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Tendo em vista o quadro delimitado de nossa problemática, cujo recorte temporal é a

modernidade líquida − sociedades em rede, no âmbito dos museus e coleções universitárias;

questionamentos e debates da Museologia contemporânea −, adotamos como noção operativa

de nossa investigação o conceito de “museu líquido”.

é feita por Van Oost (2012). A autora assim o define com base em noções e análises sociológicas da modernidade tardia e busca superar as definições existentes até agora (como a do ICOM). Mais especificamente, pretendia superar, os problemas impostos pelas abordagens museológicas contrárias, ou seja, pelas conceituações centradas nos objetos e coleções e por aquelas que se pautam pelo privilégio das audiências. Van Oost (2012) considera que, no

panorama social e tecnológico caracteristicos da modernidade líquida, a divisão entre audiências e coleções é obsoleta. Portanto, propõe uma abordagem em relação aos museus que integre diferentes pontos de vista, a partir de redes não hierárquicas, imateriais e materiais, compostas de pessoas, instituições e objetos em um ambiente caracterizado pela “Internet of

Things”.35 De acordo com a proposta de Oost (2012), a “Internet of Things‟ permite uma nova perspectiva relativa aos museus que integra diferentes enfoques e pontos de vistas. Esses museus podem ser chamados de “museus líquidos”.

Van Oost (2012) explica que, desde que foi caracterizada a modernidade líquida, os museus passaram a ser questionados e a questionarem-se a si próprios (em um processo de autorreflexão, portanto) quanto aos modelos e padrões de referência da modernidade sólida. O que se discutiu foi o quanto os museus foram, e em grande parte continuam sendo, hierarquizados, cronológicos, elitistas; brancos, masculinos e ocidentais. Tais

questionamentos buscaram um deslocamento das abordagens centradas no objeto-coleção para aquelas centradas nas audiências, dando maior ênfase à experiência e ao patrimônio.

Mesmo após sua reformulação, a definição do ICOM é desafiada, dia após dia, pelas mudanças constantes e problemáticas impostas aos museus na tarefa de equilibrar educação, ensino, audiências e conservação dos acervos e do patrimônio comunitário e participativo.

Embora as pressões e questionamentos sejam frequentes, os estudos de Oost (2012) demonstraram que, de maneira geral, os museus tendem a ser bastante avessos a novas

abordagens e fechados em si. Falta muito ainda a ser feito para superar o desafio de misturar e equilibrar as diferentes visões e enfoques no que se refere aos objetos, coleções, exposições e audiências. A autora propõe, então, um conceito de museu que seja centrado na Sociologia da Modernidade e que, dessa maneira, possibilite compreender nosso tempo.

Igualmente questionado no contexto da modernidade líquida é o tradicional sistema de autoridade, hierarquia e instituições que traduz as relações específicas do poder moderno, em

35 A IOT (Internet of Things) é uma área muito específica dentro das Ciências da Computação que cobre uma

variedade de tecnologias comumente chamadas de ―smart technologies‖ ou, em tradução literal, “tecnologias inteligentes”. Em geral constituem códigos similares ao código de barras para preços; entretanto, como se trata- se de uma “tecnologia inteligente”, esses códigos são capazes de se atualizar em dadas circunstâncias, ou seja, não são estáticos, mas dinâmicos (Van Oost, 2012, p. 5).

razão da incerteza e da dúvida que começam a prevalecer nessa conjuntura. Segundo Oost (2012), esse momento de transição exerce profunda influência sobre os museus na sociedade. A modernidade líquida não proporciona quaisquer cenários ou aspectos fixos quanto à legitimidade dos museus públicos, e muito menos respostas, de forma que também será necessário questionarem-se as fronteiras, existentes nos museus, entre objetos e audiências. Desse modo, o conceito busca jogar luz sobre a necessidade de um museu fluido e híbrido, no qual as diferenças não sejam tão marcantes e a abordagem dos elementos seja integral e circular. Isso se torna decididamente importante em uma sociedade que está ingressando em uma era digital, em que a distância entre objeto e audiência não é mais tão relevante e na qual, pessoas, coisas e instituições podem contribuir valiosamente, todos ao mesmo tempo, como atores, pelo menos em teoria.

Van Oost (2012) afirma que a abordagem fundamentada no conceito de museu líquido foi bem recebida em Flandres, região onde as pesquisas dessa autora foram desenvolvidas. Entretanto, o ponto mais crítico da mencionada noção é que o museu líquido constitui ainda uma perspectiva preliminar e, principalmente, um discurso teórico; na prática diária dos museus, esse tipo de conceituação está longe de assumir lugar e, em geral, há um desejo de manutenção do status quo.

Na presente investigação, iremos verificar a aplicabilidade da noção de museu líquido. Aqui ela terá, em boa medida, a carga do conceito já enunciado por Van Oost (2012), em razão de sua natureza híbrida. Porém, ao considerarmos a Sociologia da Modernidade e autores como Bauman (2001) e Castells (2000), iremos operacionalizá-lo de modo a

concentrarmo-nos mais no aspecto organizacional (tendo em vista o contexto da tutela universitária dos museus, suas finalidades e propósitos) do que nas abordagens museológicas em si, embora haja importantes comunicações entre esses elementos, como a autora ressaltou em seus estudos. Tais comunicações serão detidamente investigadas, uma vez que integram

parte dos objetivos propostos para a elaboração da tese.

Portanto, agora recorreremos às considerações de Bauman (2001) quanto às principais características da modernidade líquida, a fim de determinar e operacionalizar o conceito de

museu líquido no contexto em foco. O autor estabelece como metáfora para o nosso tempo a

ideia de “fluidez”. Vejamos:

O que as características dos fluidos mostram é que os líquidos, diferente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade, os líquidos não fixam o espaço e nem prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, diminui a significação do tempo, resistindo ao seu fluxo ou tornando-o irrelevante (como os museus e universidades). Os fluidos não se atêm muito a qualquer forma, e estão

constantemente prontos a mudá-la. Para eles o que conta é o tempo mais do que o espaço que lhe cabe ocupar e que, afinal, preenchem por apenas um momento (Bauman, 2001, p. 9)

A questão que se apresenta, pois, é a da transitoriedade de nossos tempos e o imperativo de adaptação constante, ao qual pessoas, objetos e instituições estão sujeitos na modernidade líquida. As transformações ocorridas nos últimos 30 anos, promovidas pela progressiva introdução das TI‟s em todas as esferas das atividades humanas, assim como as consequentes e constantes conectividade e simultaneidade de informações, alteraram o cotidiano das pessoas e instituições. Em seu livro, Bauman (2001) discute essas transformações e seus impactos no mundo das relações humanas, fundamentando-se nos conceitos de liberdade, nas condições da nova “individualidade”, na contração e na fusão de tempo e espaço, no trabalho, nas instituições, no casamento e nas demais relações humanas.

Das reflexões de Bauman (2010) apropriamo-nos de algumas considerações em específico e reenquadramos a crise dos Museus Universitários e universidades. Tanto aqueles como estas são instituições surgidas no contexto da modernidade sólida. Com efeito, museu, de acordo com a definição do ICOM, é uma instituição de caráter permanente, portanto sólida.

Se considerarmos a datação das primeiras instituições e, ainda mais, a fundação do primeiro Museu Universitário e do primeiro museu público, certamente estaremos falando do nascimento da modernidade sólida. Tanto a universidade quanto os museus foram instituições criadas para suportar − com valores de verdade e, portanto, imbuídas da autoridade conferida pelas sociedades que as criaram − os pilares das civilizações da modernidade sólida. O trabalho, o poder, a família e as instituições tinham espaço e tempo definidos na modernidade sólida. Era possível planejar uma carreira nessa conjuntura estável, e até uma vida inteira, fosse de um indivíduo, fosse de uma instituição. Projetos e objetos seguiam em sua linha de produção. Enfim, os processos e percursos eram dotados de tempo e espaço determinados; poderiam ser projetados e realizados, sem grandes probabilidades de intercorrências graves. Ou seja, museus e universidades foram constituídos para durarem muitos anos, mesmo séculos, em virtude de seu papel ativo na conservação e na transmissão do patrimônio às futuras gerações.

Portanto, nesta investigação, o conceito de museu líquido irá demarcar algo que ainda não tomou forma e, provavelmente, demorará muito a adquirir alguma definição, em virtude das constantes mutações infligidas aos atores sociais. No contexto da crise da universidade e dos museus sob sua tutela, o conceito de museu líquido será operacionalizado de maneira a visar o processo de “liquefação” a que universidades e Museus Universitários estão sendo

expostos. Assim como todas as instituições e relações sociais da modernidade sólida passaram por processos de “liquefação” e recomposição impostos pela modernidade líquida, também as universidades e museus têm sofrido as ações de tais fenômenos. Houve transformações na produção do conhecimento e nas relações de poder e trabalho, assim como nas relações afetivas e familiares, e iremos verificar se essas mudanças atingiram também as universidades e os museus. Trata-se, portanto, de instituições que sofreram e produziram ações resultantes de pensamentos acerca de aspectos como a organização hierárquica e os valores das sociedades sólidas. Em outros termos, universidade e museu, assim como a fábrica, a família, a sociedade, o Estado e as formas de fazer política, estão em fase de “derretimento” e

reelaboração, questionamento e transição, características de um momento de “paradigma emergente”.36

Vemos, dessa forma, que a natureza do conceito de museu líquido é mesmo híbrida, pois tenta dar respostas a problemas mutáveis, instáveis e transitórios quanto a sua aparência, mas permanentes em sua essência, pelo menos até o momento de uma possível e futura (seja isso desejável ou não), “solidificação” em outra contemporaneidade, quando surgirá um novo paradigma dominante na sociedade e uma nova “ciência normal” no campo

dos Estudos de Museus. No que tange à crise dos Museus Universitários, com respeito ao papel social dessas instituições e sua importância no âmbito universitário, o conceito acima mencionado retrata, como um instantâneo snapshot, o exercício de congelamento (ou solidificação artificial) de um momento, na tentativa de capturá-lo. É, portanto, um esforço parecido com a tentativa vã de segurar um líquido entre os dedos buscando conhecer e compreender a natureza do momento em que vivemos.

Retomemos a aplicação do conceito quanto às práticas museológicas atuais e às futuras implicações sobre as correntes museológicas. Nesta fase inicial da investigação, adotamos o conceito de museu líquido, definindo-o como um museu que − por demandas e pressões infundidas pela modernidade líquida, bem como pelos compromissos assumidos no final da modernidade sólida (quanto à pesquisa, ao ensino, à interação e ao atendimento às comunidades) – se constitui como uma instituição que se molda, repensa e redefine, buscando superar os desafios com os quais se defronta, quer institucionalmente, quer museologicamente, para dar continuidade aos ideais e às missões assumidos como compromissos para com as comunidades que o acolhem e às quais serve. Trata-se de um conceito em construção, híbrido

36Conforme o Capítulo 4, em Kuhn (1998). Paradigma emergente é aquele que surge em um momento-limite

para as explicações, os métodos e as teorias da “ciência normal.” Ele é questionado pela “ciência normal” até que seja refutado e/ou passe a ser o padrão dominante para aferir e identificar o que é conhecimento científico e o que não é, sendo considerado a norma vigente para ciência praticada pelos pares, ou seja, a “ciência normal.”

e transitório, mas que tenta pensar o presente com relação ao campo museológico e, no que diz respeito à discussão em foco, quanto aos Museus Universitários. Será um museu que tenta superar as divisões e equilibrar as abordagens e papéis para ele definidos, reinventando-se em busca de um novo modelo de museu, ainda não definido até o atual momento.

Contudo, é importante lembrar, na esteira do pensamento de Van Oost (2012), que o museu líquido, nesta tese, é uma abstração, uma elaboração teórica usada para explicar a realidade vivenciada pelos atores no contexto dos Museus Universitários. Dito de outra forma, consiste em uma metáfora e em uma tentativa de apontar determinada tendência. O momento, para os museus, independentemente de suas tutelas, é de convivência. Existem museus sólidos exemplares e, simultaneamente, já começam a surgir tentativas de tornar as instituições museais mais fluidas, híbridas e flexiveis em suas abordagens, gestão e missões.

Enfim, já discorremos sobre a organização da problemática da pesquisa – composta, conforme já visto, pelas seguintes categorias principais: Museus Universitários, museus- laboratório, inovação, sustentabilidade e redes colaborativas − no contexto dos distanciamentos e aproximações entre as políticas universitárias e museológicas. Também estabelecemos como recorte temporal da tese a modernidade líquida definida por Bauman (2001) e apresentamos uma noção teórica operativa denominada museu líquido. É chegada a ocasião, portanto, de realizar um exercício de análise de alguns trabalhos historiográficos sobre Museus Universitários. Na próxima partição deste trabalho, alguns estudos sobre a história dos principais Museus Universitários do mundo, de Portugal e do Brasil serão analisados com base no referencial da crise dos Museus Universitários. Procuraremos demonstrar que a crise localizada por seus estudiosos nas três últimas décadas do século XX, não é uma situação isolada, já que as dificuldades e tensões vividas nas instituições museais em questão foram constantes, devido à natureza híbrida dos Museus Universitários, os quais pertencem a dois mundos: a esfera acadêmica e o universo dos museus.

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