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Partie II. Méthodologie

Chapitre 7 Prétraitement des images

7.3 Extraction des surfaces interne et externe du manteau cortical

A partir das considerações tecidas sobre a condição juvenil, evidenciando a diversidade de formas de viver, expressar e representar próprios dessa fase da vida, reporta-se às minhas indagações ao me aproximar dos jovens que tomaram parte desta pesquisa. Embora os estudos sobre a juventude brasileira façam referências à diversidade juvenil, a princípio, pesquisar jovens de uma escola voltada especificamente para a juventude do campo e de formação agrícola sugeria que os jovens compartilhavam de uma mesma realidade e dos mesmos anseios escolares, o que foi sendo lapidado no transcorrer da investigação.

O fato de a escola funcionar em tempo integral e em regime de internato possibilitou a observação em diferentes espaços e tempos na mesma: campo de futebol, salas de aula, dormitórios, área externa da escola, etc. Enquanto estava realizando a observação na EFA Paulo Freire, sempre procurava conversar com os estudantes nos tempos livres.

Ao deparar-me com o comportamento dos jovens em sala de aula fazendo uso de aparelhos celulares para ouvir música, passar fotografias e músicas para os colegas, e a demonstração de certo desinteresse pelas aulas estava diante de uma situação inesperada que significou para além do estranhamento, certa semelhança com o comportamento de outros jovens que já foram pesquisados em diferentes escolas. Uma de minhas hipóteses era que iria encontrar uma homogeneidade com relação aos gostos, condições e estilos de vida dos jovens que estavam chegando às EFAs. Tal hipótese foi negada, uma vez que verifiquei uma grande variedade de condições, comportamentos e valores entre os jovens da escola.

Desse modo, passei a considerar que ao transitarem por diferentes espaços (campo e cidade), aqueles jovens estavam em contato com a cultura midiática e inseridos relativamente com outras tecnologias de comunicação como orkut e MSN, compartilhavam estilos de vida e valores próprios da cultura juvenil contemporânea. Além disso, pode-se dizer que, apesar de haver certa aproximação entre os estilos de vida de jovens do campo e da cidade, os jovens dos

dois universos (rural e urbano) não se percebem e nem são reciprocamente percebidos como iguais. Embora, às vezes, estejam presentes nos mesmos espaços e façam uso das mesmas tecnologias, apresentam algumas diferenças identitárias.

Nos depoimentos, os jovens do campo tenderam a ressaltar algumas diferenças em relação aos da cidade. Os jovens pesquisados consideravam suas relações de amizade no local onde residem verdadeiras porque são próximas. Valorizavam suas amizades locais e representavam os jovens urbanos como “sem juízo” e expostos a “influências”, indicando uma determinada representação social acerca da juventude urbana. Tal representação também parece basear-se em alguns discursos que costumam vincular a fase da juventude a problemas sociais e que tende a ser associada principalmente aos jovens das grandes cidades. Contudo, sabemos que atualmente, no campo, mesmo sendo em menor escala, também se faz presente cenas de violência, uso de drogas, etc.

Porque até no modo de falar a gente é meio diferente! Acho que a gente

percebe muito... até nas festas, a gente fica assim... sempre você percebe onde

tem um da cidade e onde tem um da roça... acho que povo da roça tem mais cabeça... a gente tem mais cabeça no lugar... alguns... alguns da cidade, eles

são muito... meio... largado (Wiliam).

Aí você vai pra cidade, os jovens são todos sem juízo, não que quem mora na roça também não tenha juízo, mas a gente fica mais distante dessas pessoas

(Karla).

Eu acho que é isso... é mais difícil você criar um jovem na cidade, isso que eles falam, meu pai, por exemplo, porque assim ele vai sofrer várias influências e, tando lá no meio rural, você consegue educar melhor, assim é melhor

também... (Flávia).

Eu acho que o jovem rural, ele tem bem mais amigos na verdade do que os

jovens que moram na cidade... tem aquele vínculo maior, né? Que nem eu falei, né? A questão de sair muito junto, né? A questão de ir na casa da pessoa e tal

(Marcos).

Vale frisar que os jovens pesquisados também fazem distinções entre a sua identidade e a dos jovens da cidade, a partir dos próprios saberes, sobretudo aqueles ligados ao trabalho. Por outro lado, essa relação dos sujeitos entre o campo e a cidade parece acontecer de maneira unilateral, sabe-se e busca-se muitas coisas na/sobre a cidade e o que se busca e sabe no/sobre o campo?

O jovem rural, ele conhece, né, todas, todas as técnicas de trabalho da zona rural e a maioria dos jovens rurais hoje conhece também a maioria das coisas sobre a cidade. Tem acesso à internet, tem acesso ao telefone, né, tem acesso à televisão e lógico que muitos não na casa dele, mas na cidade. Ele vai pra lá e lá ele tem como usar. Agora, se um jovem da cidade, ele conhece sobre tudo, ele manja tudo sobre as coisas da cidade, mas se levar ele pra roça... ele não sabe fazer nada, não conhece nada,

né? Não são todos, mas é a maioria (Marcos).

Alguns jovens evidenciam que não há muitas diferenças de estilos e comportamentos entre os jovens urbanos e rurais, já que são vistos e confundidos quanto a sua identidade. A representação sobre o estilo e comportamento dos sujeitos do campo tende a ser baseada em esteriótipos e preconceitos.

Eu não tenho vergonha nenhuma de falar pra ninguém que eu moro na roça, mas meu jeito é muito, sei lá, é um pouco diferente. Muitas vezes, não sei, muita gente me conhece e acha que eu moro na cidade, que a minha família é rica,

que não sei o quê...(Marcos).

Dependendo dos lugares que a gente vai, das pessoas que a gente fala, existe sim uma discriminação, sabe, nó é da roça. Nossa, você nem parece que é da roça. Muitas pessoas olham pra mim e falam: nó, você nem parece que é da roça. Eles pensam assim: se é da roça tem que andar tudo mulambento, toda suja, despenteada, com calo na mão, toda esquisita. Aí existe muito esse preconceito que eu espero que acabe logo. Eu acho que é por causa disso também que leva o jovem a pensar – eu acho que eu vou sair daqui, eu vou pra festa, tipo, todo mundo fica olhando pra mim diferente porque eu sou da roça

(Karla).

Percebemos, através das falas dos jovens, que os moradores do meio rural ainda se deparam com representações que partem de uma visão do campo como lugar de atraso e de seus sujeitos como matutos e assemelhados à figura do jeca. Nesse sentido, as diferenças de identidades indicam uma discriminação de que é alvo a juventude rural em seu contato com a “cidade”. No entanto, seja pela formação dos jovens em grupos juvenis ou na própria EFA, parece que essa situação não tende a ser interiorizada pelas imagens negativas que lhes são atribuídas em função da desvalorização da cultura do campo.

Agora, a questão de ser do campo, é aquilo que eu falei anteriormente, dá

Olha, apesar de eu não dar muita confiança e muita gente também não dá bola, tipo a questão do preconceito, que tem muito preconceito em relação aos jovens rurais, isso aí com certeza...é a questão da exclusão mesmo: Ah... mora na roça... da roça...ele não sabe nada, não conhece nada, só sabe da roça... Então é mais ou menos isso, não no meio dele, mas e um jovem sai da sua casa, né, mora na roça e vai pra cidade, muitos ainda têm esse preconceito: mora na

roça né... é um jeca, essas coisas assim, entendeu? (Marcos).

Então, eu antes tinha bastante vergonha disso e tinha mesmo, hoje eu não tenho mais vergonha, porque a partir do momento que você estuda em EFA, você conhece realidades parecidas com a sua, pessoas que também tão no meio rural e cê vê assim que o campo não é como todo mundo fala e tal, que você

tem que se valorizar também por morar no campo (Flávia).

Na EFA, a gente não tem esse problema, a gente aprende, a gente é valorizado pelo que a gente é, não pelo que a gente mora, a gente tem mais valor. O lugar que a gente mora, a gente tem valor, aí isso que eu acho muito legal mesmo (Luís).

Muitas vezes, essas representações estereotipadas sobre os jovens do campo adentram os muros das escolas públicas. Recentemente houve um relativo acesso desses jovens à escola, mas esta insiste em desconsiderar a diversidade, as diferentes condições sociais e culturais desses alunos. Muitos jovens demonstram uma consciência dessa realidade ao revelarem atitudes e comportamentos dos profissionais das escolas onde estudaram marcadas por representações negativas acerca da vida no campo.

Quando eu fui pra cidade, estudei um ano na cidade, já tinha esse preconceito, na escola mesmo já tinha esse preconceito. A direção punha os meninos da roça tudo numa sala só, e eu não fui colocada nessa sala, dos meus colegas da minha comunidade, eu fui colocada em uma outra sala na qual tinha um monte

de gente repetente (Juliana).

Segundo grau a gente estuda na cidade. Aí cê sabe que menino da cidade gosta de zuar com menino que mora na roça né? ...Aí, hoje, a educação que a gente tem como modelo atual, eu não acho muito legal não, sabe? [...] porque quem vive na roça tem um estilo diferente de quem mora na cidade, sabe, o estilo dele é completamente diferente, a linguagem em si é diferente. Aí, o que acontece, até mesmo o próprio professor, costuma falar, né? O tratamento do professor é diferenciado. Aí muita gente reclama quanto a isso [...] Os professores mesmo não dava menor importância pra quem era da zona rural [...] Um exemplo disso era a reunião de pais na escola, minha mãe sempre foi muito presente na escola, aí quando tinha reunião de pais, o que acontecia, a reunião de pais nunca era de dia onde os pais poderiam ir, era sempre num dia de domingo ou à noite, era um dia à noite e não tinha como quem era da zona

rural ir, sabe, era sempre formado pra quem era da cidade mesmo ir nessas

reuniões [...] (Luís).

Os profissionais da escola, ao assumirem uma posição de não reconhecimento da condição juvenil do campo que chega à escola, revelam a incapacidade da escola de dialogar com a diversidade e de construir relações condizentes com as características, expectativas e linguagens dos seus jovens alunos.

Além do desencontro das culturas juvenis do campo com as escolas públicas, esses jovens a quem nos referimos também integram o conjunto dos jovens que têm o direito negado à última etapa da educação básica, o Ensino Médio, conforme dados apresentados no primeiro capítulo deste trabalho sobre as matrículas do Ensino Médio dos jovens do campo. Poderíamos dizer que esses jovens estariam vivendo uma dupla condição de desigualdade, que limita seus campos de possibilidades. Nas palavras de Frigotto (2009, p. 25,):

Trata-se dos jovens que, na expressão de Milton Santos, não pertencem ao andar de cima da sociedade brasileira. Os mais de 30 milhões de jovens, muitos com o direito negado à última etapa da educação básica – o Ensino Médio – tem “rosto definido”. Pertencem à classe ou fração de classe de filhos de trabalhadores assalariados ou que produzem a vida de forma precária, por conta própria, no campo ou na cidade.

Quando questionados como se veem enquanto jovens e como percebem a transição para a vida adulta, revelam e compartilham das mesmas angústias, impotência, culpabilização, sofrimento e frustrações na vivência desta. Ao que parece, a fala da jovem abaixo representa uma visão que revela que não só os jovens do campo, mas a maioria dos jovens das camadas populares vivencia a condição juvenil de maneira desigual.

Oh, eu acho que dificuldade vem porque muito jovem chega, são jovens, mas já tem uma mentalidade, né? Têm idosos que têm mentalidade de jovem e tem jovem que já tá velho, porque, tipo assim, depara com um tanto de problemas e você não consegue, não tem como resolver aqueles problemas. Problemas financeiros, problemas emocionais, problemas pessoais, você se depara com tudo isso E como lidar com tudo isso? Aí vai gerar uma frustração muito grande, você vai ficar desmotivado com a vida. Muito jovem assim sem vontade de viver, perdeu o gosto pela vida, por causa dessas coisas. Você chega nessa fase e você só encontra dificuldades pela frente, é um mundo totalmente diferente, você não sabe como lidar com ele. Isso os jovens em geral, não só do meio rural [...] Aí dá meio uma desmotivação, você vê as desigualdades do mundo, você perde também bastante motivação, às vezes você perde seus sonhos. Agora tá sendo mais fácil, agora eu acho que já tá, eu tô numa fase

melhor. Mas então teve uma época que eu tinha desistido mesmo de continuar estudando, eu não tava querendo estudar mais, tive uma desmotivação bem

grande, mas agora eu já tô...(Flávia)