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O texto oficial de Puebla mostrou-se, a nosso ver, um reconhecimento da validade de Medellín quanto às questões sociais, porém, ao mesmo tempo, serviu como um verdadeiro “freio” a qualquer tentativa de radicalização na atuação da Igreja rumo a uma transformação social e política.

O termo “libertação” foi bastante discutido, porém despojado de seu sentido ideológico: a libertação passou a ser, sobretudo, libertação do pecado . A exploração e as mazelas de um sistema econômico predatório sobre os países latino- americanos foi denunciada, mas o comedimento sobre o papel da Igreja para reverter esta situação predomina em todo o documento - os radicalismos ficaram em Medellín .

Os grupos de interesse, defensores da Teologia da Libertação, de um lado, e de outro, os de posições mais conservadoras, que se formaram até mesmo antes da Conferência, não se deram por vencidos, ainda que não concordassem com o documento final fruto de acomodações, em parte, possíveis pela postura do papa e pelo desejo de união da Igreja Latino Americana . Finda a Conferência, representantes dos dois grupos mostram, muitas vezes leituras, completamente antagônicas sobre as conclusões de Puebla. Tomemos como exemplo Frei Beto86 e

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“Frei Betto” é o pseudônimo do religioso Dominicano Carlos Alberto Libânio Christo ( 1944). Adepto da Teologia da Libertação e militante de movimentos sociais e pastorais, foi perseguido e encarcerado pela ditadura militar. Após a redemocratização do país destacou-se pelo assessoramento dos movimentos esquerdistas em sua relação com a Igreja Católica.

Monsenhor Trujillo87

. O primeiro realiza a leitura dos documentos de Puebla de uma maneira inteiramente voltada à valorização da opção pelos pobres e pela profecia, publica, então, um livreto voltado para as Comunidades Eclesiais de Base intitulado “Puebla para o povo” - neste trabalho, Frei Beto mescla suas interpretações a respeito das conclusões de Puebla e diálogos com personagens fictícios do meio camponês e operário os quais colocam suas dúvidas para, em seguida, serem esclarecidas por Frei Beto que, aliás, não disfarçou sua preferência pelo socialismo neste livro. É interessante que, num dado momento nos textos, ele chama a atenção para o “perigo das ideologias”, mas, quando descreve o Liberalismo Capitalista e o Coletivismo Marxista, torna o segundo bem interessante, vejamos :

O Liberalismo Capitalista

Prega a idolatria da riqueza individual. Considera o lucro como motor do progresso econômico: se uma empresa tem muito lucro, mesmo às custas da miséria de seus empregados, é sinal que ela progride. A lei desse progresso é a concorrência : cada um que trate de pisar no outro, na base da lei do mais forte. A base desse progresso capitalista: a propriedade privada dos meios de produção ( fábricas, usinas, minas, terras, bancos, etc

O Coletivismo Marxista

Nasceu como uma crítica positiva ao capitalismo, mostrando como este dá mais importância ao produto( = a mercadoria) do que ao produtor ( = o operariado). O marxismo valorizou o sentido humano do trabalho: o trabalhador deve ser dono dos meios de produção e do produto que ele fabrica. Mas, na opinião dos bispos reunidos em Puebla, o marxismo conduz também a uma idolatria da riqueza, só que da riqueza coletiva – todo o povo possuindo todos os bens do país. Para o marxismo, a culpa de toda essa desigualdade é a luta de classes: os ricos, que têm o capital, exploram os pobres, que fornecem o trabalho. Seu objetivo é, portanto, construir uma sociedade sem classes, onde não haja ricos nem pobres, nem patrões nem empregados, mas igualdade de direitos e oportunidades para todos.( FREI BETO, 1981, p. 64-66 passim)

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Alfonso Lopez Trujillo ( 1936-2008 ), foi um dos Cardeais mais influentes da Igreja ao longo do Pontificado de João Paulo II que o nomeou Cardeal com apenas 47 anos de idade. Foi um ferrenho opositor da Teologia da Libertação ao lado do Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e mais tarde papa Bento XVI.

Figura 26 – Ilustração do livro Puebla para os Pobres - Fonte : Frei Beto Puebla para os Pobres p. 81

Frei Beto em seus “diálogos”, aponta que Puebla lembra o Concílio Vaticano II no que tange à opção pelos pobres que, por sua vez, devem exigir justiça e não receber ajuda de caridade. A classe operária precisaria, pois, se organizar e se fortalecer para conseguir sua libertação. Para ele:

O compromisso da Igreja com os pobres e oprimidos e o incentivo das comunidades de base a têm ajudado a descobrir o potencial evangelizador dos pobres: enquanto a interpelam constantemente, chamando-a para a conversão , e enquanto muitos deles realizam na própria vida os valores evangélicos de solidariedade, serviço, simplicidade e disponibilidade para acolher o dom de Deus.( FREI BETO, Op.Cit. p. 86)

Diametralmente oposta era a visão de Monsenhor Trujillo. Sua posição era de que, alguns teólogos, desde Medellín, teriam extrapolado completamente o sentido original da opção pelos pobres e, após Puebla, continuariam insistindo em opiniões em que “a base ‘pobres’ toma a força de uma classe social ‘o proletariado’ e as comunidades eclesiais de base se apresentam como engrenagem da luta proletária” ( TRUJILLO, 1979, p. 08-09).

Figura 27 - Bento XVI e Cardeal Trujillo - FONTE : BBC News

As comunidades de base eram, para Trujillo, um campo fértil para a implantação de ideologias marxistas. Por isso, defendia que estas deveriam, segundo sua interpretação dos documentos de Puebla, adaptarem-se às pastorais das grandes cidades latino-americanas, evitando um isolamento. Afirmava ele que:

A discussão quanto ao sentido de “base” nas Comunidades eclesiais não é acidental nem retórica. Quem colocaria em discussão que na miséria de vastos setores do continente a Igreja encontra uma imensa proporção de seus filhos e que “ir ao povo”não significa sair da sua própria casa para buscá-los fora dela? Na realidade o que importa é outra coisa: é a maneira evangélica de encontrar, em seu próprio regaço, o pobre, o miserável. Há um modo preponderantemente político. Em tal caso se falará da “força”do pobre, de sua militância, de sua capacidade de luta, de sua ira, de seus recursos dialéticos na continuidade. Sua “práxis”será a de sua organização como classe e seu potencial de rebeldia para desbaratar o sistema injusto imperante. Sua meta será uma revolução socialista, tantas vezes profetizada e contemplada vitoriosa entre resplendores, mesmo onde as promessas de liberdade e respeito da dignidade humana vão a pique. Mesmo onde se limita drasticamente a própria possibilidade de viver a fé católica. É questão de sensibilidade: tornar-se algo secundário discernir a classe de conteúdos que se transmitem nas catequeses revolucionárias, contanto que sejam revolucionárias. Isto seria o único que importa. ( TRUJILLO, op.cit. p. 11)

A visão de Trujillo sobre as CEBs é de que elas seriam fortemente influenciadas “pelos desvios e interpretações com que alguns desvirtuaram o espírito de Medellín” ( ) . Assim, declarava :

Que tudo isso se proponha em nome de um partido político ou de uma ideologia não surpreende. Os políticos estão com todo o seu direito. Porém que o que se ajusta mais a um programa político- ideológico se indique como um programa pastoral e como norte das Comunidades eclesiais de base, é algo abertamente contraditório com o que Puebla expressa. ( TRUJILLO, op.cit. 12).

A percepção de Igreja como Mãe e Mestra, da Igreja como mistério de comunhão e verdade sobre o homem, prevaleceu no documento de Puebla e é justamente essa concepção que Trujillo irá defender durante o Pontificado de João Paulo II e Bento XVI, até sua morte aos 72 anos de idade.

Nas visões antagônicas expostas, temos uma prévia do que ocorreria em termos de conflito entre os defensores da Teologia da Libertação e os Neoconservadores na década de 1980: a Igreja Latino-americana continua, em seu discurso, utilizando referenciais próprios da Teologia da Libertação, porém as práticas pastorais vão, cada vez mais, se afastando da práxis marxista e do viés político muito presente nas décadas de 1960 e 1970.

Ao longo dos anos 80, o neoliberalismo econômico vai se firmando como modelo econômico hegemônico nos países capitalistas. Ao mesmo tempo, as ditaduras militares patrocinadas pelos EUA sofrem um desgaste cada vez maior causado, em grande parte, pelas políticas econômicas catastróficas e à corrupção.

Em 13 de maio de 1981, o Papa João Paulo II sofreu um atentado, na Praça de São Pedro, no Vaticano. O turco Mehemed Ali Agca desferiu contra o Papa três tiros, a poucos metros de distância, ferindo gravemente o Pontífice no estômago, no cotovelo e na mão esquerda. O Papa foi submetido a uma cirurgia de mais de cinco horas para estancar a hemorragia interna e teve parte do intestino retirada. Recuperando-se do incidente, João Paulo II creditou a Nossa Senhora o fato de ter sobrevivido. Curiosamente, em 13 de maio teria ocorrido uma das aparições de Nossa Senhora às crianças em Fátima, e o papa, pouco tempo depois de sua recuperação, foi lá para agradecer a virgem por ela ter salvo a sua vida .

Figura 28 - João Paulo II visita Fátima um ano após o atentado . Créditos : Apóstolos de Nossa Senhora de Fátima

As aparições da Virgem em Fátima passaram a ser lembradas pela Igreja Católica como um sinal e um chamado para a luta contra o comunismo e, ao que tudo indica, após o atentado, a determinação do papa em lutar - não só contra o comunismo, mas também contra a disseminação de ideologias de inspiração marxista na Igreja.

Em meados dos anos 1980, as ditaduras militares apresentavam um desgaste insustentável e, no caso brasileiro, a abertura política é vista pela população como a cura para todos os males. Pensava-se que a participação popular, através das eleições livres e do voto direto resolveria a situação caótica na qual o país se encontrava. A realidade, porém, foi bem diferente. Após a mobilização nacional através do movimento “Diretas Já” 88e a grande comoção causada pela morte do Presidente Tancredo Neves, sucederam-se inúmeros planos econômicos que não

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Este movimento mobilizou entre 1983 e 1984 milhares de pessoas que saíam às ruas nas principais cidades do país, pedindo eleiçõe diretas para presidente da República, o Deputado Dante de Oliveira propôs uma emenda constitucional para permitir as eleições, porém, apesar de todas as manifestações a seu favor, a emenda não foi aprovada pelo Congresso Nacional. De qualquer forma, o movimento serviu para alavancar a candidatura do candidato da oposição Tancredo Neves que acabou sendo eleito presidente da República pelo colégio eleitoral.

obtiveram sucesso, agravando ainda mais as finanças do governo e consequentemente, as condições de vida da população.

Neste contexto de desilusão, os paradigmas tradicionais do marxismo, com o colapso do Império Soviético, sofrem também um abalo, era o fim das grandes utopias.

8. ROMA LOCUTA CAUSA FINITA : a reação neoconservadora à Teologia