“A tecnocultura que se tornou nossa englobará numa mesma realidade homens e máquinas. As noções de criatividade, de interactividade, de inteligência (sem aspas), e eventualmente talvez as de consciência, de sentimento, de emoção, até aqui definidas num quadro único de referência humana, deverão provavelmente ser remodeladas ou, com toda a probabilidade, modeladas em função da evolução tecnológica em curso.”
René Berger, 19931
A cultura é tradição e herança mas também o que - de algum modo filtrado da aprendizagem de campos como a política, economia, literatura, ciência, tecnologia, arte, e da experiência de relacionamento social – é retido da actualidade condicionando comportamentos, atitudes, pensamentos e acções que, por sua vez, também são geradores de actividade cultural.
Somos todos, portanto, produtos e produtores de cultura à semelhança de um sistema não linear de realimentação em contínuo, que processa tanto o passado como o presente, de acordo com a percepção, tendências, interesses e capacidades individuais.
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“La tecno-culture qui est devenue nôtre englobera dans une même réalité hommes et machines. Les notions de créativité, d´interactivité, d´intelligence (sans guillemets), en attendant peut-être celles de conscience, de sentiment, d´émotion, jusqu´ici définies dans le seul cadre de référence humain, devront probablement être réaménagées ou, selon tout vraisemblance, aménagées en function de l´évolution technologique en cours.”
René Berger (1993). “L´Ordinateur à la Recherche d´une Âme le Défi des Artistes”, in, SANTOS, A. M. Nunes dos (coord.) (1993). Arte e Tecnologia, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 158-159.
Ao fazer-se a analogia no parágrafo anterior da produção cultural com o
processamento de um sistema não linear de realimentação, está obviamente a ser
utilizada uma nomenclatura que faz parte dos estudos de engenharia e que, de certa maneira, condicionaram o autor, pela sua formação base, na escolha da expressão. Pode- se portanto afirmar que foi efectivamente uma cultura técnica, ou uma tecnocultura, que se apresentou como modelo para interpretação de um conceito.
Mas se no início do século XXI esta opção por uma tecnocultura não é de todo estranha2, já que a cultura contemporânea é certamente muito devedora das tecnologias de informação e comunicação, o mesmo não se passava em meados do século XX que assistia a uma transição de uma indústria da mecanização para uma indústria da informação, de uma estética da máquina para uma estética do sistema, do trânsito das certezas de um legado humanista clássico para os paradoxos de uma ciência das teorias da relatividade e das probabilidades da mecânica quântica. Uma sociedade em mudança para novos hábitos de consumo alimentados por produtos tecnológicos, fruto de uma forte componente de desenvolvimento científico e técnico que o esforço de uma guerra mundial a isso tinha obrigado.
A evidência de uma cultura científica alimentada por uma certa euforia de um futuro próspero no pós-guerra, embora ensombrado por uma guerra-fria que se lhe seguiu, criou cenários mais utópicos do que distópicos comandados por imperativos tecnológicos e dinâmicas de pensamento afins que, de inspiração transdisciplinar (a cibernética de Norbert Wiener, a teoria geral dos sistemas de Ludwig von Bertalanffy), não se compadeciam com o sistema monolítico da cultura das humanidades clássicas.
Estas fissuras entre uma formação clássica humanista e o pragmatismo de um discurso científico, foram abordadas por Charles Percy Snow (1905-1980) na sua
2Tecnocultura foi um neologismo criado por René Berger na sua obra La Mutation des Signes (Paris: ed.
Denoël, 1972), para justamente sinalizar uma nova cultura de base tecnológica a que correspondeu também uma mudança radical em termos sociais, filosóficos e políticos. Para Berger esta expressão “ [...] combina as mudanças nas telecomunicações, os novos tratamentos do espaço e do tempo, as mutações linguísticas, epistemológicas, filosóficas, aliados à hibridação dos nossos sistemas de pensar em conjunto com a sofisticação cada vez maior das máquinas.” (Berger, 1994: 5)
célebre conferência na Universidade de Cambridge em 1959, “The Two Cultures”3, que constituiu tema de debate e controvérsia nos anos que se seguiram.
C. P. Snow, cientista (doutorado em física) por formação, mas escritor por vocação (Snow, 1959/1990:169), apercebeu-se que, ao participar desses dois mundos nos círculos de amigos que mantinha, existia um enorme fosso de comunicação entre o discurso da ciência e o produzido pelos, por ele denominados, literary intellectuals4.
A sua observação incidia sobre a falta de interesse dos cientistas pela cultura clássica e da falta de conhecimento das ciências por parte de quem tinha na escrita uma forma de elaborar sobre a condição humana. No diagnóstico que fez da situação atribuía a principal causa da situação ao ensino especializado, apontando como solução a necessidade de repensar esse mesmo sistema de ensino5.
Esta análise de C. P. Snow, embora particularmente pertinente na altura em que surgiu, não era mais do que a continuidade de preocupações já expressas no último quartel do século XIX num debate entre Thomas Henry Huxley (1825-1895), cientista e biólogo, e Matthew Arnold (1822-1888), poeta e crítico literário, sobre o tipo de ensino que mais se adequava aos jovens que iniciavam a sua formação. As opções entre um curriculum com um pendor científico ou, de outro modo, favorecendo uma instrução humanista clássica, ficaram assinaladas nas conferências “Science and Culture” (1880), de Huxley, e na resposta de Arnold em “Literature and Science” (1882), esta curiosamente também na Universidade de Cambridge onde C. P. Snow faria a sua apresentação6.
3
Originalmente publicada em forma de livro em, C. P. Snow (1959/1961). The Two Cultures and the Scientific Revolution, Nova Iorque: Cambridge University Press, pp. 1-22. Republicado em C. P. Snow
(1959), “The Two Cultures”, in, Leonardo, vol.23, nº 2/3, 1990, pp.169-173, disponível em:
http://classes.dma.ucla.edu/Fall07/9-1/pdfs/week1/TwoCultures.pdf (consultado em 10 de Abril de 2013).
4 “I believe the intellectual life of the whole western society is increasingly being split into two polar
groups […] Literary intellectuals at one pole - at the other scientists, and as the most representative, the physical scientists. Between the two a gulf of mutual incomprehension – sometimes (particularly among the young) hostily and dislike, but most of all lack of understanding.” (Snow 1959/1990:169).
5
“There is only one way out of all this. It is, of course, by rethinking our education.[…] Nearly everyone will agree that our school education is too specialized.” (Snow 1959/1990:172).
6 Para um enquadramento histórico mais detalhado consultar o capítulo The Two Culture Debates, de
John Cartwright, em John Cartwright e Brian Baker (2005), Literature and Science: Social Impact and
Obviamente que a especialização tinha sido uma inevitável condição de desenvolvimento do conhecimento científico na altura em que Snow pensava estas questões e não havia retorno possível mas, por outro lado, se esse conhecimento estivesse alheado do mundo e das questões culturais, sociais, políticas ou económicas, corria o risco de ficar fechado nele próprio e isolado da realidade. Havia portanto necessidade de desenvolver competências de integração e de entendimento das vantagens mútuas da troca de saberes.
Sensivelmente na mesma altura em que Snow publica a sua conferência é criada nos Estados Unidos a Society for the History of Technology7 (1958), uma associação internacional, hoje representada em mais de 35 países8, que congrega investigadores de diferentes áreas não só interessados na História mas também no relacionamento e impacto da tecnologia nos diferentes aspectos da vida em sociedade (política, economia, arte, trabalho, etc.). O seu órgão oficial, Technology and Culture, criado em 19599 e ainda hoje editado, reflecte justamente sobre os aspectos relacionais da tecnologia com a cultura e a sociedade.
Com ressonâncias até aos dias de hoje, o que o C. P. Snow logrou com o seu discurso, mais do que apenas referenciar uma divisão, foi sinalizar a passagem para um novo tipo de cultura em que a tecnologia passou a ter um papel determinante absorvendo e reciclando as disciplinas das humanidades em novos tipos de preocupações transdisciplinares (teoria crítica, estudos culturais, media studies), a que se assistiu essencialmente a partir da década de 60.
Ainda na década de 60 também Aldous Huxley revisitou as ideias de Snow na sua última obra publicada em vida, Literature and Science (1963) – curiosamente dada ao prelo com o mesmo título da conferência que Matthew Arnold tinha pronunciado em 1882 como argumento contrário à posição de Thomas H. Huxley, avô de Aldous Huxley – mencionada pelo filósofo Jürgen Habermas (n.1929) no artigo “Progresso Técnico e Mundo Social da Vida” (Habermas,1968/2006: 93-106), contrapondo a uma visão de
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http://www.historyoftechnology.org/the_society.html (acedido em 16 de Abril de 2013).
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De quatro em quatro anos esta associação realiza o seu congresso anual na Europa. Em 2008 este encontro foi realizado em Lisboa de 11 a 14 de Outubro.
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É uma publicação trimestral multidisciplinar peer-review editada pela Johns Hopkins University Press. http://www.press.jhu.edu/journals/technology_and_culture/ (acedido em 22 de Abril de 2013)
Huxley de assimilação do conhecimento científico na literatura como mediadora de relacionamento, uma experiência de inscrição social através da experimentação da tecnologia e das suas consequências práticas, explicitadas por Habermas na sua afirmação:
“As informações de natureza estritamente científico-natural só
podem entrar no mundo social da vida, por meio da sua utilização técnica, como saber tecnológico […] Para o seu saber prático, que se exprime na literatura, o conteúdo informativo das ciências não pode, pois, ser relevante sem mediações – só pode adquirir significação pelo desvio através das consequências práticas do progresso técnico.” (Habermas
1968/2006: 95)
Embora a afirmação de Habermas seja discutível, a verdade é que o efeito prático da tecnologia no surgir de uma nova cultura já tinha sido assinalado por alguns artistas em obras da segunda metade da década de 40 de que são exemplo as colagens de Eduardo Paolozzi (1924-2005), ao lançar mão da apropriação de imagens de revistas americanas de circulação comum espelhando o imaginário de uma cultura popular consumista e tecnológica que se começava a instalar10.
Do mesmo modo, a colagem de Richard Hamilton (1922-2011), Just What Is It that Makes Today's Homes So Different, So Appealing? (1956), apresentada na
sugestiva exposição This is Tomorrow, na Whitechapel Gallery de Londres, revelava um certo fascínio pelos bens de consumo de origem tecnológica representados pelo artista na composição e escolha de recortes de imagens de objectos como a televisão, o gravador de som, o aspirador, ou o automóvel, simbolizado pelo logotipo da Ford num candeeiro da sala representada na colagem.
O próprio transístor, inventado em 1947 (patenteado em 1948), e que iria revolucionar a electrónica, as telecomunicações, e a computação nas décadas seguintes, foi alvo de atenção de John McHale11 que, logo no início da década de 50, lhe dedicou
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Estes aspectos são particularmente patentes em algumas colagens pertencentes à série denominada
Bunk (1947-1952), de que é exemplo It´s a Psichological Fact Pleasure Helps Your Disposition (1948),
pertencente à colecção da Tate.
http://www.tate.org.uk/art/artworks/paolozzi-its-a-psychological-fact-pleasure-helps-your-disposition- t01463 (consultado em 6 de Agosto de 2015).
11
John Mchale (1922-1978) foi um dos membros fundadores do Independent Group em Londres na
um conjunto de colagens apresentadas na exposição Collages and Objects (1954), no Institute of Contemporary Arts (ICA) , em Londres.
A sua peça Transistor (1954) (fig. 3.1), é um trabalho claramente influenciado pelo símbolo convencionado do componente electrónico utilizado em esquemática de engenharia (fig.3.2), e pela tecnologia de fabrico do dispositivo em si (camadas e dessiminação de “impurezas” no substrato do semicondutor para obtenção de determinadas características).
Fig. 3.1 - John Mchale, Transistor, 1954, (Colecção
Tate)
Fig. 3.2 – Transístor
A tomada de consciência desta nova cultura de pendor tecnológico teve obviamente um grande impulso nas mostras das feiras mundiais do início da década de 60 que se realizaram em 1962 em Seattle, na costa Oeste dos Estados Unidos, e a que se lhe seguiu em Nova Iorque, em 1964/65. A primeira, também conhecida pela Century
21 Exposition, teve como tema central a exploração espacial – representada na sua
emblemática torre denominada Space Needle, de 184 metros de altura – tema este que surge na sequência do discurso do presidente Kennedy no ano anterior (Maio de 1961), em que tinha anunciado a intenção de colocar um americano na Lua antes do fim da
ao qual se atribuiu o início da Pop-art britânica, essencialmente através da colagem de fragmentos de
década dando início, deste modo, a uma fase determinante de competição entre russos e americanos pelo domínio do espaço12.
A feira de Nova Iorque, pelo facto de não ter tido o apoio do organismo internacional que regulava este tipo de eventos (Bureau of International Expositions) e que congregava as diferentes representações nacionais, centrou-se mais nas exposições dos pavilhões das empresas americanas que tiveram, desta forma, uma oportunidade de mostrar ao mundo os seus produtos e as suas capacidades tecnológicas.
A presença de empresas como a IBM e a NCR levaram ao grande público, pela primeira vez, o contacto com os computadores numa altura em que a especialização dos sistemas mainframes dos anos 50 começava a dar lugar a uma computação interactiva e
as aplicações comerciais e científicas já eram realidade num número crescente de instituições e empresas. A Bell Telephone Laboratories demonstrou o seu sistema de telecomunicações Picturephone que permitia ver e ouvir o interlocutor da chamada telefónica. A exploração espacial estava amplamente representada por sondas espaciais em tamanho real e módulos de foguetões dos programas americanos Mercury, Gemini e
Apollo, não faltando também os projectos futuristas da Ford e da General Motors, nas
suas visões da cidade do futuro.
Os novos produtos e materiais estimulavam um clima de optimismo em torno do desenvolvimento tecnológico e de uma nova fonte de energia (nuclear) que prometia alimentar sem limites, e a baixo custo, toda uma infra-estrutura social de consumismo baseado em dispositivos eléctricos e electrónicos.
Os cerca de dez milhões de visitantes da feira de Seattle e de cinquenta milhões em Nova Iorque, tiveram oportunidade de perceber, em primeira-mão, a mudança cultural e do estilo de vida que estava em curso tendo por base o automatismo, as telecomunicações, o computador, e também o que veio a revelar-se, apenas, de utopias de uma sociedade altamente tecnológica.
É conhecida a célebre frase de Andy Warhol que, em entrevista em 1963, anunciava que desejava ser e pintar como uma máquina13.
12 Um excerto da gravação em vídeo deste discurso do presidente Kennedy endereçado ao Congresso
Americano, em 25 de Maio de 1961, pode ser visionado em:
http://www.space.com/11775-president-kennedy-moonshot-moment.html (consultado em 6 de Agosto de 2015)
Embora referindo-se à repetição e automatismo do processo de serigrafia na sua produção, a verdade é que pouco depois um conjunto de artistas/engenheiros começaram programar computadores para a produção de grafismos e desenhos14, o que de certo modo obrigava mais a um pensamento estruturado e racional que “entendia” a linguagem máquina do computador, do que a um entendimento das técnicas da pintura e do desenho em si. A computer art, como ficou conhecida, foi apenas uma aplicação destes sistemas que se multiplicaram nas décadas seguintes nos mais diferentes domínios da engenharia à produção industrial, mas também do planeamento económico à estratégia política e militar, como potenciadores de rapidez, de acesso à informação, e de poder de cálculo e decisão, na construção de uma sociedade em mudança impulsionada por estas novas tecnologias.
Este inevitável envolvimento diário de cada indivíduo com a experiência tecnológica a partir da segunda metade do século XX, tanto ao nível do trabalho como na vida privada é, eventualmente, a mediação a que Habermas se referia anteriormente como significante na produção de uma cultura contemporânea, temas que serão abordados nas secções seguintes.
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“The reason I´m painting this way is that I want to be a machine, and I feel that whatever I do and do machine-like is what I want to do.”
Andy Warhol em entrevista a Gene R. Swenson, originalmente publicado em Artnews (Nova Iorque), vol.
62, Novembro 1963, pp. 60-63, e reproduzida em, Jacob Baal-Teshuva (ed.) (1993). Andy Warhol: 1928-
1987, Munique, Londres e Nova Yorque: Prestel Verlag, pp. 133-134.
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Em 1965, entre 8 e 24 de Abril, é apresentado em contexto de galeria de arte um conjunto de obras resultantes da mediação do computador como meio de produção de gráficos com intenção artística. A exposição foi denominada Computer-Generated Pictures, e teve lugar na Howard Wise Gallery de Nova Iorque, com obras de A. Michael Noll e Bela Julesz, ambos investigadores nos Bell Telephone Laboratories.