I.2 Description continue `a faible couplage
II.1.2 Faible couplage
A categoria de livros didáticos possui uma característica peculiar: depois de serem utilizados como material em sala de aula, só em casos muito específicos, são guardados, revisitados ou reencontrados com o passar do tempo. Poucas pessoas guardam seus livros didáticos por sentimentalismo, como lembrança de seu tempo de escola. De modo geral, o livro didático é desvalorizado depois de seu uso imediato por cumprir uma função específica na vida dos indivíduos, ou seja, por ser intrínseco ao contexto escolar, tornando- se descartável e sem valor fora de seu contexto original. Em sua pesquisa sobre a memória de usuários de livros didáticos, Fernandes (2004) relata que as entrevistas realizadas com ex-alunos possibilitam, de modo geral, reflexões sobre a história da produção didática no Brasil.
A partir delas é possível dizer, por exemplo, que, apesar de fragmentadas as memórias, o livro esteve presente efetivamente no cotidiano da escola e há indicações de como era utilizado por professores e alunos. Além disso, nas recordações há relatos que identificam o que tem marcado o imaginário dos indivíduos sobre o tema, quais livros ficaram na memória de gerações, a relação entre livros e currículos (o que era estudado), a disciplina imposta no ato de ler, a presença de livros com história regional e local, os formatos e modelos de livros didáticos (capa dura, pequenos, com gravuras...), seus aspectos físicos (cor, grossura, capa...), ilustrações, mapas, quadros e atividades marcantes, etc. (FERNANDES, 2004, p. 540).
É na escola que a criança inicia sua vida de leitor, na maioria dos casos. Uma imensidão de letras que antes eram apenas formas e desenhos, ganham significado. A leitura se introduz no cotidiano, alargando a visão do mundo e das coisas. A partir daí
começa a se construir um relacionamento com a palavra escrita e com os livros, que pode se concretizar em uma relação de afeto ou desafeto. Felizmente, em muitos casos, a leitura torna-se fonte de lazer e prazer, que se estende para além do período estudantil.
Os materiais didáticos entraram no ambiente escolar brasileiro logo após a Independência, quando as autoridades viram a necessidade deste apoio pedagógico e começaram a sua produção. Com o advento da República, a preocupação com o alcance dos livros e da leitura começou a ir além dos limites escolares.
Entretanto, na primeira metade do século XX, a presença dos livros ainda não era um fato constante na vida dos brasileiros, tanto dentro, quanto fora da escola. A nacionalização do livro escolar estava começando, a indústria editorial estava em desenvolvimento, e os editores ainda não eram brasileiros. Naquela época os livros eram, como ainda continuam sendo, mercadoria cara. Somava-se a este fato a pouca intimidade e interesse do povo pelos livros e pela atividade da leitura. A explicação para isto talvez se baseie na chegada tardia da imprensa ao Brasil, em 1808, enquanto que na Europa a imprensa já era uma conquista bem antiga – a Bíblia de Gutenberg data de 1445. Além disto a introdução da imprensa foi um ato isolado, já que não houve a criação de instituições e instrumentos necessários à difusão dos produtos impressos como escolas, bibliotecas, livrarias, jornais e editoras na época do Brasil Colônia (LAJOLO; ZILBERMAN, 2002).
Foi a partir da década de 1930, durante o governo Vargas, quando houve uma ampla reforma do ensino, que a base escolar se expandiu e afetou de modo positivo o mercado de livros didáticos. Pela primeira vez, graças às políticas públicas e ao câmbio desfavorável às importações, o livro escolar produzido no Brasil chegou a custar bem mais barato do que o concorrente estrangeiro. Os livros didáticos portugueses, por fatores de mercado e decisão do próprio Estado, saíram das escolas brasileiras, dando total espaço aos livros nacionais (FEIJÓ, 2005).
Quanto ao uso do livro didático na rotina em sala de aula, há que se ter em mente que ele pode ser usado de inúmeras formas, mas quem determina estas formas primeiramente é o professor. No decorrer das aulas é o professor que precisa pensar amplamente na interação, no diálogo e em desempenhar um papel ativo e crítico, em relação às propostas do livro didático. Da mesma maneira, o professor deve sempre considerar as possibilidades e usos diferenciados que um livro didático permite, como
alterações de seqüências, atividades complementares, aspectos diversos da realidade local, entre outros (BRASIL, 2006a).
Atualmente o livro didático é um material básico, de referência, um organizador de conteúdos e atividades tanto para o aluno, quanto para o professor. Entretanto nem sempre foi assim. De acordo com Gatti Júnior (2004) o livro didático sempre teve um papel importante na escola brasileira, porém na primeira metade do século XX os professores eram mais capacitados e utilizavam o livro como suporte, e não como um elemento central da prática pedagógica como acontece atualmente. Criou-se uma dependência em relação ao livro didático.
[...] o livro didático não deve ser tomado como vilão, mas sim como parte da solução, [...], pois o livro didático durante as décadas de 1970 a 1990, foi utilizado como paliativo para problemas de boa parte do professorado, que consistiam, em síntese, na falta de qualificação e de tempo para preparação de suas aulas. Aparentemente sempre foi cômodo, barato e seguro para o governo, do ponto de vista político, distribuir livros, pois agindo dessa forma o governo não precisava investir diretamente nas escolas; agradava aos setores industriais e evitava ter que agir junto aos cursos deficientes de licenciatura oferecidos por boa parte das faculdades que se espalhavam pelo país à época. (GATTI JÚNIOR, 2004, p.200).
Constata-se portanto, que os livros didáticos acabam sendo a principal fonte de informação impressa, a principal referência utilizada por uma parte significativa de professores e alunos, fato que ocorre mais freqüentemente quanto menor o acesso a bens econômicos e culturais (BATISTA, 1999). Em um país em que a produção didática corresponde a mais da metade do faturamento do mercado editorial, pode-se imaginar o porquê do livro didático reinar praticamente sozinho na escola. Obviamente isto se deve também a outros aspectos, como a carência do hábito da leitura, a pouca familiarização com o objeto livro (literário), o alto valor dos mesmos, a baixa remuneração da população em geral, além da falta de bibliotecas, museus e espaços culturais na maioria das cidades brasileiras.
Pode-se dizer que, no final da década de 1990 já “havia ocorrido um processo de desqualificação docente e que as crianças e jovens já estavam preferindo a época imagens à palavra impressa” (GATTI JÚNIOR, 2004, p.220). Estava se iniciando um desafio para a educação escolar sendo que uma de suas principais tarefas sempre foi a de fazer com que os alunos conseguissem compreender textos escritos.
Neste sentido, as escolas e bibliotecas são lugares privilegiados para a promoção da leitura. Principalmente a escola, por ser mais acessível a todos, deve tornar a leitura uma atividade prioritária. A principal questão é reverter a imagem negativa que os estudantes tem dessa atividade, através de práticas adequadas. Perrotti (1990) cita que o autoritarismo e outras práticas opressivas, existentes ainda em muitas escolas, tem grande parcela de responsabilidade no desinteresse de crianças e jovens pela leitura, associando-a a estímulos negativos, criando uma imagem ruim e o afastamento, às vezes para sempre, do livro. Acaba-se criando relações e experiências, ainda na infância, que prejudicam o desenvolvimento do gosto pela leitura no aluno.
Resulta daí a necessidade de buscar novas práticas, novos arranjos que possibilitem a construção de outra imagem da leitura – prazerosa, descompromissada, divertida, atrativa, a ponto de ser capaz de vencer toda e qualquer resistência, a ponto de criar uma nova imagem da leitura. (PERROTTI, 1990, p.72).
No ensino formal as atividades de ler e estudar se apresentam indissociáveis. E o suporte do livro ainda é indispensável para a transmissão do conhecimento formal, mesmo com todas as inovações técnicas e recursos audiovisuais modernos. A leitura está intimamente ligada ao conhecimento e à cultura nas instituições e na sociedade. Basta apresentar às crianças essa fonte de conhecimento de outros modos. Mostrar que o livro e a leitura estão ligados ao prazer, que pode ser estimulante, atraente e interessante.