O início da actividade editorial em Goa coincidiu com a chegada, em 1556, do jesuíta valenciano Jorge de Bustamante. Segundo consta, o jesuíta montou no Colégio de S.Paulo, em Goa, uma oficina tipográfica levada de Portugal, com a ajuda de João Gonçalves e de um hábil indiano.198 A autonomia editorial da Companhia de Jesus, no Oriente, complementava a sua actividade missionária.
A partir de 1557, a Índia foi dotada de tipografias em Goa, Rachol, Cochim, Vaypicota, Punicale e Ambacalate. No entanto, ao afirmar que nestas oficinas os ƚƌĂďĂůŚŽƐ ĞĚŝƚĂĚŽƐ ͞ŶĞ ĨƵƌĞŶƚ ŐƵğƌĞ ƋƵĞ ĚĞƐ ĐĂƚĠĐŚŝƐŵĞƐ ŽƵ ůŝǀƌĞƐ ĚĞ ƉƌŝğƌĞƐ͕͟ Bernard-‐Maitre deixou para trás a particularidade das obras publicadas na oficina de Endem. 199
Alguns sugeriram que o tratado de Orta foi publicado na oficina de Bustamante.200 Na Figura 2 apresentamos o exemplo da página de um impresso proveniente dos prelos jesuítas. O confronto da capital ornamentada e dos caracteres usados na oficina deste Colégio de Goa com os utilizados nas tipografias de Francisco Correa e João Endem (que apresentamos nas figuras 3 e 4) leva-‐nos a questionar a relação da tipografia da Companhia de Jesus com a impressão de Colóquios dos
Simples.
198
DĂŶƵĞůĂĚĂĨĂnjĚĞDĂƚŽƐ͕͞,ƵŵĂŶŝƐŵŽĞĞǀĂŶŐĞůŝnjĂĕĆŽŶŽKƌŝĞŶƚĞŶŽƐĠĐƵůŽys/͕͟ƉƉ͘ϰϭ-‐72.
199
Bernard-‐Maitre cit in Lucien Febvre, Henri-‐Jean Martin, >͛ĂƉƉĂƌŝƚŝŽŶĚƵlivre, pp.300-‐305.
200
Leão Fernandes cit in DĂŶƵĞůĂĚĂĨĂnjĚĞDĂƚŽƐ͕͞,ƵŵĂŶŝƐŵŽĞĞǀĂŶŐĞůŝnjĂĕĆŽŶŽKƌŝĞŶƚĞŶŽƐĠĐƵůŽ ys/͕͟pp. 41-‐72.
Figura 2 ʹ Página de obra impressa em Goa, em 1559, na oficina de João de Bustamente.
(Gaspar de Leão, Desengano, 1958, p.XLIX)
É hoje inquestionável a influência dos tipógrafos germânicos na instalação de gráficas em Portugal. De entre os muitos que instalaram as suas oficinas neste extremo ocidental da Europa, destacou-‐se João Blávio, um tipógrafo da confiança do Cardeal D.Henrique.201 Entre 1558 e 1563, Blávio editou em Lisboa mais de 50 obras. Este alemão, natural de Colónia, tinha a oficina no Beco de Gaspar das Naus e depois na
Rua dos Escudeiros.202 Como se pode ler no Livro 8 da Chancelaria de D.Sebastião (14 de Maio de 1560) o rei concedeu ao tipógrafo uma mercê de 40.000 reais em cada ĂŶŽ͕ĞŶƋƵĂŶƚŽĞůĞŵĂŶƚŝǀĞƐƐĞĂŽĨŝĐŝŶĂĚĞŝŵƉƌĞƐƐĆŽŶĂ1ŶĚŝĂ͘͞ŵĞƌĐġĐŽŶĐĞĚŝĚĂĂ João Blávio foi depois da sua morte mantida a seus herdeiros e testamenteiros, que não lograram muito visto as officinas que Blavio possuía na Índia e em Lisboa terem
201
Sobre a extensão da actividade editorial de João Blávio no Oriente ver, entre outros, em Venâncio Deslandes, Documentos para a história da typographia portugueza nos séculos XVI e XVII, p. 72-‐73; António Joaquim Anselmo, Bibliografia das obras impressas em Portugal no século XVI, p.151 ; D.ManuelII, Livros Antigos Portuguezes, pp. 644-‐659.
202
:ŽƌŐĞ WĞŝdžŽƚŽ͕ ͞ůĞŵĆĞƐ ƋƵĞ ƚƌĂďĂůŚĂƌĂŵ ŶŽ ůŝǀƌŽ Ğŵ WŽƌƚƵŐĂů ŶŽƐ ƐĠĐƐ͘ ys Ğ ys/͕͟ Ɖ͘ ϭϮϲ͘ sĞƌ também Ribeiro Santos, Memória para a história da typografia portugueza, p.122 e Venâncio Deslandes, Documentos para a história da typographia portugueza nos séculos XVI e XVII, pp. 72-‐73.
ƐŝĚŽĂƌƌĞŶĚĂĚĂƐĂŽŝŵƉƌĞƐƐŽƌ&ƌĂŶĐŝƐĐŽŽƌƌĞĂĞŵϭϱϲϰ͘͟203 Apesar da autorização do soberano para desenvolver a sua actividade editorial no Oriente, a verdade é que não se conhece hoje qualquer volume editado na Índia sob a supervisão directa de João Blávio. Deste modo, supõe-‐se que no decorrer de 1560, Blávio tenha trespassado a João Quinquénio de Campânia a sua tipografia no Oriente. Este italiano, do qual pouco mais se adivinha do que as suas origens numa pequena aldeia encravada nas encostas montanhosas perto de Salerno e Nápoles, foi assim o primeiro tipógrafo a trabalhar nestas oficinas goesas, a quem se veio a juntar, no ano imediato, o alemão João de Endem. 204 ͞WŽƌŵŽƌƚĞĚĞYƵŝŶƋƵĠŶŝŽ͕ŶĚĞŵĂƐƐĞŐƵƌŽƵŽƐ trabalhos tipográficos até 1573, que foi, acaso por fallecimento deste impressor, o último da sua existência. As impressões desta typographia se vendiam em Goa na loja do livreiro Fernão de ĂƐƚŝůŚŽ͕ƋƵĞĨŝĐĂǀĂĚĞĨƌŽŶƚĞĚŽƐĂĕŽƵŐƵĞƐ͘͟205
Estes tipógrafos editaram assim em conjunto, em Goa, apenas uma obra:
Compêndio espiritual da vida cristã, da autoria de D. Gaspar de Leão Pereira, (Goa,
1561). 206 Como sugeriu D. Manuel II, admite-‐se que, no biénio que mediou entre a publicação do Compêndio espiritual(1561) e os Colóquios dos Simples(1563), outras obras, mesmo documentos oficiais, tenham sido estampadas. Para o monarca, João Quinquénio teve por companheiro, e talvez aprendiz, João de Endem, nas mãos de quem, por aquele faltar ao entrar no ano de 1563, ficou a estampa dos Colóquios dos
Simples e drogas he cousas mediçinais da India.207 Assim, a primeira obra editada sob a exclusiva responsabilidade de João de Endem parece ter sido Colóquios dos Simples, de Garcia de Orta.
Muito pouco se pode escrever sobre este tipógrafo alemão. Atendendo ao seu nome, pode supor-‐se natural de Emden, pequena vila portuária, ancorada no Mar do Norte e banhada pelo rio Ems. Desde 1520, esta vila foi palco de intensas querelas
203
D. Manuel II. Livros Antigos Portuguezes, p. 647.
204
Anselmo admitiu que o Tratado em que se mostrava pela decisão dos concílios [pelo P. Gonçalo Rodrigues], Goa, 1560 tenha sido a primeira obra impressa por João Quinquénio de Campania. António J. Anselmo, Bibliografia das obras impressas em Portugal, p. 344
205
Venâncio Deslandes, Documentos para a história da typographia portugueza nos séculos XVI e XVII, p. 44-‐45.
206
António Joaquim Anselmo, Bibliografia das obras impressas em Portugal, p. 344. Ver também Diogo Barbosa de Machado, Bibliotheca Lusitana, vol. 2, p. 402.
207
D. Manuel II, Livros Antigos Portuguezes, p . 648 ; António Ribeiro Santos, Memória para a história da typografia portugueza, p. 123.
religiosas. Johannes a Lasco (1499-‐1560), um nobre polaco residente em Emden desde 1540, ao qual foram conferidos poderes para zelar sobre os crentes evangélicos da Frísia Oriental, foi um dos mais radicais motores desta discórdia. O clima de instabilidade então vivido na região pode ter levado os habitantes de Emden a estabelecerem-‐se à beira do Reno, na Rheinland, nomeadamente em Colónia. Nesta cidade alemã, a indústria tipográfica estava bem desenvolvida. Muitos dos tipógrafos que ao longo do século XVI se estabeleceram na Península Ibérica, França, Suíça ou nas Repúblicas italianas eram originários desta região, pelo que não é difícil admitir que João de Endem, tal como João Blávio, tenha chegado a Lisboa a partir de Colónia. Pouco depois da instalação de João de Endem na Índia, João Blávio foi preso pela InquiƐŝĕĆŽĚĞ>ŝƐďŽĂĞĂůǀŽĚĞƵŵ͞ƉƌŽĐĞƐƐŽƉŽƌƐĞĂƉĂƌƚĂƌĚĂĨĠĐĂƚſůŝĐĂ͕ƉŽƌŝŵƉƌŝŵŝƌ falsas bulas, etc͘͟208 Apesar deste sobressalto, a tipografia lisboeta continuou a trabalhar, sob a sua orientação, pelo menos até 1563. Um alvará de isenção sobre os
direitos de papel concedido aos herdeiros de João Blávio, em 18 de Abril de 1564
permite-‐nos conjecturar que o tipógrafo teria entretanto falecido. Nesta altura, coube a Francisco Correa prosseguir a actividade editorial iniciada por Blávio.209 Negociando o arrendamento das tipografias de Blávio com os herdeiros do tipógrafo alemão, Correa, que desde 1549 se encontrava ligado às oficinas gráficas portuguesas, assegurou a continuidade da produção gráfica em Lisboa e em Goa.
Assim, se ainda restavam dúvidas sobre a origem do material tipográfico das oficinas de Goa, estas dissipam-‐se quando se coloca frente a frente o trabalho das oficinas de Lisboa e de Goa. Comparando, como sugere Ascensio, as letras ornamentadas e os caracteres redondos utilizados por Francisco Correa na Chronica do
felicissimo Rey D. Emmanuel (Lisboa, 1565), com os elementos correspondentes nos Colóquios dos Simples (Goa, 1563), que se apresentam nas figuras 3 e 4, podemos
constatar que se trata de tipos semelhantes. Tal facto contribuiu para comprovar as relações acima apontadas entre as oficinas lisboetas e goesas.
208
Inquisição de Lisboa, Processo nº 1624. Publicado por Pedro de Azevedo, Boletim da Segunda Classe da Academia das Sciências de Lisboa, vol 7, pp.74-‐88. Cit in :ŽƌŐĞWĞŝdžŽƚŽ͕͞ůĞŵĆĞƐƋƵĞƚƌĂďĂůŚĂƌĂŵŶŽ ůŝǀƌŽĞŵWŽƌƚƵŐĂůŶŽƐƐĠĐƐ͘ysĞys/͕͟ƉϭϮϳ
209
Venâncio Deslandes, Documentos para a história da typographia portugueza nos séculos XVI e XVII, p.43.
Figura 3 -‐ Página da Crónica del Felicissimo Rey D. Emmanuel, por Damião de Góis (Lisboa, 1565)
(D. Manuel II, Livros Antigos Portuguezes, p.6)
Figura 4 -‐ Página de Colóquios dos Simples͙ĚĞ'ĂƌĐŝĂĚĞKƌƚĂ;'ŽĂ͕ϭϱϲϯͿ
2.1.3. O Arcebispado de Goa
Em finais de 1560, após uma atribulada viagem, chegou à Índia D. Gaspar Leão Pereira, o primeiro Arcebispo de Goa.210 Na mesma armada do prelado, seguiam os homens responsáveis pela implementação do Tribunal da Inquisição em Goa assim como dois ŐƌĄĨŝĐŽƐ͘ YƵĂůƋƵĞƌ ƋƵĞ ĨŽƐƐĞ Ă ŝĚĞŶƚŝĚĂĚĞ ĚĞƐƚĞƐ ĚŽŝƐ ŚŽŵĞŶƐ͕ ƉĂƌĞĐĞ ĐůĂƌŽ ƋƵĞ ͞ůĂ
210
D. Gaspar Leão Pereira foi nomeado em 1558 como primeiro Arcebispo de Goa. Desempenhou as suas funções em dois períodos : 1558 (1560)-‐1567 e 1572-‐1576.