Em especial no século XIX e no começo do XX, as coleções foram fundamentais para o ensino e a pesquisa nas universidades, pois a instrução era baseada no estudo de espécimes (daí a importância dos acervos universitários). Esse quadro continuou até a segunda metade do século XX. No fim da década de 1970, verificou-se uma crise relativa ao financiamento entre os Museus Universitários (nos da Grã-Bretanha, por exemplo, quando as universidades tiveram seus orçamentos reduzidos por governos que adotavam políticas liberais). De forma concomitante, houve mudanças graduais nos métodos de ensino em muitas disciplinas, resultando no abandono gradativo da aprendizagem fundamentada nas coleções (Merriman, 2002).
Nos anos de 1980, mais precisamente em 1986, durante a conferência da Museum Association, Warshurst (1986) chamou atenção para os problemas enfrentados pelos museus e pelas coleções universitárias. Diretor do Manchester Museum, ele deu destaque ao que denominou de crise dos museus mantidos por universidades ou “tripla crise dos museus e coleções universitárias”. Segundo o gestor dessa instituição, três aspectos caracterizavam a difícil circunstância. Em primeiro lugar, havia uma crise de identidade e de propósitos; em segundo, uma crise de reconhecimento por parte da universidade e da sociedade; em terceiro, uma crise de recursos.
Museus), e nos congressos da área de Museologia, também houve a percepção de um momento de crise. Novos desafios despontaram em consequência do fim da Guerra Fria e do fim da polaridade instaurada por esse conflito, seja no que se referia às novas configurações geopolíticas pós-coloniais, seja do ponto de vista da política internacional (e mesmo por conta de novas referências culturais).
Era um tempo de redefinição na Museologia, e esse contexto ocasionou o surgimento de muitos questionamentos no setor. Conforme Anico (2008), surgem “indicadores da emergência de um novo paradigma museal, após a Segunda Grande Guerra, constatando-se não apenas o crescimento exponencial do número de museus, mas também a ampliação, modernização e diversificação dos mesmos” (p. 120). Todo o quadro evidencia as transformações de longo alcance que ocorreram globalmente e afetaram os museus e seus intelectuais. A práxis moderna sólida estava sendo posta à prova e questionada.
Quanto aos museus e às coleções universitárias, o alarme provocado pela crise impulsionou algumas iniciativas. Foi nessa época que surgiram os primeiros grupos organizados em prol dos Museus Universitários, principalmente na Grã-Bretanha. Um amplo programa para a realização de investigações quantitativas foi estabelecido. Esses estudos centraram-se na realização de levantamentos sobre a quantidade de Museus Universitários e de suas coleções, além de procurarem averiguar em que estado de conservação elas se encontravam e como enfrentavam as adversidades da situação crítica. Conforme relatamos no
Capítulo 1, numerosos artigos de fundamentação conceitual e teórica, bem como relatórios
que continham orientações para a melhoria do estado dos museus e das coleções universitárias, foram elaborados e publicados.
Assim, as mudanças, as crises e os questionamentos passaram a ser frequentes, tanto nos Museus Universitários quanto nas instituições museais não universitárias. As alterações estruturais e tecnológicas da segunda metade do século XX sinalizaram a quebra dos paradigmas modernos, marcados pela vertiginosa aceleração das relações em todos os âmbitos da vida humana, em maior ou menor escala, mesmo nos rincões mais distantes do globo terrestre. Essas transformações exigiram novas tomadas de posição em todas as esferas da existência humana. Os museus acompanharam as mudanças, em menor ou maior medida, condicionados por suas peculiaridades. Naturalmente, a universidade, as coleções universitárias e os Museus Universitários não poderiam ficar alheios às grandes modificações em curso.
De acordo com Lourenço (2005), a universidade (que é um organismo complexo) é o “bem” e o “mal” de seus museus. Ela possui um papel e compromissos em relação à
comunidade em que está inserida. Em tempos próximos aos atuais e à perda de importância das coleções no ensino universitário, as universidades passam a ser fundadas para promover mudanças estruturais e potencializar dinâmicas econômico-sociais em regiões de baixo dinamismo. De acordo com a história dos Museus Universitários e das universidades, essas instituições possuem, implantam ou assumem coleções ou museus nas localidades onde atuam e, até mesmo, em lugares distantes (em campi avançados), por serem instituições reconhecidas e, portanto, aptas a assumir tais compromissos; afinal, ou possuem pessoal e recursos técnicos para desempenharem as atividades necessárias, ou reúnem condições para realizá-las. A concentração de recursos e o domínio do saber/fazer (ou poder/conhecimento) conferem às universidades e aos Museus Universitários um status diferenciado no meio museológico, embora isso não configure um privilégio ou um qualificativo de superioridade em relação aos museus sob tutela de outra natureza. Esse aspecto apenas significa que, nos Museus Universitários, a produção de saber teve condicionantes diversas das dos museus tutelados por organismos diferentes.
Se pensarmos nas estratégias da práxis intelectual moderna sólida descritas por Bauman (2010), podemos dizer que universidades e museus são instituições fundadas durante a modernidade sólida. São instituições que espelhavam e atuavam como agentes da (con)solidação das sociedades “sólidas”. Elas elaboravam, divulgavam e passavam às próximas gerações discursos que davam suporte aos valores e práticas dessas sociedades.37
Tanto os museus quanto as universidades são labirintos burocráticos; instituições que, em seu dia a dia, possuem uma dinâmica contraditória de novas exigências apresentadas pelas constantes mudanças e pelas adaptações às renovadas demandas da sociedade e das novas formas de produção de conhecimento. Ao mesmo tempo, esforçam-se por conservar e divulgar os cânones do conhecimento científico, artístico e histórico, entre outros. Essas contradições não passaram a fazer-se presentes só agora, nos nossos dias, no interior dessas instituições, mas os novos tempos caracterizados pela constante transitoriedade (que compreensivelmente implica paradoxos de diversas naturezas acentuando essas contradições). A natureza do conhecimento universitário − em seu persistente movimento de superação − implica um conjunto de demandas contraditórias que se impõe às universidades e aos Museus Universitários e configura claramente a práxis intelectual moderna sólida de constante atualização. Diante das mudanças ocorridas, tanto nas universidades quanto no setor dos museus, percebemos uma intensidade maior nos processos de fluidez e liquefação das
37 Tanto é assim que a definição adotada pelo ICOM no que se refere aos museus fala de “instituições de caráter
instituições e dos campos do saber, como tentativa de adaptação às condições dos novos tempos de aceleração vertiginosa da velocidade e de instabilidade nas relações e atividades humanas. Infere-se, desse modo, que o museu do tempo presente está também caracterizado pela impermanência e pela transitoriedade, pois o campo museológico está sob constante discussão e reflexão crítica, à procura da definição de novos paradigmas conceituais para os museus e para a Museologia, colocando em xeque o próprio conceito de museu ou do que este virá a ser. Ou seja, hoje há debates mais frequentes e candentes, que apontam para o futuro dos museus. Afinal, existe a busca pela superação e pela atualização das instituições museológicas, atualização essa cada vez mais veloz e fluida. Enfim, esses fatos espelham as condições da modernidade líquida.
Em síntese, tanto universidades quanto museus (e, por conseguinte, os MUs) estão vivenciando uma constante atualização e um período de transitoriedade, em um contexto de reelaboração dos modelos e paradigmas seculares da universidade e dos museus. Nestes últimos, isso se dá de maneira mais facilmente perceptível, por sua natureza visual, ou princípio de visibilidade.38