O item predominante nos textos, que motivou a produção dos colaboradores, foi a questão “factual”. Dos 27 textos, 14 (51,85%) são reportagens ou notícias datadas, ou derivam de informações publicadas pelos meios de comunicação sobre fatos recentes. Em segundo lugar aparecem os textos que tratam da “atualidade” (48,15%), ou seja, que abordam, avaliam ou criticam a atuação jornalística em conexão à temas do cotidiano e em conformidade com a realidade de uma dada sociedade.
GRÁFICO 3 – O que motiva autor(a) a escrever o texto Fonte: A autora
Na perspectiva das teorias do jornalismo, o fator tempo aparece como um quadro explicativo para dizer por que os jornalistas divulgam determinadas informações em detrimento de outras. As questões que aparecem no mundo social ganham o status de notícias em relação não só à maneira como afetam a experiência social, mas também como se conformam às exigências do ciclo temporal.
Na lista dos textos definidos como factuais, vale citar alguns exemplos, tais como: “As responsabilidades da imprensa nas mortes dos macacos”, escrito por Eveline Teixeira Baptistela e publicado no dia 26 de março, que avalia o enfoque da imprensa sobre a febre amarela e a falta de profundidade das notícias. O surto da doença inicia no Brasil no final de 2016 no estado de Minas Gerais, onde confirmaram-se mortes de pessoas ligadas ao vírus. Em 2017, aumentou o número de Estados com casos registrados da doença e a cobertura da mídia sobre o assunto, o que gerou maior repercussão social e motivou a análise das referidas notícias pela professora de jornalismo Eveline Baptistela.
O texto escrito por Saulo de Assis, publicado em 6 de maio – “Jornais destacam o show midiático envolvendo o depoimento de Lula” – traz a superexposição midiática do depoimento
0 13 0 14 0 0 1 2 3 4 5 6
Ref. O que motiva autor(a) a escrever o texto (1) Sazonal (2) Atualidade (3) Data comemorativa (4) Agenda factual (5) História (6) Outro gancho ou motivação
do ex-presidente e a repercussão pela imprensa francesa Le Monde e Le Figaro. O autor procura entender como um episódio comum do processo judicial se tornou pauta jornalística e o papel das mídias na percepção do público, o que revela a relação inseparável entre o tema foco de análise e o acontecimento datado.
O texto publicado pelo Observatório da Imprensa, “Projor e Observatório da Imprensa mapeiam jornalismo local no Brasil”, publicado no dia 31 de agosto, faz parte do núcleo temático apresentado anteriormente nesta dissertação sobre o mapeamento do jornalismo local no Brasil, denominado Atlas da Notícia. Em formato notícia, os textos possuem a factualidade como característica central da produção e trazem as principais informações sobre o projeto realizado pelo Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, que mantém o
Observatório da Imprensa.
Mesma característica do texto “Pública renova Conselho Consultivo” publicado no dia 11 de setembro, também classificado como notícia. Assinado pela Agência Pública, o texto informa a relação dos 8 profissionais que irão compor o conselho da ONG criada em 2011, cujo objetivo é debater a produção e o planejamento estratégico da equipe de jornalistas que trabalham no local.
Outro exemplo, “O Recado de Nuno Ramos” escrito pelo editor responsável Pedro Varoni e publicado no dia 18 de setembro, é referente ao vídeo do artista Nuno Ramos que editou o áudio dos apresentadores do Jornal Nacional William Bonner e Renata Vasconcelos. O artista pinçou sílabas das falas da dupla de âncoras de modo a compor a letra de “Lígia”, canção de Tom Jobim lançada em 1974. Varoni avalia a obra baseada no noticiário do dia em que vazou a conversa de Dilma Rousseff com Lula (quando ele poderia ocupar a casa civil no governo) e a aprovação do impeachment da Presidente no Senado, ou seja, neste caso, a produção datada toma como referência os dias 16 de março e 31 de agosto de 2016.
Por fim, o último texto apresentado como exemplo foi produzido por Renato D’Ávila Moura e publicado no dia 28 de novembro, “Tecnologia gratuita da UFRJ facilita o trabalho de jornalistas com deficiência visual”. A notícia aborda a comemoração dos 20 anos da criação do
software DOSVOX, leitor de tela que ajuda na compreensão da escrita pelos cegos e pessoas
com baixa visão, facilitando a inclusão na era digital e o acesso ao mercado de trabalho. Idealizado pelo professor doutor José Antônio Borges, o software foi desenvolvido pelo núcleo de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com o objetivo de ler o conteúdo que é digitado pelo usuário.
A amostra selecionada para a pesquisa traz em si as figuras comuns do tempo, que no seu sentido prático, implicam medida, datação, uma base cronológica. Por esse viés, postula-se
a temporalidade como um dos elementos essenciais, tanto da notícia, como dos textos que tomam o material jornalístico como referência. Por se tratar de um discurso baseado no jornalismo, grande parte dos textos da seção ‘Imprensa em Questão’ do Observatório da
Imprensa apresentam uma característica essencial, que também é vetor fundamental da
profissão, a factualidade.
Além dos textos factuais, também aparecem em quantidade expressiva os textos que trazem a atualidade como pano de fundo. Estes não tomam como referências notícias anteriores e nem trazem informações que possuem um certo “prazo curto de validade” - elemento perceptível na subcategoria anterior - mas apresentam informações daquilo que se percebe em dado contexto social.
Uma das características marcantes e presentes em todos os textos deste grupo são as reflexões sobre as mudanças que estão ocorrendo no jornalismo devido às novas mídias. “As várias faces da pós-verdade”, escrito por Pedro Varoni e Francisco Rolfsen Belda, publicado no dia 04 de julho, e “A mentira como matéria prima”, de autoria do jornalista Paulo José Cunha, publicado no dia 17 de março, por exemplo, abordam essas transformações. Ambos os textos criticam a proliferação dos noticiários mentirosos, que enriquecem muitos donos de sites e reforçam a necessidade de um olhar crítico por parte do público. Segundo Cunha, “a resultante desse coquetel é uma mistura de desinformação, preconceito, intolerância, incompetência para a escolha consciente e incapacidade de autodeterminação” (CUNHA, 2017).
O texto “O círculo vicioso das ‘fake news’ e o futuro do jornalismo”, publicado no dia 26 de março, também analisa o aumento de notícias falsas no ambiente digital, proporcionado pela expansão da internet e aumento do conteúdo comunicacional. De acordo com a perspectiva de Lucas Souza Dorta, as mudanças geradas pelas novas mídias em conjunto com o grande número de demissões e o excesso de factualidade ajudaram a agravar a crise na mídia contemporânea.
Outro texto que discute o impacto da internet no âmbito profissional é “Crise abre espaço para alternativos no jornalismo”, escrito por Alexandre Marini e publicado no dia 04 de abril. O material aponta para a falta de criticidade, clareza e confiabilidade dos jornais tradicionais que estariam levando à queda do número de exemplares e acesso do público. Segundo o autor, esse cenário favorece e o crescimento das páginas online, que ganham espaço no vácuo criado pela baixa qualidade da grande imprensa.
Rogério Christofoletti (2011) explica como o novo cenário, marcado pelo surgimento das novas mídias, interfere no trabalho jornalístico.
No campo do jornalismo, blogueiros, prosumes, hackers, veículos independentes e iniciativas não convencionais têm redesenhado o mapa, e contribuído para a oferta de novas formas narrativas, de outras modalidades de produção coletiva, colaborativa, participativa (CHRISTOFOLETTI, 2011)
De acordo com Christofoletti (2011), o uso da internet afetou as formas massivas e interpessoais de comunicação. E os efeitos proporcionados pelas mudanças acabam sendo maiores para os jornalistas porque refletem em seus modos de trabalho e rotinas operacionais.
As transformações pelas quais vem passando o jornalismo nas últimas duas décadas têm estimulado não apenas a revisão dos processos aos quais estávamos habituados, mas também a reflexão sobre a natureza do que se convencionou chamar de jornalismo e o papel que este desempenha nas sociedades contemporâneas, altamente complexas. É bem verdade que essas modificações têm alterado não só a comunicabilidade, mas também a sociabilidade humana, forçando reposicionamentos dos atores. Os meios de comunicação não têm mais a centralidade/primazia/exclusividade que tinham no processo de informação dos cidadãos. (CHRISTOFOLETTI, 2011)
Em conformidade com esse cenário, marcado por transformações, os textos classificados como atuais analisam o impacto das novas mídias na produção, circulação das notícias e inclusive, na gestão das empresas. Este último tema aparece predominantemente em “A polêmica associação entre jornalismo e negócios na internet”, escrito por Carlos Castilho. Publicado no dia 06 de junho, o texto reflete a nova realidade das empresas de comunicação que precisam pensar em novas maneiras de gerar rentabilidade ao negócio. Com o crescente uso das mídias online, a indústria jornalística tradicional sente o declínio de anunciantes nos jornais e para minimizar os impactos financeiros, acaba por demitir funcionários e enxugar as redações. Em contrapartida, há o aumento do freelance, do empreendedorismo jornalístico e, em consequência, ocorre a precarização do trabalho formal. Nesse sentido, as organizações jornalísticas precisam repensar a própria gestão e sustentabilidade comercial. A facilidade em desenvolver e publicar conteúdos, permite a participação de novos atores sociais e abre espaço para o jornalismo repensar as suas práticas e o seu posicionamento na sociedade.
Os textos apresentados como exemplos permitem avaliar a influência que o regime temporal exerce sobre o jornalismo e como os colaboradores do site articulam discursivamente passado, presente e futuro. Grande parte da amostra se baseia em acontecimentos factuais, datados, cujas produções ou são notícias produzidas para o Observatório da Imprensa, ou tomam como referência as notícias produzidas por outros meios de comunicação. Já os textos classificados como atuais abordam o jornalismo de forma mais ampla, em articulação com um dado momento e contexto social, tomando como matéria-prima os assuntos relevantes e que estão repercutindo no presente (em conformidade com a data na qual foi realizada a produção).