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2.5 Refroidissement par pression de radiation

2.5.2 La dynamique du r´ esonateur

Geograficamente, a Escandinávia é uma região diversificada. A sul, no que hoje corresponde à Dinamarca, o terreno é pouco acidentado e o ponto mais elevado (pelo menos actualmente) encontra-se a apenas 173 metros acima do nível do mar. Uma extensão de território a que se dá o nome de Jutelândia prolonga-se desde o norte da Alemanha e encontra-se rodeada por centenas de ilhas, sendo a Zelândia e a Funen as maiores, estrategicamente localizadas na ligação entre o Báltico e o Mar do Norte. Do outro lado do estreito, as regiões costeiras da Escânia e Halland eram separadas do resto da actual Suécia por uma área florestal, situação que se repetia mais a norte, entre a Götaland, no sul sueco, e a terra dos Svear junto ao lago Mälar, onde actualmente se encontra Estocolmo. O território que hoje corresponde à Suécia encontra-se, aliás, rasgado por longos rios e grandes lagos, sendo pouco acidentado no sul e centro (principalmente nas regiões litorais), mas ganhando altitude à medida que avança para ocidente, onde embate com a cordilheira montanhosa que cruza o que é hoje a Noruega. A costa sueca é também abundante em pequenas ilhas, como as que preenchem o Mälar (a cidade antiga de Estocolmo está construída sobre uma delas), e depois surgem duas de maior dimensão, a Öland e a Gotland, a primeira com uma localização tangente à costa sueca e a segunda mais próxima do centro do Báltico. A Noruega é o mais acidentado dos actuais Estados nórdicos, com a maior parte do território acima dos quinhentos ou mesmo mil metros de altura, nalguns casos acolhendo glaciares. Ao todo, cerca de dois terços do actual território norueguês é montanhoso, o que reduz a área propícia à agricultura. As grandes excepções são a costa sul – onde hoje se encontra Oslo – e a região de Trøndelag, que não ultrapassam os 200 metros acima do nível do mar. Ambas têm acesso a rotas marítimas por via de um grande fjord, o que, conjugado com o terreno menos acidentado, contribuiu para a centralidade desses territórios nas lutas norueguesas pelo poder. De resto, sobram áreas de maior ou menor dimensão presas em vales ou entre o mar e as montanhas, muitas vezes rasgadas por fjords, ou até mesmo em algumas das milhares de ilhas que existem ao longo da costa norueguesa. No relato que fez ao Rei Alfredo de Wessex, no final do século IX, o norueguês Ohthere (Ottar) refere que a terra boa para pasto ou

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cultivo encontra-se junto ao mar, onde, mesmo assim, consegue ser bastante rochosa nalguns sítios (Somerville 2010, 3).

Como em qualquer parte do mundo, o território não ficou imune à acção humana e a fenómenos naturais. Pelo contrário, mudou e, nalguns casos, com consequências para as comunidades que o ocupavam, nomeadamente com a descida do nível do mar no litoral escandinavo, onde a subida das águas a partir do fim da Idade do Gelo foi ultrapassada por uma subida mais rápida da terra. O fenómeno não foi uniforme e, nalguns pontos da Escandinávia, alguns terrenos terão mesmo sido alagados, como no sul da Jutelândia (Sawyer 1993, 30). Mas, na generalidade da costa nórdica, principalmente naquela onde o declive é mais suave, a descida do nível do mar foi visível e moldou o destino de povoações costeiras, ora condenando-as à extinção por inacessibilidade dos seus portos, ora ditando a sua transferência para a nova linha de costa.

A organização territorial das comunidades que ocupavam a Escandinávia na alvorada do período vikingue não é inteiramente clara. Fronteiras naturais como a massa florestal que separava a Escânia do resto da actual Suécia podem dar a impressão de grandes unidades territoriais, mas a verdade é que, dentro desses espaços vastos, naturalmente definidos, poderiam existir diferentes autoridades políticas e militares e, por consequência, diferentes comunidades autónomas ou mesmo independentes.

À falta de um mapa contemporâneo e de registos escritos da época, é-nos difícil determinar com precisão as fronteiras nesse período. De nada serve usar os limites actuais como forma de aproximação aos antigos: Noruegueses, Dinamarqueses e Suecos são identidades cujo processo de construção política começou no período vikingue, prolongando-se pelos séculos seguintes e, por vezes, com alterações de fronteiras que ditaram aquilo a que hoje chamaríamos uma mudança de nacionalidade. A Escânia, por exemplo, fez parte da Dinamarca até 1658, altura em que passou a ser território sueco. E nunca é demais lembrar que olhar para as comunidades antigas como sendo uma mera forma primitiva das actuais, como se o passado anunciasse o presente, mais não é do que projectar o último no primeiro.

73 Sobram-nos fontes limitadas, a começar pela poesia skáldica, que refere regiões e grupos humanos16, mas que podiam estar organizados de outra forma em períodos anteriores ou divididos em comunidades mais pequenas. Há o caso de regiões medievais que podem reflectir unidades territoriais anteriores, mas que também é possível resultarem de uma fusão de comunidades distintas do período vikingue: Småland, por exemplo, é uma região sueca cujo nome quer literalmente dizer “pequenas terras”, sendo o plural o detalhe crucial neste caso.

No século VI, o historiador romano Jordanes listou uma série de povos nórdicos cujos nomes aparecem mais tarde na denominação de territórios e províncias, mas a continuidade é enganadora. O uso constante de um gentílico ou topónimo pode transmitir uma ideia de estabilidade das comunidades humanas, mas, na realidade, pode não ser mais do que a reciclagem permanente de nomes sem que haja, necessariamente, qualquer forma de continuidade étnica ou política. Para utilizar um exemplo ibérico, a existência de um território denominado Galiza, que coincide com o latino Gallaecia, pode levar a pensar que os Galegos de hoje correspondem, étnica e politicamente, aos do período romano, quando o que houve foi uma persistência ou reciclagem do topónimo apesar das muitas transformações culturais e populacionais. Na identificação das comunidades da Escandinávia antiga, há a possibilidade de recorrer aos vestígios arqueológicos de centros de poder sob a forma de salões e residências senhoriais, áreas fúnebres monumentais, locais de culto e assembleias regionais. Tudo pontos de onde emanava autoridade que faria a gestão das populações sob a sua alçada e que, uma vez conjugados os dados, permitem uma reconstrução hipotética do mapa político da Escandinávia de cerca do ano 800: quarenta e cinco pequenos reinos ou territórios controlados por reis, magnatas ou assembleias, do sul da Jutelândia até ao longínquo norte da Noruega (Anexo 2).

É deste cenário político que vão nascer os actuais Estados nórdicos, quando aquilo que já seria um processo antigo – a ascensão de alguns aristocratas a uma posição de proeminência entre os seus pares, pacifica ou belicamente – adquire uma nova dimensão com os recursos disponibilizados pela expansão da actividade pirata, pelo aparecimento de postos comerciais permanentes (que eram uma fonte de receita e bens) e ainda com a entrada em cena do cristianismo, que trouxe consigo uma forma

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de legitimação do poder régio e instrumentos de gestão burocrática. No fundo, um processo antigo de união e fragmentação, ascensão e queda, mas num novo contexto. E, mesmo assim, incapaz de assegurar a elevação de uma monarquia sem a integração condicional das autoridades locais e regionais, assembleias e magnatas, com as fragilidades inerentes a esse processo.

2. Embarcações

A capacidade de sustentar a construção e manutenção de uma frota era um elemento essencial na expansão ou preservação do poder de chefes e reis. Nada de surpreendente num território onde, como vimos, os meios de comunicação mais céleres eram os fluviais e marítimos, o que quer dizer que funcionavam também como a forma mais rápida de deslocar forças de combate. Mas o que era verdade para a guerra era também para o comércio, independentemente da sua dimensão – local, regional ou internacional. E isso fez do navio um elemento central na cultura nórdica antiga.

Os mais antigos vestígios arqueológicos de uma embarcação escandinava provêm de Nydam, na Dinamarca, e consistem num barco a remos com cerca de 23.5 metros de comprimento datado do século IV a.C.. O período exacto em que se deu a introdução da vela não é certo, mas seria, pelo menos, conhecida a partir do século VIII17, altura em que surge nas representações pictóricas de barcos em pedras na Gotland e, cerca de cem anos depois, em moedas de postos comerciais nórdicos (Bill 2008, 171). Do pictórico para uma embarcação de facto, a descoberta do navio de Oseberg no fjord de Oslo em 1905, datado de cerca de 820, deu-nos o primeiro exemplo material de um barco à vela do período vikingue.

Estruturalmente, as embarcações nórdicas que protagonizaram as incursões dos séculos VIII a XI eram flexíveis e aptas para a navegação em águas com pouca profundidade. Contribuíam para isso o casco trincado, um calado pouco profundo e técnicas de construção que passavam pela utilização das formas naturais da madeira, concedendo maior resistência e flexibilidade ao navio: árvores com troncos direitos e altos eram usadas para tábuas, enquanto ramos curvos ou o seu ponto de junção com

17 Cf. Bill 1997, 185. A possibilidade de uma data anterior no século V não é impossível para os Jutos e

75 o tronco podiam servir para peças de madeira com um ângulo idêntico ou próximo. A ausência da serra terá contribuído para isso, uma vez que, à falta de uma ferramenta que permitisse cortar livremente a matéria-prima, ela era segmentada ao longo dos veios, dando-lhe uma resistência natural (Bill 1997, 193).

Quanto às dimensões, variava naturalmente conforme as posses do proprietário, mas também de acordo com o uso previsto para a embarcação. Se fosse destinada à actividade bélica ou, pelo menos, actividade comercial que envolvesse a presença de uma força militar para protecção, seria necessário haver espaço para um número considerável de pessoas e estar previsto o uso de remos. Os navios longos que povoam o imaginário referente aos vikingues e que terão sido usados nas investidas piratas caracterizam-se por serem compridos, estreitos, providos de vela e de dezenas de remos. É disso exemplo o Hedeby 1, construído por volta de 985 e encontrado afundado junto do posto comercial que lhe deu nome: teria 30.9 metros de comprimento, apenas 2.6 de largura e sessenta remos. Outro exemplo é o Skuldelev 2, datado de 1042 e com pelo menos 29.2 metros de comprimento, 3.8 de largura e também cerca de sessenta remos. Também os havia mais pequenos, como o Skuldelev 5, que tem apenas 18.3 metros de extensão e vinte e seis remos (Bill 2008, 175-6), o que deve acautelar-nos contra a utilização de navio longo (langskip) como um termo particularmente técnico ou até sinónimo de embarcação vikingue. Não só o nome parece referir-se apenas ao facto de ser um barco invariavelmente comprido (Jesch 2001, 123), como também se conhece uma referência a navios longos mandados construir por Alfredo de Wessex em 897; e, acrescenta a Crónica Anglo-Saxónica, não eram baseados nem no modelo frísio, nem dinamarquês. Mas, no caso dos barcos nórdicos, independentemente do comprimento exacto, as características essenciais mantêm-se: estreitos e flexíveis, prontos para atravessarem o Báltico (caso do Hedeby 1) ou o Mar do Norte (como o Skuldelev 2) e protagonizarem investidas em que podiam ser movidos pelo vento, mas sem estarem inteiramente dependentes dele.

Diferentes são os navios construídos especificamente para a actividade comercial, com uma capacidade de várias toneladas e providos de vela, mas com espaço reduzido para a tripulação e, consequentemente, limitados no número de remos. O exemplo mais antigo de que se tem vestígios arqueológicos data do final do século X e foi encontrado afundado perto de Kaupang: teria 21 metros de

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comprimento e capacidade para cerca de 13 toneladas. Já o Hedeby 3, datado de cerca de 1030, calcula-se que chegaria até às 60 toneladas nos seus 25 metros de extensão (Bill 2008, 176). Quanto a remos, teriam apenas os essenciais para manobrar antes do desembarque, mas nunca no mesmo número que os navios longos: o Skuldelev 1 poderia ter cerca de doze tripulantes, enquanto que para o Skudelev 3 teriam bastado à volta de cinco (Graham-Campbell 1980, 49; também Bill 2008, 176).

O registo arqueológico é, no entanto, limitado, já que é composto pelo que sobreviveu até aos nossos dias e que, por sua vez, representa, em larga medida, os estratos sociais mais elevados. Isto é, os que tinham maiores possibilidades de construir e manter embarcações de grandes dimensões ou de serem sepultados com maior luxo. O navio de Oseberg terá chegado a navegar antes de ser usado como sepultura, mas é uma embarcação senhorial com os seus 21.5 metros de comprimento e trinta remos (Bill 2008, 172). Teve como derradeiro uso acomodar o corpo de uma senhora rica, por ventura de estatuto real, que se fez acompanhar de comida, mobília, tapeçarias, quatro trenós (Graham-Campbell 1980, 128-9) e de uma outra mulher, talvez uma escrava de origem iraniana (Price 2008a, 266). Coisas para lá dos recursos de um nórdico comum. E o mesmo pode dizer-se de reis do século XI que, perante a necessidade de reunirem uma frota considerável, seriam forçados a recorrer ao auxílio de magnatas e senhores locais, que poriam os seus recursos no terreno a troco de pilhagem e títulos. Foi assim com Sveinn da Dinamarca aquando da conquista de Inglaterra em 1013, enquanto o seu filho Knútr, o Grande, tentou ultrapassar o problema com recurso a impostos próprios que sustentassem uma frota capaz de controlar os seus vastos domínios, que incluíam a Dinamarca, Noruega e Inglaterra (Christansen 2006, 159). Uma vez mais, estamos ante o controlo dos mares como instrumento vital para a afirmação da autoridade política.

Não se pense que isto torna clara a composição plena das frotas nórdicas que protagonizaram a Idade Vikingue, das décadas finais do século VIII à segunda metade do século XI. O Hedeby 1 pode ser um bom exemplo de um navio longo, mas é também relativamente tardio. E os mais antigos exemplares noruegueses – Gokstad, Oseberg e Tuna – todos datados do século IX, são embarcações de elite que, numa expedição com diversos navios, poderiam transportar os “reis do mar” e o seu grupo pessoal de guerreiros, mas os restantes membros do bando provavelmente utilizariam

77 barcos menos nobres e mais comuns. Se na guerra vale tudo, uma vez confrontados com a necessidade de atravessarem o mar, os nórdicos recorreriam às embarcações a que pudessem deitar mão.

3.

Comércio18

As décadas que antecederam o período vikingue assistiram ao aparecimento de postos comerciais permanentes na Escandinávia, naquilo que seriam as primeiras comunidades do tipo urbano. E se é certo que algumas acabaram por ser abandonadas, o modelo subsistiu e viria a frutificar, levando à fundação de novos povoados com o apoio de líderes – reis ou magnatas – que, por um lado, patrocinavam o centro urbano e, por outro, retiravam dele dividendos.

A existência de mercados sazonais antes do período vikingue é arqueologicamente conhecida. Trata-se de locais de reunião de comunidades rurais mais ou menos dispersas, muitas vezes sob a sombra de residências senhoriais e de festividades religiosas. Durante os dias de celebração, as assembleias reuniam-se, o estatuto social era exibido e haveria troca de presentes e de produtos, fossem eles agrícolas, artesanato ou mesmo objectos de luxo importados do ocidente. E depois a multidão voltaria às suas residências habituais, deixando para trás um rasto arqueológico de habitações, peças de artesanato, produtos comercializados e, por ventura, sepulturas humanas e ossadas animais. Tudo aquilo que seria de esperar num mercado associado a celebrações religiosas, mas com uma ausência importante: residências permanentes para os artesãos e comerciantes. Esses iam e voltavam conforme os ritmos do calendário festivo.

Um exemplo deste tipo de mercados foi encontrado na margem ocidental do lago Tissø, na ilha dinamarquesa da Zelândia (Jørgensen 2008, 77-82). O nome do local é um teónimo – Lago de Tyr (deus da guerra) – o que aponta para um centro de actividade religiosa, hipótese reforçada pela descoberta de dezenas de armas e peças de joalharia que terão sido lançadas à água como oferendas. Nos séculos VI e VII, existiu uma residência senhorial, que foi sucedida por outra maior, por volta do ano 700. A norte e a sul existiam áreas de mercado e produção de artesanato, onde foram

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encontrados vestígios de zonas de trabalho sob a forma de buracos feitos por estacas enterradas a pique (para suportar os edifícios), produtos inacabados, moldes e instrumentos usados no fabrico de objectos de metal, assim como pesos e moedas árabes. São, no entanto, achados menos frequentes do que nas primeiras comunidades urbanas e o panorama geral parece ser o de actividade comercial intensa, mas breve, que é o que se espera num mercado sazonal. Mesmo a própria residência senhorial parece ter sido temporária, usada de modo intermitente, se bem que principescamente, não só pelas suas dimensões, mas também pelos achados nela encontrados: produtos importados do Império Carolíngio, a saber, armas, copos de vidro e peças de joalharia. Artigos de luxo, por outras palavras.

Tissø é um exemplo entre muitos, já que, por toda a Escandinávia, há registo de mercados periódicos, onde os excedentes eram escoados, produtos adquiridos e artesanato transaccionado: em Helgoå, na Escânia, até meados do século VIII, altura em que foi movido para um local próximo; nas actuais ilhas suecas da Gotland e Öland e ainda na Dinamarca, numa multiplicação de centros de comércio que ligaram a Escandinávia ao Báltico oriental e à Europa ocidental (Christiansen 2006, 70-1). Um desses sítios, localizado na Jutelândia, começaria por ser sazonal: Ribe, junto da costa ocidental dinamarquesa, terá sido palco de comércio desde o início do século VIII, com a transição da sazonalidade para a actividade ao longo do ano inteiro a ocorrer entre 770 e 780, período em que os lotes passam a indicar vestígios de presença contínua de pessoas (Feveile 2008, 127). E, por lotes, quer-se dizer isso mesmo: parcelas de terreno separadas e organizadas com vista à ocupação humana.

De entre os mercados permanentes, um dos mais conhecidos é Hedeby, hoje no norte da Alemanha, mas, à época, no limite sul da Dinamarca. Terá sido para lá que, em 808, segundo os Anais Reais Francos, o rei Godofredo transferiu os comerciantes de um povoado eslavo chamado Reric, pilhado pelo monarca. Estava, desse modo, a eliminar concorrência e a enriquecer com novos mercadores o posto de comércio dinamarquês, cujos vestígios arqueológicos recuam até ao período de 726 a 750 (Christiansen 2006, 71). A localização de Hedeby, estrategicamente situada entre o Báltico e o Mar do Norte, a Escandinávia e a Europa mais a sul, também favorecia o seu dinamismo comercial: para além de nórdicos e eslavos, por lá terão também passado Francos, Germanos e mesmo Árabes, dado que se conhece o relato de al-

79 Tartushi, que esteve em Hedeby por volta de 950 (Graham-Campbell 1980, 92). Ohthere refere a mesma povoação no seu relato ao Rei Alfredo de Wessex e dá a entender a sua posição estratégica ao dizer que se encontra entre os Venedos, os Saxões e os Anglos (Somerville 2010, 4). Os achados arqueológicos reflectem essa diversidade: só em moedas, conhecem-se exemplares anglo-saxónicos, bizantinos, alemães e islâmicos, para além das de produção escandinava (Hilberg 2008, 104); aliás, a povoação terá mesmo cunhado moeda, para além de ter acolhido uma pequena comunidade cristã desde o século IX, que teria o seu próprio pároco (Christiansen 2006, 72). A autoridade parece ter sido exercida por um representante do rei e, a dada altura, Hedeby foi fortificada por uma muralha de terra.

Mais a norte, a cerca de 30 quilómetros a ocidente de Estocolmo, numa ilha no lago Mälar, um outro posto comercial nórdico chamado Birka apresentava um cenário semelhante: um porto, uma muralha de terra, uma autoridade régia, uma comunidade cristã entre pagãos e contactos comerciais com o ocidente e oriente europeus. Como mercado, Birka datará de meados do século VIII, tendo sido abandonada por volta de 970, vítima da descida do nível do mar que tornou progressivamente difícil o acesso ao seu porto. Mas, enquanto existiu, esteve organizada em lotes habitacionais dispostos em torno da baia e atravessados por arruamentos. Teve um forte situado num afloramento rochoso e, a partir do século IX, passou a ser defendida por uma muralha de terra (Ambrosiani 2008, 97-8). Pela mesma altura, São Anskar chegou a Birka e, depois de receber autorização de um rei a que a Vita do santo dá o nome de Björn,