4. MODELES D’OUTILS DE GESTION DU PTA POUR LA PLANIFICATION, LE SUIVI ET
4.1. O UTILS DE PLANIFICATION
4.1.4. Formulaire D (de suivi)
Ao contrário de outros títulos de revistas como Manchete, O Cruzeiro ou
Realidade, que mereceram inúmeros estudos e análises, Quatro Rodas foi um dos
primeiros representantes do que se chamou de revistas especializadas, ainda pouco comuns no Brasil de 1960 – e quase nada se produziu a seu respeito. Por muitos anos, os estudiosos do jornalismo sequer admitiam ser jornalismo o que se produzia nessas publicações "segmentadas", em comparação ao de notícias, ou hard news, o cultural ou o político, presente nos jornais e em revistas de ensaios literários, por exemplo.
O atual estado da arte da pesquisa nesse campo se mostra ainda disperso e pouco aprofundado, seja em questões de linguagem do meio, seja de sua atuação como formador de opinião – ou ainda como fonte de informação específica de determinado segmento social e de mercado, como é o caso do universo automobilístico. Portanto, antes de enveredar pelos teóricos estudados e pesquisados ao longo do desenvolvimento desta dissertação, para realizar a revisão bibliográfica, se torna indispensável ter como ponto de partida o próprio objeto estudado: a revista Quatro Rodas no contexto em que ela foi criada. Afinal, havia inúmeras razões objetivas, alinhadas tanto com planos do governo e da indústria quanto com os anseios da sociedade urbana de então, para que a aventura de uma revista de carros fosse empreendida em um país com pequena frota automobilística, predominantemente rural e sem a cultura do automóvel. Nesse contexto, foi necessário, em 1960, explicar por que fazer a Quatro Rodas.
Em seu primeiro editorial, a revista trouxe um texto de Victor Civita que deixa evidente, mesmo que isso não tenha sido consciente ou alinhado com qualquer teoria, o olhar estruturalista e funcionalista com o qual a própria Abril conduziu suas decisões editoriais envolvendo seu primeiro título masculino e de jornalismo. A revista representava a ponte para o que era necessário ser feito do ponto de vista da indústria: uma articulação entre o espaço de divulgação buscado por anunciantes e o volume de conhecimento que deveria ser transmitido ao leitor em formação. Ou seja: atuar como transformador de hábitos não só de consumo, mas também sociais. A publicação nascia com clara função, conforme o próprio Victor Civita, então editor da Editora Abril, anotou no editorial da primeira edição, no qual explicava as três razões pelas quais surgia naquele momento a revista:
[...] primeiro, porque a indústria automobilística brasileira brotou e expandiu-se tão ràpidamente nos últimos quatro anos, que o nosso país
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já se tornou um dos grandes produtores de automóveis e caminhões [...] Segundo, porque os proprietários e os compradores de carros no Brasil necessitam de uma publicação que lhes forneça informações completas e compreensíveis sôbre manutenção, consertos, serviços e características dos automóveis novos e "velhos". Terceiro, porque belíssimos recantos do nosso país estão esperando para serem descobertos ou valorizados turìsticamente por aquêles que possuem carro e um louvável espírito de aventura (QUATRO RODAS, ed. 1, 1960, p. 5. Itálicos do autor e texto na ortografia vigente quando da publicação original)
Essa sensação passada pelo texto, de otimismo com o momento brasileiro, não foi algo inventado pela revista. João Manuel Cardoso de Mello e Fernando A. Novais (1998) também detectaram o movimento social, como apontam no texto de introdução de
Capitalismo Tardio e Sociabilidade Moderna:
Os mais velhos lembram-se muito bem, mas os mais moços podem acreditar: entre 1950 e 1979, a sensação dos brasileiros, ou de grande parte dos brasileiros, era de que faltava dar uns poucos passos para finalmente nos tornarmos uma nação moderna [...] alguns imaginavam que estaríamos assistindo ao nascimento de uma nova civilização nos trópicos, que combinava a incorporação das conquistas materiais do capitalismo com a persistência dos traços de caráter que nos singularizavam como povo: a cordialidade, a criatividade, a tolerância [...] Para tratar das relações entre as transformações econômicas e as mutações na sociabilidade, manifestas na dura vida cotidiana e na precária privacidade, comecemos, portanto, por distinguir os momentos significativos que se estendem do pós-guerra aos nossos dias. Entre 1945 e 1964, vivemos os momentos decisivos do processo de industrialização, com a instalação de setores tecnologicamente mais avançados, que exigiam investimentos de grande porte; as migrações internas e a urbanização ganham um ritmo acelerado (MELO e NOVAIS, 1998, p. 560)
É naquele contexto, em que o país estabeleceu para si novos padrões de consumo, e para o qual a revista contribuía, que podemos proceder a essa leitura do momento social, econômico e cultural brasileiro, no qual, sob proposta estrutural e funcional, o lançamento da publicação responde claramente ao que Lasswell (1971) propõe como “modo conveniente para descrever um ato de comunicação”, que consiste em responder às seguintes perguntas (no que ficou conhecido como Paradigma de Lasswell):
Quem? (o comunicador = controle, quem “guia” o ato comunicativo) Diz o quê? (conteúdo)
Em que canal? (meio)
Para quem? (audiência/público alvo/target) Com que efeito? (impacto)
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Lasswell propõe perspectiva mais subjetiva (não só o denotado, mas também o conotado), porém não-crítica e de transmissão, em processo social e de comunicação que está banhado em questões culturais e fenômenos do contexto da recepção:
Qualquer processo [de comunicação] pode ser examinado de dois ângulos, a saber, o estrutural e o funcional. A nossa análise da comunicação tratará das especializações que acarretam certas funções, entre as quais podemos distinguir claramente as seguintes: 1) a vigilância sobre o meio ambiente; 2) a correlação das partes da sociedade em resposta ao meio; 3) a transmissão da herança social de uma geração para a outra (LASSWELL, 1971, p. 106)
Isto posto, pode-se traçar pelo Paradigma um paralelo com as funções biológicas e orgânicas, segundo a qual cada parte do sistema tem um papel, uma função específica em sistemas que se repetem (e que, segundo Conti, todos os sistemas obedecem a uma certa ordem), e obedecendo a uma visão positivista, todo sistema sempre busca o equilíbrio para progredir. O resultado: o processo comunicacional analisado sob a lógica behaviorista e positivista – com o olhar para o efeito, o impacto, uma novidade então nos processos comunicacionais.
O resultado que se busca, na verdade, é a comunicação em dois sentidos, que depende da reciprocidade entre comunicadores e audiência, no que se chamou de “circuitos de contato” – do qual me permito discordar apenas no que diz respeito à distinção feita por Lasswell dos centros controladores (manipuladores que modificam o conteúdo) e os centros manejadores (técnicos) de mensagens. Isso, porém, não invalida a visão de que valores são moldados, de modo até doutrinário, tendo a comunicação o papel de ser um meio de preservação do poder.
O discurso de Victor Civita em seu texto na revista e as pautas da primeira edição confirmam que tipo de vínculo a publicação propunha a seus leitores: o de caminhar juntos, o de ensinar x aprender, o de criar espaço em que o didatismo de um diz ao outro como funciona o universo do carro para atingir o efeito de aumentar o interesse das pessoas pelo assunto, de alimentar o sonho do consumo do automóvel.
No caso do lançamento da revista Quatro Rodas, além do desafio de estabelecer enquadramento noticioso, era preciso atender à função de entregar ao leitor, de forma didática, informações que pudessem desenvolver nele repertório capaz de torná-lo um interlocutor interessado e bem informado sobre o assunto carro, a ponto de transformá-lo em um leitor fiel a cada nova edição mensal – mesmo que o leitor nem fosse ele próprio motorista ou proprietário de automóvel.
35 Apesar de se falar em “manejadores” e “controladores”, é preciso fazer a ressalva do sentido estrito que o autor buscou ao cunhar a expressão: não se trata de manipulação dos fatos ou da verdade, mas de corte na informação pretendida. A melhor explicação para isso vem de outro conceito bastante difundido no universo da comunicação informativa: o enquadramento – ou framing, que Ervin Goffman (1974) estabeleceu em seu bastante difundido Frame Analysis: An Essay on the Organization of Experience:
Compreendo que as definições de uma determinada circunstância se constroem em consonância com os princípios organizacionais que determinam os eventos [...] e com nosso envolvimento subjetivo com eles; enquadramento é a palavra que eu uso para me referir a esses elementos básicos à medida em que sou capaz de identificá-los.
(GOFFMAN, 1974, p. 10, tradução livre)1
Análise mais centrada nos meios de comunicação é feita pelo autor norte- americano, Todd Gitlin (1980), ao abordar os enquadramentos na construção das representações midiáticas como ferramenta para a organização dos conteúdos e para um modo de estabelecer diálogo a partir de perspectivas em comum entre os meios e seus interlocutores:
Enquadramentos são fundamentos de escolha, foco e explicação compostos por pequenas teorias tácitas sobre o que existe, o que acontece e o que importa [...] são padrões persistentes de cognição, interpretação e apresentação dos assuntos, de seleção, ênfase e exclusão pelos quais os manipuladores de símbolos rotineiramente formam seus discursos [...] os enquadramentos das mídias calmamente organizam o mundo tanto para os jornalistas quanto para nós (GITLIN,
1980, p. 6-7, tradução livre)2
A importância de estabelecer padrões claros e definidos para o enquadramento, como forma de especificar canais de diálogo claro com os interlocutores, no caso dos meios de comunicação, se comprova pela grande quantidade de estudiosos que se debruçam sobre o tema, que já não mais é questionado – e nem tampouco confundido com maneira de manipular a informação de modo a influenciar ou criar dominação na recepção. O enquadramento, independentemente de eventuais diferenças conceituais entre autores, acaba sendo percebido no âmbito da mídia e do jornalismo em bases que, mesmo com diferenças substanciais, não são antípodas, cobrindo espectro conceitual
1
Cf. original: “I assume that definitions of a situation are built up in accordance with principals of organization which govern events […] and our subjective involvement in them; frame is the word I use to refer such of these basic elements as I am able to identify”
2
Cf. original: “Frames are principles of selection, emphasis, and presentation composed of little tacit theories about what exists, what happens and what matters […] persistent patterns of cognition, interpretations, and presentation, of selection, emphasis and exclusion by which symbol-handlers routinely organize discourse […] media frames quietly organize the world both for journalists and for us”
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que o classifica desde parte da realidade, essência da notícia ou, como classificaram McLeod e Detenber (1999):
O enquadramento de uma notícia é das mais importantes características de uma matéria jornalística, tanto por representar um padrão para orientar os jornalistas a como reunir fatos, citações e outros elementos de sua apuração em uma matéria quanto para orientar as interpretações de sua audiência (McLEOD e DETENBER, 1999,
tradução livre)3
Outro aspecto ligado às questões não só de enquadramento, mas do relacionamento entre a Quatro Rodas (bem como qualquer meio, mais especificamente os impressos) e seus leitores é o que Eliseo Verón chama de “contrato de leitura”, baseado em campos de efeitos de sentido semiológicos, em que um “mesmo conteúdo ou domínio temático possa ser assumido por dispositivos de enunciação muito diferentes” (VERÓN, p.219).
Por mais que alguns críticos de determinados meios os acusem de serem “parciais”, seja do ponto de vista político ou de outro aspecto que envolva visão de mundo ou das coisas, como foi o caso de Quatro Rodas, Verón aponta como lícito que as revistas assim procedam, possibilitando que se estabeleça contrato de leitura (dispositivo de enunciação) com pessoas que sigam o mesmo perfil de pensamento – desde que se observem questões éticas como a busca pela imparcialidade e pela verdade com a objetividade como parâmetro, deixando sempre aberto o espaço do contraditório e do plural que pautam o bom jornalismo. Para justificar essa posição, o autor lança mão do conceito de que o contrato de leitura é de mão dupla: assinado por um lado pela revista e, por outro, pelo leitor:
O conceito de contrato de leitura implica que o discurso de um suporte de imprensa seja um espaço imaginário onde percursos múltiplos são propostos ao leitor; uma paisagem, de alguma forma, na qual o leitor pode escolher seu caminho com mais ou menos liberdade, onde há zonas nas quais ele corre o risco de se perder ou, ao contrário, que são perfeitamente sinalizadas [...] indo de preferência para a direita ou para a esquerda [...] ler é fazer: é preciso, pois, terminar com o procedimento tradicional que se limita a caracterizar o leitor “objetivamente”, isto é, passivamente em termos de CSP (Categorias socioprofissionais) ou de estilo de vida... (VERÓN, 2004, p. 236. Itálico do autor)
Desse modo se pode dissecar e entender a função da Quatro Rodas como meio de comunicação, ferramenta com funções de manipulação e persuasão, perfeitamente
3
Cf. original: “The news frame is one of the most important characteristics of a news story, both in terms of providing a template that guides journalists in assembling facts, quotations, and other story elements into a news story and for orienting interpretations by audience”
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enquadrada no funcionalismo estadunidense: a ponte de diálogo necessário entre os interesses do Brasil que buscava se modernizar, a indústria/anunciante que investia no país e o público leitor – tendo a Abril como catalisadora do processo. Por outro lado, cabe a ressalva. Em nome desse enquadramento e da proposta de um contrato de leitura a seus leitores, surge um traço nascido da prática jornalística de Quatro Rodas que se manifesta até hoje nas revistas da Abril: a clara vocação performativa, em que a opinião da publicação se impõe, ditando padrões de comportamento incontornáveis.
Outro autor, Robert K. Merton (2000), porém, traz à cena novo componente a ser considerado dentro do sistema: a disfunção narcotizante, que questiona e contrapõe os conceitos vistos até aqui ao indagar sobre como os meios impõem sua visão e suas ideias sobre o gosto popular – gerando conformismo social:
Uma terceira consequência social dos mass media tem passado largamente despercebida. Pelo menos tem recebido poucos comentários específicos e, ao que parece, não tem sido sistematicamente usada com objetivos planejados. A ela podemos chamar a disfunção narcotizante dos mass media. É denominado disfuncional ao invés de funcional supondo-se que não seja do interesse da complexa sociedade moderna ter uma grande parcela da população politicamente apática e inerte. (MERTON e LAZARSFELD, 2000, p. 114, itálico dos autores)
No caso de Quatro Rodas, que, conforme Merton aponta, também faz parte dos “mass media [...] sustentados pelos interesses das grandes firmas (no caso da revista, as montadoras de automóveis) que se engendram no presente sistema econômico e social”, contribuindo “para a manutenção do sistema” (2000):
Os objetivos sociais são consistentemente expulsos dos media ao entrarem em conflito com sua rentabilidade. Contribuições dotadas de visão “progressista” são de pouca monta, já que são incluídas somente por graça dos patrocinadores e somente sob a condição de que sejam suficientemente aceitas a ponto de não distanciar parte apreciável da audiência. A pressão econômica contribui para o conformismo, omitindo questões sensíveis (MERTON e LAZARSFELD, 2000, p. 116. Itálico dos autores)
As demais funções sociais apontadas por Merton e Lazarsfeld, como a de atribuição de status e a de reforçar as normas sociais, são cumpridas por Quatro Rodas em seu lançamento – no caso, voltada para a transformação social e econômica do país pela alternativa sobre rodas. O resultado dessas contribuições? Afasta-se o conceito biológico de funcionalismo para, ao se adicionar a disfunção, reunir elementos de equilíbrio e de perturbação, funções manifestas e latentes e, desse modo, se aproximar ainda mais dos organismos sociais – e menos dos biológicos, trazendo para o campo de
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análise as contradições, natural desequilíbrio estrutural. No caso da revista: contrapor os dois “Brasis”, o da charrete e da terra e o das quatro rodas e da urbanização.
Uma maneira de contrapor a trajetória estrutural e funcionalista percorrida pela
Quatro Rodas é analisá-la sob a ótica marxista (não-ortodoxa) da teoria crítica dos
frankfurtianos, como relembra Bárbara Freitag (1986) ao citar a distinção feita por autores como Marcuse, Adorno e Horkheimer entre cultura e civilização em A Indústria
Cultural (1971), contrapondo o mundo das ideias e dos sentimentos ao da reprodução
material:
Otimismo x Pessimismo
Civilização (infraestrutura, das coisas substantivas) x Cultura (superestrutura, ideias)
Fazer (mundo da produção) x Saber (mundo das ideias) Corpo x Espírito
Trabalho x Lazer Ter x Ser
Os frankfurtianos introduzem o conceito da historiografia e quem escreve a história (“contada pelos vencedores”). Trata-se de buscar subverter a visão dos fatos não apenas pela infraestrutrura, mas também levando em conta a superestrutura (problematizadora). Essa é a base da crítica dos frankfurtianos ao que eles denominaram de indústria cultural, que, pela reprodução massificada pura e simples das obras de arte (e, por comparação, também do conteúdo do que é comunicado pelos meios de massa), não permite fruição. Para eles, era a “perda da aura”, que traria a “morte da cultura” pela massificação.
Ao aprofundar a análise de estudo desta dissertação, entendemos que há uma distorção quando esse campo de oposições (infraestrutura x superestrutura) confronta o mundo do trabalho/produção (identificado como sofrimento) ao mundo cultural (o da felicidade), bem como as oposições trabalho x lazer, exterioridade x interioridade... Como apontam os funcionalistas, é possível alcançar a harmonia entre esses universos “aparentemente” divorciados e irreconciliáveis (pela ótica frankfurtiana).
Na visão do pensamento marxista que envolve as análises frankfurtianas, o discurso proposto pela Quatro Rodas, em vez de ter função social na transformação da sociedade, como veriam os estruturalistas e os funcionalistas, enxergam na verdade um aparelhamento para a manutenção da ordem estabelecida, uma forma de dominação que mantinha a classe operária inerte:
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O interesse documentário de como a classe operária enfrentava as crises específicas do capitalismo do início do século XX transformou- se no interesse teórico do porquê de a classe operária não ter assumido o seu destino histórico de revolucionar a ordem estabelecida. Essa explicação era buscada na conjunção específica das macroestruturas capitalistas com microestruturas da família burguesa e proletária (FREITAG, 1986, p. 15)
Nesse sentido, a revista cerrou fileiras com o discurso manipulado, permeado de ideologia de mercado, que estimulava desejos não realmente necessários. E isso por estar alinhada com o discurso econômico vigente, que pregava o desenvolvimentismo brasileiro como o passo que falta para a grandeza do Brasil, utilizando o automóvel e sua indústria como armas mais poderosas,:
A razão acabaria por realizar-se concomitantemente com a liberdade, a autonomia e o fim do reino da necessidade. A Dialética do
Esclarecimento representa a ruptura com essa convicção profunda. A
onipotência do sistema capitalista, reificado no mito da modernidade, estaria, segundo essa nova análise, deturpando as consciências individuais, narcotizando a sua racionalidade e assimilando os indivíduos ao sistema estabelecido [...] dessa forma, a Dialética do
Esclarecimento tematiza, em última instância, a morte da razão
kantiana, asfixiada pelas relações de produção capitalista (FREITAG, 1986, P. 21)
Na visão do autor desta dissertação, aos olhos de hoje, após a explosão da urbanidade e sem o mundo dividido entre esquerda e direita, bloco capitalista e comunista, pensar em como a indústria cultural se apropria de manifestações culturais do cotidiano para transformá-lo em mercadoria tem peso ideológico menos “definitivo”, devido, principalmente, às contradições que se criam a partir daí – já que a recepção não será igual, por exemplo, ao se atingir as classes mais altas.
Exemplo disso pode ser analisar o rap, o funk ou outra manifestação cultural que, ao ser “incorporada” ou “apropriada” pela indústria cultural passa ser reproduzida, divulgada e usufruída pela “massa”, também passa a ser stablishment, main stream, por terem exatamente se tornado produtos culturais de massa consumidas pela elite. Da mesma forma que, em sentido contrário, Quatro Rodas, ao proporcionar espaços de comunicação para a criação e divulgação de "cultura do automóvel", não representou "imposição cultural" de cima para baixo, desvinculada do universo de interesse do receptor, já que vinha exatamente ao encontro de interesse real e pré-existente. Isso apesar de que, como subproduto, a cultura do automóvel, desde então, venha impregnada da cultura de posse. No caso da revista, mesmo quem não possuía o automóvel tinha interesse em adquirir sua cultura. E é esse fenômeno que explica parte do sucesso da
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revista. Nesse sentido, entende-se que a indústria automobilística ser favorecida é efeito apenas secundário, mesmo que inexorável.