De forma profunda e irreversível, o desenvolvimento da mídia transformou a natureza da produção e do intercâmbio simbólicos no mundo moderno, tendo em vista o fato de os meios de comunicação possuírem uma dimensão simbólica irredutível: relacionar-se com a produção, o
armazenamento e a circulação de dados que são significativos para os indivíduos que os produzem e que os recebem. A comunicação na modernidade é agente de uma reelaboração do caráter simbólico da vida social, que, através do desenvolvimento dos meios, promove uma reorganização da forma em que a informação e o conteúdo simbólico são produzidos e intercambiados no mundo social e uma reestruturação dos canais pelos quais os indivíduos se relacionam entre si (THOMPSON, 2007: 19).
Ciente do poder que a mídia exerce sobre os indivíduos e as sociedades, as análises nesta dissertação partem do pressuposto de que a comunicação é compreendida como uma forma de reprodução de poderes simbólicos, que para Bourdieu (2007) é o poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo:
[...] poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. [...] Um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social) supõe aquilo que Durkheim chama o
conformismo lógico, quer dizer, «uma concepção homogênea do tempo, do espaço, do
número, da causa, que torna possível a concordância entre as inteligências». (BOURDIEU, 2007: 9-14).
Para Bourdieu (2007), o poder simbólico resultante da ação dos meios de comunicação de massa é um instrumento de dominação estruturante, produtor de uma cultura dominante e que contribui para a “integração real” da classe dominante (assegurando uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo-os das outras classes) e à desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas. Assim, contribui para a legitimação da ordem estabelecida através da instituição e manutenção de hierarquias.
Classificamos a comunicação de massa como reprodutora de um poder simbólico com
valor simbólico e valor econômico (THOMPSON, 2007), o que implica a mercantilização das
oposta ao da mercantilização, contraproduzindo seu poder simbólico com base em outros
valores simbólicos.
O que trato nesta pesquisa é de investigar se as mídias alternativas operadas em Oaxaca são capazes de reproduzir um “contra-poder simbólico” no sentido de romper com o senso de dominação que é próprio ao conceito. Ou seja, a geração de outra forma de poder simbólico que convive e, por vezes, confronta-se ao poder simbólico das grandes mídias.
Alinhada à discussão sobre o poder simbólico na mídia, considero o papel político da comunicação. A crescente relevância deste papel político está ligada à dupla mediação que os meios promovem: a mediação que estabelecem em relação à realidade e a mediação do discurso político (MIGUEL, 2001). A possibilidade de acesso do público a determinados acontecimentos, discursos, ideologias e práticas está condicionada, em grande medida, à sua veiculação pelas mídias, visto que nas sociedades contemporâneas a capacidade de disseminação das representações da realidade social está concentrada nas mídias.
Do conjunto inesgotável de eventos, banais ou extraordinários, que ocorre todos os dias, as mídias elegem um pequeno número que transforma em notícias e concede ampla circulação. Fora do seu círculo direto de relações pessoais e profissionais, o cidadão comum tem acesso primordialmente aos eventos que passaram por este filtro e, sobre tais eventos, tem acesso primordialmente aos aspectos que foram considerados dignos de veiculação. Fica claro, portanto, que o impacto político dos conteúdos que os meios de comunicação difundem não pode ser ignorado. É uma situação que não vale apenas para o material jornalístico: os conteúdos simbólicos presentes na produção artística, cultural e de entretenimento também contribuem para moldar valores e visões de mundo (idem op. cit.).
No entanto, veremos, ao longo desta pesquisa, que esta capacidade de disseminação das representações não é monopolizada pelas mídias massivas. As comunidades urbanas e rurais construíram alternativas próprias de se comunicar para além da interação face a face. Os cidadãos também têm acesso a outros eventos, rumores, boatos, informações que não necessariamente foram fornecidos pelas mídias. Tanto é assim que a comunicação também possibilita uma ação política dos comunicadores oaxaquenhos através da veiculação de questões consideradas relevantes e de interesse para eles e suas comunidades. O que os comunicadores de
Oaxaca realizam, por meio das mídias em que atuam, é produzir seus próprios discursos, veicular suas visões de mundo, defender o que é próprio de suas culturas e, consequentemente, posicionar-se politicamente.
Mas a participação política destes comunicadores não se restringe à veiculação de informações e conteúdos simbólicos. Eles também realizam ações que extrapolam o mundo midiático e se concretizam com a realização de encontros, seminários, visitas às áreas mais distantes das comunidades. Como exemplos, podemos enumerar três eventos, de diferentes naturezas, ocorridos no período em que foi realizada a pesquisa de campo em Oaxaca:
1. A realização do fórum “Comunidades Indígenas: Autodeterminación y Soberania
Energética”, realizado em Juchitán de Zaragoza, região do Istmo de Oaxaca, de 21 a 23 de
agosto de 2009. Participaram do fórum duas rádios que são objetos desta pesquisa: Radio
Comunitaria Totopo e Radio Comunitaria Di’dxazaa Atempa, e mais o coletivo de comunicação Voces Oaxaquenãs Construyendo Autonomía y Libertad (Vocal) e a Radio Comunitaria Huave.
Lá foram discutidas questões sobre: os direitos dos povos indígenas, planejamento territorial participativo, estratégias jurídicas de defesa dos territórios, os efeitos ambientais de megaprojetos nas terras comunais e alternativas à implantação de projeto eólico nestes territórios;
2. A realização do “Encuentro de Comunicadores Indígenas: Medios, Pueblos y
Territorio”, em Tlahuitoltepec Mixe, região central de Oaxaca, de 6 a 8 de agosto de 2009.
Promovida pela Radio Comunitaria Jënpoj, participaram seis rádios comunitárias dos estados de Oaxaca e Chiapas, além de duas emissoras de TVs comunitárias, organizações indígenas, comitê, coletivo, rede e agência internacional de comunicação. O evento promoveu discussões sobre o direito à comunicação comunitária indígena em que ficou acordado ser a rádio comunitária um espaço de participação e socialização da comunidade, assim como meio de fortalecimento da língua e cultura do povo. (SEGUNDA DECLARACIÓN DE II’PYXYUKP, 2009);
3. A realização de visitas da equipe da Radio Comunitaria Di'dxazaa Atempa, em San Blas Atempa, região do Istmo de Oaxaca, às comunidades da área rural (chamada “Agências”)
do município. O ciclo de visitas foi a maneira encontrada pela rádio de estar mais próxima às demandas dos grupos que formam a comunidade:
Planejamos viajar às “agências” porque queremos conversar com as pessoas sobre a rádio e conhecer seu cotidiano. Porque é importante conhecer até onde nos escutam, conhecer essas pessoas, conhecer sua vida cotidiana... porque sempre nos chamam e mandam saudações pela rádio e nos conhecem. Isso vai nos permitir nos aproximarmos um pouco mais da nossa gente e permitir que eles se aproximem da rádio através das entrevistas que vamos passar na rádio. Queremos fazer toda gente parte da rádio. Essa é a vantagem de ser uma rádio comunitária. (MAIRA DESALES JIMENES, da Radio
Comunitaria Di'dxazaa Atempa, em San Blas Atempa, região do Istmo de Oaxaca, em
entrevista, 2009).
Dessa forma, a atuação comunicacional deste e de outros comunicadores de Oaxaca torna-se uma atuação também política (o que será tema do segundo capítulo). Para este momento, apresento considerações sobre a comunicação realizada no México e em Oaxaca.
1.2.3. A comunicação no México: processos e determinações das rádios comunitárias