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VII.4 RESULTATS : CORRELATIONS ET REGRESSIONS

VII.5.2 Etude des liens de causalité entre les différentes dimensions du MEC

É preciso de antemão expor algumas dimensões contraditórias ao se falar em mídia local. Em primeiro lugar, entender que as comunidades estão cada vez mais diluídas em relação ao tempo de duração e ao espaço que ocupa, pois podem ser referenciadas a um bairro e região e mesmo a espaços que ocupam, pois podem ser referenciadas a um bairro e região e mesmo a espaços virtuais, a modos de vida e aos papéis sociais dos indivíduos. Em relação aos anseios comunitários o conceito se enraíza em outras bases sociais, pois a comunicação local ou regional não é necessariamente comunitária, nos termos das teorias sobre mobilização social.

Ao propor definições sobre o “local”, o “regional” e o “global”, Camponez (2002) aponta que as identidades são a tendência dos processos de “globalização” (relação local/global). No âmbito do jornalismo, por exemplo, a importância de uma ação social do jornalista, interagindo com e valorizando a comunidade, são respostas aos efeitos homogeneizadores da globalização. É a ideia de “um jornalista atuante”, pois o lugar onde se dão as relações sociais é que diferencia as pessoas no mundo global.

Contudo, mais do que efeitos de globalização, falamos sobre um processo que trata de um novo contexto de heterogeneidades dos espaços geográficos; mais do que territórios demarcados, esses espaços constituem regiões fronteiriças, no sentido dado por Homi Bhabha, ou seja, regiões de intervenção ou ainda um novo espaço geopolítico, os quais transcendem a tradição, o civismo, as questões éticas internacionais (para muitas culturas, a sua história está fora destas questões).

Essas regiões recriam lembranças das relações neocoloniais, assimiladas ou não aos artifícios da modernidade, mas sempre revelam o “hibridismo cultural de suas condições fronteiriças para ‘traduzir’, e, portanto, reinscrever o imaginário social tanto da metrópole como da modernidade”. O que necessariamente vai ao encontro de um novo que não está na relação do passado com o presente, pois que este passado é constantemente renovado e ressegurado como um “entre-lugar”, um lugar de encontros e antagonismos, de busca de reconhecimento e pertencimento entre nativos e estrangeiros, e, sobretudo da articulação de alguma ação sobre as condições desiguais operadas pela política dominante. Dessa forma, “o ‘passado-

presente’ torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia, de viver” (BHABHA, 1998, p. 26-27).

Ou seja, falamos de identidades, mas acima de tudo de processos sociais e políticos que colocam em xeque a televisão que ora temos e anuncia demandas de mudanças para outra televisão. A regionalização da televisão, pode-se pensar, é parte de um contexto de mudanças derivado do testemunho de que, numa sociedade plural e diferenciada, é no mínimo incoerente que a televisão genérica se mantenha ainda como a própria essência do veículo televisivo; é inconcebível continuar supondo que todos desejem ver a mesma coisa, que os centros urbanos, valores sociais, interesses e comportamentos de toda sociedade brasileira sejam idênticos aos locais de produção dos principais conteúdos televisivos18.

Mais uma vez, é o desejo de reconhecimento, “de outro lugar e de outra coisa”, que leva a experiência da história além da hipótese instrumental. Mais uma vez, é o espaço da intervenção que emerge nos interstícios culturais que introduz a invenção criativa dentro da existência. E, uma última vez, há um retorno à encenação da identidade como interação, a re-criação do eu no mundo da viagem, re-estabelecimento da comunidade fronteiriça da migração. O desejo de reconhecimento da presença cultural como “atividade negadora” de Fanon afina-se com minha ruptura da barreira do tempo de um “presente” culturalmente conluiado (BHABHA, 1998: 29).

Assim, o ponto de partida para a construção de um conceito de televisão regional gira em torno de três perspectivas19:

a) A importância dessa atuação social dos profissionais da televisão a qual se traduz localmente na adesão às causas públicas e à sensibilização das pessoas:

b) A premissa de que por “território” e por “local” não se entende apenas um espaço geograficamente medido, em metros, e se define mais pela “sensação de proximidade”, do que pela proximidade propriamente dita, ou seja, “o centro está

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A pesquisa divulgada pela revista Veja (2009) atesta as particularidades das preferências das audiências regionais. Alguns dados, segundo a revista: em Salvador e recife o aparelho de TV é ligado mais cedo e em Curitiba, mais tarde; ao passo que é desligada mais tarde em Porto Alegre e mais cedo em Belo Horizonte. Em relação a programação, os filmes são prediletos em São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre e Curitiba; noticiários locais são mais assistidos em Recife, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília; já as novelas são prediletas nas cidades do interior, como Caruaru (PE) e Passo Fundo (RS) e têm audiência mais baixa em São Paulo e Fortaleza (VEJA, ano 42, n. 31, 5 de julho de 2009, pp. 144-151).

19 Entendidas por meio das abordagens das seguintes obras: MENESES, 2003; CAMPONEZ, 2002; PERUZZO, 2005; LINS, 1997.

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aqui e está em todo lugar, são frágeis as fronteiras entre o regional, o local e o global; e

c) Este mesmo território híbrido tem atualmente bases diversas: cultural, ideológica, idiomática, de circulação da informação - é o lugar do “diverso”.

Em uma primeira análise, as informações de proximidade agregam importantes funções de mobilização e reconhecimento dos atores sociais, concentram importante função social uma vez que fomentam elos culturais e laços comunitários. Cabe observar, contudo, que as mídias locais estão inseridas em contextos sócio-político-econômicos específicos que podem moldar e diferenciar a forma como os conteúdos são processados.

O território, a região, continua a ser o principal elemento caracterizador do conceito de comunicação regional e por isso sua abordagem não será descartada, embora relativizada. Apesar de não haver uniformidade no conceito de território, ele é central para iniciar qualquer discussão sobre televisão local, tendo em vista que as emissoras de TV são estruturadas pelo espaço geográfico, inclusive na definição do que seja “informação local”, mas ao mesmo tempo supera este espaço na medida em que esta proximidade pode ser definida em relação à abrangência dos públicos de interesse.

A mídia local se constrói com base na sua localização territorial, na territorialização de seus conteúdos, o que se torna expressivo com o surgimento da modalidade de comunicação local a partir dos canais de TV a cabo, tanto os canais comunitários quanto os comerciais. As TVs comunitárias envolvem ainda outros sentidos sociais e de uso social da comunicação. E claro, outros canais como o universitário, legislativos, enfim, diferenciam-se da estrutura regional. Buscam segmentos identitários e culturais mais definidos. Nesse sentido, a territorialidade esbarra na chamada “liquidez” das identidades modernas, conforme Bauman (2005). Portanto, adotaremos o conceito de proximidade em relação à mídia local e regional proposto por Cicília Peruzzo (2005, p. 76): proximidade “se refere aos laços originados pela familiaridade e pela singularidade de uma determinada região, que têm muito a ver com a questão do laço territorial”. A partir daí pode-se definir o conceito de território, o qual ganha nova dimensão no momento em que agregamos a ele a noção de pertencimento e de identidade. Território em relação à mídia

regional e local, portanto, é o espaço, físico ou virtual, em que os conteúdos gerados são dotados de identidade e de elementos de pertença com os atores sociais desse espaço.

Os meios de comunicação regionais e locais, ou ainda meios de comunicação de proximidade, caracterizam-se, sobretudo pelo envolvimento do público com os conteúdos midiáticos. O confronto entre os fatos e a sua versão midiática pelo público é facilitado na televisão regional. O fato de tais conteúdos estarem mais evidenciados na experiência cotidiana das pessoas também corrobora para mudanças no quadro de influências político-partidárias e econômicas. São, então, interesses ocorrem de maneira peculiar, tendo em vista serem mais explícitos e embrionários.

Dentro dessa perspectiva, cabe salientar que a potencialidade de mobilização local da mídia regional muitas vezes se apresenta utópica, tendo em vista também que os modelos de produção televisiva são, muitas vezes, reproduzidos da grande mídia pela mídia regional. O jornalismo no Brasil, por exemplo, tornou-se padrão, à medida que as mesmas editorias são tratadas em todos os veículos e, do mesmo modo, os temas e assuntos, mudando apenas a localização da ocorrência.

O que é importante assinalar é a relativização dos processos de globalização, no sentido dado por muitos teóricos de que ela “invade” a tudo e a todos no momento presente. Homi Bhabha mostra que as pessoas constroem sua realidade a partir do encontro entre o mundo da vida e as negociações que fazem com o “Outro”, com as diferenças as quais estão presentes no confronto com o nosso próprio “vizinho”, mais do que na descoberta de um mundo global de sociedades e culturas diversas.

Nossa tarefa, entretanto, continua sendo mostrar como a intervenção histórica se transforma através do processo significante, como o evento histórico é representado em um discurso de algum modo fora de controle. Isto está de acordo com a sugestão de Hannah Arendt de que o autor da ação social pode ser o inaugurador de seu significado singular, mas, como agente, ele ou ela não podem controlar seu resultado (BHABHA, 1998, p. 34).

Em outras palavras, o local é o espaço das mudanças significativas as quais, por estar no âmbito das subjetividades, seu resultado não pode ser previamente

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determinado. Os interstícios entre o privado e o público transformam o “conteúdo das ideias políticas”; o próprio “lugar” de onde o político é falado – a esfera pública mesma - torna-se uma experiência de liminaridade, uma experiência de falar a partir do lugar onde as coisas acontecem.

É, portanto, nas banalidades encenadas do nosso cotidiano – rituais de casamentos, e outros que envolvem família, comida, vestuário -, que está o estranho, o diferente. O afastamento do mundo em termos binários (eu/outro) e o anterior reconhecimento da diversidade dos povos e de suas aspirações se convertem em encontros conosco mesmos, pois “requer ainda um deslocamento da atenção do político como prática pedagógica, ideológica, da política como necessidade vital do cotidiano – a política como performatividade” (BHABHA, 1998, p. 36-37).

O cotidiano carregado de criação e arte molda as intervenções que se faz na esfera pública (política). E embora a mídia local esteja mais engajada nas peculiaridades de cada território, ainda há muito caminho a percorrer no sentido de alcançar um modelo democrático e plural de comunicação tendo em vista as presentes complexidades e os jogos discursivos em ação. É preciso buscar sempre a efetivação de meios de comunicação mais democráticos e plurais. Nesse sentido, a televisão regional/local vive constantemente a contradição de contrabalancear a dinâmica de produzir no tempo presente, com os interesses locais, os vínculos produtivos e do próprio processo do fazer televisivo.

Cabe frisar que tais conceitos não são usados sem atentar para a sua complexidade. A heterogeneidade dos conceitos aplicados à programação de televisão aberta, por exemplo, constituiu o “calcanhar de Aquiles” deste trabalho. Alguns formatos e conteúdos mostram essa mobilidade20.

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Existem os mesmos formatos de programas da RBS, com versões específicas para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ou da EPTV e TVB em São Paulo. Ou ainda o mesmo programa nascido em um contexto local e expandido para outras praças, como o programa da EPTV Terra da Gente. Ou ainda a gravação em vários lugares com os mesmos traços culturais de um programa exibido localmente, caso do Galpão Crioulo, da RBS, e ao mesmo tempo exibidos em outras praças, como em Brasília, em que programas produzidos no Sul e Nordeste são aceitos tendo em vista a presença efetiva de pessoas originárias dessas regiões. Por outro lado, programas e reportagens sobre determinada cidade da região Nordeste são acolhidas pelos conterrâneos nordestinos de forma a haver identificação, reconhecimento e pertencimento por parte de atores não de uma cidade, mas de uma ampla região: Programas de humor, como Panelada da Babalu (TV Jangadeiro/CE), são veiculados em outras emissoras da Região.