polyester/polycarbonate
II. F. Partie expérimentale
Na década de quarenta, a consolidação política do regime vai exercer a sua influência ideológica nas artes, pela mão de António Ferro.
Daciano Monteiro da Costa foi aluno do curso de Pintura Decorativa89 na Escola
António Arroio de 1943 a 1948, sendo nessa época Rogério Ferreira de Andrade90
o director da Escola.
Como já havíamos referido, Rogério de Andrade substituiu Falcão Trigoso, após a demissão deste último uma vez que não pactuava com a ideologia do Estado
Novo.91 O novo director tinha “um relacionamento manifestamente cooperativo
com a administração central (…) dando rápido acolhimento à Mocidade Portuguesa (…) este director parecia reunir os necessários requisitos de formação para se ajustar, plenamente, ao papel de fiel servidor reclamado pelo Estado Novo.” (Paiva 2001, pp. 537-538)
89 De acordo com as Notas Biográficas do Catálogo da Exposição Daciano da Costa Designer (2001, p.302) 90 Tinha tomado oficialmente posse a 9 de Agosto de 1941. (Paiva 2001, p.265.)
91 “A Escola António Arroio era, à época, a única escola onde não tinha sido instalado um centro escolar da Mocidade Portuguesa.” (Paiva, op. cit., p.533)
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Segundo António Nóvoa (1992) durante o Estado Novo assiste-se à degradação do estatuto socioeconómico da profissão docente e consagra-se uma visão do professorado como funcionários públicos, sofisticando os mecanismos de controlo ideológico no acesso e no exercício da actividade docente. Os agentes educativos estavam inseridos num contexto político em que o poder centralizado se exercia de forma autoritária e burocrática.
Mas, apesar da realidade vigente, ao nível do ensino ministrado na Escola António Arroio “foram preservados os bons docentes e recrutados outros
igualmente bons que se viriam a destacar, na Escola, como excelentes professores e mestres.” (Paiva, op. cit., p.539)
Era este o ambiente vivido pelo jovem Daciano quando, entre os treze e os dezoito anos de idade, foi aluno na António Arroio92. Cerca de quarenta anos
mais tarde, em 1982, Daciano utiliza a palavra “felizmente” 93 para caracterizar a
sua frequência nesta Escola, de 1943 a 1948, como início da sua formação profissional. Poderemos concluir que guardava boas recordações desse percurso escolar e que fora uma experiência positiva.
A direcção do curso de Pintura Decorativa, frequentado por Daciano, “estava sob
a garantia do pintor Lino António com o seu sentido do simples e do autêntico apontando a sobriedade dos valores espirituais e a nobreza dos materiais dos períodos pré-clássicos da arte.” (Paiva, op. cit., p.643)
As disciplinas ministradas na Escola António Arroio durante esse período eram: Desenho Geral, Desenho Ornamental, Composição e aplicação, Pintura litográfica, Pintura decorativa, Desenho de figura, Matemática, Geometria, Modelação, Física e Química, Português, Francês, Geografia e História. (Idem, p. 338)
92 Uma cópia do original da sua Ficha de Aluno na Escola António Arroio pode ser consultada no Apêndice 1
desta dissertação.
93 Daciano escreve na terceira pessoa um resumo da sua biografia de onde citamos: “na sua formação profissional que, felizmente para ele, se iniciou com a frequência da Escola de Artes Decorativas de António Arroio (1943-1948)” In Design e Circunstância, Associação Portuguesa de Designers, APD, Lisboa. (1982,
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Podemos concluir da natureza variada destas disciplinas o objectivo de proporcionar aos alunos um ensino que, para a época, possuía características bem diversificadas e completas, desde a formação artística até às ciências exactas.
Por coincidência, foi, durante a permanência de Daciano como aluno desta Escola, que Frederico George (1915-1994) iniciou a sua actividade docente na António Arroio e se cruzaram pela segunda vez94 como mestre e discípulo,
relação que se manteria por largos anos e influenciaria, decisivamente, o futuro de Daciano da Costa.
António Sena da Silva (1926-2001), num artigo incluído em Daciano da Costa
Designer, faz precisamente referência à presença de Frederico George neste
período escolar de Daciano: “Nos anos 40 – na Escola António Arroio – Daciano
teve o privilégio de ter como mestre Frederico George.” (2001, p.17)
Lino António da Conceição, que virá a desempenhar um importante papel como futuro Director desta Escola, era já professor efectivo na época de Daciano como aluno. (Paiva, op. cit., p. 346)
Nas Notas Biográficas de Daciano, consta que “O pintor Lino António é o seu
professor mais influente.” (2001, Catálogo citado, p. 302)
Em 1945, Daciano chegou mesmo a ser colaborador no atelier de pintura de Lino António. (Idem)
“A partir de 1945, com a nomeação do professor Lino António da Conceição como professor metodólogo da disciplina de Pintura decorativa, começam os estágios na Escola.” (Paiva 2001, p.366)
94 Frederico George já tinha sido seu professor de Desenho na Escola Industrial Marquês de Pombal, como
consta nas Notas Biográficas do Catálogo da Exposição Daciano da Costa Designer (2001, p.302)
Cópias da Certidão de aproveitamento de Daciano da Costa, como aluno da Escola Industrial Marquês de Pombal, podem ser consultadas no Apêndice 1 desta Dissertação.
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Em Julho de 1946, na acta de classificação do 1º ano de estágio, Frederico George obteve a classificação de dezoito valores. (Idem, p.367)
“Frederico Henriques George já faz parte, como assistente estagiário, do mapa da distribuição de serviço feita ao pessoal docente em Outubro de 1946.” (Idem,
p.345)
Maria Helena Souto, no texto “A Escola de Artes Decorativas António Arroio, por
um Ensino Moderno: a direcção de Lino António e a acção de Frederico George”
descreveu de forma clarificadora este período dos anos 40, pelo que não podemos deixar de transcrever aqui algumas passagens, essenciais para o entendimento desta etapa do percurso escolar de Daciano: “Daciano Monteiro
da Costa, entre 1943 e 1948, recebeu nesta escola uma formação à época sem paralelo no ensino artístico português, (...) contando com um corpo docente constituído por nomes como Rocha Correia, Júlio Santos, Rodrigues Alves ou (com particular influência na formação profissional de Daciano da Costa) Frederico George, a Escola António Arroio permitiu a docentes e discentes construírem nos anos 40 um projecto pedagógico, através do qual a Modernidade entrava no nosso estreito e policiado ensino artístico. (…) A António Arroio funcionava como uma pequena escola - o espaço do edifício na Rua Almirante Barroso tinha sido pensado para cerca de uma centena de alunos – inspirada nos modelos inglês e austríaco das escolas de artes e ofícios (nascidas por influência do movimento Arts and Crafts de William Morris), em que as aulas eram dadas em regime de atelier. Esta componente oficinal conheceu novo impulso através da acção pedagógica de Frederico George, cuja origem e educação inglesa muito cedo o tinham conduzido à adopção do repertório Arts and Crafts traduzido nas suas experiências de técnicas artísticas e artesanais, mas a quem a investigação na componente projectual (que o levou da Pintura à Arquitectura), suscitava novas interrogações e o fez descobrir o modelo bauhausiano, que se tornou no suporte da sua intervenção pedagógica, iniciando uma pesquisa que conduziria ao debate sobre a disciplina do Design. Daciano da Costa acompanhou de muito perto esse debate: no ano anterior à conclusão do seu curso de Pintura Decorativa na António Arroio, o jovem aprendiz entrava no atelier de Frederico George.” (2001,
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Daciano recorda esse período passado no atelier de Frederico George, com uma clara alusão à prática efectiva do Design: “O atelier dele, à época, era uma
espécie de atelier-escola, onde se juntava muita gente. Nessa altura, o Design foi surgindo no âmbito do trabalho para exposições: pavilhões, stands, etc. Aí se fizeram os primeiros grandes exercícios de Design.” (1992, p.71)
Em 1948, Daciano completou o Curso de Pintura Decorativa e regressou logo a seguir à Escola António Arroio para frequentar o Curso de Habilitação às Escolas de Belas Artes95 que terminou em 1950. 96