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A emigração portuguesa tem sofrido ao longo dos tempos uma constante mutação reflectida nos países de destino escolhidos, nas características individuais dos cidadãos que emigram e nos motivos da emigração, justificados por factores políticos e económicos, sendo estes os mais referenciados.

Embora a sociedade portuguesa tenha iniciado uma aproximação positiva às comunidades portuguesas, muito ainda há a fazer para aniquilar o estereótipo do emigrante português de “mala de cartão” e analfabeto. A economia portuguesa poderá beneficiar do aproveitamento das inúmeras capacidades das comunidades portuguesas residentes no estrangeiro, até aqui negligenciadas pelas autoridades locais e nacionais, embora existam alguns esforços no sentido da sua dinamização, por exemplo, através do lançamento da Diplomacia Económica (iniciada no XV Governo Constitucional) e do Protocolo celebrado entre a API (Agência Portuguesa de Investimento) e a CMECP (Confederação Mundial dos Empresários das Comunidades Portuguesas).

Na nossa opinião, é urgente uma mudança de mentalidades que reconheça o potencial dos emigrantes portugueses, principalmente daqueles que atingiram o sucesso empresarial nos seus países de residência e que poderão ser uma mais valia para o Portugal de hoje. Estes empresários possuem, em simultâneo, o conhecimento das duas realidades, a realidade do país de origem e a do país de residência, podendo jogar positivamente a favor de Portugal, se solicitados e apoiados.

O reconhecimento do potencial da comunidade emigrante permitiria o estabelecimento de uma série de sinergias, facilitando a atracção do investimento estrangeiro e a descoberta de novos actores imprescindíveis ao sucesso económico português. Por outro lado, a existência de uma comunidade empresarial emigrante portuguesa de sucesso poderá constituir um estimulo para aligeirar as burocracias, de modo a permitir os investimentos empresariais da própria comunidade empresarial emigrante portuguesa, consentindo instrumentos legais que permitam a substituição das estratégias contextuais e étnicas existentes no país de acolhimento.

No nosso entender, em Portugal, os investimentos destes emigrantes portugueses são possíveis, desde que haja uma divulgação adequada dos instrumentos existentes em território nacional que promovem a empresarialidade. Quanto às estratégias étnicas, elas poderão existir em Portugal, uma vez que o emigrante ao investir em território nacional fá-lo em parceria com familiares e amigos, funcionando a confiança e a solidariedade existente entre ambos. Se a isto juntarmos o local de fixação do investimento, geralmente na aldeia ou

concelho de origem, facilmente se poderá depreender que o investidor emigrante poderá contar com o apoio da comunidade local e familiar, desde que o negócio/investimento seja do interesse daquela comunidade. A criação de PME’s e/ou a sua recuperação poderá ser um dos contributos dos empresários da diáspora para o aumento da competitividade e produtividade do tecido empresarial nacional, impulsionando o emprego e o desenvolvimento económico nacional.

O investimento efectuado pelos empresários da diáspora, não pressupõe obrigatoriamente o retorno do emigrante. A vivência pendular deste constitui uma mais valia, uma vez que a ligação simultânea ao país de acolhimento e a Portugal permite um elo contínuo com padrões de vida mais desenvolvidos, utilizando a aprendizagem, a abertura, a inovação e o

know how adquirido pelo emigrante no seu país de acolhimento.

A promoção da actuação dos empresários portugueses da diáspora deverá ser efectuada pelas associações empresariais ou pelas Câmaras de Comércio, às quais os mesmos se encontram agregados. Para tal é necessário que o governo português esclareça a actuação destas organizações, uma vez que as reconhece como necessárias para a promoção de Portugal e dos interesses portugueses, nomeadamente, no apoio à internacionalização das empresas portuguesas e de captação de investimentos estrangeiros, considerando-as um dos instrumentos da diplomacia económica. Sendo as Câmaras de Comércio uma parceria público-privada é indispensável a clarificação do seu modo de financiamento, bem como o estabelecimento de uma estratégia definidora das actividades/serviços e objectivos prosseguidos pelas mesmas.

O governo português deverá fomentar a ligação e a troca de informações entre as Câmaras de Comércio e as instituições que têm por finalidade promover o desenvolvimento económico de Portugal - a API, o ICEP, o IAPMEI, as Embaixadas e os Consulados. O favorecimento desta parceria será enriquecedor para ambos os lados.

Enquanto estas questões se encontram em debate e aguardam uma clarificação, as Câmaras de Comércio encontram na CMECP uma aliada na defesa dos seus interesses e na promoção da sua actuação a favor da economia portuguesa.

Em simultâneo, com a definição de uma estratégica nacional de desenvolvimento económico que use a força das comunidades portuguesas, também as instituições locais poderão usar este potencial e incentivar os seus emigrantes a investir localmente e a fomentar o investimento estrangeiro. Para tal torna-se essencial a congregação de diferentes valências,

tais como, divulgar a nível nacional e internacional o potencial económico local (incluindo infra-estruturas, mão de obra, formação, acessibilidades, projectos de desenvolvimento, etc.), iniciar relações estreitas com consulados, embaixadas, câmaras de comércio e indústria lusas, atrair os empresários luso-descendentes e estrangeiros; e desburocratizar os procedimentos referentes à implementação de indústrias e comércio. Exemplo do prosseguimento desta estratégia é a actuação da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira que desde 2004 tem vindo a desenvolver um trabalho de sucesso no âmbito da cooperação económica com representantes das comunidades portuguesas sedeados no Canadá e na Alemanha.

A empresarialidade imigrante portuguesa resulta de uma longa viagem percorrida pelos indivíduos que de imigrantes se tornaram empresários, graças aos condicionalismos existentes no país de acolhimento, e que agora estão em condições de favorecer o seu país de origem através da transferência de conhecimentos. A sua emigração outrora fonte de empobrecimento da sua terra natal, pode actualmente gerar desenvolvimento económico e ser um pólo atractivo de dinamismo económico do interior português, abraçando a tradicionalidade portuguesa com a evolução e a inovação empresarial assimilada fora do país.

A cooperação com os empresários portugueses da diáspora, a defesa de uma diplomacia económica e a dinamização das Câmaras de Comércio e Indústria Lusas ainda se encontram envoltas num certo “nevoeiro” que urge dissipar. “É a Hora” da aproximação empresarial às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, consideradas parceiros indispensáveis na exequibilidade de uma política de internacionalização da economia portuguesa sustentada e duradoura.