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Cependant les enjeux de la mise en place du CPFR sont tout autres que ceux du S&OP

Étape 9 : Créer les commandes

II. Cependant les enjeux de la mise en place du CPFR sont tout autres que ceux du S&OP

Se quisermos influenciar os outros, deve ser pela educação e com consentimento. O livro, e em especial o livro para criança, não pode ser usado como arma. PETER HUNT

Ao realizar um estudo sobre a leitura de literatura infantil e para começar levantar questionamentos sobre os hábitos de leitura e a importância dada à leitura dos “clássicos” e das obras canônicas que fazem parte de uma cultura de leitura, nos vemos obrigados a questionar e entender alguns conceitos básicos sobre o que se considera um livro “clássico”, e sobre o ato de leitura em si, para chegarmos à razão subjacente de como e por que as pessoas leem. Devido ao fato de estarmos analisando a espécie literária infanto-juvenil, é natural que surja uma curiosidade sobre a influência da leitura do livro canônico, capaz de despertar aquele interesse verdadeiro em desfrutar de uma “boa leitura”, na construção de uma cultura de leitura para uma criança.

Ao relembrar sua própria infância e a influência dos clássicos no seu interesse e paixão pelos livros, a escritora Ana Maria Machado fala do poder de norteamento dos livros na sua vida dizendo que: “Eram essas as referências de minha geografia infantil” (MACHADO, 2002, p. 8). Como a leitura sempre foi algo muito praticado e desfrutado pela autora junto aos seus pais, ela começou fazendo uma justaposição dos lugares e pontos de referência pessoal como onde ela morava, onde moravam seus avôs, etc. com os lugares longínquos e mágicos dos mundos dos livros. Sua curiosidade pelas terras de Dom Quixote e Sancho Pança se tornou uma verdadeira paixão em parte graças à própria paixão do pai pela leitura que, nas palavras da autora, “[...] foi contando aos poucos, com suas próprias palavras, enquanto me mostrava as ilustrações” (MACHADO, 2002, p. 9). Além de seu pai plantar e cultivar uma cultura de leitura que se instalou de tal forma na escritora que passou grande parte da sua vida escrevendo maravilhosos livros, ele instilou nela uma bússola que nortearia eternamente seus caminhos literários. A leitura dos grandes clássicos desde cedo fez com que passassem a “[...] fazer parte indissociável da bagagem cultural e afetiva [...]” da autora (MACHADO, 2002, p. 11).

Ao fazer um estudo etimológico da palavra clássico, nota-se a possibilidade de derivar-se da palavra classos, que é uma espécie de embarcação. Ao ler um clássico, o leitor é jogado nos mares das palavras e das imagens literárias e navega em uma viagem nas águas do imaginário. Como podemos então definir este livro de tanto peso cultural? Comecemos com algumas propostas de escritores e críticos de renome para definir esta espécie literária. Para a escritora Ana Maria Machado, “Clássico não é livro antigo e fora de moda. É livro eterno que não sai de moda” (MACHADO, 2002, p. 15).

Na sua obra, Por que Ler os Clássicos, Ítalo Calvino afirma que: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha que dizer” (CALVINO, 1999, p. 11). Segundo o escritor:

Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam à nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas e que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes) (CALVINO, 1981, p. 11).

Ele aponta ainda que: “Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual” (CALVINO, 1999, p. 10 – 11). O clássico leva o leitor a mundos desconhecidos, mas ao mesmo tempo tem o poder de “ler” o leitor; ou nas palavras de George Steiner, “Cada vez que o enfrentamos, o clássico nos questiona” (STEINER Apud MACHADO, 2002, p. 22). É nesse questionamento que o leitor reflete não só sobre o que o livro está questionando ou propondo, mas também sobre o valor literário e cultural da obra clássica e sobre o seu próprio lugar no mundo.

O leitor busca na literatura a mesma coisa que o homem da tradição oral buscava em contar histórias: “[...] tentar entender a vida, sua passagem pelo mundo, ver na existência alguma espécie de lógica” (MACHADO, 2002, p. 75). A escritora traça analogia entre o gosto pela viagem no mundo real ao gosto pela viagem pelos mundos da leitura. Ela relata que “É o gosto pela imersão no desconhecido, pelo conhecimento do outro, pela exploração da diversidade. A satisfação de se deixar transportar para outro tempo e outro espaço, viver outra vida com experiências diferentes do cotidiano” (MACHADO, 2002, p. 19 – 20). Através do devaneio, a leitura leva o leitor para terras distantes e para dentro de mundos desconhecidos. O leitor pode fugir por algumas horas da sua vida cotidiana para fazer parte de um universo imaginário que é a leitura.

Ao mergulhar em mundos desconhecidos do devaneio existe também a possibilidade de o leitor encontrar um personagem com elementos ou traços parecidos ou idênticos a si mesmo, como se fosse um grande espelho refletindo elementos do próprio leitor. Segundo Machado, estes elementos encontrados numa “[...] espécie de espelho, como estão em outro contexto e são fictícias, nos permitem um certo distanciamento e acabam nos ajudando a entender melhor o sentido de nossos próprias experiências” (MACHADO, 2002, p. 20). São aqueles livros que deveriam ser lidos durante a infância para abrir o mundo da leitura às crianças, mas que poderiam e deveriam ser relidas várias vezes depois de adulto para sempre encontrar novas e melhores interpretações do clássico fazendo uso das experiências e outras leituras feitas ao longo da vida.

Em síntese, como nos traz Machado, “os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, mais se revelam novos, inesperados, inéditos, quando são lidos de fato” (MACHADO, 2002, p. 23). Sendo assim, cada leitura e releitura dos clássicos oferecem novas descobertas e percepções diferentes baseadas nas nossas próprias experiências em várias épocas diferentes da nossa vida. É precisamente este potencial de uma grande quantidade de leituras que os grandes livros oferecem que fazem com que permaneçam dentro da sociedade. Oittinen concorda com o pensamento de Bettelheim sobre a importância dos contos folclóricos e afirma que: “[...] they (old folktales) have become classics because they touch the deepest core of every human being, the unconscious” 8 (OITTINEN, 2000, p. 65).

No seu livro O Que É Leitura, Maria Helena Martins menciona o conceito de releitura apontando que: “Assim como há tantas leituras quantos são os leitores, há também uma nova leitura a cada aproximação do leitor com um mesmo texto, ainda quando mínimas as suas variações” (MARTINS, 2000, p. 79). Ela fala das várias mudanças de nível que ocorrem com cada releitura de uma obra e como novas reflexões sobre o mesmo texto são possíveis apenas após várias leituras do mesmo. Outro elemento importante da leitura é de ler de forma contextualizada; ou, como coloca Ana Maria Machado, “[...] entendendo a época e não cobrando atitudes contemporâneas de uma manifestação cultural de outro tempo e outra sociedade” (MACHADO, 2002, p. 99).

A escritora e crítica Ana Maria Machado (2002) também comenta sobre a desnecessidade de tentar transformar a leitura em um tipo de “ferramenta de ativismo”. A pessoa que toma a decisão consciente de ler um livro para melhorar seu conhecimento e para expandir seus próprios horizontes está, por sua vez, melhorando sua própria cidade e seu próprio país. O leitor não precisa encarar o livro como algum mecanismo de lavagem cerebral que pode ser usado para converter ou influenciar alguém somente porque aquele leitor em particular o estimou como algo de importância social e cultural. Machado afirma que: “Ler bem é ficar mais tolerante e mais humilde, aceitar a diversidade, dispor-se a tolerar a diferença e a divergência. Não o contrário” (MACHADO, 2002, p. 100).

Hunt ressalta que existem outros pontos de contato entre a teoria e a crítica com os livros infantis, sendo eles: a política e o poder, a reação do leitor, a desconstrução, as estruturas e os mitos (HUNT, 2010, p. 33). Ele cita a observação de Chambers de que a literatura infantil é um laboratório de provas de importância ímpar para as teorias literárias

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Eles (os contos folclóricos) se tornaram clássicos porque tocam a parte mais profunda de cada ser humano: o inconsciente – Tr. Tonia L. Wind.

(HUNT, 2010, p. 33). Um tema muito ligado às possibilidades ou perspectivas de leitura de um livro infantil é a recepção ou maneira em que a criança lê e interpreta um texto. O processo de leitura é algo muito complexo, e vai muito além de apenas decifrar o código das palavras para entender o que o livro “quer dizer”.

A forma pela qual uma pessoa lê um texto envolve tanto sua capacidade mental de compreender os sinais da linguagem, quanto suas experiências passadas e conhecimento com livros, formação e visão cultural, preconceitos, raça, idade, entre muitos outros fatores pessoais e sociais. A culminação de todos estes fatores leva a formação de opinião sobre um texto em particular e como uma criança produz sentido ao ler um texto. Um único texto pode gerar várias possibilidades de traduções de um grupo de tradutores, igual a um livro que pode gerar inúmeros entendimentos ou interpretações de um grupo de leitores. Susan R. Suleiman ressalta que: “[...] devemos levar em conta horizontes de expectativa diferentes coexistentes entre os diferentes públicos de uma sociedade qualquer” (SULEIMAN Apud HUNT, 2010, p. 110).

Aprofundaremos o tema de possibilidades de análises de traduções de textos no último capítulo deste trabalho, mas deixamos aqui a colocação da importância da interpretação pessoal numa leitura de um texto. Hunt, ao expor sobre esta multiplicidade de perspectivas e interpretações, ressalta que: “O que encontramos num texto depende de como o lemos; e por sua vez, depende do que os vários gêneros de literatura infantil permitem que ele seja. [...] O juízo de valor é uma questão para o leitor” (HUNT, 2010, p. 109). Percebemos como o leitor é um tradutor ou interprete dos signos e mensagens de um texto dentro de seu próprio idioma. O leitor lê ou interpreta um texto de acordo com seus gostos, experiências e opiniões pessoais, e nunca se sabe o que realmente se entendeu ou captou da mensagem original do texto. Hunt aponta que:

Você pode levar uma criança a um livro, mas não pode fazê-la pensar do mesmo modo que você. Todos os dados psicológicos e educacionais sugerem que as crianças têm uma cultura diferente ou sobreposta, ou uma contracultura em relação à dos adultos e que elas entendem e fazem associações com significados diferentes. [...] Assim, não só os alvos “visíveis” do sexo, raça e classe tendem a ser invisíveis para a criança-leitor – a menos que queiramos que sejam visíveis – como também o texto aparentemente inocente, desejável, pode transmitir sentidos que corrompem e que não conseguirmos perceber (HUNT, 2010, p. 205-206).

Dando continuidade ao estudo de signos e mensagens, dentro da literatura infantil percebe-se que a relação entre o adulto e a criança no texto acaba sendo refletido nos conflitos

das relações de poder na literatura em geral. No último capítulo deste trabalho será apresentada uma análise completa da tradução feita do livro ilustrado de importância significativa dentro da cultura norte-americana, Where the Wild Things Are. Nele, notamos um conflito de poder entre Max e sua mãe que é tão forte que faz com que Max saia em busca de um devaneio no qual ele é o rei dos selvagens. Sua viagem ao mundo dos selvagens começa por causa de um conflito de poder entre os dois, tanto que no outro mundo Max se torna o rei dos selvagens e exercita seu poder soberano sobre todos os outros selvagens, punindo-os por mau comportamento da mesma maneira em que fez sua mãe na sua vida real.