançar até 20-25% das rendas municipais. O segundo problema era justamente a garantia que os intendentes davam com a aprovação dos respectivos Conselhos Municipais. Sobre as rendas da Intendência ocorria sempre a ideia de crescimento dos impostos, principalmente as de exportação, mas elas dependiam muito do período compreendido entre o preparo do solo, do plantio e da colheita. Muitas vezes, constantes secas, enchentes e pragas afugentavam os colonos e a consequência disso era a queda drástica das receitas do município. O terceiro embaraço era a solicitação, por parte do intendente, para a obtenção do Estado como “avalista” do empréstimo. Normalmente Borges de Medeiros colocava a necessidade de saber onde seria aplicada tal montante e sua justificativa que sempre era atendida com algumas solicitações como o envio de relatórios detalhados das movimentações com suas devidas aplicações.25 Outro detalhe era a demora em atender esses pedidos, o que
causava certo constrangimento ao intendente em reenviar as mesmas solicitações.
A notícia do falecimento de Júlio de Castilhos com apenas 43 anos de idade, no início da noite do dia 24 de outubro de 1903, num sábado, foi uma verdadeira comoção, cobrindo a capital e todo o Rio Grande do Sul de luto. Já afastado do poder executivo e debilitado pelo
25 Isso pode ser visualizado na carta de nº 2084, quando o Coronel Brito remete ao Presidente do Estado um
demonstrativo do movimento da conta corrente mantida com o Banco do Comércio e uma tabela com a aplicação da quantia de 15:970$000 retirado, do total de 30:000$000, com seus respectivos detalhes, no mês de julho a dezembro de 1903.
câncer na garganta, o patriarca republicano não resistiu à cirurgia de emergência e acabou falecendo. A cerimônia fúnebre ocorrida no dia seguinte à sua morte demonstrou uma verdadeira emoção nos milhares de participantes que acompanharam o cortejo. Até o final do mês de outubro, A Federação abriu espaço para demonstrar o impacto causado pelo óbito do líder máximo do PRR.
Alguns dias após o ocorrido, o Coronel Brito remeteu uma missiva demonstrando todo o seu apreço por Júlio de Castilhos e seu ardoroso patriotismo pela causa republicana. Emocionado pela prematura morte do “egrégio mestre”, o chefe político estrelense lembrou a Borges de Medeiros que “a obra-prima do grande e incomparável mestre não perecerá, [pois] em seus vastos lineamentos, revive inteira a personalidade imaculada de seu organizador”.26
Vale mencionar que a indicação de Brito para a administração dos interesses de Estrela, forte reduto federalista, foi do próprio Castilhos qualificado pelo seu seguidor como “majestoso edifício político rio-grandense”.
Aproveita então a oportunidade para depositar sua lealdade a Borges de Medeiros no processo de sucessão do legado republicano deixado pelo patriarca, ou seja, manteve-se fiel à decisão do partido em destinar a confiança no atual Presidente do Estado. Isso fica evidente quando Brito acentua sua defesa ao “vulto simpático [...] modesto, virtuoso e preclaro sr. Dr. Borges de Medeiros que, no momento histórico, melhor emana o pensamento, as ideias do chefe querido”.27 A turbulência na sucessão do carisma do “líder” já era pressentida pelos
correligionários. E essa herança deixada por Castilhos resultaria numa fissura interna, mesmo que o grupo borgista fosse de maior força. Esse predomínio somente será conquistado com o término do mandato de Carlos Barbosa Gonçalves, em 1913, momento esse em que Borges de Medeiros domina de vez a chefia política do partido.
Demonstrando sua sinceridade na correspondência, Francisco Pereira de Brito menciona ao Presidente do Estado que “essas tais condições – convocais e por vos anotarei todos os perigos, certo de que o nome querido de nosso estimado chefe será a bandeira sacramentada que nos guiará nas conquistas do futuro”.28 Fica entendido que o perigo de uma nova
conturbação no Rio Grande do Sul poderia suscitar com o desaparecimento do líder máximo republicano que poderia alimentar novamente o descontentamento por parte dos vencidos, como o mesmo Brito menciona no término da correspondência e também de forma interna com um possível hiato de liderança e luta constante pela chefia unipessoal.
26 Carta de Francisco Ferreira de Brito a Borges de Medeiros (n. 2083, 29/10/1903, Fundo Estrela/ABM/IHGRGS).
27 Ibid.
Em 21 de dezembro de 1903 a Vila de Estrela foi surpreendida pela notícia do assassinato do líder federalista José Altenhofen com 53 anos de idade e isso fez com que o intendente Brito enviasse um telegrama a Borges de Medeiros informando-o sobre o acontecido. Uma nova carta fora endereçada ao Presidente do Estado no dia 14 de janeiro de 1904 confirmando a morte do principal maragato da região. Dez dias depois, em uma nova missiva enviada a Borges de Medeiros confirmaram-se algumas informações acerca do ocorrido. De forma bastante cautelosa, o chefe republicano local tentou elucidar “as ocorrências que deram em resultado a morte do caudilho Altenhofen”.29
Principal articulador e chefe militar dos federalistas na região do Alto Taquari, José Altenhofen, dominou o município de Estrela por várias oportunidades durante o desenrolar da Revolução Federalista. Era admirado pela bravura e coragem por seus seguidores e odiado e hostilizado pelos republicanos locais. Existe uma lacuna historiográfica muito importante na compreensão dos seus seguidores que, mesmo não sendo propósito desse trabalho, deve-se evidenciá-la.30 Por isso é necessário destrinchar essa carta para compreender melhor o
ocorrido, mesmo que nos faltem confirmações evidentes por falta de fontes documentais. Antes do assassinato de Altenhofen, o Coronel Brito confirma que havia boatos vindo do interior do município que estaria sendo projetado um movimento armado a se irromper em Estrela. Essa atoada de sedição circulava com certa insistência e ganhou corpo quando um sobrinho de Altenhofen – o qual não é mencionado no documento – acabou realizando uma delação do plano para o intendente. Altenhofen seria o líder da conspiração com a ajuda de
29 Carta de Francisco Ferreira de Brito a Borges de Medeiros (n. 2085, 24/01/1904, Fundo Estrela/ABM/IHGRGS).
30 Aqui podemos abrir um parêntese importante. Preocupado com a perpetuação da memória sobre o evento
ocorrido na região entre republicanos e federalistas, o historiador Schierholt realizou uma intensa pesquisa buscando montar um quadro do desenrolar dos conflitos. Utilizando fontes primárias oficiais, narração oral, jornalística e memorialistas de vários participantes dos embates, esse livro tornou-se referência para o estudo da Revolução Federalista. Não somente no Vale do Taquari e sim os desdobramentos em nível Estadual, montando um cenário de como aconteceu a guerra civil numa região colonial envolvendo imigrantes e descendentes de alemães e italianos. Em relação aos dados colhidos sobre José Altenhofen, o autor utilizou qualificativos pejorativos, como o líder federalista ter sido “metido a orador”, “meio retardado” e “alcoólatra”. Convenhamos que esses adjetivos trazem consigo a nítida intenção de desqualificar essa importante personalidade estrelense. Ou esses dados foram apanhados pelo lado vencedor. “José Altenhofen, teria nascido lá por 1851, cinco anos antes, aproximadamente, da família ter comprado as terras em Beija Flor, à margem esquerda do Rio Taquari, defronte à cidade de Arroio do Meio. Ali José Altenhofen foi encarregado de administrar os serviços de barco e