Os teóricos que apontam para a passagem da diversidade religiosa para o pluralismo religioso configuram a análise da realidade religiosa como social, visto que “[...] para a maioria da humanidade, a religião determina a maneira como se olha para o mundo e como se deveria viver” (BERGER, 2017, p. 45). No entanto, existem alguns fatores que contribuem a consciência de que a realidade atual tem múltiplos motores para sua transformação e modernização, que eclodem no pluralismo. Nos pluralismos no mundo contemporâneo, tem-se uma espécie de idioma, pelo qual as sociedades estão aprendendo a falar e a comunicarem-se revelando o pluralismo (BERGER, 2017).
Além dos muitos fatores que motivaram a eclosão do pluralismo e, de maneira especial, veiculam a diversidade religiosa presente nas sociedades, há três que se destacam entre as demais: migração, transnacionalismo e internet. Para essa compreensão, é utilizada a noção de megatendências do teórico Yang, estudada por Giordan e Pace (2014, p. 49): “[...] no mundo de hoje, a diversidade religiosa está
em ascensão em todas as sociedades; várias megatendências no mundo moderno tornam inevitável o aumento da diversidade religiosa”.
A primeira tendência é a migração, que ocorre devido a economia de mercado globalizada, fazendo com que milhares de pessoas deixem seus lugares de origem para buscarem oportunidades de investimento ou emprego, ambicionarem melhor qualidade de vida. Nas novas instalações, os imigrantes revelam consigo a sua tradição religiosa:
Embora os imigrantes esperam e devam se adaptar à vida na nova sociedade, para a maioria das pessoas a religião não é algo que eles possam facilmente desaprender ou adquirir outra facilmente. Por razões econômicas e sociais, a sociedade anfitriã também espera que acomode as crenças e práticas religiosas dos imigrantes que fornecem o capital ou as habilidades sociais ou econômicas necessárias à sociedade (YANG apud GIORDAN; PACE, 2014, p. 49).
A segunda megatendência é o transnacionalismo, que também acontece por causa da globalização e da facilidade que os meios de comunicação e de transportes, oferecidos aos migrantes. A mudança de seu país de origem não faz desaparecer as crenças e práticas religiosas adquiridas anteriormente. Por onde residirem, trazem consequências inevitáveis para a diversidade religiosa:
Essas conexões transnacionais tornam necessário que migrantes mantenham laços religiosos e sociais com sua comunidade de origem, seja mantendo a religião tradicional ou introduzindo de novo em suas comunidades religiosas as práticas religiosas aprendidas nas comunidades às quais se juntaram (YANG apud GIORDAN; PACE, 2014, p. 49).
A terceira tendência é a internet ou a mídia de massa. Nesse particular, a diversidade religiosa não apenas se espalha facilmente, mas também apregoa a vida imersa ao ambiente virtual das práticas religiosas diferentes de outras tradições. Essas, mesmo a distância, estão à disposição e tem possibilita o acesso independe das condições geográficas e temporais:
Sem migrar ou receber imigrantes de outra sociedade, as pessoas podem acessar facilmente informações sobre religiões praticadas em outros tempos e lugares através de livros, revistas, jornais, televisão e, cada vez mais, a internet. Eles também podem se juntar a comunidades virtuais dedicadas a várias religiões ou fazer amigos virtuais com pessoas que residem em outras partes do mundo e praticar suas religiões distintas. Finalmente, as novas experiências migratórias e cosmopolitas da vida geraram tantas necessidades espirituais e sociais como possibilidades
práticas que poderiam encorajar imigrantes ou não-imigrantes a desenvolver novas religiões, talvez escolhendo elementos de várias tradições para formar uma nova comunidade como uma religião distinta (YANG apud GIORDAN; PACE, 2014, p. 49-50).
As megatendências do mundo contemporâneo são perceptíveis, sendo cerne do círculo de movimento e transformação em que as religiões se encontram atualmente. A diversidade religiosa atual parece ser a mais marcadamente notada na sociedade, apresenta ser evidenciada e aberta a influências vindas da sociedade e de outras tradições religiosas: “[...] mundo contemporâneo, com poucas exceções, é tão intensamente religioso como qualquer outro na história; todas as principais tradições religiosas não somente sobrevivem, mas geraram poderosos movimentos de renovação” (BERGER, 2017, p. 55).
As reflexões das megatendências, em suma, trazem a inovação ou renovação religiosa, que se tornou um fenômeno comum na sociedade. Iisso tem feito com que a diversidade religiosa se desenvolva numérica e empiricamente, e se abra à criatividade do mundo moderno, sendo que, dadas as megatendências nas áreas sócia e da economia, é inevitável que haja um número crescente de religiões (YANG apud GIORDAN; PACE, 2014).
Por meio dos exemplos, nota-se que a diversidade religiosa se multiplica e radicaliza suas ambições, sendo o fato religioso algo revelador da complexidade desafiadora da continuidade dos lugares-comuns.
No entanto, o pluralismo religioso enquanto ideal normativo que legitima a diversidade religiosa, também é um forte paradigma para a variedade empírica das coletividades de crença conviverem harmonicamente e sejam reconhecidas como benéficas (BECKFORD, 2003). As megatendências se inscrevem nas transformações e na ascensão da diversidade religiosa, embora não aponte o ideal de convivência, nem diz se essa diversidade religiosa é considerada benéfica.
A transição da diversidade religiosa para o pluralismo religioso reconhece que “[...] a diversidade religiosa ou a justaposição de comunidades de fé não significa que todas elas sejam necessariamente consideradas igualmente aceitáveis ou boas” (BECKFORD, 2003, p. 81). A origem da passagem de uma diversidade religiosa para um pluralismo religioso está exposta, no sentido de que a aceitação da diversidade religiosa por parte das sociedades e das estruturas do poder público, parte das religiões.
O ideal de convivência pacífica do pluralismo religioso é levado em conta, pois “[...] isso significa levar a sério as mudanças que ocorrem ao longo do tempo nas conceitualizações cotidianas da religião” (BECKFORD, 2003, p. 3). Entretanto, ao compreender que a diversidade religiosa é entendida em seu sentido descritivo e empírico, não se traduz por si só um ideal de convivência pacífica entre as diversas religiões.
A posição dos debates mais profundos sobre o pluralismo religioso conota as possíveis (re)adaptações dos diferentes conceitos e das questões da diversidade religiosa, sendo a dinâmica da aceitação pública das religiões o ato de assumir outros significados para o pluralismo religioso, enquanto modelo e meio de legitimação da diversidade religiosa. Novos pontos de vista hermenêuticos são observados como sensibilidades de dar valor à variedade de credos.