Considérations de base sur l’espace
4.3 Comparaison avec les classes en temps
4.4.2 Espace non déterministe logarithmique
Criado pela organizadora e promotora Lovers & Lollypops, o Milhões de Festa é um festival de música que tem lugar no Parque Fluvial de Barcelos. Desde a primeira edição, em 2006, que tenta dar visibilidade a diversas tendências musicais tanto no que diz respeito ao universo artístico nacional como internacional. De caráter urbano e espírito jovem, trata-se de uma iniciativa que combate, essencialmente, o envelhecimento e a centralização ― dois dos grandes problemas que assolam o nosso país — dando espaço a uma dinamização cultural diversa, alternativa e diferente. A Vice Portugal, por essas mesmas razões, sempre deu especial atenção a este festival, chegando mesmo a ser media partner. Vamos, por isso mesmo, perceber como essa cobertura foi feita, à luz do jornalismo gonzo, e de que forma o facto da Vice ter sido, já, media partner, exerceu ou não influência no tipo de cobertura.
No artigo Se eu fosse ao Milhões, de Sérgio Felizardo, de 2017, como já foi explicado, o repórter coloca-se na pele de alguém que nunca foi ao festival mas que ao ver todos os seus amigos a partilharem fotos do mesmo nas redes sociais fica com inveja. Então, elabora uma lista do que faria e dos locais que visitaria caso fosse ao festival. Este conceito, só por si, bebe muito da linguagem publicitária. Em primeiro plano, revoga o lugar comum de alguém que não tem algo ou que não vai a determinado sítio, ao contrário de todos os seu amigos. Ou seja, essa pessoa é que perde e fica em incomprimento, o que contribui para criar no leitor a vontade de, neste caso, ir ao festival. A questão do guia não é mais, também, do que uma apresentação do que o festival tem para oferecer e do recinto que o recebe. Acaba, igualmente, por ser uma forma de promoção e de apresentação ao possível público alvo, neste caso os leitores da Vice. É possível lermos frases de pendor promocional como, por exemplo, “Agora ide e desfrutai da vida!” (Felizardo 2017), a forma como o artigo termina. Há mais exemplos, como “No Palco Taina, o objectivo é só um: unir os maiores prazeres da vida.” (2017) Palavras como “prazer” e “desfrutar” são essenciais em qualquer artigo de promoção, não deixam qualquer dúvida, assim como esta asserção, Se eles o dizem, quem és tu para contestar?”
Outro aspecto a salientar é a repetição do nome da promotora do festival, lovers & lollypops, como a integração de partes do press release preparado pela organização do Milhões, completamente promocionais, “‘subir o astral com música de coordenadas e
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influências tão dispersas e desafiantes quanto soberbamente cativantes. Serão os dias da piscina, da boa onda e da partilha a matar saudades acumuladas ao longo de um ano inteiro de espera’. Metam ferros!” (Felizardo 2017) Do ponto de vista tradicional, esta seria uma prática a evitar, justamente, para separar a promoção do jornalismo cultural. É bem claro que quando um press release é escrito, há sempre o intento da promoção e dá-se ênfase ao nome da empresa organizadora de determinado espectáculo ou festival. O papel do repórter seria, precisamente, saber destrinçar a informação e não incorrer no mero texto promocional. O importante é o evento em si, não o papel de quem o promove ou organiza.
Outro exemplo é a reportagem em forma de diário fotográfico, Histórias aos Milhões, de 21 de agosto de 2017, referente à mesma edição do festival do artigo de Sérgio Felizardo. Diários fotográficos ou gráficos são completamente plausíveis à luz do jornalismo gonzo. A repórter ou, neste caso, a fotógrafa Carolina dos Santos dá-nos a conhecer a sua experiência, o que viu e presenciou no festival, à luz da sua máquina analógica. A questão que se coloca é a seguinte, de que forma estes artigos completamente aceitáveis, também, sob o ponto de vista do jornalismo tradicional, não serão utilizados, igualmente, como promoção? O objetivo é demonstrar o ambiente descontraído do festival e como os festivaleiros se divertem ― uma técnica muito familiar à publicidade, uma vez que se faz uso da diversão para criar interesse no leitor. Além desse aspeto, há determinadas frases de pendor promocional como, por exemplo, “Bem, é isto, está a começar. Ainda nem é o verdadeiro primeiro dia e a noite já é memorável, com um set dos DJs da Casa que pôs toda a gente de pé a mexer e bracinhos no ar”, ou “Este ano o Palco Taina mudou novamente de local, mas todos concordámos que era o sítio perfeito.” (Santos 2017) Adjetivos como “memorável” ou “perfeito” são indicativos mais do que suficientes de que este se trata de um artigo amigável ao festival, sem nada em contrário que seja dissonante.
Há, ainda, uma série de mini entrevistas, em vídeo, em que a repórter, sempre numa ambiência de descontração, vai falando tanto com as bandas como com os festivaleiros. A óptica é sempre a mesma, mostrar como o festival é vivido e colocar, ao máximo, o repórter dentro desse mesmo ambiente, mostrando ao público-alvo que se tem familiaridade com o festival em si, as bandas e o público. Tanto o artigo Se eu fosse ao Milhões, de Sérgio Felizardo, como o diário fotográfico Histórias aos Milhões, de Carolina dos Santos, partem dessa mesma premissa. No primeiro caso, hipoteticamente o repórter não vai nem está no recinto do festival, é verdade. Mas, se prestarmos atenção, a pergunta “e se fosses?” como o próprio problema do repórter nunca conseguir ter ido é uma outra forma, mesmo que seja
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pela ausência, de dar a volta à questão e colocar o jornalista no primeiro plano da acção e conhecedor do que escreve.
Portanto, do ponto de vista formal, estes dois artigos obedecem ao que se espera do jornalismo gonzo, por uma perspetiva. Por outro lado, este tipo de jornalismo pode dar azos a uma maior subjetividade, sim, mas isso não significa que seja dependente, muito pelo contrário. Gosta de ir a fundo, de ser destemido, de oferecer uma maior completude, dar perspetivas diferentes ao que se relata. O cool way of life disseminado pelo pai deste género jornalístico, muitas vezes mal interpretado, não significa que tenha de ir aos interesses de uma editora, marca ou festival de música. O próprio uso de excertos de press releases é uma contradição para o estilo gonzo, em que tem de ser o repórter, na primeira pessoa, a descrever o que vê e a dar a informação. Neste caso, e tendo em conta estas características, o diário fotográfico acaba por ser um melhor exemplo, não deixa de ser, no entanto, um retrato mais do que amigável, consonante com os restantes artigos. Podemos fazer, então, estas perguntas, não se estará a confundir jornalismo cultural com promoção também? De que forma este género de jornalismo, que deveria ser mais incisivo, é utilizado para promoção? De que forma há uma influência directa entre assessores de imprensa de artistas e festivais e os próprios jornalistas e órgãos de comunicação?
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