Na etapa CC dos estudos realizados, o expresso estava sob a influência de pistas não- fóticas através do padrão diário de vocalização dos coespecíficos presentes na parte externa da Colônia e, portanto, o padrão circadiano de atividade observado poderia não estar em livre- curso. Com base nos dois estudos, é possível observar que na fase adulta, o sagui apresentou período menor que 24 horas em condições de CC, característico da espécie nesta fase (Erkert, 1989; Gonçalves et al., 2009). Na fase idosa, o prolongamento do pode evidenciar uma relevante mudança influenciada pelo envelhecimento. Precisaríamos de mais investigação para afirmar esta evidência e estabelecer relações causais entre o aumento do e os processos normais ou patológicos de envelhecimento. Erkert (1989) destaca em seu estudo que o aumento de pode estar associado à idade. Animais com idade inferior a 3 anos apresentaram em condições CC período endógeno menor (±horas) do que os animais com mais de 4 anos (±horas). Ao todo foram estudados 15 animais (5 machos e 10 fêmeas) com idades de 1,5 a 8 anos. Talvez a faixa etária adotada por Erkert (1989) tenha englobado desde saguis subadultos até idosos, o que poderia estar relacionado com os resultados apresentados.
As alterações no período endógeno com o envelhecimento podem ser distintas entre as espécies estudadas. Diversos estudos em roedores descrevem a redução do período endógeno com o envelhecimento, como observado em hamsters (Morin, 1988; Pittendrigh e Daan, 1974; Rosenberg et al., 1991), em ratos (Rietveld et al., 1985; Van Gool et al., 1987) e em deermice (Pittendrigh e Daan, 1974). Outros estudos realizados relatam o prolongamento do período endógeno com o envelhecimento, como descritos para ratos (Possidente et al., 1995; Mayeda et al., 1997) e camundongos (Gutman et al., 2011). Em primatas não-humanos, o envelhecimento está associado < 24h, como foi observado em macacos Rhesus, Macaca
mulatta, (Zhdanova et al., 2011) e em Microcebus murinus (Aujard et al., 2006). Em humanos,
porém, a redução do descrita em idosos parece estar associada com a metodologia usada na investigação, e que seriam necessários outros estudos para analisar as mudanças no com a idade (Kendall et al., 2001).
110 As razões para a ampla diversidade interespecífica para os valores de tau em animais idosos não são explicadas, mas tem sido sugerido que ter um tau que se desvia pouco das 24 h confere alguma capacidade funcional adicional, possivelmente relacionada à adaptação sazonal. Dessa forma, o > 24h dos saguis idosos e no sagui adulto próximo ao óbito, apoiam a hipótese de que os valores de tau que desviam mais do valor de 24 horas impõem um aumento da exigência diária para sincronização, e isso pode resultar em um custo fisiológico cumulativo, que afetaria negativamente a expectativa de vida (Wyse et al., 2010).
No estudo 2, foi observado um padrão distinto da sincronização social por pistas auditivas de coespecíficos do ritmo circadiano de atividade em relação à idade. A maioria dos saguis idosos apresentou aumento do nas etapas iniciais em CC, e após cerca de 30 dias, houve coordenação relativa do RCA com as pistas sociais. Os animais idosos apresentaram aumento do nos primeiros dias e depois foi estabelecida uma relação de coordenação relativa para alguns, enquanto que para outros houve a perda da sincronização social com a expressão de > 24h. O grupo adultos I apresentou h nos primeiros dias em CC e houve a manutenção de uma relação de fase estável ao longo desta etapa. De forma distinta, o grupo adulto II apresentou menor do que 24 horas nos primeiros dias, e, posteriormente, foi estabelecida uma relação de fase estável entre o ritmo circadiano de atividade e a pista social.
O efeito sincronizador e/ou modulador das vocalizações de coespecíficos sobre o ritmo circadiano de atividade em saguis já foi demonstrado em estudos anteriores do nosso laboratório (Mendes et al., 2008; Gonçalves et al., 2009; Melo et al., 2013; Silva et al., 2014). E essa pista temporal é de grande importância em espécies com padrão social quando fornecida de forma isolada ou capaz de se tornar um fator coadjuvante, quando associada à sincronização fótica. No presente estudo, o efeito das pistas auditivas parece ter modulado a entrada fótica e, que a sincronização por atraso de fase observada em CC seria causada diretamente pela pista fótica incidente no final da fase ativa. Estudos realizados com esta espécie indicam o ciclo CE como zeitgeber preponderante para promoção da sincronização (Erkert e Schardt, 1991; Silva et al., 2014).
De acordo com a CRF para estímulos fóticos em saguis, estímulos luminosos que incidem no final da fase ativa são capazes de causar avanços de fase (Wechselberger e Erkert, 1994). Desse modo, quando os animais apresentaram menor que 24h, a fase de atividade foi
deslocada para horários mais adiantados, fazendo com que o meio do dia subjetivo coincidisse com o início da fase do estímulo social. Com isso, os animais se tornariam mais ativos no final da atividade, receberiam maior incidência luminosa e esta provocaria ajuste por atraso de fase. Esse resultado parece estar de acordo com o ajuste de fase observado no grupo adulto II, pois os animais entraram em livre curso com < 24h, e depois apresentaram sincronização estável e mais robusta em comparação aos demais grupos. Para o grupo adulto I, a sincronização às pistas sociais foi robusta, mas as vocalizações parecem ter promovido o aumento da entrada fótica e, consequentemente, maior ajuste de fase ainda na condição anterior à introdução ao CC, pois na primeira etapa CE, a maioria dos animais do grupo adultos I já exibia uma alocação da fase ativa mais coincidente com a dos animais externos. Por isso, em CC, o perfil do ritmo circadiano de atividade expresso já estaria indicando o estabelecimento da sincronização fótica induzida pela sincronização social mediada por pistas auditivas.
Entretanto, na condição de CC, a ação isolada dos estímulos sociais para promover a sincronização social estável parece depender fortemente da idade. Os valores das diferenças de ângulo de fase do início (is) e fim (fs) da fase ativa “social” para os animais adultos foram
mais próximos de zero, representando que estariam sincronizados e com perfil de atividade em fase (sincronia social) com os animais presentes na parte externa na Colônia. Para os animais idosos, os valores de is e fs mostram que houve modulação do RCA às pistas sociais com
expressão de padrão menos estável, que poderia estar associada à existência de uma coordenação relativa. Os dados obtidos neste estudo confirmam a hipótese de que a sincronização e/ou modulação não-fótica por pistas auditivas é mais enfraquecida nos saguis idosos. Desse modo, a ação do estímulo social seria capaz de promover um ajuste temporal e sincronizar o RCA nos saguis adultos, enquanto que para os idosos este zeitgeber social parece atuar com menor força. No animal idoso, esse efeito pode ser decorrente de debilidades do STC em captar, processar e transmitir as informações auditivas, e, dessa forma, reduziria a regularidade da entrada não-fótica e a sincronização não-fótica do ritmo circadiano de atividade.
O efeito da sincronização social parece ter influenciado a ressincronização ao CE. Os animais idosos apresentam baixo efeito modulatório do RCA às pistas sociais na condição CC, por isso, nos animais que ressincronizaram ao ciclo CE, a expressão do > 24 h (“Cássio”)
112 ou < 24 h (“Clarus” e “Oswaldo”) estaria associado a ressincronização por atrasos e avanços de fase, respectivamente, com quantidade de transientes maiores. Em CC, o grupo adultos I apresentou sincronização ( 24h) com forte sincronia social com os animais externos que estavam em CE natural (fotofase ~5:00 h às ~17:00 h), e a reexposição ao CE mais cedo (das 3:00h às 15:00h) impôs uma ressincronização fótica por meio de avanço de fase, na qual foi observado o forte efeito de mascaramento e a ausência de transientes para 3 dos 5 animais avaliados. Para os animais do grupo II, o expresso foi menor que 24 h, e a reexposição ao CE promoveria o reajuste através de atraso de fase, com presença de aproximadamente 5 transientes. Para os animais adultos no presente estudo, a resposta à ressincronização ao CE parece similar aos dados de Mendes et al. (2004). No entanto, a quantidade maior de transientes nos animais idosos pode indicar debilidade no sistema de temporização circadiano de promover a sincronização fótica.
Os dados sobre os valores de apresentados na condição de CC e a capacidade de sincronização fótica e não-fótica podem evidenciar outras características sobre as propriedades do STC: a geração e sincronização dos ritmos biológicos. Os animais idosos apresentaram > 24h, o que seria um padrão distinto para espécie na fase adulta. Esta diferença poderia representar modificações importantes na capacidade de geração do ritmo circadiano de atividade. Além disso, a coordenação relativa ou a falta de sincronização ao CE e aos estímulos não-fóticos poderiam demonstrar que a capacidade de sincronização também estaria sendo afetada negativamente pelo envelhecimento. Entre os animais adultos poderia haver um gradual neste processo, em que primeiro poderia ser perdida a capacidade de sincronização e depois a capacidade de geração. No grupo adultos I, haveria menor capacidade de geração, pois o foi próximo a 24 h, mas ainda responsivo aos estímulos ambientais, sendo capaz de apresentar forte sincronização fótica e acoplamento não-fótico (sincronia social). O grupo II estaria com as duas propriedades mantidas, sendo evidenciadas pelo menor que 24 h em CC e com a capacidade de sincronizar aos estímulos fóticos e sociais.
Estudos mostram que as duas propriedades do STC podem sofrer ação distinta do envelhecimento, evidenciando que a expressão deficitária da capacidade de sincronização fótica pode anteceder a perda da geração rítmica do RCA, como foi evidenciado no estudo realizado com ratos de meia idade até o óbito (Weinert e Weinert, 1998). Além dessa
evidência em ratos, o estudo recente realizado em moscas (Luo et al., 2012) evidenciou que o envelhecimento pode gerar baixa amplitude e instabilidade da sincronização em osciladores periféricos, enquanto que o padrão rítmico robusto poderia ainda ser expresso em osciladores centrais. Os dados em saguis também reforçam que a perda dessas duas capacidades possa ocorrer em momentos diferentes, bem como ocorre para o surgimento. Em outras palavras, para os saguis, o processo de envelhecimento poderia levar a perda da sincronização antes da perda da capacidade de geração dos ritmos biológicos, dessa forma, nas etapas finais da vida o processo ontogenético levaria a uma inversão ao que se observa no início da vida de um organismo, com o surgimento primeiro da geração rítmica e, posteriormente, do processo de sincronização aos zeitgebers (Weinert, 2005).
Com base nos resultados apresentados, as perspectivas futuras apontam para a necessidade de estudos para evidenciar as modificações decorrentes do envelhecimento no período endógeno do ritmo circadiano de atividade na ausência de quaisquer pistas ambientais. Em suma, este estudo possui um caráter descritivo importante por ser pioneiro na descrição da influência do envelhecimento sobre as propriedades do STC em saguis, a partir da evidência de que pode haver a redução da amplitude, aumento da fragmentação, atraso de fase e prolongamento do período endógeno do RCA na fase idosa. A dificuldade encontrada em obter marcadores de fase do RCA no animal idoso substancia a discussão para a importância da adequação dos métodos e uso parâmetros de atividade como biomarcadores significativos para alterações decorrentes do envelhecimento, passando a apresentar uma grande importância para os estudos que tenham como interesse a investigação ontogenética do ritmo circadiano de atividade e de outras variáveis fisiológicas em primatas. Estudos adicionais com um maior número de indivíduos são necessários para confirmar as evidências observadas.
114
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir do conjunto de dados que compararam amplitude, estabilidade, fragmentação e alocação da fase ativa do ritmo circadiano de atividade (RCA) entre saguis adultos e idosos é possível apontar que o envelhecimento pode gerar modificações nas propriedades de geração, sincronização fótica e não-fótica por pistas auditivas de coespecíficos, e consequentemente na expressão dos ritmos biológicos nesta espécie.
Dessa forma, sugere-se que o envelhecimento em saguis pode estar associado à: 1) menor amplitude e maior fragmentação da atividade, acompanhadas de atraso de fase com prolongamento do , possivelmente em função de mudanças na captação de pistas fóticas, na geração e na expressão comportamental do RCA; 2) menor capacidade de sincronização fótica do ritmo circadiano de atividade, que pode se tornar mais robusta em condições de iluminação artificial, possivelmente pelas maiores intensidades luminosas no início da fase ativa devido às transições abruptas entre as fases de claro e escuro; e 3) menor capacidade de sincronização não-fótica por pistas auditivas de coespecíficos, possivelmente por redução na captação sensorial e na resposta dos osciladores circadianos às pistas auditivas, podendo tornar o sagui idoso mais vulnerável, pois estas pistas sociais podem atuar como um importante fator coadjuvante para a sincronização fótica.
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