Em 1981, o Frei Leonardo Boff, já reconhecido internacionalmente como um dos maiores teóricos da Teologia da Libertação, publicou o livro Igreja:carisma e poder . Tal obra, causou inicialmente, a reação da Comissão arquidiocesana para a Doutrina da Fé do Rio de Janeiro, que lhe teceu várias críticas.
A polêmica em torno do livro se avolumou nos anos seguintes e, em 11 de março de 1985, a Congregação para a Doutrina da Fé publica a Notificação sobre o livro “Igreja:carisma e poder. Ensaios de eclesiologia militante”de Frei Leonardo Boff, O.F.M. , buscava-se, entretanto, entender em que este livro se diferia das demais obras publicadas a cerca da Teologia da Libertação, Faustino Teixeira nos dá uma pista :
em todo o livro respira-se um clima de retomada urgente da dimensão carismática e profética da igreja, e a busca de correção de dois desequilíbrios altamente problemáticos: o cristomonismo unilateral da tradição latina, marcada pela anemia do Espírito, e a hipertrofia do hierárquico institucional, que reforça o centralismo romano ( TEIXEIRA, 2005 )
Em outras obras, Boff já havia enfatizado questões ligadas à ação pastoral da Igreja em especial na América Latina, chamando a atenção para a necessidade de um maior engajamento nas causas sociais e políticas - nem por isso foi censurado. Na obra Igreja: carisma e poder vieram à tona as interpretações sobre a Igreja a partir do Vaticano II: para o teólogo brasileiro, a Igreja instituição havia
sufocado o carisma da verdadeira Igreja, e isso soou como um questionamento da hierarquia eclesiástica e do poder de Roma .
A reação por parte da Cúria não tardou. Através do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Joseph Ratzinger, o conteúdo do livro passa a ser investigado e, em 06 de agosto de 1984, vem o primeiro contra-ataque com a publicação de Instruções Sobre Alguns Aspectos da “Teologia da Libertação”. Neste documento são retomadas algumas posições que predominaram em Puebla, tal como a ideia de libertação integral, ou seja, uma libertação voltada não só aos aspectos materiais, mas, sobretudo, aos espirituais, assim RATZINGER ( 1894 ) colocava:
A presente instrução tem uma finalidade mais precisa e mais limitada ( que o da liberdade e da libertação): quer chamar a atenção dos pastores e teólogos e de todos os fiéis, para os desvios e perigos de desvio, prejudiciais à fé e à vida cristã , inerentes a certas formas da teologia da libertação que usam, de maneira insuficientemente crítica, conceitos assumidos de diversas correntes do pensamento marxista.
Ainda que ressaltasse no texto que não se tratava de um ataque à opção preferencial pelos pobres, o Cardeal é duro e contundente na apreciação de qualquer ideologia de inspiração marxista que recorra à violência e a luta de classes para ele :
...existem numerosos movimentos políticos e sociais que se apresentam como porta-vozes autênticos da aspiração dos pobres e como habilitados, mesmo com o recurso a meios violentos, a realizar as transformações radicais que poriam fim à opressão e à miséria do povo (...) a aspiração pela justiça encontra-se muitas vezes prisioneira de ideologias que ocultam ou pervertem seu sentido, propondo à luta dos povos para sua libertação objetivos que se opõe à verdadeira finalidade da vida humana e pregando meios de ação que implicam o recurso sistemático à violência, contrários a uma ética que respeite as pessoas. ( RATZINGER, op.cit. p.03)
Com seu país dividido, vítima de dois posicionamentos ideológicos antagônicos, com grande parte da população ainda marcada pelos traumas e consequências das mazelas da II Guerra Mundial, em sua visão a possibilidade de aceitação do marxismo na teologia levaria fatalmente, a um envolvimento com a própria ideologia marxista e, daí ao totalitarismo.
No documento, várias práticas e posicionamentos dos seguidores da Teologia da Libertação são descritos e reprovados em sua leitura mais radical e militante. Eis alguns dessas apontamentos:
Conceitos Interpretações de Ratzinger sobre a Teologia da Libertação
Apontamentos feitos no documento Verdade e
história
Não existe verdade a não ser pela práxis partidária, não há distinção entre a história da salvação e história profana.
Deus é o Senhor da História a verdade passa pela relação do homem com Deus.
Eucaristia Não faz sentido ricos e pobres compartilharem a mesma mesa.É celebração do povo na sua luta .
A Igreja deve servir a verdade e a justiça a todos os homens.É presença sacramental do sacrifício reconciliador de Cristo.
Libertação Releitura Política das escrituras, o homem deve lutar pela sua libertação política.
O homem só é livre com sua libertação do pecado.
Práxis Derrubada das estruturas geradoras das injustiças através da violência
revolucionária.
Construção da “Civilização do Amor”.
Tabela 6 – Apontamentos de Ratzinger sobre a Teologia da Libertação
Na Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé, de 11 de março de 1985, o Cardeal Ratzinger aponta claramente as opções presentes no livro que, segundo ele, são “insustentáveis”, a estrutura da Igreja, a concepção do dogma, o exercício do poder sagrado e o profetismo”( RATZINGER, 1985).
Fica evidenciado na Notificação que as questões que mais incomodaram a Cúria Romana foram aquelas que questionaram a hierarquia e a estrutura de poder da Igreja. O cardeal selecionou cuidadosamente os trechos do livro que tratam desse assunto para, a partir daí, serem desqualificados. Note-se o que segue:
... a hierarquia é para ele<<um resultado>>da <<férrea necessidade de se institucionalizar>>, uma mundanização>>, no <<estilo romano e feudal>>(p.71). Daí deriva a necessidade de uma <<mutação permanente da Igreja>>(p.109);hoje deve emergir uma <<Igreja Nova>>( p. 107, passim), que será<<uma nova encarnação das instituições eclesiais na sociedade, cujo poder será pura função de serviço>>(p.108)...Uma <<grave patologia>>deque, segundoL.Boff, a Igreja romana deveria livrar-se, é provocada pelo exercício
hegemônico do poder sagrado que, além de torná-la uma sociedade
assimétrica, teria também sido deformado em si mesmo. ( RATZINGER, 1985, p.02-05 passim).
Nos tópicos que envolviam a concepção do dogma e o profetismo, as observações da Congregação para a Doutrina da Fé não foram tão contundentes. Prevaleceu uma discussão de diferentes pontos de vista teológicos, evidenciando ainda mais a “defesa” da estrutura administrativa e hierárquica da Igreja.
Concluindo a Notificação, o Cardeal Ratzinger coloca:
Ao tornar público que ficou acima exposto, a Congregação sente-se na obrigação de declarar, outrossim, que as opções aqui analisadas de Frei Leonardo Boff são de natureza que põem em perigo a sã doutrina da fé, que esta mesma Congregação tem o dever de promover e tutelar. ( RATZINGER, op.cit.p.05)
A censura à obra de Boff teve um significado muito mais amplo do que a condenação de uma obra poderia representar: foi, sobretudo, um freio definitivo à Teologia da Libertação e um marco na luta da cúria ao “enquadrar” as leituras mais progressistas do Vaticano II .