destacam o papel da classe dominante no sistema de ensino: fazer manutenção da práxis e da cultura da classe dominante perante a classe dominada através da escola. Os autores afirmam que a escola é um ambiente reprodutor das desigualdades sociais, fazendo com que os jovens das classes econômicas e sociais inferiores compreendam e procurem se adequar à lógica da classe dominante, mesmo não possuindo completo acesso à mesma.
Em Bebida Velha, há apenas a oferta do ensino infantil e fundamental. Para frequentarem o ensino médio, os jovens precisam se deslocar da comunidade até o centro urbano de Pureza; e, para cursar o ensino superior, os jovens precisam se deslocar para áreas urbanas de outros municípios, estando alguns, inclusive, fora do território do Mato Grande. Esse fato demonstra o distanciamento das comunidades rurais de parte dos equipamentos educacionais. Para além do distanciamento físico, a juventude rural encontra também forte distanciamento da sua realidade com a dinâmica presente nesses espaços.
O Gráfico 3 chama a atenção para o fato de todos os jovens entrevistados estarem estudando ou terem concluído o ensino médio. Levando em consideração que no município de Pureza não possui oferta de cursos superiores, o número de quatro jovens entrevistados estarem cursando o ensino superior (1 na faixa de 19 a 21, 2 na faixa de 22 a 25 e 1 na faixa etária de 26 a 29) representa, de acordo com a amostra, uma boa inserção dos jovens no ensino superior, dada às barreiras existentes do acesso da juventude à educação.
Gráfico 3 – Escolaridade
Fonte: Elaboração própria (2020) a partir de dados da pesquisa tratados pelo software
DSCSoft 2.0.
A partir das entrevistas, os quadros a seguir refletem a construção do DSC no que tange à educação e nos possibilitam observar as relações de poder simbólico presentes na dinâmica educacional dos jovens rurais ao frequentarem a escola na área urbana. As Ideias Centrais (ICs) destacadas no processo de análise foram “Dificuldade na locomoção” e “Humilhação por parte dos jovens da cidade”, nos mostrando, assim, que os dois discursos coletivos possuem forte relação entre si.
Quadro 2 – DSC I do bloco Educação
Pergunta: Como é sua relação com os colegas de sala, professores e funcionários?
Fonte: Elaboração própria (2020) a partir da categorização no DSCSoft 2.0.
Quadro 3 – DSC II do bloco Educação
Fonte: Elaboração própria (2020) a partir da categorização no DSCSoft 2.0.
O fato de os jovens que residem na área urbana tratarem os jovens rurais de maneira excludente reflete a reprodução da histórica forma de tratamento em que os jovens do campo recebem no ambiente escolar. O estigma do meio rural como “atrasado, inferior, indigno etc.” é visto desde cedo através de atitudes, falas e comportamentos de crianças, adolescentes e jovens na escola. Para Bourdieu (1989), a violência simbólica exercida através moravam na cidade não se misturavam muito com os do interior. O povo da cidade quer pisar em quem é do interior. Eles não queriam se juntar comigo, eles mesmos queriam ficar distantes. Eu via isso como um certo tipo de preconceito com quem era do meio rural. Eles não me consideravam, é como se eu tivesse os mesmos direitos, é como se sempre tivesse que ficar em segunda opção por ser da zona rural. Os alunos me tratavam com preconceito, os professores não, os professores me tratavam de forma igual. Racismo também já rolou, mas eu segui em frente, levantei a cabeça e continuei na minha, mas em casa eu chorava muito.
Depoimentos: J04, J08, J11, J13, J14, J15.
Pergunta: Qual a sua maior dificuldade em relação a escola/estudos? Eu tinha muita dificuldade em ir para escola, a maior era o transporte, a prefeitura dava o transporte, mas quebrava muito e eu perdia muita aula. O transporte é ruim por causa da estrada, quando o ônibus quebrava perto daqui, eu voltava a pé, mas quando não, tinha que tentar achar sinal no celular para chamar outro ônibus. Sempre foi assim. Daqui para Pureza é um
pouquinho longe, então é muito cansativo, não é nem por acordar cedo, mas só de você sair daqui e ir para outro canto estudar já é bem cansativo. Para ir para a faculdade, eu saio daqui de 15h30, pego um carro pra Pureza, que são 18km de estrada de chão com trepidação e tudo e na volta chego em Pureza de 00h30, pra só depois voltar pra cá.
de constrangimentos, dores sociais e psicológicas se relaciona com a incompatibilidade de culturas. Nesse sentido, a incompatibilidade entre as dinâmicas dos jovens rurais e urbanos, quanto ao modo de falar, às gírias e às expressões etc., fortalece o distanciamento cultural e sustenta as relações de exclusão e violência simbólica exercida pelos jovens urbanos.
A maior parte dos jovens rurais que frequentam o ambiente escolar sofrem com “a distância, a difícil locomoção e, muitas vezes, a obrigatoriedade de percorrerem longas distâncias a pé em estradas de terra, chegando fora do horário, cansados e empoeirados” (CASTRO, 2009, p. 192). As dificuldades apontadas por Castro (2009) não são distantes da realidade vivenciada pelos jovens aqui em questão. Percebemos que o estigma atrelado ao jovem rural é sustentado pelas próprias barreiras que eles encontram, inclusive as dificuldades encontradas no percurso até a escola.
Ao saírem de suas comunidades até chegarem na escola, os jovens chegam no ambiente escolar tendo superado algumas barreiras, como longas distâncias, meios de locomoção precários e cansaço. Muitos ainda cumprem jornada de trabalho na agricultura antes ou depois do período de aulas. A diferenciação nas condições de acesso e aproveitamento dos estudos entre os jovens rurais e urbanos se torna ainda maior quando os jovens do campo encontram na escola um ambiente excludente por parte dos colegas de sala.
Chama a atenção o fato de que essa problemática foi citada em diversas entrevistas, ou seja, há uma “normalização” dessa questão percebida na frase: “sempre foi assim” (DSC II). Ou seja, o fato de os jovens rurais reconhecerem o tratamento excludente por parte dos jovens urbanos revela que as relações de poder simbólico no campo da educação, pelo menos para os jovens em questão, refletem uma dinâmica excludente e clara sofrida pela juventude rural. De acordo com os DSC, os jovens não sofrem apenas exclusões simbólicas ou subjetivas. São configurados, na verdade, em uma relação de poder que pode ser percebida também na prática, através de ações: “Eles não queriam se juntar comigo, eles mesmos queriam ficar distantes” (DSC I).
Essas relações conturbadas entre os jovens rurais e urbanos é resultado de uma série de entraves que sempre permearam as dinâmicas
vivenciadas por esses dois grupos. Um desses entraves é a falta de instituições de ensino voltadas para a educação do campo e para o campo ou que contemplem um modelo de educação que abarque as vivências, experiências e projetos da/para a população rural. A ausência de escolas em diversas regiões do país que consideram uma educação relacionada com contexto rural contribui para a reprodução de estigmas e preconceitos dentro do campo educacional.
De acordo com os jovens entrevistados que estão cursando o ensino superior (em áreas urbanas), os preconceitos e exclusões sofridos não são percebidos por eles no ambiente da faculdade, mas fizeram parte de suas vivências durante o ensino médio. Esse fator nos leva a considerar que o ambiente escolar pode ser compreendido como um campo que reproduz fortemente as relações de hierarquia social sustentada pelo imaginário popular do meio rural como atrasado, colocando-o sempre como um espaço inferior ao da cidade.
A conscientização de uma dinâmica preconceituosa existente na escola pode acarretar dois mecanismos por parte dos jovens rurais: o conformismo ou a estratégia de superação. O primeiro pode ser percebido através de afirmações como: “Sempre foi aquela coisa, né?” (DSC I) o que pode gerar uma normalização dessas práticas. O segundo, por sua vez, encontrado em frases como “[...], mas eu segui em frente, levantei a cabeça [...]” (DSC I) pode significar mecanismos de defesa criados pelos jovens para superar ou conviver com essa realidade. A hierarquização social não afeta apenas o acesso em si de bens e serviços para os grupos com menor “prestígio social”, mas exerce influência também nas dinâmicas sociais presentes na utilização desses bens e serviços.
A dinâmica educacional institucionalizada segue o fluxo das influências dos campos mais homogêneos da sociedade e é refletida nos currículos escolares e demais fatores homogeneizadores. Desse modo, a educação recebida pelos jovens rurais continua, de maneira geral, sendo uma educação baseada nos padrões urbanos, que não agrega práticas e saberes do meio rural. Isso implica afirmar que os paradigmas do campo não adentram o ambiente escolar, distanciando assim, a educação da realidade vivenciada
pelos jovens rurais. Esse distanciamento pode estar relacionado com a complexidade no processo de afirmação da própria identidade do jovem enquanto um “jovem rural”.