Le roseau se berce toujours
EMISSION ET RECEPTION DU MESSAGE
PEDAGÓGICO?
Um dos cinco pilares da reforma protestante, liderada por Matinho Lutero no século XVI, alicerçou-se sobre o fundamento de que “Somente a Escritura” (sola
scriptura) seria a autoridade primeira no direcionamento da conduta e da fé cristã.
Fruto desta herança protestante, a exemplo de outras igrejas históricas, a igreja batista desenvolveu suas concepções sobre o papel exercido pelas escrituras, na dinâmica de sua articulação, enquanto povo de Deus, que possui certa identidade.
Abaixo seguem duas concepções batistas que serão pano de fundo para o entendimento do conceito de Lécio Dornas sobre a revelação bíblica. Ambas são extraídas, respectivamente, de documentos oficiais da igreja batista, a saber,
Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira (ver anexo 4) e Princípios Batistas (ver anexo 5):
Escrituras Sagradas (Declaração Doutrinária)
A Bíblia é a palavra de Deus em linguagem humana. É o registro
da revelação que Deus fez de si mesmo aos homens. Sendo Deus seu verdadeiro autor, foi escrita por homens inspirados e dirigidos pelo Espírito Santo. Tem por finalidade revelar os propósitos de Deus, levar os pecadores à salvação, edificar os crentes e promover a glória de Deus. Seu conteúdo é a verdade, sem mescla de erro, e por isso é um perfeito tesouro de instrução divina. Revela o destino final do mundo e os critérios
pelos quais Deus julgará todos os homens. A Bíblia é a autoridade
única em matéria de religião, fiel padrão pelo qual devem ser aferidas as doutrinas e a conduta dos homens. Ela deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo.171
As Escrituras (Princípios Batistas)
A Bíblia fala com autoridade porque é a palavra de Deus. É a suprema regra de fé e prática porque é testemunha fidedigna e inspirada dos atos maravilhosos de Deus através da revelação de si mesmo e da redenção, sendo tudo patenteado na vida, nos ensinamentos e na obra salvadora de Jesus Cristo. As Escrituras revelam a mente de Cristo e ensinam o significado de seu domínio. Na sua singular e una revelação da vontade divina para a humanidade, a Bíblia é a autoridade final que atrai as pessoas a Cristo e as guia em todas as questões de fé cristã e dever moral. O indivíduo tem que aceitar a responsabilidade de
estudar a Bíblia, com a mente aberta e com atitude reverente, procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa e oração, orientando a vida debaixo de sua disciplina e instrução. A
Bíblia, como revelação inspirada da vontade divina, cumprida e completada na vida e nos ensinamentos de Jesus Cristo, é a nossa regra autorizada de fé e prática.172
Com base nestas definições, pode-se concluir que, na mentalidade batista, a bíblia é concebida não como contendo a Palavra de Deus, mas como sendo a Palavra de Deus, afinal:
• Ele, o próprio Deus, seu autor;
171
Para maiores informações leia o Anexo 4. Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira. http://www.batistas.org.br/index.php?option=com_content&view= article&id=15&Itemid=15. Acesso em: 05 de junho de 2009. (Grifo meu)
172 Para maiores informações leia o Anexo 5. Princípios Batistas.
http://www.batistas.org.br/index.php?option=com_content&view= article&id=16&Itemid=16). Acesso em: 05 de junho de 2009. (Grifo meu)
• seu conteúdo é verdadeiro e livre de erros (pois Deus é o seu autor), o que a qualifica como tesouro divino de instrução, nossa regra autorizada de fé e prática;
• seu objetivo é revelar os propósitos de Deus;
• sua maior fonte de interpretação é a vida e os ensinamentos de Jesus.
O teólogo Leontino Santos, confirma em sua análise crítica que, de fato, esta noção (batista) da bíblia é comumente partilhada também por outros grupos, como no caso da Aliança Pró- Evangelização de Crianças, missão internacional de orientação interdenominacional:
Trata-se de um livro de autoria do Espírito Santo do qual não se pode discordar. Não há como provar a veracidade ou falsidade de seu conteúdo, nem há necessidade de se proceder dessa forma por se tratar de um livro escrito por Deus.173
A reputação batista tem sido, ao longo dos anos, associada a um povo que presa pela centralidade do estudo bíblico, e Dornas, como bom batista, não seria a exceção à regra. Vejamos mais uma vez a noção de revelação bíblica exposta por ele em sua trilogia:
A Bíblia é o manual de Deus na linguagem do homem.174
A Bíblia precisa ser vista, (...) como um livro de respostas às
questões que interessam ao homem de hoje, seja ele evangélico ou não.175
Deus iluminou os homens a fim de que fizessem os inspirados registros e interferiu na preservação das Escrituras e na seleção dos livros que deveriam ser incluídos no cânon.176
Este primeiro bloco de citações do pensamento de Dornas, a respeito da revelação bíblica, está em perfeita sintonia com o conceito batista inicialmente analisado. Todavia, como foi evidenciado várias vezes durante esta dissertação, aqui também, na definição de revelação bíblica, Dornas apresenta algumas inconsistências:
173
SANTOS, Leontino F. Educação: Libertação ou Submissão?.p. 104.
174 Idem, p. 31. AZEVEDO, Israel Belo de. Prefácio a DORNAS, Lécio. O Jornal e a Bíblia. Cuiabá:
Edição do autor, 1996, p. 102. (Grifo meu)
175
DORNAS, Lécio. Vencendo os Inimigos da Escola Dominical, p. 69. (Grifo meu)
O professor, ao elaborar sua aula, deverá (...) olhar a Bíblia, não
como um livro de regras, mas sim de princípios passíveis de
serem observados por aqueles que a estudam.177
(...) o ensino da bíblia não é um fim em si mesmo, antes faz uma ponte entre o mundo da bíblia e o nosso mundo de hoje.178
Novamente, cabe questionar a razão que leva Dornas a transitar com tamanha incoerência por esta temática. A bíblia é manual, livro de respostas, ou não deve ser observada como um livro de regras? O estudo bíblico é fim em si mesmo ou destina-se a estabelecer uma relação entre o mundo bíblico e o nosso mundo, de forma que desta relação emane a revelação divina?
Na verdade, é possível que a crise de Dornas seja a de muitos outros cristãos.
Uma possibilidade de resposta à tensão e dilema, evidenciados no texto, estaria no fato de Dornas, em sua longa experiência no magistério e pastorado cristãos, saber que na prática, a relação do cristão genuíno com o texto sagrado é distinta daquela expressa nos documentos oficiais da igreja. Ou seja, a relação de aceitação passiva por parte do fiel, frente à rigidez do texto, não dá conta das questões vivenciadas diariamente por homens e mulheres que precisam de esperança, de respostas, de diálogo verdadeiro com o Deus da escritura.
A relação com a revelação bíblica não se desenvolve de forma bancária e informativa, do contrário teríamos na bíblia um verdadeiro oráculo, que nos isentaria de responsabilidade frente a cada passo de nossas vidas.
De Dornas temos ainda uma última citação que será crucial para nossa análise do pressuposto teológico, que ele elabora sobre a revelação bíblica. Trata-se da noção de revelação, inspiração e iluminação:
Teologicamente, revelação é o ato de Deus em que ele se dá a
conhecer ao homem. É o próprio Deus quem se revela ao ser
humano e o faz de forma geral, por meio da natureza que ele criou (...) e, de forma especial, através do seu filho Jesus (...).
Ao revelar-se, Deus desejou que as gerações futuras tivessem acesso à sua revelação. Por esta razão, ele capacitou homens a registrarem a sua revelação. A essa capacitação chamamos inspiração. (...). O resultado da inspiração é a Bíblia Sagrada (...).
Deus se revelou e inspirou homens para registrarem sua revelação. Porém, com o passar dos anos, o sentido do que foi registrado
177
DORNAS, Lécio. Vencendo os Inimigos da Escola Dominical, p. 74. (Grifo meu)
corria risco de se perder e as gerações futuras ficarem privadas do registro da revelação de Deus. (...) Deus tem capacitado pessoas
a interpretarem o registro de sua revelação (...), a isso chamamos de iluminação; Deus usando homens para
interpretarem sua Palavra.
Observe que não há mais revelação no sentido teológico da palavra, o que Deus, desejou revelar ao homem sobre si já o fez. Também não há mais inspiração, o que deveria ser registrado da revelação de Deus, já o foi. O que existe hoje é iluminação. Deus continua e continuará capacitando e usando pessoas para interpretarem sua Palavra. 179
Acredita-se que a visão de revelação de Dornas tem por base conceitos não somente extraídos da doutrina batista, mas de outras fontes, como do educador cristão, Lawrence O. Richards. Richards que oferece algumas noções sobre a revelação bíblica que complementam a compreensão dos pressupostos de Dornas:
Jesus Cristo (...) revelou a Si e a Verdade na Palavra escrita. (...) estou convicto de que o Cristianismo é uma religião revelada (...) o que a escritura revela está em total harmonia com a realidade. A
Escritura é verdadeira não somente porque Deus a deu, e nele podemos confiar. Ela é verdadeira porque representa com exatidão como as coisas são.180
Os textos de Dornas estão informando (e formando) alguns conceitos fundamentais sobre a revelação bíblica, na perspectiva batista para a EBD, e que legitimam, como dissemos no capítulo anterior, uma educação cristã informativa e bancária, que na verdade não educa, pois não promove o conhecimento experimental.
Na trilogia de Dornas, a revelação é compreendida como um ato no qual Deus se dá a conhecer ao ser humano, isto é, o indivíduo participa da revelação apenas como seu receptor. Através da inspiração, Deus possibilita ao homem registrar esta
revelação para que ela não se perca. A interpretação do registro da revelação
também recebe a interferência divina por meio da iluminação e esta tem direcionado o entendimento de cristãos e cristãs no mundo, desde que o cânon foi estabelecido.
Dornas é enfático em afirmar que tanto a revelação como a inspiração cessaram. O que Deus havia de revelar já revelou e o que deveria ser registrado já
179 DORNAS, Lécio. Socorro sou professor da Escola Dominical, p. 58- 60. 180
RICHARDS, Lawrence O. Teologia da Educação Cristã. Trad. Hans Udo Freitas. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 245. (Grifo meu)
se registrou, restando-nos apenas a possibilidade de desfrutar da iluminação divina, (antes que esta, nesta mesma linha de raciocínio, também venha a cessar).
Antes, porém, de passarmos para uma apreciação do pensamento de Juan Luis Segundo sobre esta temática, vale ressaltar que se a visão de Lécio Dornas tiver de fato captado a essência da relação de cada cristão e cristã com o Deus da revelação bíblica, como se daria o diálogo, o conhecimento, a problematização da fé e do mundo? Valeríamo-nos somente da iluminação para nossa peregrinação na terra? Que dizer da incorporação desta mesma iluminação divina na vida de milhares de cristãos pelo mundo afora, que nunca tiveram acesso à revelação, e consequentemente, à inspiração do texto bíblico? Não seria o fato de eles terem relacionamento com o Logos, a verdadeira palavra revelada, inspirada e encarnada de Deus, a prova viva de que revelação, inspiração e iluminação são possibilidades inerentes à caminhada cristã, e não aspectos de um relacionamento de determinado período histórico?
Quais implicações sofreria a EBD, seus alunos e professores se fosse oferecida uma educação que se baseia numa relação com a bíblia, única e exclusivamente nas bases da iluminação, afinal, outros, e não nós, tiveram a bênção de partilhar da revelação e inspiração bíblica? Haveria outras possibilidades teologicamente viáveis de entendimento do que é revelação, inspiração e iluminação?
Para docentes e discentes é válido pensar que, a cada aula na EBD, há a possibilidade de, no encontro com os demais agentes do processo de aprendizagem, compartilhar da revelação de Deus, concedida a cada um e ao grupo, e da inspiração necessária, não para o registro de instruções, mas para a elaboração de uma práxis contextualizada no mundo, que embora não seja o mundo bíblico, continua sob o domínio divino, que é sempre dinâmico.
Vejamos como Juan Luis Segundo compreende a revelação bíblica e de que forma este entendimento pode contribuir para a formação de um paradigma que favoreça a educação dialógico-libertadora, alicerçada no conhecimento do Deus revelado e não em informações sobre Ele.
Formar um pensamento cristão significa esbarrar nos limites “dogmáticos” desse pensamento. Com efeito, se aceitarmos que o
cristianismo procede de uma revelação de Deus, o chamado “dogma” estabelece – de uma maneira e por um processo que
se tem de estudar – as fronteiras fora das quais não se percebe coerência com o “revelado”. (...) quando se fala da “Palavra de
Deus” (...) quase nunca surge, numa primeira instância, a pergunta (...) sobre por que se pode chamar assim a determinada palavra humana.
(...) não existe auto-revelação divina, embora exista a chamada
“palavra” de Deus encapsulada na Bíblia, se previamente não existe uma busca humana convergente com a linha dessa “palavra”. E acrescento que essa linha somente pode ser a que significa uma libertação de potencialidades e valores humanos.
Esse é o jogo de que Deus aceita participar ao se comunicar ao ser humano
O exercício correto da liberdade é mais ativo ou decisivo do que parecia. Não se limita a dizer “sim” ou “não” ao que Deus revela.181
Revelação de Deus não está destinada a que o homem saiba algo (...) mas que o homem seja de outra maneira e viva num nível mais humano182
Nesta mesma linha de pensamento, em Carta para um Estudante de
Teologia, Paulo Freire oferece um pensamento que complementa a visão de
Segundo:
(...) a Palavra de Deus está me convidando a recriar o mundo, não para dominação dos meus irmãos mas para a liberação deles/delas. Eu não posso realmente ouvir esta Palavra, então, a menos que eu seja "fired up" até que viva completamente. Escutando a Palavra de Deus não significa agindo como recipientes vazios que esperam ser enchido daquela Palavra. A Palavra de Deus não é algo para ser
(contido) vertido em nós como se nós fôssemos meros recipientes estáticos para isto. E porque salva, aquela Palavra também liberta, mas os homens têm que aceitar isto historicamente. Eles têm que fazer eles mesmos sujeitos, agentes
da salvação e liberação deles/delas. 183
Para Segundo, a revelação divina não é um depósito de informações corretas, não é doutrina, mas sim um verdadeiro processo pedagógico de humanização, na medida em que Deus nos convida a interagir, a dialogar com sua revelação, ofertando-nos a possibilidade de aprender a aprender em nosso momento histórico,184
A revelação esperou que a experiência humana crescesse e amadurecesse até o ponto de poder ser o “alfabeto” de Deus. Este
181 SEGUNDO, Juan Luis. O Dogma que Liberta, p.27-28, 30, 402 e 401. (Grifo meu) 182 Idem, p. 399. (Grifo meu)
183
FREIRE, Paulo. Carta para um Estudante de Teologia.
alfabeto é o próprio homem, tal qual se desenvolve no curso da história.185
(...) há a necessidade de conceber a “revelação“ não como uma mera provisão de informações corretas sobre Deus e o homem, mas como uma pedagogia que, infalivelmente, leva para a verdade(...).186
O prólogo da obra de Juan Luis Segundo, O Dogma que Liberta, escrito por José Ignacio González Faus, apresenta logo em suas primeiras páginas algumas definições que sintetizam não somente a essência do pensamento Segundiano mas também a observação de outros autores sobre seu pensamento. Destas definições, a citação abaixo exprime uma dimensão do pensamento Segundiano sobre revelação, que passa por Jesus e é fundamental para o aprofundamento desta análise:
Revelar (quando se diz de Deus) não é meramente comunicar algo somente a partir de fora, mas também tirar de dentro o que vem de fora, do mesmo modo a realização do ser humano, na qual se dá a revelação, passa sempre, de alguma maneira, por aquelas palavras de Jesus; “para ganhar a vida é necessário perdê-la”. 187
O conceito da inerrância na revelação bíblica, temática também elaborada por Segundo, é tratado em sua obra, aliado a outros dois conceitos, o de inspiração e autoria, segundo o documento Dei Verbum, produzido no Concílio Vaticano II, convocado em 1961 e finalizado em 1965:
(...) como faz Deus para “inspirar” um homem que permanece livre, criador, limitado pelos conhecimentos e instrumentos de sua época, de tal maneira que o resultado dessa dupla e desigual autoria permaneça imune a (...) erro?
“Os livros do Antigo Testamento, segundo a condição do gênero humano, antes dos tempos da salvação instaurada por Cristo (...) embora contenham algumas coisas imperfeitas e
transitórias, demonstram, no entanto, a verdadeira pedagogia divina.
(...) mais do que ser o autor de um ou de vários livros Deus é o
autor de um processo educativo, cujas etapas formam o conteúdo desses livros. Assim, compreende-se que, ao consignar como o homem vai passando pelos meandros dessa educação, esta possa ser falível e, no entanto, os livros que narram esse processo, ou qualquer fórmula correspondente a
185 MURAD, Afonso. Este Cristianismo Inquieto. A Fé Encarnada, em J. L. Segundo. São Paulo:
Loyola, 1994.p. 33.
186
SEGUNDO, Juan Luis. O Dogma que Liberta, p. 405.
um momento dele, possam conter coisas que em si mesmas são “imperfeitas e transitórias” (...)
É claro que os erros “científicos” da Bíblia – o célebre caso de Josué, que teria detido o sol, no seu percurso, para facilitar ou ampliar a vitória de Israel – começaram a chamar a atenção sobre o insustentável dessa concepção da Bíblia e de sua inspiração.188
O que Segundo objetiva dizer com estas citações é que, a despeito da inspiração divina concedida aos seres humanos, se somente Deus fosse de fato o autor isolado de cada palavra escrita na bíblia, não se justificaria como o resultado final pôde conter declarações, por exemplo, cientificamente insustentáveis, do gênero “o sol parou”. A inspiração divina não exime o erro humano, mas faz dele parte integral da revelação, e é justamente nisto que residem a graça e a bênção da inspiração e da revelação. 189
De fato, a ignorância e o “transitório” de um conhecimento “imperfeito” podem não constituir erro (...) é precisamente a
experiência desses “erros” o que pode fazer entrar em crise o conhecimento “imperfeito e transitório” anterior e, em vez de substituí-lo de uma maneira passiva, levar o ser humano a criar hipóteses a partir das quais encontre respostas mais cabais, embora não mais estáveis.
Eis por que o plano divino não consiste em distribuir informação correta de uma vez para sempre, mas em levar adiante um processo educativo em que se aprende a aprender.
(...).190
A noção de erro, falibilidade e transitoriedade permitida na pedagogia divina e que é inerente à revelação divina, nesta abordagem de Juan Luis Segundo, nos remete ao conceito de Paulo Freire no qual ensinar exige risco, aceitação do novo e consciência do inacabado:
Na verdade o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento.
Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei (...). Gosto de ser homem, de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo.191
188 Ibidem , p. 135, 136, 138, 139, 141 e 173.(Grifo meu) 189 Ibidem, p . 139.
190
Ibidem, p. 141.(Grifo meu)
Segundo Danilo Streck, a educação dogmática, que traz a sensação de certeza, não serve como critério de uma práxis cristã, mas ao contrário, a educação cristã deve fomentar uma presença curiosa diante da realidade que se deseja transformar.192 Assim sendo, a utopia tão importante à educação é a capacidade do ser humano de viver em situações provisórias como esta.
O dogma da revelação deve compreender um Deus pedagogo que dá tempo ao processo de aprender a aprender na transitoriedade, e que respeita as potencialidades do ser humano:
“Deus tem testemunhas, mas estas testemunhas divinas não são indivíduos isolados: constituem uma comunidade, um povo ao qual Deus com sua “verdadeira pedagogia”, vai encaminhando para a verdade libertadora de todas as potencialidades criadoras do homem” 193
Se a existência da fé para se aceitar a verdade do conhecimento sobre Deus é necessária, pressupõe-se que há uma verdade a ser revelada e, portanto, é possível se conhecer Deus, mesmo que parcialmente (pois Ele está além do nosso conhecimento). A questão é o que fazer para conhecer a revelação de Deus?
Como foi visto no capítulo anterior, conhecimento só se dá com interação e ação sobre e com aquilo que se dá a conhecer. Assim sendo, se a revelação de Deus não alcança o indivíduo do mundo contemporâneo, pois ficou fadada a um período da história, o conhecimento que se produzirá da relação com Deus será sempre limitado se comparado com aquilo que se podia ser, o que significa dizer que, talvez, o conhecimento de Deus não se limite somente a conhecer o que é “revelado” na bíblia.
A revelação de Deus certamente está para além da Bíblia, pois encontra em Cristo sua máxima expressão. Por isso, foi dito no capítulo anterior que cristianismo é uma proposta de vida, que se baseia em seguir não um livro, ou as palavras ditas por Jesus, mas sim o próprio Jesus e seu amor:
A prática do amor na história humana é meio de acesso ao