O início da vida acadêmica no ensino superior gera uma expectativa para todos os estudantes, não somente aos com deficiência. As dúvidas incluem a opção vocacional/profissional, relação com os colegas, fatores relacionados ao currículo do curso, mercado de trabalho, entre outros aspectos.
Para a Narradora 5, que possui deficiência visual, a espera pela chegada no curso da graduação apontava também para uma nova experiência a ser vivida, para uma nova vida:
Foi frustrante pra mim. Muito frustrante... porque eu imaginava outro mundo, eu imaginava assim que eu ia chegar até mesmo não só na questão de materiais, dificuldades, questões mesmo de eu ser inclusa, incluída mesmo no meio dos outros alunos. Por quê? O que que eu achava? Ah eu vou entrar na faculdade, eu vou ter muitos amigos, eu vou conseguir sair, eu vou conseguir sabe ter aquele grupinho de amigos que eu nunca tive na escola, eu tinha amigo sim porque eu sou muito comunicativa, eu não digo amigos eu digo colegas, né... ehhhh então eu achava assim que pelo menos na faculdade eu ia ter colegas pra poder sair, pra ter uma vida social mais ativa, coisa que eu não tinha e eu fiquei muito frustrada porque não foi isso que aconteceu. (Narradora 5)
Na voz do Narrador 2 a escolha de qual curso realizar causa um primeiro impacto e a possibilidade de transferência de curso estimula a continuidade dos estudos:
quando eu prestei...eu ... não sei porque... eu.. prestei pra sistema de informação.. aí eu passei.. quando eu cheguei no sistema de informação.. eu, a primeira aula já era... matemática profunda... eu falei o que que eu quero aqui né? A sorte que tinha uma turma em andamento... aí eu consegui fazer a transferência... e foi porque eu queria...(Narrador 2)
Nessa expectativa da adaptação à vida universitária muitos são os aspectos que o estudante tem que enfrentar quando chega à universidade. Diante das novas exigências como desempenho acadêmico, convívio social e ajuste às novas regras da instituição, os estudantes
com deficiência se deparam com outros momentos, como por exemplo, a relação entre surdos e ouvintes. A Narradora 4 conta a difícil adaptação em um universo de ouvintes:
Eu cheguei, na verdade, eu não tinha preparado nada. E quando eu cheguei aqui, eu percebi a adaptação foi bem difícil para mim. Que a maioria das pessoas são ouvintes. Eu, a única surda dentro da sala de aula e eu via aquele monte de gente né, os ouvintes e só eu de surda e o professor lá, o intérprete na minha frente... Eu fiquei tentando entender, porque é muito conteúdo, o conteúdo é muito denso. Mas, eu aprendi também algumas coisas do português, a Língua de Sinais... Eu aprendi a trocar algumas informações com os professores, até mesmo com os alunos e isso eu fui me desenvolvendo. Não é um incômodo isso, a maioria dos ouvintes estava incomodado, mas eu não senti nenhum tipo de incômodo. Então, eu por exemplo: Eu preciso ter coragem para mostrar que sou capaz de fazer uma Universidade, que sou capaz de estudar sim. (Narradora 4)
E de repente, o estranhamento ao aluno surdo, a língua de sinais surge no caminho.
Porque às vezes o aluno, o jeito do aluno é estranho. Ele nunca viu, fica com aquele aspecto de que nunca viu um surdo, olha assim com uma aparência... Então, tem muito bullying, muito bullying, porque o aluno acha que Libras parece mimica ou fica imitando macaco, brincadeiras assim... Então, foi bem difícil. O professor não falou como que era o indivíduo surdo e o intérprete estava lá na escola, interpretando, na parceria, acompanhava o professor. (Narradora 4)
Nas falas dos sujeitos, o preconceito enfrentado cotidianamente:
(...) já teve professor que olhou pra mim e disse...óoo (Nome do aluno) eu sei que tú não vai conseguir fazer, então não precisa fazer.... eu sei... isso que eu acho... um pouco.. mal preparado.. eu acho...que.. se vc aceita um aluno com (...) limitação (...) você tem que proporcionar.. tudo pra ele.. e não.. tira.. mas foram poucos casos.. entendeu... (Narrador 2)
Na relação professor/estudante, as vozes se misturam. Há uma indignação e um anseio ao mesmo tempo dos estudantes com deficiência em ensinar aos professores. No processo pedagógico que contemple a inclusão o ensinar e o aprender se constituem no dia a dia.
É nesse sentido que ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos, nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina alguma coisa a alguém. (FREIRE, 2017, p. 25)
Na universalização do acesso de estudantes ao ensino superior, muitas mudanças precisam ocorrer para um ensino de qualidade a todos, sem discriminação ou práticas de
ensino que contemplem apenas alguns. Em uma perspectiva inclusiva, a universidade precisa repensar a organização dos aspectos pedagógicos e administrativos.
Na gestão dos processos, o conhecimento sobre o Atendimento Educacional Especializado (AEE) precisa ser partilhado. Na voz do Narrador 3, que possui deficiência visual, a importância do conhecimento pelo professor dos materiais acessíveis para estudantes cegos ou com baixa visão se revela:
Então, ele também não tinha esse preparo pra chegar aqui e encontrar um deficiente, entendeu? Um cego ainda, “né”... “Oh”, você tem um cego aqui e você vai dar aula de jornalismo pra ele, beleza, mas e aí? Como é que é essa adaptação, esse preparo pra você dar aula pra ele? Então, muitas vezes a gente até acabava conversando, não era também tanto culpa do Professor, talvez precisasse, não também é culpa da faculdade, mas talvez precisasse um meio termo entre a faculdade e o Professor... “Oh”, você precisa adaptar o livro, às vezes o Professor mandava o livro em PDF, aí chegava lá e “pô”, a gente não lê o PDF... Aí tinha que pedir de novo: “Oh”, “fulaninho” manda em Word pra biblioteca transcrever? Em PDF não vai... (Narrador 3)
Este mesmo narrador aponta a preocupação em orientar o professor rumo à superação do preconceito e da falta de conhecimento, desmistificando a deficiência:
Mas, acho que durante o curso, essa questão da dificuldade que os alunos têm e acabam trancando, é por causa disso: Às vezes, não tem um suporte necessário, às vezes o professor também não sabe como lidar e também não dá muito espaço para que você fale...Eu tive um professor uma vez que eu quis orientar e ajudar ele com a maior boa vontade... Ele bateu na mesa e falou que ele dava aula em Universidade Federal e que ele não precisava que eu falasse com ele... Então, assim: Às vezes, você tenta ajudar de alguma forma e você acaba levando... Tá bom professor, não quer, eu não posso forçar, mas eu “tô” tentando ajudar o senhor a me ajudar e então, assim: Muitas vezes, acaba acontecendo isso. O Professor não sabe como lidar (...) (Narrador 3)
Os relatos dos estudantes continuam trazendo a preocupação com a formação docente, a superação dos preconceitos, as dificuldades entre a parceria professor, intérprete e estudante. No caso dos surdos, a falta de legenda no vídeo dificulta o acesso do estudante ao conteúdo da aula. Esses aspectos aparecem nas respostas dos narradores a seguir:
acho que pra... melhora.. na universidade.. eu.. ainda.. (grande pausa) preparar mais.. o docente.. que ele.. se preocupe em entender.. a limitação.. do aluno.. para e se adaptar a ela.. porque a gente.. como deficiente.. a gente.. se adapta.. um monte de coisa.. (Narrador 2)
O professor esqueceu de colocar legenda no vídeo para mim e às vezes ele coloca uma aula sem legenda e eu mudaria isso, não pode esquecer da legenda, isso não pode acontecer. Às vezes, na hora da aula, o professor
fala palavras, são muitas palavras soltas e para o intérprete traduzir isso tudo é muito complicado. É melhor escrever na lousa, usa o quadro para colocar as palavras soltas, o que significa cada palavra, às vezes são palavras que o próprio tradutor não conhece. Aí, o surdo tem que ficar copiando, é muito ruim. Então, tenho que ficar anotando. Ou anoto, ou olho para o intérprete e às vezes meu caderno fica fechado porque eu fico olhando para o intérprete... Mas, o professor, às vezes ele esquece de colocar na internet, no siga, por exemplo, ou manda pra eu estudar antes o conteúdo. (Narradora 4)
Os relatos desvelam o desejo de mudança, a vontade de ensinar professores e gestores como agir para incluir os estudantes com deficiência na educação superior. A necessária superação do preconceito por parte de professores surge como passo importante na construção de uma universidade inclusiva.
Chamamos a atenção para uma pergunta constante: há receita para o “fazer pedagógico inclusivo”? A experiência diária na Assessoria Pedagógica para Inclusão realiza um atendimento aos docentes da universidade, que também contam suas dificuldades28 de não
saberem como fazer diferente do que foi imposto, de não terem tempo para este ou aquele estudante; de terem outros 79 estudantes além daquele com deficiência em uma sala de 80 alunos em um curso de graduação.
O tempo determinado e a inclusão parecem ser contraditórios. Os sistemas de monitoramento de notas e faltas (muitas vezes não acessíveis para estudantes com deficiência visual), os processos avaliativos, o modo de leitura e produção de texto (a tinta), e a modalidade linguística (língua portuguesa dominante), entre outros fatores, revelam a hegemonia de um sistema educacional que classifica e compartimentaliza o aprendizado.
Alguns professores ficam abalados, imóveis diante da inclusão; outros são atraídos pelo encontro com o outro, por participarem da caminhada do saber com os estudantes, percebendo suas habilidades e potencialidades e descobrindo no caminho o “como fazer”.
O professor inclusivo não procura eliminar a diferença em favor de uma suposta igualdade do alunado – tão almejada pelos que apregoam a homogeneidade das salas de aula. Ele está atento aos diferentes tons das vozes que compõem a turma, promovendo a harmonia, o diálogo, contrapondo-as, complementando-as. (MANTOAN, 2015, p.79)
O que ouvimos com maior frequência dos professores, ao se mostrarem resistentes à inclusão, é que não estão ou não foram preparados para esse trabalho. Eles aguardam uma formação que lhes ensine como dar aula a estudantes com deficiência ou esquemas de
28 O foco desta pesquisa é dar voz aos estudantes com deficiência. Não foram entrevistados professores da
universidade, porém são relatados para a assessoria de inclusão da instituição pesquisada alguns momentos cotidianos por eles vivenciados..
trabalho pedagógico predefinidos, que atendam aos estudantes que estão em sala de aula e aqueles que estarão na universidade no futuro; querem regras gerais para atender a problemas pontuais e conhecimentos que lhes sejam “passados”, caso tenham que “aceitar” estudantes com deficiência em suas salas de aula. No trabalho cotidiano da Assessoria Pedagógica para Inclusão, percebemos nas falas dos professores o anseio por um curso, uma especialização ou um certificado que comprove a sua capacidade em ser um professor inclusivo.
Todavia, essa visão da inclusão é equivocada. Formar um professor na perspectiva da educação inclusiva implica em ressignificar o seu papel, a universidade, a educação e as práticas pedagógicas. As capacitações ou a formação continuada são fundamentais para conhecer sobre o atendimento educacional especializado e recursos que a universidade dispõe para atender o estudante com necessidade educacional especial (público alvo da política da educação inclusiva). Porém, almejar uma “receita de inclusão” é caminhar na contramão desse processo. Como, de um jeito único, ensinar seres tão heterogêneos que somos?
Ao pensarmos a formação docente para a educação especial inclusiva, portanto, há o risco de nos pautarmos pela preocupação tecnicista (o-que- fazer) ou clínica-terapêutica (a normalização), focando tal formação somente no atendimento educacional especializado que deve ser realizado por professores e professoras especialistas. Fundamentados no paradigma da inclusão e na didática fundamental e o aprender com a própria prática como um princípio da docência, respeitando as múltiplas maneiras pelas quais a corporeidade humana afeta a educação, exigindo os caminhos alternativos para ser, aprender e ensinar-aprender na escola. (COSTA-RENDERS, 2018, p. 61, parênteses da autora)
Se por um lado o medo do não saber fazer diferente assusta, por outro professores e professoras estão inseridos em um sistema educacional hegemônico, que não lhes permite novas temporalidades, novos saberes, projetos e recursos que saiam dos moldes impostos para o ensino daquele curso de graduação. O dilema se revela. No caminho, há um paradigma emergente.
Na lógica da inclusão, ensinar a turma toda é compreender que todos aprendem de formas diferentes, não apenas aquele ou aquela estudante com deficiência. As dificuldades e limitações podem ser reconhecidas, mas não restringem o processo que busca vencer os obstáculos, pensando em uma pedagogia dialógica e integradora.
Talvez o caminho da culpabilização dos indivíduos, sejam professores ou estudantes, para justificar as causas do fracasso escolar e, por consequência, a evasão escolar, seja o caminho mais fácil, mas que pode também nos levar a múltiplas ciladas, nas quais caímos
muitas vezes, quando não percebemos que nossas ações reproduzem29, em muitos momentos, sinais de uma sociedade estabelecida em classes, excludente, seletiva e classificatória.
Nessa perspectiva, a formação docente parece ser importante aspecto rumo a um espaço universitário inclusivo. Entretanto, a formação do professor inclusivo não cabe em uma concepção educacional tradicional. É emergente, pois, a mudança cultural, a conversão do olhar, a mudança epistemológica.
5.3 PROBLEMAS CONJUNTURAIS
Para além dos estudantes que trancam ou desistem dos seus cursos, há um crescente número de jovens brasileiros insatisfeitos em seus estudos, duvidosos se devem continuar ou não, qual curso devem fazer ou se ainda devem solicitar transferência para outra instituição.
A falta de recursos financeiros para prosseguir o curso bem como as expectativas do estudante quanto a sua formação tem sido fatores importantes para a conclusão do curso. (LOBO apud MATTA et al, 2017). Embora os estudos digam que fatores financeiros possam ser causadores da evasão escolar, nesta pesquisa, os sujeitos não relataram dificuldades nas áreas da vida financeira30, ou mesmo de saúde, como motivos para a evasão.
A reflexão entre os gastos financeiros e a relação com as pessoas com deficiência está diretamente relacionada com os desafios do cotidiano em que envolvem a deficiência. Quando nasce uma pessoa com deficiência no ambiente familiar há um aumento de gastos financeiros substancial, seja com equipe multidisciplinar na estimulação precoce de uma criança, a compra de uma cadeira de rodas, a aquisição de uma máquina braile ou um computador para leitor de tela. No cenário de uma deficiência após o nascimento, os custos financeiros expressam-se nas adaptações a equipamentos para atividades de vida diária e vida prática.
Os recursos de tecnologia assistiva são fundamentais para a autonomia e vida independente, todavia os custos são altos e envolvem os esforços do contexto familiar. Para os surdos o aprendizado da língua portuguesa é tido como uma segunda língua. Muitos deles precisam de um professor ou de aulas particulares que ensinem o português. O Narrador 7 destaca as dificuldades financeiras em pagar um curso de língua portuguesa:
29A referência de reprodução da sociedade no espaço educacional está fundamentada nas concepções da autora
Maria Helena Souza Patto, citada no capítulo anterior, que destaca que a escola reproduz as condições de vida observadas no cotidiano, as relações de poder, a segmentação e a burocratização do trabalho pedagógico.
30Nesta pesquisa, referimo-nos a problemas conjunturais como sendo aqueles relacionados a problemas
financeiros ou de saúde (seja pessoal ou de familiares), que podem levar os estudantes com deficiência à desistência da vida universitária.