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Les exceptions au principe de la codécision des titulaires de l’autorité paren- paren-tale

Dans le document Le consentement et responsabilité médicale (Page 184-189)

No prefácio que escreve à obra do “mestre”, Reis enumera os defeitos que pontualmente a contradizem, tomando-os como resultado da intromissão de elementos

estranhos à índole “objectiva” de Caeiro. De entre os defeitos de que padece esta poesia, Reis refere-se à “trajectória por ela seguida”:

Refiro-me ao caminho seguido pela inspiração de Caeiro, a partir do fim de

O Guardador de Rebanhos — isto é a contar dos dois pequenos poemas de O Pastor Amoroso até ao fim. O cérebro do poeta torna-se confuso, a sua

filosofia se entaramela, os seus princípios sofrem a derrota que, na indisciplina da alma, representa em espírito o que seja a vitória ignóbil de uma revolução de escravos. O leitor que tenha seguido a curva ascendente de

O Guardador de Rebanhos verá, passado esse conjunto de poemas, como a

inspiração se deteriora e se confunde. (Pessoa 1994a, 33)

Para Reis, o corpus representativo de Caeiro “doente” restringe-se aos poemas de O Pastor Amoroso e dos Inconjuntos pois, como afirma num outro ponto do prefácio, as “quatro canções” de O Guardador de Rebanhos, em que Caeiro exprime “impressões inteiramente subjectivas”, possuem como antecedente um poema, em que é explicada a sua produção sob um estado de doença (1994a, 34). O fundamento deste critério de exclusão das composições XVI a XIX encontra-se também patente na segunda estrofe do texto que encerra este pequeno ciclo, quando Caeiro afirma: “O defeito dos homens não é serem doentes: / É chamarem saúde à sua doença” (1994a, 69)1. No poema XV, a esta inversão do “objectivismo absoluto” é imputado um carácter simultaneamente radical e episódico:

As quatro canções que seguem Separam-se de tudo o que eu penso, Mentem a tudo o que eu sinto, São do contrário do que eu sou... . . .

Estando doente . . .

Devo ser todo doente — ideias e tudo.

Por isso estas canções que me renegam Não são capazes de me renegar

E são a paisagem da minha alma de noite, A mesma ao contrário.

(1994a, 64)

Repare-se que, neste texto, o sinónimo de “contrário do que eu sou” é apresentado, à luz do “objectivismo absoluto” de Caeiro, sob a forma do pleonasmo “todo doente”. Esta redundância permite evidenciar o carácter anómalo de que se reveste a intromissão de uma instância subjectiva no seu programa. Esta instância subjectiva possui um modelo: Teixeira de Pascoaes. Se, por um lado, a definição deste conjunto de canções como “a mesma [paisagem da minha alma] ao contrário” evoca a profusamente citada caracterização de Caeiro como “Pascoaes virado do avesso, sem o tirar do lugar onde está” (1994a, 222), por outro lado, a designação genérica atribuída a estes poemas, “paisagem da minha alma de noite” constitui uma denominação perifrástica de Pascoaes.

Em diversas obras deste, nomeadamente, em As Sombras de 1907 (Pascoaes 1996, 28, 34, 52) ou Verbo Escuro de 1914 (1999, 96, 149), a noite adquire um valor simbólico de mistério. Mas é em Senhora da Noite (1909) que o reconhecimento pessoano desta conotação se afigura inequívoco pois, de entre os passos abaixo citados, a expressão “entontecendo de mistério” encontra-se sublinhada numa das edições da obra pertencentes à biblioteca pessoal de Fernando Pessoa 2: “Ó Senhora da noite misteriosa, / Por quem ando, nas trevas, confundido”; “Aí vem a meia-noite. É fumo etéreo / Que a labareda olímpica do sol / Derrama, entontecendo de mistério / A Sibila, o Poeta, o Rouxinol” (1909, 10;1999, 15, 17). Em “O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa” (1913) 3, Pascoaes clarifica a noção nos seguintes termos: “. . . o Saudosismo poético procura o mistério que difere da nuance:

esta, é o revelado tornado indeciso, e aquele é o não revelado ainda. . . . O mistério é a própria acção, o drama íntimo da nossa Poesia, porque nela a sombra das Cousas e a luz do nosso espírito estão em perpétua luta criadora” (1988, 80/1).

Sendo a poesia de Pascoaes o lugar da contenda entre “a sombra das Cousas e a luz do nosso espírito” e constituindo a poesia do Caeiro “objectivo” um lugar pacificado pela afirmação de que “[a]s cousas são o unico sentido occulto das cousas” (Pessoa 1994a, 89), a definição destas quatro canções como “a paisagem da minha alma de noite / A mesma ao contrário” traduzirá a experiência do mistério, ou do “relativo ao mistério”, isto é, do místico 4. Nestes poemas, Caeiro “doente” será, portanto, um místico à maneira de Pascoaes.

Considere-se o poema XVI, que reitera um traço estilístico e um tópico característicos da poesia deste último:

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois Que vem a chiar, manhaninha cedo, pela estrada, E que para de onde veio volta depois

Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas... A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco... Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas

E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco. Ou então faziam de mim qualquer coisa diferente E eu não sabia nada do que de mim faziam... Mas eu não sou um carro, sou diferente

Mas em que sou realmente diferente nunca me diriam. /Depois as ervas vinham a crescer e encobriam-me todo... Passavam as árvores... e eu já nem era visto...

Comia-me a terra... e eu que era ferro e madeira voltava ao seu lado Ia direito ao coração da terra como a alma pr’a Cristo/.

Embora o uso de diminutivos não seja exclusivo deste poema de Caeiro, a repetição deste sufixo (duas vezes na primeira estrofe) e a escolha dos nomes derivados (“manhaninha”; “noitinha”) indiciam que a presença destas formas é devedora de Pascoaes. Na acima referida edição de Senhora da Noite (1909), constante da biblioteca pessoal de Fernando Pessoa, o texto apresenta, repetidamente, um “x” como marca de leitura, quer na margem esquerda, quer sobre determinados vocábulos. Os passos que, deste modo, se encontram assinalados constituem, maioritariamente, ocorrências de formas diminutivas e de expressões de teor religioso.

Se as últimas poderão auxiliar, sobretudo, a compreensão do poema XVIII, as primeiras parecem propor um antecedente para a composição XVI. Com efeito, a abundância de marcas de leitura sobre os diminutivos patentes neste texto, entre os quais — “manhanzinha” (Pascoaes 1909, 9); “rasteirinha (-o)” (1909, 17, 22); “pertinho” (1909, 18); “Amorzinhos” (1909, 21, 35); “velhinha”, “entrevadinha” e “quentinha” (1909, 53); e ainda “Noitinha”, sublinhado (1909, 43) — sugere que Pessoa terá interpretado a sua profusão como um excesso. Neste sentido, poder-se-á ler na escolha e na duplicidade dos diminutivos presentes na estrofe inicial do poema XVI uma reprodução do carácter excessivo, de que se reveste o uso destas formas em Pascoaes.

Estas constituem o veículo privilegiado para a expressão de um tópico característico do autor: o da natureza como modelo de humildade. Novamente, um passo assinalado na edição pessoana de Senhora da Noite (1909), acima referida, permite, não apenas considerar esta como a temática dominante da composição XVI, mas também proceder a uma articulação com o poema XVIII. A complementaridade exibida pelos dois poemas na exposição do tópico é corroborada pela existência de duas marcas de leitura situadas, uma sobre a forma diminutiva, outra na margem esquerda do

terceiro verso do seguinte excerto: “Tempera-te na voz da Natureza; / . . . / sê rasteirinha e humilde como as plantas / . . . / Como as pégadas lucidas das Santas” (1909, 17).

O último verso é exemplo das expressões de teor religioso que também se encontram assinaladas com um “x” nesta edição de Senhora da Noite. Uma análise não exaustiva de casos semelhantes permite afirmar que a proporção inversa aqui estabelecida entre o abaixamento do corpo (“pégadas”) e a elevação do espírito (“Santas”) caracteriza igualmente outros versos marcados por Pessoa: “Corpo que é alma escrava e dolorosa, / Alma que é corpo livre e redimido” (1909, 7); “Ahi vem a Meia Noite. Ó arvoredos, / Ajoelhae!” (1909, 10); “A Meia Noite ahi vem, cheia de graça, / D’além da serra... / Sob os seus pés, tão leves!” (1909, 15); “Eu sou, Senhora minha, a creatura / Rendida dos teus olhos creadores; / Presa aos teus pés gentis de Noite escura” (1909, 21); “Sou aquelle que ama; o rasteirinho / De corpo, e de alma clara e alevantada . . . / Sou a poeira que ergue, em teu caminho” (1909, 22); “Em meu peito ajoelhára ferveroso / E deslumbrado...” (1909, 30).

A consideração do poema “Humildade” de Vida Etérea (1906) é, neste contexto, profícua, pois permite atribuir um sentido inequivocamente cristão à proporção inversa detectada no poema anterior:

Homens, se não sois mais que miserável planta, Que rasteja na sombra e, comovida, canta; Do que o pó ressequido dos caminhos...

Se não sois mais que a flor e os montes pobrezinhos, Sede humildes; baixai à vida, ingénua e pura, Da fonte que murmura...

. . .

Em vossa dor cristã,

Desponte a clara estrela da manhã! Que, na vossa ternura madrugante, A cotovia cante!

E, em vosso coração enamorado, Se desvende Jesus crucificado...

. . .

Sede o luar das almas piedosas, O silêncio das noites misteriosas. Sede a lenha do lar, o azeite da candeia, O caldo e o pão da ceia,

O orvalho matinal que bebe um passarinho E a pequenina flor, à beira dum caminho...

. . .

Sede um anjo, nas nuvens, entrevisto. Sede, em pleno deserto, a túnica de Cristo... A terra que suspira e cisma, condoída, E, sob os nossos pés, parece que tem vida.

. . .

(1998, 196/7)

Repare-se que subscrever o preceito, segundo o qual seguir o modelo de humildade da natureza (“miserável planta”; “pó ressequido dos caminhos”; “montes pobrezinhos”) e das coisas simples (“a lenha do lar, o azeite da candeia, / O caldo e o pão da ceia”) é seguir a Cristo, constitui o desejo expresso por Caeiro no poema XVI: “Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois / . . . / Depois as ervas vinham a crescer e encobriam-me todo... / Passavam as árvores... e eu já nem era visto... / Comia-me a terra... e eu que era ferro e madeira voltava ao seu lado / Ia direito ao coração da terra como a alma pr’a Cristo” (Pessoa 1994a, 65). O mesmo desejo é reiterado no poema XVIII:

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada E que os pés dos pobres me estivessem pisando... Quem me dera que eu fosse os rios que correm E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida Olhando para trás de si e tendo pena...

(1994a, 67)

Neste poema, tal como em Pascoaes (“Ajoelhae”; “Sob os seus pés”), o abaixamento do corpo é exclusivamente veiculado por sensações tácteis, incluindo o sexto verso, que apresenta, como primeira variante, “E que só tivesse o sol para me tocar...” (1994a, 67). À luz dos passos supracitados, que se encontram assinalados na edição pessoana de Senhora da Noite (1909), o sentido preciso deste abaixamento do corpo consiste numa elevação do espírito. A articulação entre este significado espiritual e a exclusividade do tacto permite afirmar que este poema de Caeiro “doente” possui o seu oposto no poema XXX de O Guardador de Rebanhos, no qual Caeiro afirma que é “mystico, mas só com o corpo” (1994a, 80). Ou seja, tautologicamente, para o Caeiro “objectivo”, o abaixamento do corpo não significa mais do que o abaixamento do corpo. Neste sentido, nos três poemas em que descreve um êxtase místico 5, o Caeiro “objectivo” encontrar-se-á literalmente deitado: “E me deito ao comprido na herva”; “e a terra dura sobre que me deito”; “e o meu corpo, que está entre a erva” (1994a, 58, 143, 146).

Por contraste, no poema XVII de O Guardador de Rebanhos pode ler-se uma reiteração do misticismo de Pascoaes:

No meu prato que mistura de Natureza! As minhas irmãs as plantas,

As companheiras das fontes, as santas A quem ninguém reza...

E cortam-as e vêm à nossa mesa E nos hoteis os hóspedes ruidosos, Que chegam com correias tendo mantas Dizem “salada”, descuidosos...

Sem pensar que exigem à Terra-Mãe A sua frescura e os seus filhos primeiros,

As primeiras verdes palavras que ela tem, As primeiras coisas vivas e irisantes Que Noé viu

Quando as águas desceram e o cimo dos montes Verde e alagado surgiu

E no ar por onde a pomba apareceu O arco-íris se esbateu...

(1994a, 66)

Ao poema supracitado parece poder aplicar-se a acusação que Reis, no seu prefácio, apresenta contra alguns poemas do “mestre” e que consiste no “banho morno de emotividade cristã em que alguns dos poemas são envolvidos, a simbologia cristista de que alguns deles, mesmo, se servem”. Para Reis, “[p]aira por parte do livro um romantismo naturalista qual o que ensinaram à Europa os dulcorosos cânticos do abominável fundador da ordem franciscana” (1994a, 33) 6.

Contudo, orientando a leitura, de um modo aparentemente inequívoco, para o reconhecimento da linguagem franciscana como seu modelo textual, o poema XVII oculta a função mediadora que Pascoaes detém neste contexto. Com efeito, o franciscanismo aqui patente terá sido colhido, não na sua fonte primeira, mas nos textos de Pascoaes. O seu modelo parece ser a terceira composição de As Sombras (1907), “A Sombra do Passado”. Tal como no começo do poema de Caeiro são referidas “As minhas irmãs as plantas”, esta composição é pontuada pela afirmação de relações de ordem fraternal entre o sujeito e elementos da natureza: “À sombra destas árvores outonais, / Minhas irmãs em Deus . . . ”; “Mamei com fome o leite que me fez / Poeta e irmão das águas e das pedras” (Pascoaes 1996, 22, 34). Por seu turno, a santificação da paisagem, presente na primeira estrofe do poema de Caeiro (“As companheiras das fontes, as santas / A quem ninguém reza . . . ”) encontra o seu antecedente na comparação a que Pascoaes procede: “Ó árvores velhinhas, que sofreis / . . . / E estendeis, como as Santas, o avental / A transbordar de frutos e de flores, / Aos ermos pobrezinhos deste val’ / Onde habitam a fome e o desespero” (1996, 22/3). Em

Pascoaes, a santidade atribuída às árvores constitui o culminar da descrição de um martírio, que irmana a contingência natural e a fragilidade humana:

Velhinhas árvores, Desgrenhadas, ao vento da loucura; E extáticas de mágoa, em noite branca, Ao hálito da luz que murmura.

. . .

Ó arvores da minha soledade!

Tenho pena de vós, porque sois feitas Da minha escura e vã fragilidade, Do mesmo barro túmido de lágrimas, Da mesma dor, miséria e negra morte; Da mesma poeira e cinza, que eu derramo E que, um dia, uma estrela, ao apagar-se Por acaso deixou...

Como eu vos amo, Ó árvores velhinhas que sofreis Essa ironia em flor da Primavera, Ígneos sorrisos vivos e cruéis Que vos mordem a pele enegrecida! (1996, 22/3)

Em Caeiro, o processo de martírio (“No meu prato que mistura de Natureza”; “Dizem ‘salada’, descuidosos...”) e de santificação dos elementos naturais decorre de um contraste entre cidade e campo, mediante a evocação textual de Cesário Verde. No comentário que tece ao poema, Reis afirma: “Aqui, na poesia XVII, é que colhemos em acção as influências fundadoras de Caeiro: Cesário Verde e os neopanteístas portugueses. E o 7º verso é Cesário Verde puro. O tom geral podia quase ser de Pascoaes” (Pessoa 1994a, 66).

Repare-se que no poema III de O Guardador de Rebanhos Caeiro descreve Cesário através do paradoxo “um camponês / Que andava preso em liberdade 7 pela cidade” (1994a, 45). Qualquer leitura não exaustiva de “O Sentimento dum Ocidental”, por exemplo, permite justificar a caracterização de Cesário, a que Caeiro procede.

Considerem-se os seguintes versos das secções II e IV, nos quais a cidade é representada como um espaço de encarceramento, possuindo como termo de comparação elementos da natureza: “Toca-se às grades, nas cadeias”; “Na parte que abateu no terremoto, / Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas”; “Colocam-se taipais, rangem as fechaduras”; “Mas se vivemos, os emparedados, / Sem árvores, no vale escuro das muralhas”; “E, enorme, nesta massa irregular / De prédios sepulcrais, com dimensão de montes” (Verde 2001, 126, 130-2).

Por seu turno, ao estabelecer a comparação “[Cesário] andava na cidade como quem anda no campo”, Caeiro afasta-se do seu “mestre”, reconhecendo nele uma cisão de índole constitutiva, que se traduz num trânsito nostálgico entre cidade e campo e numa poesia que descreve uma natureza literalmente morta ou metaforicamente literária (“como esmagar flores em livros”) e artificial (“E pôr plantas em jarras”). Contra esta noção da natureza como poesia, Caeiro sustentará o princípio de uma poesia como natureza, afirmando no poema XIV: “Penso e escrevo como as flores têm côr” e “E o que escrevo é natural como o levantar-se vento” (Pessoa 1994a, 63).

Mas tanto o paradoxo como a comparação indiciam sobretudo, nos termos de Caeiro, uma subordinação do “ver” ao “pensar”, que fundamenta uma atribuição de existência a objectos invisíveis, isto é, ausentes do campo de visão: “Mas o modo como olhava para as casas, / E o modo como reparava nas ruas, / E a maneira como dava pelas coisas, / É o de quem olha para árvores, / E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando / E anda a reparar nas flores que há pelos campos...” (1994a, 45). Pelo contrário, no poema VII da mesma colectânea, Caeiro afirma: “Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave” (1994a, 51). Nos Poemas Inconjuntos, declara: “De nada me serviria estar olhando para outro lado / E para aquilo que não vejo. / Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos” (1994a, 129). E ainda: “Sempre que penso uma

coisa, traio-a. / Só tendo-a diante de mim devo pensar nela. / Não pensando, mas vendo, / Não com o pensamento, mas com os olhos” (1994a, 134).

Neste sentido, Cesário Verde não deixa de ver o invisível. Considerem-se, novamente, alguns versos da quinta e da sexta estrofes de “Ave-Marias”: “Embrenho- me, a cismar, por boqueirões, por becos, / Ou erro pelos cais a que se atracam botes. // E evoco, então, as crónicas navais: / Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! / . . . / Singram soberbas naus que eu não verei jamais!” (Verde 2001, 124). Por contraste, Caeiro afirmará no poema XX de O Guardador de Rebanhos: “O Tejo tem grandes navios / E navega nelle ainda, / Para aquelles que vêem em tudo o que lá não está, / A memória das naus // . . . // O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. / Quem está ao pé d’elle está só ao pé dele” (Pessoa 1994a, 70). Compreende-se assim que, para o Caeiro “objectivo”, a poesia de Cesário não deixe de ser “doente”.

À luz do que acima foi exposto, a afirmação de Reis segundo a qual o sétimo verso do poema XVII (“Que chegam com correias tendo mantas”) evidencia a influência de Cesário, não se afigura problemática. Com efeito, a presença do substantivo “correias” indica que este “Cesário Verde puro” é o Cesário Verde descrito por Caeiro, no poema III, como um camponês “preso em liberdade”. A presença, em ambos os poemas, de elementos caracterizadores de uma condição de aprisionamento viabiliza a operação de inversão realizada no poema XVII: se, para o Caeiro “objectivo” do poema III, Cesário “era um camponês / Que andava preso em liberdade pela cidade” e “andava na cidade como quem anda no campo”, para o Caeiro “doente” do poema XVII, os “hóspedes ruidosos” constituirão o inverso de Cesário, isto é, serão citadinos que andam presos em liberdade pelo campo, andando no campo como quem anda na cidade. Da reiteração da noção de aprisionamento decorre a reafirmação de um contacto

apenas indirecto (“com correias tendo mantas”) e utilitário ou artificial (“Dizem ‘salada’, descuidosos...”) com a natureza.

Por contraste, a última estrofe do poema XVII, apresentando a noção de uma Terra-Mãe, parece evocar novamente a linguagem franciscana, evidenciando uma relação filial, da qual o sujeito se reclama relativamente à natureza. O conceito de Terra- Mãe encontra-se aliado à noção de origem e as imagens a que Caeiro recorre (“As primeiras coisas vivas e irisantes / Que Noé viu / Quando as águas desceram”) merecem a Reis, no seu prefácio, a acusação de que por elas passa “como matéria estética, dispensável todavia, um sopro de mitologia cristã, que destoa da índole da obra” (1994a, 33). Esta consideração da mitologia cristã como “matéria estética”, fundamentada na noção da Terra-Mãe como origem parece ser, de novo, colhida por Caeiro em “A Sombra do Passado” de Pascoaes:

Sou como vós, ó árvores! . . .

Também vós procurais, com as raízes, Nas entranhas dos campos, a água virgem... E tanto se abre a terra aos vossos beijos, Que ela vos mostra a sua antiga origem, A antiga sombra mãe, que a concebera, E se infiltra nos caules e nas ramagens... E fluidica e triste deles cai,

Numa chuva espectral, sobre as paisagens. Ai, tendes fome e sedes! Assim eu

Tenho sede de luz. . . . . . . assim meus olhos Se dilatam em lágrima auroreal, Em lágrima que invade a Criação, Como o antigo Dilúvio universal! (Pascoaes 1996, 23)

Outro sintoma de Caeiro “doente”, o poema XIX possui o seu contraponto exacto na composição XXXV do Caeiro “objectivo”. Ambos encontram-se datados de 4-3-1914, pois, como afirma em nota Teresa Sobral Cunha, o segundo é

“indubitavelmente contemporâneo do Poema XIX, do qual se encontra junto” (Pessoa 1994a, 306):

O luar quando bate na relva Não sei que coisas me lembra...

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