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A maioria dos textos traz o “jornalismo” como assunto principal (33,33%), o que reforça a concepção de Albuquerque e Silva (2001) ao definirem a seção Imprensa em Questão como monotemática. Os outros textos da amostra também abordam a profissão, no entanto, com um olhar voltado para problemas específicos, como identificado no restante dos temas. Em uma linha decrescente, em segundo lugar estão os textos referentes às “fake news” (18,52%), seguidos dos textos que tratam da “internet” (11,11%), da “regulação/liberdade de imprensa” (11,11%) e da “gestão pública” (7%). O restante (política, saúde pública, tecnologia, ambiental e cardápio temático), apresentam penas 1 texto cada. O único tema que não apareceu ao longo da análise foi economia.

GRÁFICO 8 – Principais temas Fonte: A autora

A atividade jornalística conquistou uma posição socialmente legitimada para gerar construções da realidade publicamente relevantes. Essa atividade é uma manifestação reconhecida e compartilhada a partir da prática contínua dos jornalistas e da autolegitimação que eles promovem.

Os textos que tratam do jornalismo abordam ‘traços’ ou atributos profissionais ideais, de acordo com o contexto, que funcionam como medida aferidora do jornalismo de qualidade. Além disso, apresentam confronto de ideias e trazem as ambiguidades, incertezas e contradições do ofício, quer no interior do campo, quer na sua articulação com o todo social.

Os autores avaliam o jornalismo a partir de diferentes perspectivas e trazem dicas de como o grupo profissional deve agir e qual papel deve desempenhar na prossecução de tal serviço. Na mesma lógica, os autores também denunciam os jogos de interesse que envolvem a profissão, ressaltam a importância da liberdade e autonomia tanto da organização jornalística, como do profissional, expõem preocupações éticas e reiteram premissas da área.

Os textos que trazem o “jornalismo” como tema principal evidenciam o polo simbólico, constituído historicamente a partir de concepções, crenças e valores e destacam as representações socialmente aceitas sobre a profissão que conferem legitimidade às ações dos jornalistas. O ideal do jornalismo é reforçado pelos autores, que ressaltam o compromisso da profissão com a sociedade, a partir de uma conduta profissional correspondente.

O segundo tema que mais aparece na amostra, “fake news” (18,52%), coloca em evidência o papel social do jornalismo contemporâneo e a sua relação com a verdade, a partir das transformações proporcionadas pelo ambiente online. As redes sociais como o Facebook e

3 5 3 1 2 0 9 1 1 1 1 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Ref. Principais temas

(1) Internet (2) Fake News (3) Regulação/liberdade de imprensa (4) Política (5) Gestão pública (6) Economia (7) Jornalismo (8) Saúde Pública (9) Tecnologia (10) Ambiental (11) Cardápio Temático (12) Outros

o Twitter, por exemplo, aceleraram ainda mais a velocidade com que as matérias noticiosas são compartilhadas e permitem que este tipo de “notícia fabricada” ganhe maior visibilidade.

Um dos fatores responsáveis pela expansão da informação é a crescente alfabetização mediática, no sentido das pessoas estarem se tornando cada vez mais fluentes, não apenas no recebimento, mas também na produção e disseminação de conteúdo, o que favorece a propagação de fake news. Com as novas plataformas, associadas a uma multiplicidade de dispositivos de comunicação móvel, as audiências começam a participar ativamente desse processo sem depender de um profissional para a mediação.

Nesse cenário, a atividade de produção e divulgação de informações não são mais domínios exclusivos dos jornalistas profissionais e das empresas tradicionais de mídia – outras organizações e até usuários da internet são igualmente capazes de operar neste espaço. Ou seja, os jornalistas passam a fazer parte de uma gama crescente de grupos e atores sociais envolvidos com as informações, o que aumenta a necessidade desses profissionais mostrarem o valor agregado que fornecem para quem consome a notícia, mediante os seus esforços de investigação e curadoria.

O contexto atual também explica porque o tema “Internet” aparece em 3º lugar. A tecnologia e o crescente uso da rede digital geram efeitos importantes sobre os meios de comunicação social, revelam mudanças nos padrões de trabalho, papéis profissionais e na relação entre os produtores e consumidores de jornalismo. A profissão vem enfrentando muitas transformações ao longo da última década, a partir da proliferação de ferramentas digitais. Entretanto, o que parece estar em crise não é o jornalismo, mas sim a noção de que esta é a única instituição capaz de produzir e divulgar informações.

Nesse cenário, a população consegue monitorar, verificar, criticar e, até certa medida, intervir no processo jornalístico. Essas características desafiam potencialmente a profissão, que precisa se reinventar frente a uma sociedade moderna, complexa e multimídia. O aumento das pressões do mercado, a proliferação de notícias e informações online e o colapso dos velhos modelos de negócio explicam o motivo do tema “regulação/liberdade de imprensa” também estar em 3º lugar (11,11%). O tema, retratado a partir do viés político e econômico, mostra a articulação dos meios de comunicação com outras instâncias sociais. O texto de Eugênio Bucci, por exemplo, analisa o resultado do ranking publicado pela revista inglesa The Economist, sobre a liberdade de imprensa.

Segundo o autor, a Rússia não pode ser considerada uma democracia, visto que aparece no 134º, com Vladimir Putin no bloco dos regimes autoritários. Nesse caso, imprensa livre poderia ser uma alternativa à sociedade contra a expansão dos governos populistas com

tendências autoritárias. Outro texto com a mesma temática, “A Grande Imprensa no Brasil é liberal-conservadora”, escrito por Lucy Oliveira, traz uma entrevista com o Cientista Político, Fernando Azevedo, da UFSCar, sobre o livro de sua autoria: “A Grande Imprensa e o PT: 1989- 2014”. No atual momento de polarização e crise política em diferentes níveis no país, o debate sobre a relação entre mídia e política se reaquece. Para Azevedo, o debate gira em torno de como se posicionam os meios de comunicação em relação aos atores, personagens e instituições políticas no país e até que ponto a autonomia do jornalismo está em risco. Além disso, também há o texto “Alianças estratégicas ameaçadas”, de autoria de Carlos Castilho, que além de trazer a relação da imprensa com o governo, sinaliza para a migração dos atores políticos para as novas plataformas online. É importante analisar estas mudanças, visto que as formas emergentes de comunicação podem trazer pistas de como o jornalismo está se posicionando nesse cenário, sem perder de vista o interesse social.

A prestação de serviço ao público em um ambiente multimídia e multicultural não é o mesmo que costumava ser na transmissão das mídias de massa. Hoje, com maior interatividade, o público pode dizer qual a informação que deseja ter, sendo possível ampliar as vozes da sociedade. Nesse sentido, as novas tecnologias de mídia e a pluralidade cultural dos atores envolvidos tornam a profissão mais complexa. Ao trabalhar com equipes de outras áreas, os jornalistas têm que aprender a compartilhar autonomia, visto que neste contexto a capacidade colaborativa é maior, o que aumenta as perspectivas de narrativa. Além disso, o imediatismo e a velocidade inerente à publicação on-line, também aumentam as chances de proliferação das notícias falsas. No entanto, ao mesmo que há pontos negativos, a internet oferece novos caminhos de atuação profissional e permite repensar a profissão a partir da participação mais ativa do público, uma das principais potencialidades desse novo ambiente.

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