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I – EMPREINTES RELIGIEUSES, INTERDITS ET DIFFICULTES A PROPOS DU CORPS

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 139-160)

Publicado originalmente em 1946, Geografi a da fome, de Josué de Castro, é o traba- lho pioneiro sobre o tema no País. Médico pernambucano que mais tarde presidiria a

Food and Agriculture Organization (FAO), órgão da Organização das Nações Unidas

(ONU) responsável pelo assunto; deputado federal cassado em 1964 com o golpe mili- tar, Castro ressalta em sua obra que o tema passou a ser tratado de forma objetiva devido às milhões de vítimas da fome após as duas grandes guerras mundiais.

É nesse livro que são apresentados os conceitos de fome “epidêmica”, provocada por catástrofes ecológicas ou políticas, e fome “endêmica” caracterizada por uma alimenta- ção abaixo do necessário, mesmo que a população viva em locais onde os alimentos são produzidos normalmente. Para ele, diferentemente da Amazônia e do Nordeste açuca- reiro, vítimas de fome “endêmica”, os habitantes do sertão nordestino eram vítimas de fome “epidêmica”: “Surtos agudos de fome que surgem com as secas, intercaladas cicli- camente com os períodos de relativa abundância que caracterizam a vida do sertanejo nas épocas de normalidade”. (Castro, 1969, p. 155)

A seca é a grande responsável por boa parte da diáspora do sertão nordestino da pri- meira metade do século XX. Fazendo referências a imagens construídas em uma série de obras (O Quinze, de Rachel de Queiroz; A Paraíba e seus problemas, de José Américo de Almeida; O Nordeste, de Gilberto Freyre; História das secas no Ceará, de Rodolfo Teófi lo), além dos resultados de seus inquéritos sociais, Castro apresenta uma imagem do êxodo fruto da fome.

Assim esgotadas as suas esperanças e reservas alimentares de toda ordem, iniciam os sertanejos a retirada, despejados do sertão pelo fl agelo implacável. Sem água e sem alimentos, começa o terrível êxodo. Pelas estradas poeirentas e pedrego- sas ondulam as intermináveis fi las dos retirantes como se fossem uma centopéia humana. Homens, mulheres e crianças, todos esqueléticos, deformados pelas per- turbações trófi cas, com a pele enegrecida colada às longas ossaturas, desfi brados e fétidos pelo efeito da autofagia [...] São as sombrias caravanas de espectros ca- minhando centenas de léguas em busca das serras e dos brejos, das terras da pro- missão. Com os seus alforjes quase vazios, contendo quando muito um punhado de farinha, um pedaço de rapadura; a rede e a fi lharada miúda grudada às costas, o sertanejo dispara através da vastidão dos tabuleiros e chapadões descampados, disposto a todos os martírios. Sem recursos de nenhuma espécie, atravessando zonas de penúria absoluta, gastando na áspera caminhada o resto de suas energias comburidas, os retirantes acentuam no seu êxodo as conseqüências funestas desta fome. (Castro, 1969, p. 208-209)

Aqui, na tentativa de uma associação da descrição feita por Josué de Castro, vem à mente a célebre obra A triste partida (“Setembro passou com oitubro e novembro / Já tamo em dezembro / meu Deus que há de nós? Assim fala o pobre do seco nordeste / com medo da peste / da fome feroz”), mas podemos acrescentar outras, como Nordesti-

no sim, nordestinado não, em que o poeta rejeita a ideia de um castigo divino ou destino

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Luís Celestino de França Jr.

Nunca diga nordestino que Deus lhe deu um destino causador do padecer Nunca diga que é o pecado que lhe deixa fracassado sem condição de viver [...]

Há muita gente que chora vagando de estrada afora sem terra, sem lar, sem pão, crianças esfarrapadas, famintas escaveiradas, morrendo de inanição Sofre o neto, o fi lho e o pai, Para onde o pobre vai Sempre encontra o mesmo mal, Esta miséria campeia

Desde a cidade à aldeia, Do sertão à capital. Aqueles pobres mendigos Vão à procura de abrigos Cheios de necessidade, Nesta miséria tamanha Se acabam na terra estranha Sofrendo fome e saudade. Mas não é o Pai Celeste Que faz sair do Nordeste Legiões de retirantes, Os grandes martírios seus Não é permissão de Deus, É culpa dos governantes. Já sabemos muito bem De onde nasce e de onde vem A raiz do grande mal, Vem da situação crítica Desigualdade política Econômica e social. (ASSARÉ, 2001, p.188-190)

Os versos de Patativa estão próximos do pensamento pioneiro de Josué de Castro, desenvolvido por uma série de pesquisadores posteriores a ele. A fome não tem “causa divina”, interpretada em intempéries climáticas ou em uma “preguiça natural” do serta- nejo, algo que o condena eternamente à miséria, mas é fruto de condições sociopolíti- cas. Reforma agrária (“Para saíres da tal fadiga, / Do horrível jugo que cruel te obriga / A padecer situação precária / Lutai altivo, corajoso e esperto / Pois só verás o teu país liberto / Se conseguires a reforma agrária”) é um dos poemas que novamente se aproxi- ma do pensamento de Josué de Castro:

É a inadequação de nossas estruturas agrárias o fator essencial da má uti- lização de nossos recursos naturais, da baixa produtividade agrícola e da subocupação do homem do campo. Numa palavra: do atraso geral de nos- sa agricultura. O arcaísmo desta estrutura agrária se evidencia não só pela inadequada distribuição das propriedades, como nas relações de produção

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de tipo feudal, nas quais ainda perduram o regime de meiação, a parceria e outras sobrevivências do feudalismo agrário. (1969, p. 283)

No poema Emigrante nordestino, Patativa se aproxima claramente da defi nição de Josué de Castro de “fome epidêmica” quando este ressalta que a intempérie climática associada às estruturas fundiária e social, transforma em cenas de horror os períodos de “bonança”: “Quando há inverno abundante / No meu Nordeste querido, / Fica o pobre em um ins- tante / Do sofrimento esquecido / Tudo é graça, paz e riso / Reina um verde paraíso / Por vale, serra e sertão, / Porém não havendo inverno, / Reina um verdadeiro inferno / De dor e de confusão” (2000, p. 325).

Josué de Castro foi médico, professor dos cursos de medicina, geografi a e antropologia. Patativa do Assaré foi um agricultor com, como ele mesmo gostava de ressaltar, “seis meses de estudo”. Josué de Castro foi Doutor Honoris Causa em algumas universidades. Patativa tam- bém foi. Como explicar essa aproximação entre o pensador erudito e o “poeta popular”?

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