Chapitre V : Recouvrement de faisceaux d’électrons : influence sur le
3. Influence du recouvrement spatial
3.3 Explication possible
A construção era nova e toda pintada em azul e branco. Por um momento, me passou que até que não era tão mau ficar ali... Foi quando ergui minha cabeça para o céu e lembrei que estava numa “jaula”. O pátio é o lugar onde tudo acontece... rebeliões, climas e brigas. Estava em estado de alerta... Tudo era estranho... Dois meninos mexiam na grama.... alguns falavam baixo.... as ações pareciam ameaçadoras. [...] O pátio me pareceu pequeno... Senti que estava exposta. E todos nós estávamos trancados lá dentro...
Semanalmente, ficávamos (psicólogos, meninos e funcionários) “presos” todos juntos durante algumas horas, aprendendo um outro jeito de ser psicólogo nesta situação inusitada. Nossa prática clínica acontecia no pátio da instituição, onde adolescentes e funcionários dividem o espaço ocioso da noite, após o encerramento das atividades educativas e pedagógicas. No pátio, acontece a maior tensão da unidade, que emana como um braço de ferro, revelada pela pressão de mãos segurando grades ou fechando cadeados: uma constante ameaça. Assim, o pátio mantinha a atenção20 de um campo de guerra fria, apontando constantemente a iminência de um fogo cruzado.
Como transitar neste espaço onde a sobrevivência, a morte, a violência é real e concreta? Tal modo de clinicar, inserido no cotidiano da unidade, revelava, também, nossos próprios medos. Em contínua atitude cartográfica, com olhares atentos a todos e à nossa afetabilidade, aprendemos a nos mantermos seguros (protegidos) no espaço
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institucional. Encontrávamos no medo um aliado companheiro. Era ele quem nos impunha a incerteza e o estranhamento e, assim, o limite.
Estava me sentindo exposta... e era ali que o medo se alojava.
De fato, o medo se alojava na exposição. Numa instituição em que o temor deixava de ser fantasia e assumia sua concretude, permanecíamos atentos até para nossa postura “concreta” de ir a campo: nosso modo, pelas roupas largas, cabelos presos, sentar-se desta ou daquela maneira.
Conversamos com o coordenador de turno... e ele ficou colocando um pouco de medo dizendo que era pra nós tomarmos cuidado porque os meninos atacavam mesmo. Contou uma história de um menino que foi pego “encoxando a professora e pegando nos peitos dela”... dizia que a gente tinha que ficar longe deles, não deixar chegar muito perto, não ir até os quartos.
Foram diversas as recomendações tanto de funcionários como dos próprios meninos, mostrando, por um lado, um cuidado, e por outro, uma forma de reprimir e assustar. Parecia ser o mesmo alerta, recebido pelos meninos por parte de funcionários e dos mais antigos de “casa”, quando chegavam pela primeira vez à FEBEM. Agora, como que num outro ritual de iniciação, era feito por eles, ao chegarem em bando para testar nossa resistência, certificando-se se tínhamos noção de onde estávamos21 e se poderíamos suportar aquelas horas naquele espaço, vivendo aquela situação. Os meninos “sabem” mesmo das coisas: nem todos de nossa equipe permaneceram, mesmo com todo o cuidado que tínhamos com o grupo; alguns desistiram e não voltaram mais. Afinal, impossível não se sentir “estrangeiro”, ocupando um espaço de e numa outra cultura: cartografar passa, também, por aprender valores e normas do contexto a ser cartografado.
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Parece que, na cultura do local, não se pode perder a referência de onde está. Segundo os adolescentes, há palavras do vocabulário da FEBEM que apontam este modo de lembrar e relembrar a situação na qual se encontram. É o exemplo de xepar (comer), pagar uma ducha (tomar banho)...
Eu estava com medo, muito medo. Sentia que estava muito sozinha e com muito medo. Sabia que outras duas plantonistas estavam lá também... mas não podia nem ajudá-las, nem conseguia pedir ajuda a elas. (...) estava sozinha, apesar de estar próxima de uma delas. Lá é cada um por si....
Com esses mesmos atores institucionais, foi possível, ainda, aprender a olharmos um
aos outros para nos cuidarmos: um trabalhar em grupo, em equipe, como o equilíbrio de uma
cadeia, de um castelo feito com as cartas finas de baralho...
... sem que eu percebesse, vários meninos ficaram meio em volta
de mim, e eu me senti sufocada!... Era como se eu não pudesse
me mexer, fosse refém, ficasse presa. Olhei para outro
plantonista... ele estava conversando com um menino... parecia
estar a quilômetro de distância!!! Estava desprotegida!... mas,
ao mesmo tempo, era como se eu não tivesse autorizada a sair de
lá.
Cuidar do colega de trabalho é também cuidar de si mesmo.
Esta frase dita, no singular, por um plantonista, parece plural na autoria de todos: plantonistas, funcionários ou adolescentes. E, desta forma, aprendemos a atuar: um cuidando do outro. Cada um e todos formando uma rede de apoio e cuidado. E quando uma peça neste jogo se paralisa, toda a rede pode se romper, tornando a FEBEM mais ameaçadora, tornando a angústia de estar lá ainda maior.
A maioria dos meninos tem uma postura agressiva... chegam falando alto,
tentando intimidar, fazendo brincadeiras de mau gosto... Mas não era só isso que me
deixava assustada. Demorei um pouco para perceber como estava me sentindo só. Em
meio a tentativas de conversa com alguns meninos, me esforcei em perceber a localização
dos outros plantonistas.
Atentos à localização de cada um de nossa equipe de trabalho, permanecíamos todos à vista de todos, como uma rede de segurança.
Assim que entramos no pátio. Eu e duas plantonistas fomos nos sentar no banco.
Ficamos ali conversando alguns minutos, e logo meninos se aproximaram delas duas...
como estava sentado no meio... achei melhor me levantar. Fui dar uma volta. Vi uma
outra plantonista, com vários meninos sentados no chão, fazendo um cisne de papel...
Fui sentar junto a ela...
Este modo de “se fazer estar seguro”, embora não fosse toda a garantia de se estar tão seguro assim, mas, em realidade, apenas “meio seguro”, dizia respeito à própria maneira de como todos na FEBEM se sentiam e viviam: aprendendo pelo ouvir dizer e pelo fazer. Foi construído na nossa experiência, através da comunicação constante de olhares, fazendo-se possível na medida em que estávamos todos clinicando ao mesmo tempo no mesmo espaço: atenção e cuidado a todos os envolvidos naquela situação, fossem funcionários, adolescentes ou outros colegas plantonistas.