4. Raisonnement spatial pour les risques naturels en montagne
4.2 Analyse spatiale pour les risques : outils méthodologiques
A documentação que acompanha o exemplar RES 457 guardado na Biblioteca Nacional de Lisboa pode ler-‐se:
͞ Exemplar mutilado com variantes do ex. 456 . Só a folha 7 e 7v tem alterações de alinhamento e grafia ʹ parece ser uma folha aqui colocada de outra impressão.͟ Esta sequência de observações termina com uma conclusão ĚĞĨŝŶŝƚŝǀĂ͗͞ĐŽŵĐĞƌƚĞnjĂĚĞŽƵƚƌĂĞĚŝĕĆŽŶĆŽĐŝƚĂĚĂ.͟
Para o anónimo autor destas linhas, a simples existência de uma folha com textos ligeiramente diferentes parece ser suficiente para justificar a existência de mais do que uma edição quinhentista dos Colóquios.
Se ainda não tivéssemos consultado diferentes exemplares goeses talvez partilhássemos desta opinião. Tal como viemos depois a constatar, a questão do texto da folha 7, a composição dos cadernos C e D ou a sequência de paginação do caderno P, foram apenas alguns dos incidentes que se nos impôs analisar, quando procurámos clarificar aspectos relacionados com a edição dos Colóquios. Admitir que existiu mais do que uma edição quinhentista passaria, talvez, por verificar que, globalmente, as principais alterações ou correcções se teriam encontrado em alguns volumes quando comparados com outros. No entanto, como referimos, até hoje, não nos deparámos com qualquer exemplar que revelasse, no seu conjunto, ter sido alvo de um maior cuidado. Na verdade, em cada um dos livros analisados, apenas verificámos intervenções parciais. A combinação, num mesmo volume, de cadernos com erros corrigidos com outros contendo as lacunas originais, sugeriu-‐nos que cada obra foi encadernada reunindo, de forma aleatória folhas emendadas e originais.
Para tentar compreender como tinha decorrido o desordenado processo de edição de Colóquios dos Simples, analisámos o maior número de exemplares que nos foi possível consultar. A partir do estudo de diferenças que nos pareceram mais significativas, como o número de folhas do caderno C, a substituição de determinados
fólios ou a sequência dos paratextos, elaborámos um Protocolo de Análise.301 De igual modo, atendemos à diversidade de papel utilizada, assim como a emendas na sequência da paginação ou na posição de letras capitais. O trabalho está longe de estar terminado. Dificuldades de vária ordem têm impedido a deslocação às bibliotecas nacionais e estrangeiras onde os exemplares se encontram. No entanto, já analisámos a maioria dos volumes que se encontra em Portugal e em França, assim como alguns dos guardados no Reino Unido e em Itália. A lista de exemplares, como vimos, é mais numerosa do que se pensava e acalentamos a esperança de, nos próximos anos, podermos examinar uma importante proporção dos que ainda nos faltam. Do que nos tem sido possível observar, resulta claro que o processo editorial foi conturbado. Todos os leitores dos Colóquios, começando pelo licençiado Dimas Bosque lamentaram o estado da edição. O Conde de Ficalho, ao apresentar a obra de Orta afirmou ͗ ͞ŽƐ erros abundam ; a ortographia e a pontuação são caprichosas ; a numeração das páginas irregularíssima ; e a leitura torna-‐ƐĞĞŵŵƵŝƚĂƐƉĂƐƐĂŐĞŶƐĚŝĨşĐŝůĞŽďƐĐƵƌĂ͘͟EŽ ĞŶƚĂŶƚŽ͕ ĞƐĐůĂƌĞĐĞƵ͕ ͞Ž ƋƵĞ ŚĂ ĚĞ ƉĞŽƌ͕ ŽƵ ŵĞƐŵŽ ĚĞ ŵĂŽ ŶĂ ĞĚŝĕĆŽ ĚĞ 'ŽĂ Ġ Ž ƚƌĂďĂůŚŽĚĞĐŽŵƉŽƐŝĕĆŽ͘KƉĂƉĞůĠďĂƐƚĂŶƚĞďŽŵ͕ĞŽƚLJƉŽĞdžĐĞůůĞŶƚĞ͘͟302
O exemplar dos Colóquios dos Simples do Institut de France pertence ao importante fond Delessert, uma das mais completas colecções europeias de obras de História Natural publicadas no Renascimento. O livro encontra-‐se em excelente estado de conservação e as múltiplas anotações e sublinhados a lápis sugerem que foi alvo de estudo cuidado por um anterior proprietário. Este volume do Institut de France, que designámos IF, apresenta alterações significativas relativamente ao exemplar FCB. Apesar de nele ainda termos encontrado alguns dos erros assinalados por Orta, verificámos que muitas destas lacunas já tinham sido emendadas. Verificámos ainda que alguns dos erros corrigidos na versão FCB não o estavam no IF, sendo o caso inverso também verdadeiro. Deste modo, o volume apresentava cadernos corrigidos
301
Para a análise dos diferentes exemplares estabeleceu-‐ƐĞƵŵ͞WƌŽƚŽĐŽůŽĚĞŶĄůŝƐĞ͟ĐŽŵĂĂũƵĚĂĚĂ Prof. Isabelle Pantin (ENSup, Paris), a quem agradeço reconhecida toda a ajuda, sugestões e interesse por este projecto. Quero também expressar o meu agradecimento à Dra Conceição Tavares (CIUHCT), à Prof. Inga Elmqvist e ao Prof. Jonas Nordin (Kulinga Biblioteket/The National Library of Sweden) pela ajuda preciosa na análise de exemplares guardados, respectivamente, na Biblioteca de Ponta Delgada e na National Library of Sweden. Também aos colegas do CIUHCT, Samuel Gessner e Luana Giurgevich, agradeço a referência ao exemplar guardado na Biblioteca do Convento de Mafra.
302
misturados com originais. Encontrámos ainda, no volume IF, duas folhas integralmente refeitas e cuidadosamente coladas. Assumimos que as novas versões destas folhas se aproximavam dos propósitos do corrector.303
Nos volumes BNP2, BNF e BNU as folhas 7 e 27 foram substituídas por outras com novas versões do texto, não se tendo verificado a colagem da nova versão da folha mas a substituição integral do respectivo caderno. Supomos, assim, que a intervenção no exemplar IF foi posterior à encadernação, momento em que já seria impossível substituir o caderno. Talvez por este motivo possamos admitir que este exemplar foi dos primeiros a ser encadernado.304
Só uma análise de cada uma destas intervenções pode facultar uma melhor compreensão das intenções do autor (ou do corrector). Convém assinalar que a substituição das folhas, dado o exímio trabalho de corte e colagem, é quase imperceptível. O cuidado na recomposição do texto faz com que não haja descontinuidade na leitura. Em oposição ao sugerido, no início da obra, este facto faz-‐ nos supor que, no Oriente, tipógrafos e livreiros podiam contar com colaboradores meticulosos, capazes de empreender um trabalho artesanal de qualidade notável.
A folha 7 tem sido frequentemente analisada.305 Na verdade o texto da folha 7f e 7v varia em função dos volumes: enquanto existe uma versão de texto no volume BFMUL, IF, BPAPD, BL e ANTT, regista-‐se outra nos exemplares BPE e BME e uma terceira nos livros BSCM, BA, BIT, BNP1, BNP2 e BNF.
Também o texto que ocorre no fl 27 (FCB e BME) é distinto do fl 29 (BFMUL, BPAPD, BSCM, BPE, BL, ANTT, BA, BIT, BNF, BUC, BNP1 e BNP2). No exemplar IF, uma ŶŽǀĂ ĨŽůŚĂ ͞Ϯϵ͟ foi colada o que, mais uma vez, nos leva a supor uma intervenção posterior à encadernação.
O caderno P também revela variantes. A sequência de paginação nos exemplares ANTT e BNL1 é distinta da observada nos volumes BSCM, BPE, BL, BIT,
303
As folhas 7 e a 27 foram totalmente refeitas.
304
Acresce a este facto o tipo de encadernação característica do século XVI : em pergaminho com duas presilhas de couro.
305
A questão das diferentes formas da folha 7 foi já levantada por Augusto Silva Carvalho em Garcia Ě͛KƌƚĂ, pp. 178-‐180. Actualmente detectámos uma 3ª versão da folha 7.
BNP2. Não se encontrou, no entanto, uma diferença no texto que justificasse a recomposição do caderno.
Todas estas divergências só vêm agravar a dificuldade de análise da edição. Torna-‐se, neste momento bem mais complicado discernir qual dos textos em causa foi o mais aproximado da vontade do seu autor. Podemos considerar-‐se que alguns exemplares apresentam semelhanças significativas. São exemplares compostos especialmente com cadernos dĂƵŵĂƚŝƌĂŐĞŵ͞ƌĞǀŝƐƚĂ͘͟KĞdžĞŵƉůĂƌ/&͕ƉŽƌƐĞƵůĂĚŽ͕ŶĂ medida em que apresenta folhas coladas, parece conter mais cadernos de uma 1ª tiragem. Até hoje, ainda não encontrámos exemplares de uma tiragem original que seriam equivalentes ao que Garcia de Orta referiu na Errata. Dada a diversidade do grau de intervenção que encontrámos nos volumes analisados parece-‐nos possível que apenas tenha havido uma edição de Colóquios os Simples, em Abril de 1563.
A inexperiência do tipógrafo, a despreocupação dos funcionários da oficina relativamente aos rigores da ortografia, a pouca clareza do texto manuscrito assim como a originalidade do tema, comprometeram a transparência do texto publicado.
Retomando o nosso argumento inicial, admitimos que a existência de número considerável de variantes revela diferentes momentos na revisão do texto. Após uma primeira tiragem, o texto foi corrigido pelo compositor e/ou corrector e confrontado com o original. O texto parece ter sido depois enviado ao autor quando a totalidade dos capítulos estava impressa. Este, terá revisto as provas, e proposto correcções de diversa ordem. Dada a grande extensão da Errata, supomos que muitas folhas (ou cadernos) tiveram que ser integralmente refeitos, o que conduziu a um importante atraso na edição do texto. Convém salientar que a correcção levada a cabo por Orta foi, provavelmente, tardia e que se nos afigura que este tenha ficado satisfeito com o trabalho. Como dissemos, estamos convictos de que o médico planeava publicar uma segunda edição, possivelmente expurgada de todos erros assinalados. No entanto, só uma pesquisa mais exaustiva poderá vir a validar esta hipótese.
2.8. História das edições
Deixando de lado as adaptações e traduções efectuadas por Clusius e por todos os que nele se basearam, fica-‐nos a ideia de que, entre a edição goesa de 1563 e as do século XIX, não se verificou qualquer reimpressão portuguesa dos Colóquios dos Simples. Se bem que, desde 1841, a Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa306 manifestasse vontade em publicar uma versão comentada da obra quinhentista, tendo mesmo chegado a solicitar pareceres a Almeida Garrett e a Fr. Francisco de S.Luís. Os dois homens acolheram efusivamente o projectŽ͘^ĞŐƵŶĚŽĐŽŶƚŽƵ&ŝĐĂůŚŽŶĂ͞ĚǀĞƌƚġŶĐŝĂ ƉƌĞůŝŵŝŶĂƌ͟ ă ĞĚŝĕĆŽ ĚĞ Colóquios dos Simples͕ ͞ĂŵďŽƐ ĚĂǀĂŵ͕ ŶĂƐ ƌĞƐƉŽƐƚĂƐ ă Sociedade, o seu parecer sobre as regras a observar na noǀĂ ĞĚŝĕĆŽ͘͟ ;KƌƚĂ͕ /͗s//Ϳ͘ continuou Ficalho͗͞ĞǀŝĚŽƐĞŵĚƵǀŝĚĂĂŽƐĞƐĨŽƌĕŽƐ ĞŝŶĨůƵĞŶĐŝĂĚ͛ĞƐƚĞƐĚŽŝƐŝůůƵƐƚƌĞƐ literatos, o governo decidiu auxiliar a emprezada Sociedade das sciencias medicas, e um portaria de 27 de Maio de 1841, assignada por R. da Fonseca Magalhães, determinou que a reimpressão fosse feita na Imprensa Nacional, e que a dirigisse o conselheiro, :ŽĆŽĂƉƚŝƐƚĂĚĞůŵĞŝĚĂ'ĂƌƌĞƚƚ͘͟(Orta, I:VII). Apesar de aparentemente bem encaminhado, este projecto nunca saiu do papel.
Consta que Rodrigo de Lima Felner acalentou o propósito de editar os
Colóquios mas, até ao momento, não nos foi possível encontrar detalhes deste
projecto. Deste modo, o texto publicado em 1872 por Francisco Adolfo Varnhagem,307 ͞pela qual suspira ha tanto tempo Portugal͟308 constituiu a segunda edição portuguesa da obra de Garcia de Orta. 309 O diplomata já tinha então editado, com louvável
306
Segundo Inocêncio Francisco da Silva, Dicionário Bibliográfico Português, vol.3, p. 116, já no número de Março de 1841, a Sociedade de Ciências Médicas expressara no seu Jornal (série 1 tomo XIII) a vontade de reimprimir os Colóquios dos Simples de Garcia de Orta. Em Julho de 1844, a referida Sociedade, reiterando o seu propósito, publicou no Jornal (Série 1ª, tomo XX) um fac-‐similado do terceiro colóquio.
307
Francisco Adolfo Varnhagem, Colóquios dos Simples, Lisboa, 1872.
308
Varnhagen afirmou ͗ ͞^Ğ ƉŽƌ ĞůůĂ ƐƵƐƉŝƌĂ ŚĂ ƚĂŶƚŽ ƚĞŵƉŽ WŽƌƚƵŐĂů͕ ĐŽŵ ŵĂŝŽƌ ƌĂnjĆŽ ƐĞƌĄ ĞůůĂ apreciada pelos paízes entre tropicos que teem por propria a lingua portugueza, e muito principalmmente o Brazil, em cujo litoral são conhecidas não só as mangueiras, os coqueiros, e as jaqueiras, como a arvora da canella, do cravo, das carambolas, dos jambos, dos tamarindos, e até a ƉůĂŶƚĂ ƚƌĞƉĂĚĞŝƌĂ ƋƵĞ ƉƌŽĚƵnj Ă ƉŝŵĞŶƚĂ ŶĞŐƌĂ͕ ĂŝŶĚĂ ĚĞŶŽŵŝŶĂĚĂ ŝŵƉƌŽƉƌŝĂŵĞŶƚĞ ƉŽƌ ĂůŐƵŶƐ ͞ĚŽ ƌĞŝŶŽ͘͟ WĂůĂǀƌĂƐ ĚĞ sĂƌŶŚĂŐĞŶ͕ ;ϭϴϳϮͿ ŶĂ dedicatória que dirigiu à Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro.
309
sĂƌŶŚĂŐĞŵ ƵƚŝůŝnjŽƵ ŶŽ ƐĞƵ ƚƌĂďĂůŚŽ Ž ĞdžĞŵƉůĂƌ ƉĞƌƚĞŶĐĞŶƚĞ ă ͞ŝďůŝŽƚĞĐĂ /ŵƉĞƌŝĂů Ě͛ĞƐƚĂ ŽƌƚĞ ƌĂƐŝů͘͟