Acessível é uma palavra que ouvimos frequentemente na universidade. Estudantes e familiares sempre querem saber sobre a acessibilidade da universidade para aquela pessoa com deficiência que deseja fazer um curso de graduação. Os questionamentos anseiam por uma resposta objetiva, por um “sim” que responda a tudo e a todos. Na verdade, a acessibilidade relaciona-se com a expectativa da família ou do estudante com deficiência na garantia de que todos os seus direitos serão assegurados e de que a eliminação das barreiras será realizada, oferecendo, assim, a igualdade de condições e equiparação de oportunidades.
Os espaços acessíveis são resultado de luta do movimento das pessoas com deficiência e da legislação inclusiva no Brasil, mas para ser acessível, é preciso bem mais do que a construção de rampas ou a instalação de elevadores no campus universitário. É necessário torná-lo um espaço educacional de aprendizagem para todos que possa atender as necessidades de cada indivíduo. Nesse sentido, para alçarmos o acesso coletivo, um importante passo rumo à construção de uma universidade inclusiva é a superação dos preconceitos. Nas palavras do Narrador 6, o estranhamento aparece no dia a dia:
23 Objetivando fidelidade às narrativas recebidas nesta pesquisa, optamos por apresentá-las sem correção,
considerando, sobretudo, que as vozes dos sujeitos participantes desvelam suas características e suas formas reais de se expressar, valorizadas ao longo deste estudo.
Olha e às vezes vê com olhar muito diferente do que se você falar: Ah, eu “tô” no mestrado. Tipo, a pessoa vai falar: Parabéns... Pra mim as pessoas vão olhar e vão falar: Mas, ué? Esse “mas ué”, às vezes nem era a intenção de machucar, de fazer nada, mas às vezes é um estranhamento tão grande que a pessoa tem em relação a você e ela olha de uma maneira tão diferente, que ela não precisa falar nada, você sente, sabe? (Narrador 6)
A diferença simplesmente se reproduz, tem natureza multiplicativa, não reduz, amplia- se. Todos nós somos diferentes. (MANTOAN, 2015), entretanto, a diferença ainda causa estranhamento e incômodo. O que vemos no cotidiano das relações sociais no ensino superior é que a presença de uma pessoa com deficiência produz reações diversas, positivas ou negativas: por vezes gera olhares atravessados e assustados, reações que fazem as pernas ficarem imóveis; por outro lado também suscita aproximação. Ao receber um colega com deficiência na sala de aula, alguns estudantes tentam ajudar, querem conhecer, outros estão arraigados na visão histórica da deficiência, no estereótipo, no estigma, que os impedem de romper a barreira atitudinal.
A Narradora 5, em meio a lágrimas, conta as dificuldades de ingressar em uma instituição de ensino superior:
[...] a entrada pra universidade não foi muito fácil, eu fiz vários vestibulares, em diversas faculdades, porém, [...] eu me deparei sempre com as barreiras, né? da não aceitação das pessoas para com as pessoas com deficiência dentro dos cursos. Então foi uma barreira muito grande, todos os cursos que eu tentei fazer o vestibular pra passar, eu cheguei a passar nos vestibulares porém quando eu chegava pra fazer uma outra prova que as outras universidades faziam, que era duas provas, eu acabava não passando não por [...] incompetência minha, mas porque ter coordenadores, as pessoas da universidade falavam que eu não tinha capacidade de fazer aquele curso.
Então era uma barreira mesmo das pessoas da universidade, tanto coordenador, quanto professores, eu tentei pro curso de educação física, curso de sistema de informação, em 3, 4 universidades eu tentei, e as 4 eu não consegui isso por conta que as pessoas antes de me conhecer, antes de saber da minha história, das minhas capacidades, das minhas habilidades, ela já colocava a barreira por conta da deficiência, porque as pessoas vê muito a questão da deficiência, ...,a parte histórica da pessoa, as capacidades, sonhos, não vê a vida da pessoa, não vê que por trás daquela deficiência existe um ser humano com vontades, forças, enfim, (...) foi uma..., foi muito complicado.(Narradora 5)
O preconceito e o estereótipo ainda ditam o ritmo na relação com as pessoas com deficiência e muitas vezes são associados à aversão ao diferente, e os estereótipos vêm em seguida, caracterizando-as como incapazes. As atitudes de comiseração também aparecem, pois são vistas como vítimas, coitadas, infelizes.
O desconhecimento pode ser a matéria-prima para a perpetuação de atitudes preconceituosas e leituras estereotipadas, conforme ressalta Amaral (1995). Contudo, é preciso mais do que o conhecimento para transpor as barreiras, é necessário ir ao encontro do outro. Ao expor esse encontro, buscamos descrever o momento em que razão e emoção se movem para o acolhimento. Acolhimento é acessibilidade, é aceitar e valorizar a diferença.
Para tanto, as mudanças precisam ser contínuas nos processos de gestão, de infraestrutura, de sistemas, de metodologias educacionais. Quando mencionamos a pouco as rampas e elevadores, não menosprezamos sua importância, ao contrário, estes são aspectos fundamentais para a locomoção e a autonomia no ambiente universitário dos estudantes com deficiência física, por exemplo. Por essa razão, a manutenção precisa ser constante, pois não se faz uma rampa uma vez e não mais se lembra que ela existe. É preciso revisitá-la, refazer os desgastes do tempo e os percalços.
A acessibilidade física permite a participação ativa na sociedade das pessoas com deficiência. Para estudantes com deficiência, ter acesso aos diversos andares dos edifícios da universidade significa poder acessar as áreas comuns da vida acadêmica. Na negativa do acesso, os direitos não são cumpridos, os espaços não são ocupados, a invisibilidade das pessoas com deficiência aparece no meio do caminho:
Nos primeiros dias eu até senti uma acessibilidade até que boa. Só que assim: Depois disso, a gente vai descobrindo algumas coisas, ao longo de, vai fazer dois anos que estou na Universidade(...) Então, dois anos que a gente convive com algumas coisas que a gente vai descobrindo só depois (...) O elevador do Delta, edifício aqui da faculdade, ele ficou parado durante um mês, desde que a gente voltou das aulas assim, ele funcionou se não me engano, dois, três dias e parou... E assim: É muita burocracia para arrumar, você conversa, por exemplo: Eu vou conversar com o Coordenador do meu Curso ou com o responsável da segurança ou da manutenção para arrumar... Ah, não tem previsão, não tem não sei o quê... Só que assim: O estúdio de Rádio e TV, ele fica no quarto andar. Então, se eu não for ao estúdio e o estúdio não vai vir até mim, porque não tem como você deslocar o estúdio... Se é uma sala de aula normal, beleza. Você troca a sala, dá a aula e segue a vida... Se é o estúdio, não tem como. Então, assim: Eu senti bastante problema com relação à acessibilidade mesmo, depois que eu entrei. Depois de um ano, depois de um ano e pouco, a gente vai conhecendo os problemas da Universidade. (Narrador 6)
Nesse cenário, em muitos momentos as condições de acessibilidade são inadequadas. A demora, o descaso, o não cumprimento da legislação, que alimentam o desânimo e a frustação dos estudantes com deficiência, precisam dar lugar para a convivência com as diferenças, para o reconhecimento do outro e para o cumprimento de normas que geram dignidade humana.
As ações para romper barreiras no sentido da acessibilidade física para pessoas com deficiência devem considerar condições essenciais, como: retirada de pequenos degraus, construção de rampas, adaptação de sanitários, instalação de elevadores e telefones para surdos, sinalização tátil com piso direcional e alerta, bem como instalação de diretórios em braile e mapas táteis, disponibilização de softwares leitores de tela nos laboratórios de informática.
As barreiras que precisam ser transpostas, isto é, físicas, comunicacionais ou atitudinais, ainda permanecem no cotidiano dificultando a permanência dos estudantes com deficiência na educação superior. No caso dos estudantes surdos, a diferenciação entre o mundo dos surdos e dos ouvintes é exposta pela Narradora 1, que emocionada, relata as dificuldades com os colegas:
Mas, aí na metade do semestre comecei a ter muita dificuldade, ficou muita confusão com os trabalhos... Os amigos pensaram que eu era diferente. Desculpe, diferente não. Pensaram que eu era exatamente igual a eles, mas por causa da deficiência eles pensam que a gente é diferente, por exemplo: Nos trabalhos... Atividades em grupo... Apresentação... Eu sofri muito, é bem mais puxado. Eu percebi, assim, que as pessoas eram contra mim, algumas... Comecei a chorar, me senti muito diferente, eu pensei em desistir da faculdade, mas eu tentei esperar um pouco para o tempo ir passando, e eu realmente ver como que era esse processo... E foi passando o tempo e eu vi que realmente era isso assim... Acho que não foi o tempo certo para mim, acho que não estou preparada ainda, eu não estou preparada para o curso de psicologia, para essa profissão, então por isso... (Narradora 1)
No contexto escolar, a presença de estudantes com surdez profunda é recente e instigante. No universo educacional em que impera o ouvintismo, nos termos de Skliar (2005), a possibilidade da presença de ensino bilingue para surdos transgride a hegemonia de um ambiente dominado pelo monolinguismo. Para além da língua, a comunidade e identidade surda trazem consigo a riqueza de um movimento que lutou pelo reconhecimento de habilidades linguísticas e culturais dos surdos.
A primeira reação comum em um ambiente educacional com a presença de um surdo é a curiosidade. A língua de sinais produz um encantamento inicial, o movimento das mãos, os sinais, a presença do intérprete de Libras. Muitos se aproximam, querem aprender a língua, mas aos poucos o encantamento diminui. Alguns estudantes mais sensíveis à questão da inclusão permanecem, porém a maioria se afasta do colega surdo. Nesse momento, a relação dos estudantes surdos com os estudantes ouvintes pode vir a reproduzir as relações na sociedade: segregação, marginalização, exclusão e preconceitos. (VALENTINI; BISOL, 2012)
Contudo, a diferença comunicacional ainda dita o ritmo das relações sociais. A inserção no espaço universitário da língua de sinais causa estranheza aos oralizados e ouvintes, por não ser um espaço de domínio. Um encontro no caminho cotidiano. Há uma zona de desconforto, territórios de tensão entre fronteiras e limites. Estão nele estudantes surdos, estudantes ouvintes, intérprete de Libras, professores. Todavia, a tensão entre as duas línguas e a persistência nas práticas monolíngues desperdiça a oportunidade da convivência bilingue em uma proposta de educação em que ouvintes poderão aprender uma nova língua e surdos terão direito ao acesso e uso da Libras.
A imagem histórica da pessoa com deficiência como diferente, incapaz, os olhares aversos, a concepção enraizada no modelo médico da deficiência e da presença do oralismo predominante na sociedade24, aparecem ainda hoje na sala de aula, nos momentos, nas relações.
Nas palavras da Narradora 1, o sofrimento se expressa em tamanho esforço que é preciso fazer para se adequar a um espaço que não lhe é próprio. É a exaustiva necessidade de se fazer ouvida, ou melhor, de se fazer vista pelas mãos, que sinalizam o todo tempo na língua de sinais a vontade de ser presença presente em um espaço universidade, que antes era um não lugar para um surdo.
O Narrador 7 evidencia a preocupação em ter mais de intérprete de Libras em sala de aula, algo próprio do modelo médico da deficiência:
“Ah”, falta também outros intérpretes, porque só um intérprete é muito difícil... Porque, “ah”, eu estou ocupado, estou ocupado, desculpa. Nossa, é muito complicado. Precisa de mais intérpretes, uns quatro ou cinco mais ou menos, porque aí conseguia conciliar. Então, precisaria de mais intérpretes (...) (...) Uma aula só para os surdos, com Professor surdo é bem melhor, tudo em língua de sinais... (Narrador 7)
O assistencialismo aparece em muitos momentos nas vozes dos narradores surdos. A necessidade de apoio constante sob influência do modelo médico é reproduzida ainda em falas e ações das pessoas com deficiência. Estamos em muitos momentos presos a um histórico de segregação, ocultação e exclusão. A mudança paradigmática exige uma transformação cultural.
No caso dos estudantes surdos, a inserção de intérprete de Libras em atividades acadêmicas é prevista pelo Decreto nº 5.626/2005, que estabelece sempre que necessário a presença do intérprete, especialmente em realização ou revisão das provas. Na educação
24 Durante muito tempo, considerou-se que o modo mais eficaz para ensinar os surdos era por meio da língua
superior, com a presença do surdo em sala de aula, o ambiente bilingue precisa da atuação do intérprete de Libras para que o conteúdo ministrado pelo professor possa ser transmitido ao aluno. É a acessibilidade comunicacional sendo atendida, como demostra a Narradora 4:
Bom... A dificuldade principal é não ter intérprete, porque isso sim é uma limitação, é uma barreira. Eu tenho direito de entrar na Universidade, eu tenho direito do intérprete dentro da faculdade, isso é acessibilidade... porque a minha língua é Libras e o professor fala português, então desculpa, eu não vou conseguir compreender, se não tiver a tradução... Então, pra mim essa adaptação foi a principal. (Narradora 4)
Em um caminho diário de desafios e ajustes, estudante surdo, o professor e intérprete de Libras, se entrelaçam como se participassem de uma dança a três. A diferença linguística e cultural se estabelece nas relações em sala de aula, nas apresentações dos grupos com os colegas, nas avaliações, nas explicações expositivas do professor com tradução para Libras, nos mundos entre ouvintes e surdos.
A convivência pode remover as barreiras do medo do diferente, seja com estudantes com surdez profunda, estudantes com deficiência física, com deficiência visual (cegos ou baixa visão). Se a relação entre surdos e ouvintes no campo educacional suscita importantes reflexões, a acessibilidade para estudantes com deficiência visual questiona o modelo hegemônico de produção de acervo bibliográfico - o texto em tinta.
A hegemonia no sistema educacional dos textos em tinta, nos sistemas de aprendizagem projetados em material com ênfase visual, dificulta a trajetória dos estudantes com deficiência visual no ensino superior. O avanço da tecnologia assistiva25, aplicativos e startups, impulsionados pelas políticas públicas para a inclusão das pessoas com deficiência, permitem a autonomia e o acesso ao ensino superior. Contudo, a padronização e a homogeneização dos sistemas acadêmicos dificultam esse acesso. Nas palavras do Narrador 3 os estudantes cegos e com baixa visão são prejudicados:
Aquele SIGA26, por exemplo: Aquele SIGA não é uma ferramenta acessível,
nunca foi... Eu não sei como ele está agora, mas ele não era uma ferramenta acessível... Aí, o Professor falava: Eu vou colocar a matéria no SIGA... Tá bom. Você vai colocar a matéria no SIGA, mas e aí? Eu vou pegar a matéria como? Você me manda por e-mail? “Ah”, não posso... Então, não tenho como acessar... Porque o que tinha que acontecer? Eu tinha que, eu brinco, falo que minhas primas fizeram faculdade junto comigo, porque elas tinham
25 Tecnologia assistiva é uma área que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços
que buscam dar autonomia, independência e qualidade de vida para as pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida.
26 SIGA é o nome do Ambiente Virtual de Aprendizagem utilizado pela universidade pesquisada para acesso dos
que entrar no meu login com a minha senha, pra “elas clicar”, porque não dá para clicar com o Virtual Vision27 e nem com o DOSVOX, a ferramenta
não era acessível... Aí, não, tem aluno que consegue.. “Tá”, mas não é todo mundo que consegue... Então, assim: Eu tive na época, algumas discussões com a faculdade por causa disso... Nem é todo mundo que consegue... Então, se ela é uma ferramenta, ela tem que ser útil pra todo mundo, não é pra um ou pra outro... Ela tem que ser útil pra todo mundo. (Narrador 3)
Os softwares leitores de tela são recursos fundamentais para a acessibilidade de pessoas com deficiência visual. No caso dos estudantes com deficiência visual, o uso do computador com software permite o acesso à internet, às rede sociais e aos sistemas de aprendizagem que são utilizados na vida universitária para acessar notas, faltas e mensagens entre colegas e professores. Porém, a imposição a um sistema que não é acessível a todos impede a garantia das condições de acessibilidade, gerando dependência de um colega ou familiar vidente que possa acessar para esses estudantes.
A Narradora 5 destaca as dificuldades enfrentadas com o material acessível para cegos:
Eu me frustrei muito pela questão de materiais, tudo bem eu ia ser a primeira aluna com deficiência visual do curso, mas eu achei que por ser a primeira aluna eles iriam dar uma atenção maior, eles iriam querer aprender mais, e eu não vi isso.. eu não vi... (Narradora 5)
O acesso ao acervo bibliográfico pode ser disponibilizado por texto digital acessível ou no formato Braile para as pessoas com deficiência visual. É importante também a instalação do software de acessibilidade nas máquinas tanto das bibliotecas como dos laboratórios de informática, bem como a sinalização tátil por meio dos pisos direcional e alerta e diretórios em todos os campi para a garantia da locomoção dos estudantes nos diferentes espaços.
Garantir as condições de acessibilidade exige uma construção coletiva (áreas administrativas e acadêmicas da universidade para que as barreiras sejam eliminadas. Entretanto, como vimos anteriormente, somente a acessibilidade não é suficiente para produzir presença.
O que observamos nas falas dos sujeitos é que a falta da acessibilidade dificulta muito a vida dos estudantes com deficiência no espaço universitário. As barreiras físicas – muitas vezes decorrentes das condições econômicas dos sujeitos, como por exemplo, a compra de uma cadeira de rodas – podem prejudicar a permanência dos estudantes na universidade,
27 Virtual Vision e Dosvox são softwares leitores de tela utilizados pelas pessoas com deficiência visual que
possibilitam a comunicação com o usuário por meio de síntese de voz, permitindo o acesso ao computador para suas tarefas pessoais.
todavia as barreiras atitudinais ainda são maiores, causam frustração, tristeza, desânimo que também podem gerar o fracasso e a evasão escolar.
O campo educacional universitário precisa ser espaço acessível abrindo-se para a valorização da diferença ao perceber o outro. Portanto, é essencial que acessibilidade e as estratégias do fazer pedagógico caminhem juntas para a inclusão dos estudantes com deficiência na educação superior.