Em 1921, com a fundação da revista A Ordem no Rio de Janeiro pela iniciativa de Jackson de Figueiredo, abriu-se um espaço institucional marcado por letras que reivindicariam a necessidade de recatolicizar o Brasil mediante uma reação espiritualista que, no entanto, estaria a par com os preceitos e a tutela da hierarquia eclesiástica católica. Com a consolidação do Centro Dom Vital no ano seguinte, reúne-se uma intelectualidade muito peculiar que toma para si a atribuição de exercer uma militância anti-individualista, antiliberal, antipositivista e anticomunista, tendo inicialmente, como base teórica, autores antirrevolucionários como Joseph De Maistre. Ao mesmo tempo, notam-se nos escritos desse grupo a marca de tendências espiritualistas e vitalistas de alguns autores como Henri Bergson ou Raimundo Farias Brito, cujas teorias se difundiam à época. Esse duplo intuito de reatividade e especulação metafísica, por assim dizer, vai muito além de uma simples defesa da religião, visto que a ação organizada da parte de leigos, mais do que cumprir um trabalho pastoral ou teológico, deveria se dedicar a debater toda sorte de questão social, teórica ou política na intenção de fornecer um ponto de vista católico para esses e outros âmbitos de discussão. Tampouco seria possível da
parte dessa intelectualidade uma campanha simplesmente
nacionalista179, tendo em vista que o cosmopolitismo que a própria
palavra catolicismo conota é uma marca antiga da Igreja que remonta aos textos apostólicos do grande ecletismo do século I d. C.180 Esses motivos a princípio reativos, universalistas e especulativos cativaram, de alguma maneira, ainda na década de 20, muitos intelectuais brasileiros
que, de certa forma, acreditavam não possuir espaço181 adequado para a
desenvoltura de um pensamento que afrontasse o ideário positivista ou
179
Sobre o tema consultar o capítulo A Igreja católica no processo de
nacionalização, de Luiz Alberto G. de Souza. SOUZA, Luis Alberto Gómez de. A JUC: Os estudantes católicos e a política. Petrópolis: Vozes, 1984, p. 171-
192. 180
Vide no capítulo primeiro deste trabalho a discussão sobre o termo
kosmopolítes em Fílon de Alexandria.
181
Acerca dessa geração de intelectuais que compunham o Centro Dom Vital, consultar LIMA; AZZI, 2001 e AZZI, 2003.
secularizador da República Velha. Nesse propósito juntaram-se personalidades como Hamilton Nogueira, Perillo Gomes, Jonathas Serrano ou o próprio Alceu Amoroso Lima.
Durante o período em que A Ordem se encontrava sob a direção de Jackson de Figueiredo, de 1921 ao final de 1928, o espiritualismo surge em tentativas de combater várias tendências que os intelectuais católicos identificavam nas letras brasileiras, sendo elas: o que chamavam de individualismo romântico, o materialismo ingênuo do
realismo e uma suposta anarquia do simbolismo.182 No que diz respeito
à ensaística, a obra que melhor define esse propósito passa a ser Litteratura Reaccionaria de Jackson de Figueiredo, publicada pelo recém-criado editorial do Centro Dom Vital, ainda em 1924. Nela são selecionados alguns autores, como os brasileiros Pe. Leonel Franca ou Perillo Gomes ao lado de estrangeiros como Antonio Sardinha ou Auguste Viatte, os quais foram considerados os legítimos representantes de uma literatura que seria:
de reacção, anti-revolucionaria, anti-sentimental, anti-romantica, que vae, ora definitivamente catholica, ora revestindo-se sómente do senso practico social do Catholicismo, não só reduzindo a poeira os abalos creditos das doutrinas individualistas e materialistas, como, de alguns annos para cá, assentando já as bases de uma remodelação social, consciente e positivamente inspirada nos ensinamentos da Egreja.183
Os motivos do que Jackson definiu como uma literatura
reacionária, portanto, seriam a reação ao romantismo, ao
sentimentalismo e ao materialismo, em uma construção verbal bastante eclética e, em geral, com muita força de expressão e pouca precisão terminológica, conjugando aspectos de uma poética com os de um panfleto. É muito significativa a locução adjetiva “positivamente inspirada” que serve de suporte a essa remodelação social baseada na Igreja Católica. O que seria algo positivamente inspirado? A própria justaposição dos caracteres “sp” já remete à raiz latina spiritus, que, no
182
Cf. FIGUEIREDO, Jackson de. Literatura Reaccionaria. Rio de Janeiro: Centro Dom Vital, 1924.
183
FIGUEIREDO, Jackson de. Literatura Reaccionaria. Rio de Janeiro: Centro Dom Vital, 1924, p. 17.
caso da litteratura reaccionaria, traz uma forte significação no sentido de uma espiritualidade positiva.
Por mais que não se acredite aqui em uma continuidade, ou ainda, em algum resgate de construções textuais clássicas sobre o espírito, essa construção de Jackson admite uma remodelação social por inspiração ou, pelo menos, que tenha algum grau de inspiração — ou
espiritualização — nos ensinamentos da Igreja. Mas essa
espiritualização da sociedade, contudo, deveria ser positiva, consciente, isto é, posta às claras e ordenadamente, justificando uma ação outorgada, postulando o contrário de um caminho puramente intuitivo de espírito. Toda essa construção, vale lembrar, também diz respeito às letras para o fundador da revista A Ordem, do Centro Dom Vital, ao passo que sua concepção de literatura reacionária demonstrava algum apreço pelo espírito, enquanto questão metalinguística.
Essa atitude não ficou restrita a uma poética imersa no gênero ensaístico. A poesia dos primeiros anos do periódico A Ordem realizou, nos possíveis sentidos dos poemas e nas manifestações formais de seus versos, uma lida com as palavras que envolvia algum grau de
espiritualidade, tanto em seus aspectos metafísicos quanto
metalinguísticos. O baiano Durval de Moraes (1882-1948) é um bom exemplo para investigar esses primeiros anos do Centro Dom Vital pelo fato de haver publicado poemas religiosos desde o primeiro semestre do periódico e, a partir daí, quase que mensalmente. Não obstante, é possível notar em seus versos um propósito de tematização de passagens bíblicas ou costumes eclesiásticos a partir de uma volta à metrificação poética clássica, normalmente com alexandrinos ou decassílabos, à revelia do que acontecia nas principais vanguardas brasileiras da década de 20. O resultado é uma poesia de recursos formais tradicionais e pouco rebuscados, porém com um simbolismo bastante direto.
ESTIGMAS [...]
São Francisco, chorando, em extasis exclama. Desce para colher-lhe as perolas do pranto, Vibrante serafim de seis asas de chamma! Jardineiro do Amor, que abre em flores as fragas, Jesus vinha plantar pelo corpo do Santo
O celeste rosal das Suas Cinco Chagas!184
184
MORAES, Durval de. A Estigmatização. A Ordem, Rio de Janeiro, ano 1, 1ª série, n. 4, p. 57, nov. 1921. Entre outros poemas com uma carga comparável de
A princípio, esse poema composto por quatro estrofes de versos alexandrinos perfaz uma contraposição de imagens dos estigmas de São Francisco e de Cristo, aliando a biografia do santo a outras figurações religiosas, como o Serafim de seis pares de asas da mitologia hebraica e das cinco chagas do Messias conforme a mitologia neotestamentária. Esse poema, tal como outros que se assemelham a ele nos sete primeiros anos de A Ordem, dispensa os recursos formais ou o experimentalismo da poesia modernista brasileira dos anos vinte185, como a de autores ligados à Semana de Arte Moderna de 1922, a exemplo de Oswald de Andrade ou Mário de Andrade. Ainda assim, é possível perceber essa simplicidade absoluta da linguagem como uma fuga de marcas pessoais, dando ao texto uma impressão de ausência de localidade e pouquíssimas marcas da individualidade do artista. Há, porém, no antepenúltimo verso, uma imagem poética que poderia resumir a espiritualidade tanto desse momento militante da revista bem como a espiritualidade daqueles autores que participaram da revista nos anos trinta e quarenta. Trata-se do “Jardineiro do Amor”, que faz da fraga, isto é, da rocha, uma rosa que se abre. Jardinar o Amor seria fazer da pedra morta e sem vida, um desabrochar da vitalidade. Nada mais apropriado do que a equiparação do Amor com o princípio vital, que, como se pode perceber no primeiro simbolismo religioso e versificação tradicional neste primeiro período de A
Ordem, compreendido entre 1921 e 1928, podem ser destadados:
GONÇALVES, Paulo. O maior poeta. A Ordem, Rio de Janeiro, ano. 1, 2ª série, n. 12, p. 187, jul. 1922, que perfaz uma alusão ao padre Anchieta; MORAES, Durval de. O Castello Interior. A Ordem, Rio de Janeiro, ano 2, 2ª série, n. 6-8, p. 131, jan.-mar. 1923, que tematiza a metamorfose do verme, a qual será analisada em seguida; ou ainda COSTA, Francisco. Ode aos astros. A Ordem, Rio de Janeiro, ano 6, 2ª série, n. 53, p. 31-33, jan.-mar. 1927, que relaciona o firmamento à fé.
185
Segundo Antonio Candido, artistas como Oswald de Andrade ou Mario de Andrade tomaram desordenadamente parte do experimentalismo das vanguardas europeias como o surrealismo ou o futurismo para promover um reencontro com as peculiaridades recalcadas do povo brasileiro bem como um afrontamento da modernização passariam a ser a força motriz da poesia modernista nos anos vinte. Afirma o autor: “alguns estímulos da vanguarda artística europeia agiam também sobre nós: a velocidade, a mecanização crescente da vida nos impressionava em virtude do brusco surto industrial de 1914-1918, que rompeu nos maiores centros o ritmo tradicional.” CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967, p. 142.
capítulo, foi sempre compreendido como a manifestação propriamente humana do Espírito Santo. No entanto, a questão mais significativa desse verso está no fato de que essa vitalidade, esse acréscimo do Amor em um ser inerte não vem desacompanhado de uma ideia de ordem ou de uma necessidade de poda para haver uma finalidade estética possível. A figura do jardineiro seria indispensável, haja vista que, sem a intermediação do cultivador, o jardim floresceria de um modo espontâneo e sem atingir seu ideal de beleza por carecer de um apropriado ordenamento do aflorar da vida.
O propósito de uma espiritualização católica em oposição a outras possibilidades pode ser muito bem percebido nas sucessivas aproximações e afastamentos que ocorreram entre o grupo de Jackson de Figueiredo em torno de A Ordem e seu companheiro e também adversário, o intelectual e poeta de direção espiritual-simbolista Tasso da Silveira, que já tinha fundado com Lacerda Pinto e Oscar Martins Gomes a revista Fanal (1911-1913), no propósito de resgate do simbolismo de Nestor Victor, Dario Veloso ou Cruz e Souza. Ainda que Tasso contribuísse com o Centro Dom Vital, procurou dele sempre se distinguir, tendo suas próprias iniciativas e agrupamentos, os quais estarão em tensão com a visão espiritualista católica. Já em 1921, portanto, há em A Ordem críticas em parte favoráveis e em parte desfavoráveis ao paranaense Tasso da Silveira.
Assim, em Tasso da Silveira há uma certa exhuberancia, que não é de verbalismo como em tantos dos nossos escriptores, porém de eloquencia sentimental. Dahi principalmente porque elle não é ainda um catholico. Tasso é dos que chegaram a comprehender o valor do catholicismo na elevação da vida interior, e dos que se tem maravilhado com o pensamento catholico. Mas não poude ainda transpor os limites do programa de Schleiermacher: “une réligiosité sans idées claires, mysticité sans foi.”186
Ao mesmo tempo em que Perillo Gomes admira em Tasso uma lida direta com os problemas do espírito e uma notável rejeição do materialismo, há também o reconhecimento de uma falta de objetivo, ausência de clareza e difícil cristalização do sentimental. Sendo assim,
186
GOMES, Perillo. s/t. A Ordem, Rio de Janeiro, ano 1, 2ª série, n. 4, p. 59, nov. 1921.
essa reprovação da falta de plasticidade do simbolismo de Tasso, indica que, aos olhos dos intelectuais do catolicismo, não bastaria um apelo ao misticismo, senão também uma busca incessante por uma fé canonizada, pois apenas assim se poderia estar condizente com ideias de autoridade espiritual e uma fé objetiva187.
Esse mútuo respeito pela atitude espiritualista de neossimbolistas como Tasso da Silveira e uma paralela necessidade de destacamento constante justificam, em parte, algumas ações no sentido de agrupar esse espiritualismo mais libertário e místico em publicações como a revista Terra de Sol (1924 a 1925), a qual contará com participações de intelectuais lusitanos e não menos de brasileiros, como o próprio Jackson. Contudo, a principal atitude de clara oposição está na revista Festa188, fundada por Tasso e Andrade Muricy, entre outros colaboradores, em 1927 no Rio de Janeiro.
Com um título muito sugestivo, Festa, que sugere tanto uma
referência à Festa Inquieta189, de Andrade Muricy, quanto uma oposição
frontal à Ordem, continuou até 1929 para ser novamente relançada por um breve período entre 1934 e 1935. De Festa participaram uma série de escritores e intelectuais que compartilhavam uma opção pela espiritualidade e um rumo à interioridade, como, além de Muricy ou Tasso, Cecilia Meirelles, Nestor Victor, Adelino Magalhães e Adonias
187
A busca por uma interioridade objetiva também é um lugar comum que unia essa intelectualidade, o que se comprova quando o próprio Alceu Amoroso Lima (1955), em Meditações sobre o mundo interior, procura colocar a fé como algo objetivo e para além de qualquer subjetivismo ou psicologismo, visto que, na via religiosa, a espiritualidade se torna objetividade. Essa observação em muito se deve ao conceito de liturgia, o qual foi estudado recentemente na obra
Opus Dei, de Giorgio Agamben (2012), no qual se indica uma universalização
da própria ação sacramental, como sendo um ato independente do sujeito que o realiza. A liturgia seria, portanto, um conceito de certa maneira tradicionalmente considerado metafísico. LIMA, Alceu Amoroso. Meditações
sobre o mundo interior. Rio de Janeiro: Agir, 1955; AGAMBEN, Giorgio. Opus Dei: archeologia dell’ufficio. Torino: Bollati Boringhieri, 2012.
188
Destaca-se para o estudo de Festa a tese de Neusa Pinsard Caccese (1971), publicada com o título Festa: Contribuição para o estudo do Modernismo, sendo um trabalho realizado em conjunto com o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. CACCESE, Neusa Pinsard. Festa: contribuições
para o estudo do modernismo. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros,
1971. 189
Filho. Já em seu primeiro editorial, percebe-se o triunfo interior, como se nota nos seguintes versos:
E por isto o seu canto [do artista] é feito de intelligencia e de instincto (porque também deve ser total) e é feito de rythmos livres
elásticos e ágeis como músculos de athletas velozes e altos como subtilissimos pensamentos e sobretudo palpitantes
do triumpho interior
que nasce das adivinhações maravilhosas...190 No entanto, à diferença de A Ordem, a revista Festa quer enveredar no rumo espiritual sem a necessidade de um constante esforço de moralização, ascetismo, apelo canônico ou militância social. Essa espiritualidade se pretendia mais livre e alegre a partir da premissa de que o espírito seria eminentemente uma busca pela totalidade do mundano e do transcendente ou da eventual aproximação do homem a Deus. Essa nova literatura, para ser um veículo do inconsciente, deveria ter ampla liberdade formal bem como possuir uma maior heterodoxia religiosa e ideológica. Assim, grande parte dos poemas que fizeram parte dessa revista foram compostos em versos livres, e houve a participação de católicos ao lado de autores com uma espiritualidade mais mística.191
Contudo, essa suposta liberdade aos colaboradores não indica que o projeto de Festa fosse mais diplomático com relação às outras vanguardas modernistas no Brasil. Ao contrário, a esse respeito vale salientar a crítica, com certo ressentimento, de Tasso da Silveira, em setembro de 1927, feita a Alceu Amoroso Lima (enquanto Tristão de Athayde e já participante eventual em A Ordem), pelo fato de Alceu ser
190
MANIFESTO. Festa: mensario de pensamento e de arte. Rio de Janeiro, ano1, n. 1, p. 1, ago. 1927.
191
Para Coutinho, o direcionamento dado ao grupo Festa sempre se deu como “continuador do Simbolismo sob novas modalidades; como reivindicador de nomes injustamente silenciados pela crítica oficial, como Nestor Victor ou Adelino Magalhães e sempre acentuando, como nota típica do grupo, a importância do elemento místico, cuja omissão ou pelo menos marginalidade, no movimento modernista, havia sido apontado.” COUTINHO, Afranio; COUTINHO, Eduardo Faria. A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986, p. 625.
demasiadamente respeitoso com as vanguardas modernistas paulistas, seja com a modalidade “dinâmico-objetivista” de Graça Aranha ou Ronald de Carvalho ou com a “primitivista” de Mario e Oswald de Andrade. Por mais que Alceu tivesse reconhecido uma incompletude nos dois casos e tivesse pleiteado um modernismo espiritualista contra essas experiências, Tasso, em seu ensaio Renovação, não esconde sua decepção com a análise de Alceu:
Era de se suppôr, por exemplo, que, depois de caracterizar tão nitidamente o que há de funesto, para nós, na orientação dos primitivistas de S. Paulo, o Sr. Tristão os combatesse como elementos nocivos á formação do nosso pensamento e de nossa arte. É, no entanto, o contrario que se dá. Sob apparencias de revide, de contradita, de critica imparcial, o Sr. Tristão os vem exaltando dia a dia, tomado, no fundo, de enthusiasmo verdadeiramente pueril por elles. Tres nomes estão sempre entrelaçados, como gardalhetes, no alto mastro das suas affirmações modesnistas[sic]: os de Mario e Oswald de Andrade e o de Sergio de Hollanda.192
Nota-se que Tasso demonstra certa mágoa por Tristão não ter sequer comentado com o mesmo entusiasmo com que elogiou Mário ou Oswald a obra de seus companheiros, como Adelino Magalhães, Murillo Araujo, Andrade Muricy, Cecilia Meirelles e até Plinio Salgado.193 A maior liberdade espiritual não necessariamente se traduziria, porém, em um espiritualismo mais libertário da parte de Tasso em relação ao espiritualismo de A Ordem, visto que havia, em Festa, um maior comprometimento em defesa de uma estética da espiritualidade e de uma refundação formal, mista de liberdade e elaboração rítmica se comparadas às vanguardas que saem de 1922, entendidas pelo próprio Alceu como primitivismo ou dinamismo. Nota-se, portanto, que Festa tem uma visão de arte muito mais estetizante e um procedimento de disseminação muito mais vanguardista. No entender de Andrade Muricy, o fato de “Sujeitar a literatura a qualquer outra arte é aniquilá-
192
SILVEIRA, Tasso da. Renovação. Festa: mensario de pensamento e de arte, Rio de Janeiro, n. 2, p. 7, set. 1927.
193
SILVEIRA, Tasso da. Renovação. Festa: mensario de pensamento e de arte, Rio de Janeiro, n. 2, p. 7, set. 1927.
la.”194
Nesse tema específico sobre estetização, há de se concordar com
Lafetá,195 quando entende que Alceu privilegiou a recristianização
política em detrimento de tentar encontrar critérios de autonomia para a literatura. Assim, “a adoção do catolicismo levou-o de fato a subordinar o estético ao ‘ético’. E nem poderia ser de outra maneira, dada a coerência com que encara todos os problemas, colocando-os sempre sob a égide da religião.”196
De qualquer forma, o espiritualismo no Brasil da década de 20 pode ser retratado a partir dessas duas tendências: uma instintiva e mística, agrupada em torno de Festa, e outra mais hierárquica e católica, da parte de A Ordem. Essas duas tendências, contudo, nunca foram regras absolutas. Nem Festa polarizou toda a espiritualidade instintiva e tampouco A Ordem se restringiria apenas ao canônico, isto é, à instituição. A esse respeito, pode-se relacionar os dois polos espiritualistas nas letras brasileiras ao que Raul Antelo chamou de entrelaçamento entre os polos instinto e instituição em relação aos nacionalismos, no sentido de que um nunca chega a aniquilar o outro.
O instinto se inscreve no cruzamento de um duplo movimento — o descritivo e o normativo, a dicção pré-social e a interdicção moral. Quanto mais fluido for o instinto, mais próximo de uma nova norma ele se situa, como exercício de um poder irredutível, de síntese original; porém, quanto menos acabado e mais prescritivo, mais aberto ele ainda se encontra à caprichosa variação dos fatores que o determinam e que, entretanto, o
194
MURICY, Andrade. A crise da prosa. Festa: mensario de pensamento e de
arte, Rio de Janeiro, n. 1, p. 2, ago. 1927.
195
LAFETÁ, João Luiz Machado. 1930: A crítica e o modernismo. São Paulo, Duas Cidades, 1974.
196
Lafetá (1974) perfaz uma investigação conceitual que ressalta os autores tomados individualmente, ou seja, ou com Tristão de Ataíde, ou com Mario de Andrade ou com Octavio de Faria. Mas não se pode deixar de lembrar que a corrente espiritualista católica inspirou escritores que não só primavam pela beatitude, mas também por motivos de erotismo, desespero ou perversão como próprio Octávio de Faria ou Murilo Mendes e, futuramente, Lucio Cardoso. Ou seja, apesar de não se poder afastar o catolicismo presente em A Ordem para além de uma leitura sobre as obviedades dos autores que compuseram o Centro