CHAPITRE 1 : ASPECTS THÉORIQUES
1.3 Métaphore du genre
1.3.4 LES FEMMES SONT DE LA NOURRITURE
No tempo de compreender, este capítulo foi denominado Memorial dos (I)Migrantes, levando em consideração a condição de vida na dimensão histórica no estilo dos atores partícipes desta pesquisa, pois estão numa condição de extimidade, isto é, dentro e fora da relação. Como bem disse Dostoiévski, em Notas do Subsolo, “revelam-se as marcas históricas” pelas pegadas das errâncias e pelo exílio do lugar, pelo inconsciente. E como nos ensina Rosa (2009, 498-499):
exilados, desenraizados de nós mesmos, constituídos pelo desconhecimento enigmático da dimensão inconsciente. Freud, no texto “Moisés e o monoteísmo” (1939), defende as vicissitudes da errância e do nomadismo do desejo, mostrando que a sua precedência sobre a sedentarização marca o povo judeu. Busca na experiência da errância enquanto ato uma metáfora da errância do sujeito pelo deserto da libido.
Os profissionais da Instituição relatam que há uma articulação entre sua história de vida e a dos adolescentes e que não desenvolvem aquele trabalho por acaso, mas por causa própria, “nós não escolhemos à toa”, e, no dizer de Freud “escolhemos por sintoma”. Eles defendem a hipótese de que há algo que os identifica com os adolescentes.
Todos os profissionais do CREAS participaram do memorial, mas quatro técnicos foram escolhidos para analisá-lo, levando em consideração a relação transferencial destes com os adolescentes, e ainda, o conteúdo da produção textual do memorial. Segundo Käes (1991, p. 105), no que diz respeito aos processos de identificação:
Ainda que se trate de um mecanismo de defesa do Ego, Freud se serve aqui do processo de identificação para explicar a natureza dos laços libidinais que unem os membros de um grupo ao seu chefe ou os laços libidinais que se criam entre esses mesmos membros do grupo, colocando o Eros sublimado entre os fundamentos do social.
Apresentarei a seguir o memorial de quatro participantes da equipe: da assistente social R., da assistente social N., da assistente social R. e do psicólogo e coordenador C., os técnicos escolhidos para o memorial.
A assistente social R. do CREAS – técnica responsável pelo caso do Alexsandre – inicia dizendo que sua escolha profissional “não era voltada para o serviço social, fui aluna da Fundação Bradesco, na área de informática e não queria passar a vida ‘conversando’ com o computador. Escolheu o Serviço Social pela identificação com o curso, foi reconhecida no curso na disciplina de metodologia e em estudo de caso recebeu o mérito de louvor. No seu trabalho atual decepciona-se com as pessoas e não com a escolha.
R. se identifica com os adolescentes pela condição socioeconômica. Também participou de projeto social, foi aluna da Fundação Bradesco, cuja missão é “promover a inclusão social por meio da educação e atuar como multiplicador das melhores práticas pedagógico-educacionais
junto à população brasileira socioeconomicamente desfavorecida”. Nessa condição social, economicamente desfavorecida, R. se constituiu; formou-se em Serviço Social, prestou concurso público e trabalha com os adolescentes.
No caso do adolescente Alexsandre que cumpriu medida socioeducativa no CREAS, seu memorial foi articulado com a entrevista, levando em consideração que o conteúdo do material apresentado por ele tornou possível tal desenvolvimento.
Da assistente social N. do CREAS, técnica responsável pelo caso R., destacamos o seguinte trecho do memorial:
“Fui uma adolescente como nossos atendidos, também sem muito norte. Queria ser bailarina e não consegui apoio familiar”. A escolha profissional foi forçada pela mãe. “Escolhi sem saber o que era isto! Me identifiquei muito com a área”. Formou e
prestou vários concursos, sem escolher para área de adolescente em conflito com a lei
– Fundação Casa (antiga FEBEM) posto de liberdade assistida na região de Sorocaba,
adaptou-se à cidade e começou a prestar novos concursos e “por ironia do destino ou uma total sincronicidade fui contratada para implantação do projeto Adole-Ser, não acredito que estamos neste projeto ‘a toa’”. A profissional se identifica com os adolescentes, pela baixa auto-estima. “Sempre me identifiquei com a demanda, acho que ajudando esses meninos e meninas a se encontrarem nesse mundo a despertar o sentido de pertencimento e reconhecimento também estou trabalhando os meus próprios sentimentos de exclusão! Ajudando eles se acharem também me encontro.
Outro motivo, sempre tive uma boa escuta, sempre fui conciliadora e conselheira de
amigos e familiares – essa é minha marca maior. Como acredito que todos nós nascemos com um dom, o meu é de escuta e de ajuda, então não é a toa que o universo veio me trazendo, desde minha formação, até aqui”.
N. estabelece uma relação de identificação utilizando a lógica da correspondência biunívoca, entre sua adolescência com a dos adolescentes, fazendo referência à direção, “sem muito norte”, ou seja, uma referência sem direção, perdida, caótica. N. mostra o conflito entre seu desejo e o do Outro e demonstra que encontra uma saída pela imposição, alienando-se no desejo do Outro. Para Käes (1991, p. 89), realiza projetos conscientes ou fantasias inconscientes na relação de identificação:
relação com o outro, projetos conscientes ou fantasias inconscientes. [...] que se referem ao modelo formador, atribuidor de boa forma, do médico obcecado pela cura, do parteiro “socrático”, do militante transformador do mundo, do reparador que impede que os traumatismos do cliente se tornem “irreparáveis”. Outros modelos poderia ser evocados.
Apresenta em sua trajetória “a correria”, prestou vários concursos sem escolher, adaptou- se à cidade e começou a prestar novos concursos. E, ainda, justifica o motivo de estar no Projeto como sendo ironia do destino ou sincronicidade e afirma repetidas vezes que “não estamos neste projeto à toa”.
O laço de identificação para N. se marca pela baixa autoestima e pela demanda que se caracteriza por encontrar o caminho, a direção, ou seja, é apostar nesses adolescentes para ajudá- los a se encontrarem nesse mundo e despertar o sentido de pertencimento e reconhecimento, ou seja, de receber o bilhete premiado, como veremos no caso R.
N. também aponta para o sentimento de exclusão como mola propulsora desse encontro consigo mesma, ou seja, no trabalho cotidiano há uma projeção de sua adolescência na adolescência desses jovens, e por tudo isso ajuda a projetar o futuro dos adolescentes, realizando no presente uma experiência compartilhada de lembranças encobridoras, um encontro de afetos.
Acredita no dom e reconhece que o dela é escutar e ajudar e retoma a conspiração do universo como motivador da trajetória profissional. N. caracteriza-se por uma boa escuta, é conciliadora e conselheira de amigos e familiares e reconhece no discurso religioso o dom divino, as aptidões e a trajetória profissional.
Da assistente social R. do CREAS, técnica responsável pelos adolescentes que foram entrevistados, mas que escolheram não continuar participando da pesquisa, temos este trecho descrito no memorial:
”Passei no concurso, logo após a formatura [...] fui informada que comporia a equipe
que atende medidas socioeducativas”. A profissional se identifica com os adolescentes,
pelo desafio. Coloca questões sobre a prática: como entrar em contato com o
verdadeiro “eu” daquele ser que a ninguém se revelava? Como transcender de uma relação de faz de conta (faz de conta que eu atendo e faz de conta que sou atendido) para algo que fizesse sentido para ambos? “Bem, as respostas a estas questões não estão
consolidadas, pelo contrário, são construídas e desconstruídas a cada dia. É este o desafio que me faz levantar cedo e vir para cá todos os dias!”.
A profissional R., recém-graduada, foi informada que comporia uma equipe que atende medidas socioeducativas, uma imposição presente no serviço público que muitas vezes obstaculiza a escolha da área de trabalho pelos profissionais.
Questiona a prática profissional, apontando a expectativa de se afetar e ser afetada por uma revelação de um adolescente, como ocorreu no caso R., e ainda a superação do jogo de faz- de-conta, afirmando que é preciso fazer algo que produza sentido para ambos. R. demonstra que o questionamento e a busca por essas respostas são construídos e desconstruídos a cada dia e este é o desafio do trabalho que articula a profissional aos adolescentes.
Do psicólogo e coordenador C. do CREAS, destacamos o seguinte trecho:
“A meta inicial era atuar na Indústria, mas não se efetivou devido o campo estar
saturado”. Por incentivo familiar, buscou o Serviço Público na área de assistência
social. A atuação inicial foi em creche, implantação de serviço de atendimento à criança
e adolescente em situação de risco e com prática infracional. “Crianças e adolescentes em risco são aqueles vítimas de maus tratos, negligência, abuso sexual e exploração e também aqueles envolvidos com a prática de delitos. Após vários anos de atuação percebo que a minha escolha profissional não foi obra do destino, mas de
escolha. Percebo que estar próximo desse público era a possibilidade de entender e ajudar aqueles vitimados que têm relação direta com a minha trajetória pessoal, marcados com as situações apresentadas acima”. Em relação aos jovens infratores,
está motivado por um fascínio, jovens ousados, jovens destemidos, quebrando regras. “Digo que quem atua com este público tem como objetivo aprender com ele como
ousar, quebrar regras. Conhecer os mecanismos que movem estes jovens, a dinâmica de prática de delitos. Digo que o profissional é um infrator do bem que atua para trazê-los para uma infração dentro dos direitos legais. Posso afirmar que todos que aqui atuam são também infratores e se não são vêm para cá aprender a ser”.
C. não tinha como meta trabalhar com os adolescentes; foi por influência familiar que escolheu o serviço público na área de assistência social. Percebeu depois que fora uma escolha pela profissão, pois associa a sua trajetória pessoal com a os adolescentes em risco e caracteriza- os como jovens vítimas de maus tratos, negligência, abuso sexual e exploração, e também, aqueles envolvidos com a prática de delitos. Será que a vulnerabilidade em que estão submetidas
essas pessoas não coloca em risco a condição humana?
O profissional afirma que “quem atua com este público tem como objetivo aprender com ele como ousar, quebrar regras e conhecer o mecanismo que move os jovens e a dinâmica de prática de delitos.” Na experiência compartilhada, o profissional aprende e ensina, afeta e é afetado na relação. Partindo-se desse pressuposto, o profissional também ensina aos adolescentes e perguntamo-nos: O que os profissionais ensinam aos adolescentes e vice-versa?
C. diz que o profissional é um “infrator do bem”, porque atua para trazê-los para uma infração dentro dos direitos legais. Sendo assim, o infrator do mal é aquele que infringe fora dos direitos legais. Mas será que o ato para se constituir como uma infração pode estar fora dos direitos legais, sendo o direito o que legaliza o ato e diante disso funda a infração? No que diz respeito a ser um “infrator do bem”, as palavras de C. indicam uma subversão e não uma infração do discurso. Segundo Käes (1991, p. 87):
Esses profissionais são seres marginais. Se a sociedade contemporânea ocidental é essencialmente uma sociedade de produção e um lugar onde cada um é interpelado na sua capacidade de decidir por si mesmo, de dominar e de competir, essas pessoas atestam que não se interessam nem pela produção. Nem pela decisão ou pelo poder, portanto por aquilo que é constitutivo da existência dessa sociedade. Se um psicanalista, por exemplo, pode ter um poder (e sabemos que ele pode ser exorbitante), o que o caracteriza como psicanalista é o fato de não se utilizar desse poder; é também o fato de não decidir no lugar do outro, de não querer adaptá-lo diretamente ao sistema social. Ser marginal significa comportar-se de uma maneira não congruente com o sistema social e se interessar por aquilo que quase não o preocupa: a verdade e a autonomia do sujeito, pois o sistema social fundamentalmente é apenas um lugar de disfarce e de hipocrisia que pede aos indivíduos que sejam apenas os produtores-consumidores de que ele precisa para sua própria perenidade.
Diante do exposto, podemos pensar que todos os profissionais que participaram do memorial são seres marginais, não decidiram, mas escolheram inconscientemente o projeto do trabalho; estão afetados pela identificação de suas histórias de vida com a dos adolescentes, criam vínculos e acolhem esses adolescentes. Esses profissionais funcionam discursivamente ora amparados pelo Discurso do Mestre na relação com a Instituição e no lugar de instituído, ora pelo discurso histérico e analítico na relação com o adolescente.