1.3 Des micro-miroirs pour observer le r´ egime quantique
1.3.3 R´ ealisation des micro-miroirs
Para além das principais fontes do norte da Península Ibérica, que são essencialmente as apresentadas nas páginas anteriores, há ainda outras de dimensão menor, tanto ao nível do conteúdo como da própria natureza do texto, e que nos ocupam na parte final deste capítulo.
Annales Complutenses
Também chamados de Anales Castellanos Segundos, são um trabalho de autoria desconhecida. Foram sugeridas datas de composição como 980, mas Sánchez- Albornoz não põe de parte um período posterior (1980, 704). Provavelmente, terão sido escritos à medida que se davam os acontecimentos. A sua conservação fez-se graças à inclusão num códice escrito nas Astúrias, talvez no Mosteiro de San Juan de Corias, e os Annales seriam publicados em 1762 no volume 23 da España Sagrada. São relevantes para o estudo das incursões nórdicas devido a uma referência que poderá estar relacionada com o ataque de 968.
Vita et miracula Sancti Rudesindi
Trata-se de um texto do século XII que narra a vida e milagres de São Rosendo, santo galego que viveu no século X e que foi protagonista de, pelo menos, um episódio histórico que envolve piratas nórdicos. Publicada, pela primeira vez, em 1667, encontra-se traduzida em castelhano desde 1990 com o título Vida y milagros de San Rosendo (Díaz y Díaz et al. 1990).
De acordo com as primeiras linhas do próprio texto, o autor foi um homem chamado Ordonho, monge no Mosteiro de Celanova, fundado pelo próprio São Rosendo em terras doadas pelo seu irmão Froila em 936. No entanto, a hipótese de um segundo autor tem sido colocada desde o século XVI, altura em que um enviado de Filipe II de Espanha diz ter encontrado, em Celanova, uma vida de São Rosendo escrita trezentos e cinquenta anos antes por um monge chamado Ordonho e enriquecido por um outro membro da comunidade monástica de nome Estêvão. A opinião de Manuel Díaz y Díaz, Maria Gómez e Daria Pintos, editores da Vita em 1990, é a de que o primeiro foi o autor da biografia e da maior parte dos livros de milagres, não negando,
37 no entanto, que o segundo possa ter tido um trabalho preliminar de recolha de informação (1990, 44-5 e 54).
A respeito da data de composição, a Vita propriamente dita, isto é, o relato da vida do santo e não a lista dos acontecimentos milagrosos a ele atribuídos, terá sido redigida por volta de 1172, ano da canonização de São Rosendo. Respondia, portanto, a um momento alto para o Mosteiro de Celanova e terá sido o culminar de um projecto de preservação da memória do seu fundador. Ordonho terá recorrido a documentos e tradições orais, resultando num texto por vezes dúbio. Por exemplo, há referência a um rei Ordonho, filho de Ramiro, aquando da nomeação de Rosendo para bispo com 18 anos de idade. Mas esse episódio, a ser verdade, teria acontecido por volta de 925, altura em que não se conhece nenhum monarca com o nome e laços familiares mencionados. Se juntarmos a isso o facto de o autor ser um membro da comunidade fundada pelo biografado e, consequentemente, interessado no seu engrandecimento, então o recomendável será cautela na utilização da Vita como fonte de informação sobre as investidas nórdicas.
De expugnatione lyxbonensi
Quando, em 1147, o primeiro rei português atacou e tomou Lisboa, fê-lo com o auxílio de cruzados que viajavam pela costa ocidental da Península Ibérica a caminho da Palestina. O episódio ficou registado por escrito por um cruzado inglês, que nos legou um relato detalhado da viagem e cerco da cidade.
O único manuscrito completo actualmente existente encontra-se, desde a primeira metade do século XVI, no Colégio de Corpus Christi da Universidade de Cambridge, podendo ser datado da segunda metade do século XII à primeira década da centúria seguinte (Nascimento 2007, 9). Conforme indicado pela abertura do próprio texto, o autor terá sido um cruzado cujo nome começava pela letra R. Não se conhece, no entanto, o antropónimo completo, o que deu origem a diversas teorias sobre a sua identidade. Uma das hipóteses sugere um deão Roberto, cónego da Sé de Lisboa desde 1147 até às últimas décadas do mesmo século. Outra aponta antes para um presbítero Raul que, numa doação ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra com a data de 1148, descreve a conquista de Lisboa e a construção de um ermitério dedicado à Virgem, junto do qual tinham sido sepultados cruzados ingleses. Quanto ao
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destinatário do relato, que se apresenta como uma carta, apenas temos a abreviatura de Osb. de Bawdsey, correspondendo talvez a um Osberno ou Osberto.
Sem surpresa, a descrição da tomada da cidade não deve ser entendida como um texto neutro, mas como um trabalho que respondeu a um objectivo. O autor terá sido sensível ao seu próprio contexto pessoal, ao do destinatário e à realidade peninsular, onde o primeiro rei português pugnava pelo reconhecimento da independência de Portugal junto da Santa Sé. Nesse sentido, a conquista de Lisboa e a divulgação escrita do feito juntavam elementos importantes para a construção de uma opinião favorável em Roma: a exaltação de uma vitória militar que manifestava o favor divino do monarca português contra o “infiel”; a consagração internacional do episódio por via do seu registo e transmissão documental; e a influência de movimentos religiosos em ascensão junto do Papado, nomeadamente os cistercienses. Precisamente por ser um texto que responde a objectivos concretos, é difícil pensar nele como uma carta espontânea de um cruzado em viagem. Pelo contrário, deverá ter sido uma narrativa planeada e para a qual o autor terá tido acesso a documentação da chancelaria régia. Quanto a nórdicos, o relato da conquista de Lisboa menciona a presença de Normandos na expedição de cruzados, embora, conforme já dissemos, não estejamos perante vikingues, mas sim nativos do Ducado da Normandia, assimilados pela cultura francesa e próximos dos Ingleses. E o texto será também útil pela descrição que faz de Lisboa e das suas muralhas, aspectos que são relevantes na análise do ataque de 844 e da expedição de Sigurðr jórsalafari, já no século XII.
España Sagrada
É uma obra monumental que conta actualmente com cinquenta e seis volumes e cuja autoria original é de Enrique Flórez, um clérigo agostiniano espanhol do século XVIII. O primeiro tomo foi publicado em 1747 e, dois anos depois, eram já cinco os que tinham vindo a público. Após a morte de Flórez, em 1773, o trabalho foi continuado por Manuel Risco (Javier Campos & Sevilla 2000, lxiii).
Em termos de conteúdo, é uma obra com falhas e lacunas próprias da historiografia do seu tempo e com transcrições aquém dos padrões críticos actuais. Mas é também verdade que a sua monumentalidade permitiu a preservação de
39 informação que, caso contrário, teria sido perdida e, fruto da sua abrangência e da pesquisa intensa do autor, a España Sagrada é actualmente um instrumento de trabalho importante, muitas vezes incontornável, no estudo da Idade Média da Península Ibérica. Tanto ao nível das fontes primárias como da análise das mesmas. É disso sinal as referências frequentes a Flórez neste e noutros capítulos, dado que pelas suas mãos passou a generalidade das fontes cronísticas dos primeiros séculos da “Reconquista”.
Dessas mesmas fontes há, no entanto, edições críticas modernas, que foram as utilizadas neste trabalho. Da España Sagrada retiramos, por isso, apenas documentos de menor dimensão, como contratos ou doações contidas nos apêndices de diferentes volumes, justificando, assim, a inclusão da obra neste capítulo.
Cartulários e colectâneas de documentos
Para além das fontes acima mencionadas, é ainda possível encontrar informação sobre ataques nórdicos no ocidente ibérico em documentos provenientes de cartulários peninsulares. É o caso do Tombo A da Catedral de Santiago de Compostela, assim como de edições que reúnem textos de origem diversa subordinados um único tema (cidade, período histórico, reinado, entre outros) e ainda artigos que analisam documentos específicos.
O conteúdo destas fontes corresponde essencialmente a contratos de venda e doações onde, para além da localização e limites das propriedades, é normal encontrar pequenas narrativas históricas que contextualizam as transacções. É nesses relatos introdutórios que surgem referências a incursões nórdicas e, por vezes, com detalhe considerável. Dado que o valor crítico de cada um dos documentos é variável, a sua análise será feita oportuna e individualmente, sempre que necessário.
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