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Embora a III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Puebla de Los Angeles ( 28.01 a 13.02 de 1979), seja tratada como continuidade das decisões da conferência de Medellín, ocorrida dez anos antes, houve neste evento uma grande tensão entre os progressistas e os conservadores motivada, em grande medida, pela repulsa dos últimos à Teologia da Libertação, cujas teses principais foram incluídas no documento de Medellín o qual indicava : uma Igreja voltada para a libertação do povo de Deus, uma Igreja pobre e para os pobres.

Figura 25 - João Paulo II na abertura dos trabalhos em Puebla - Fonte : celam.org

Em Puebla, embora o contexto social e político da América Latina tivesse até se agravado em razão dos inúmeros golpes militares ao longo da década, e de políticas econômicas desastrosas para a população de baixa renda, havia uma verdadeira força-tarefa conservadora, alinhada aos interesses norte-americanos e à ideologia de segurança nacional, visando deter os movimentos revolucionários de cunho socialista. O embate entre os conservadores e os liberais foi inevitável,como esclarece Mainwaring:

A reação neoconservadora à mudança na Igreja latino-americana começou em 1972, com a eleição de Alfonso López Trujillo para secretário geral do CELAM. Após vários anos de avanços progressistas na Igreja latino-americana, os setores moderados e conservadores reconquistaram o controle do CELAM, iniciando-se um período de maior conservantismo em diversas Igrejas nacionais. Sob os auspícios de López Trujillo e seu íntimo associado, o teólogo belga Roger Vekemans ( que vive na Colômbia), os conservadores articularam uma contraproposta aos liberacionistas. Usaram a linguagem dos liberacionistas, mas a despolitizaram. Por exemplo, adotaram a noção de libertação, mas desmobilizaram seus aspectos políticos e lhe deram um sentido mais espiritual, enfocando a libertação do pecado. Argumentavam que os liberacionistas haviam reduzido a fé à política, transformaram a Igreja numa organização política e ameaçavam a unidade da Igreja. (MAINWARING, 2004, p. 271)

Os conservadores se aliaram à Cúria Romana, tentando, com isto, impedir que o termo “libertação” fosse utilizado, além de, proibirem a presença de teólogos progressistas85

. Para MAINWARING,

Os conservadores tentaram utilizar a III Assembléia Geral do CELAM, em Puebla, em 1979, como a maneira de isolar os setores progressistas. Controlavam a preparação para a Assembléia Geral de Puebla, que foi denunciada como sendo uma tentativa de domesticar a teologia da libertação. O documento de trabalho do secretariado do CELAM para Puebla reverteu muitos temas de Medellín e quase reinstituiu o modelo de Igreja da neocristandade.(MAINWARING, loc.cit.)

Apesar de muito esforço, os conservadores não conseguiram isolar completamente as decisões de Medellín. O papa João Paulo II deixa bastante clara sua posição quanto a este aspecto :

Neste dez anos quanto caminhou a humanidade e com a humanidade a seu serviço, quanto caminhou a Igreja ! Esta III Conferência não pode desconhecer esta realidade. Deverá, pois, tomar como ponto de partida as conclusões de Medellín, com tudo o que tem de positivo, mas sem ignorar as incorretas interpretações por vezes feitas e que exigem sereno discernimento, oportuna crítica e claras tomadas de posição. ( João Paulo II, 1979 )

85

A tensão entre os grupos progressistas e conservadores se acentuava entrementes à conjuntura política da época: o “prestígio” das ditaduras militares estava sendo corroído pela crise econômica mundial que, após a Conferência, se agravou ainda mais, por conta de uma nova crise do petróleo motivada pela Revolução Islâmica no Irã. A Revolução Sandinista na Nicarágua também contribuiu para o aumento das tensões, haja vista a ativa participação de alguns membros do clero neste movimento revolucionário.

Em seu “Diário de Puebla”, Frei Beto coloca que no dia 03 de fevereiro, o Jornal Excelsior, deu a seguinte notícia :

O presidente Jimmy Carter deu ordens à CIA para que intensifique suas atividades de infiltração e vigilância “nos movimentos religiosos e leigos” liberais da Igreja católica, nos países latino-americanos, a fim de identificar sua influência e sua força nas lutas populares de reivindicação. Segundo o jornal, Carter estaria decepcionado com a incapacidade de seus agentes em preverem a força político-religiosa do ayatollah Rujolaj Khomeini no Irã, o qual agora se afirma como grande líder do país, ameaçando os interesses norte-americanos. Daí a importância de não se cometer o mesmo erro em nosso Continente, sobre cuja Igreja a CIA “possui informações frágeis, desconhecendo a personalidade dos líderes políticos e religiosos que devem ser muito importantes e devem contar com muito apoio popular para obrigarem o Papa João Paulo II a viajar ao México”. Preocupado em evitar “outro Irã” na América Latina, Carter manifestou seu interesse em conhecer melhor “as guerrilhas promovidas pela Igreja católica, que deixaram de ter o apoio de Moscou e agora têm o apoio de Roma”. (FREI BETO, 1979, p.87)

No final dos anos 1970, houve de um lado, o aceleramento do processo de globalização por conta de movimentos migratórios, da ampliação do acesso aos meios de comunicação e ao imperialismo cultural; por outro lado, houve, um desenvolvimento da contra-cultura tipicamente pós-moderna, em que todos os valores tradicionais, e mesmo as grandes utopias, passaram a ser contestados. Este processo foi fortalecendo o individualismo e a indiferença ante os problemas sócio- econômicos, em nível mundial, e se consolida nos anos 1980 com o colapso do império soviético e o triunfo do neoliberalismo econômico.

De certa forma, o quadro acima descrito, acabou por fortalecer os conservadores, que foram, também, adaptando-se às mudanças mundiais. Como

resposta ao crescente individualismo e ao colapso das utopias, passaram a buscar o fortalecimento da religiosidade e o “afastamento dos fiéis em relação ao mundo”.

Para Monsenhor Trujillo, tratava-se de uma verdadeira “guerra” buscando fazer prevalecer as teses neoconservadoras e, ainda, utilizar-se de Puebla como “plataforma” para a próxima eleição da diretoria do CELAM :

Estourou aqui, hoje, o que os jornalistas estão chamando de Watergate do CELAM. Pela manhã, o melhor e mais concorrido jornal mexicano, Uno más Uno, não chegou a Puebla. Soube-se depois, que o governo havia proibido a circulação do jornal nesta cidade, por conter matéria explosiva: uma cópia da carta que D. López Trujillo enviou, logo após a eleição de João Paulo II, ao arcebispo de Aracaju, D. Luciano Duarte. Na carta, o arcebispo de Medellín fala da importância de Puebla como lugar de articulação da próxima eleição da diretoria do CEALM, em março de 79, afirmando que não se pode chegar “às eleições, como sempre perigosas, sem plataforma ideológica sem programas concretos e maduros. Prepara, pois, teus aviões e bombardeios ... te necessitamos, mais do que nunca, nas melhores condições. Creio que deves submeter-te a um treinamento, como fazem os boxeadores antes de subir ao ring para os campeonatos mundiais. Que teus golpes sejam evangélicos e certeiros”. (FREI BETO, op. cit. p. 81)

Em Puebla, no entanto, as condições ainda não foram favoráveis para um sufocamento total da Teologia da Libertação. O próprio termo “libertação” aparece inúmeras vezes nos documentos de Puebla, embora venha, quase sempre, acompanhado de uma reflexão sobre o termo “ideologia”, com a advertência explícita ou implícita de que os católicos não devem se deixar envolver por ela.

Outro ponto relevante da III Conferência é, o discurso radicalizante de Medellín foi substituído pelo comedimento, a evangelização foi a tônica de Puebla e, embora fossem reconhecidas as disparidades sócio-econômicas da América-Latina, é adotada a tese de uma “libertação integral do homem”. A tese refletia, de algum modo o pensamento de João Paulo II , um papa recém- eleito que conheceu o lado extravagante do nazismo e do socialismo em sua terra natal. Por isso mesmo, a libertação integral do homem, segundo ele, não passaria apenas pelo campo político, tampouco apenas pelo espiritual, mas por uma compreensão da dimensão de ambos e, através desta compreensão, haveria a tarefa de mudar as estruturas e a própria civilização.

O conceito de “mestres da verdade”, colocado pelo papa no discurso de abertura da Conferência, também foi a mostra de um princípio que nortearia seu pontificado e que significou uma releitura do Vaticano II. A Igreja que, segundo o “Espírito do Concílio” pretendia se inserir no mundo, é elevada novamente a um plano superior em relação ao homem, como coloca a seguir :

É um grande consolo para o pastor universal constatar que vos congregais aqui não como um simpósio de peritos, não como um parlamento de políticos, não como um congresso de cientistas ou técnicos, por mais importantes que possam ser estas reuniões, mas como um fraterno encontro de pastores da Igreja. E como pastores tendes a viva consciência de que vosso dever principal é de ser mestres da verdade. Não de uma verdade humana e racional, mas da verdade que vem de Deus, que traz consigo o princípio da autêntica libertação do homem: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres”( Jo 8, 32). Esta verdade que é a única a oferecer uma base sólida para uma “práxis”adequada. ( João Paulo II apud III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, 1979, p. 17 )

A partir dessa nova perspectiva, nem João Paulo II , nem D. Aloísio se colocaram contra a abertura das ideias e a plena liberdade da conferência .

Apesar de o Papa não condenar a Teologia da Libertação , Puebla significou de certa forma uma regressão em relação ao aspecto eclesiológico: sequer os documentos do Vaticano II foram retomados , talvez por conta do temor, dos conservadores de que se repetisse o que ocorreu em Medellín .

A Teologia da Libertação, embora presente em muitos trechos do documento, aparece de forma comedida, cautelosa, implícita . Priorizaram-se as questões pastorais de forma que a dimensão política de Medellín acabasse sendo mesclada às questões evangélicas em Puebla - acontece uma preocupação muito maior com a religiosidade como fenômeno cultural. Ocorre a valorização da religiosidade enquanto expressão viva da América Latina e caberia à Igreja promover a verdadeira libertação de seu povo, João Paulo II assim expressa:

Tenhamos presente, por outro lado, que a ação da Igreja em campos como da promoção humana , do desenvolvimento, da justiça, dos direitos da pessoa, quer estar sempre a serviço do homem; e ao homem tal como o vê na, visão cristã da antropologia que adota. Não necessita pois recorrer a sistemas e ideologias para amar, defender e colaborar na libertação do homem: no cerne da mensagem da qual

é depositária e anunciadora, ela encontra inspiração para agir em favor da fraternidade, da justiça, da paz, contra todas as dominações escravidões, discriminações, violências, atentados à liberdade religiosa, agressões contra o homem e tudo que atenta contra a vida.( João Paulo II , op.cit.p. 29)

Outra questão que, em Puebla ficou na obscuridade, foi a não condenação da violação dos direitos humanos pelas ditaduras militares. Conclui-se que, talvez devido a um grupo de bispos serem simpatizantes desses regimes, ou porque o fato de ser prudente evitar um confronto direto com os militares tenha pesado mais, mesmo da parte dos bispos progressistas.

Acerca dessa postura de grande parcela dos bispos que, acabou por predominar em Puebla, Frei Beto nos coloca que :

Em 1968, quando se realizou Medellín, a Igreja latino-americana ainda não estava tão marcada por perseguições e martírios. As janelas se abriam para um panorama relativamente tranqüilo para a Igreja que respirava, profundamente, os ares do Concílio Vaticano II. Dez anos depois, encontra-se em Puebla uma Igreja tida por muitos como “ subversiva” e “ comunista”, perseguida na pessoa de seus leigos, religiosos, padres e bispos, ferida de torturas, vigiada pelos órgãos de segurança, rejeitada pelos governos, condenada aos cárceres ou lamentando a morte de seus filhos assassinados pelas forças do poder. Isso assusta a muitos bispos interessados em fechar as janelas, para não encarar a face trágica da realidade, e retornar à “ antiga paz” de um Deus surdo aos clamores de seu povo. ( FREI BETO, op.cit., p. 112 )

Apesar de tantas questões que aparentemente podem parecer um retrocesso para os progressistas, Puebla, de fato, acabou confirmando alguns pontos importantes de Medellín. Mesmo com toda a tensão envolvendo os progressistas e os conservadores, o documento final apresenta certa homogeneidade, aliando a opção preferencial pelos pobres e a evangelização. Para BEOZZO,

Tanto em Puebla quanto a viagem do papa ao Brasil não alcançaram inteiramente seus propósitos. Puebla, em parte devido à atuação decidida da delegação brasileira, reafirmou as pautas centrais de Medellín, como a opção preferencial pelos pobres. E a viagem do papa, em suas grandes linhas, foi sentida como um apoio ao trabalho da Igreja no Brasil. ( BEOZZO, 1993, p.224-225)

Outro ponto a ser observado é que, apesar de todo o empenho dos bispos conservadores, a teologia da libertação não foi condenada. Assim, os documentos de Medellín e Puebla acabaram por serem vistos como uma unidade de pensamento, embora, a análise de seus documentos demonstre claramente visões e posicionamentos pastorais e políticos diferentes.