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Chapter 6 Line Printer Management
6.1 How Does It Work?
Como foi posto, os Kalankó elaboram a sua história baseados num sistema de genealogias que liga as gerações atuais às primeiras famílias que chegaram de Brejo dos Padres/Pe. Esta história torna-se importante para entenderem o “novo” mundo em que
Geração I Geração II Geração III Geração IV Geração V Cantador Dançador Cantador / Dançador
Família Higino
Geração VI Henrique Rodrigo Cantadores - Crianças Paulo Antonio Menino Iracema Cida Luis J da Silva Maria Santina Conceição Honório Diagrama 3.vivem e os processos aos quais estão ligados. Ao mesmo tempo em que legitima o grupo face à sociedade nacional.
Como parte dessa história, coloca-se uma concepção de tempo, baseada em períodos vivenciados, cada qual vivido por algumas gerações, sendo a origem de tudo a desterritorialização Pankararu no século XIX.
O primeiro período, denominado principalmente como tempo dos antepassados, mas também como tempo dos avôs ou tempo anterior compreende o período no qual tiveram que se misturar à sociedade do entorno. Então, como colocam, tiveram que esconder sua origem diferenciada e não tiveram a capacidade41de lutar como grupo. Esse tempo abrange desde a chegada da primeira rama (no sentido de geração) na qual “os mais velho não tinha mistura a que se encontra hoje”42; passa pela segunda rama que “só se encontra uma pessoa ... com 94 anos [Tia Maria]”43; até a terceira rama, que compreende os pais e tios dos principais cantadores e dançadores atuais44.
Nesse período, o contato com a região do entorno foi importante para a reelaboração da visão de mundo nativa baseada na adequação dos costumes tradicionais à nova situação, caracterizada pela inserção Kalankó como pólo “despoderado” do universo das relações de poder estabelecido no alto-sertão alagoano.
O nascimento é, desde então, praticado conforme o costume do não-índio. Normalmente, eles aproveitam alguma viagem que fazem para Água Branca para batizar seus filhos na igreja matriz, na praça central do município. Porém, quando a criança
41 Termo que indica uma relação de poder relacionada ao canto de determinada música. Este termo, entre
outros, será trabalhado no item 5.3.
42 Entrevista com o Pajé Tonho Preto, em Lageiro do Couro, no dia 28 de abril 2005. 43 Entrevista com o Pajé Tonho Preto, em Lageiro do Couro, no dia 28 de abril 2005. 44
Como se vê, a categoria rama tem um segundo sentido, evidentemente relacionado ao primeiro e mais inclusivo, de grupo étnico – geração.
nasce, apresentam-na também no terreiro, num ritual de Praiá. O casamento é também,
no mesmo costume do branco, é, porque a gente, tempos anterior, a gente era as pessoa muito massacrada, nos tempos de nossos antepassados, e a gente acompanho uma certa parte no costume do branco, né ... as rama mais nova ... tenho uma filha que puxo um branco aqui pra aldeia mesmo não tendo tanto apoio ... mas não pode obriga a vontade e amizade de cada um pra não desgosta a família mesmo sabendo ... é umas passagem errada que acontece de puxa um branco pra dentro da aldeia porque ao passar do tempo pode dar problema. 45
E o sepultamento, a partir deste tempo, é realizado na cidade (até mesmo por falta de espaço), já que
se a gente fizesse, chegasse a fazê um sepultamento de qualquer pessoa ... nóis tinha que arretirá, levá pro cemitério do branco, ia sê tirado na marra, ia forçá nóis tirá, aí não tinha como a gente construir dentro da nossa cultura que é uma das coisas que é muito importante ... antepassado implantado46 dentro da própria área47.
As falas nativas acima caracterizam algo muito comum no período: a perseguição. Tanto a polícia do município e os grandes latifundiários como as populações não-índias locais classificavam alguns hábitos praticados pelos Kalankó, - tipicamente da esfera religiosa - como Xangô, a partir do que faziam com as populações afro-brasileiras. Por isso, os Kalankó foram duramente reprimidos no tempo dos antepassados. Isto fez com que escondessem, inclusive, alguns rituais e gêneros musicais, já que só podiam cantar o que não chamava a atenção do não-índio, como o toré e o serviço de chão. O ritual do
45Entrevista com o Pajé Tonho Preto, em Lageiro do Couro no dia 19 de novembro de 2001 e 28 de abril
2005.
46 O termo implantado dá a idéia de que o morto não é enterrado, mas plantado. O que remete a outras
etnografias do sertão nordestino, como, por exemplo, a tese de Neves (2005), na qual ela descreve como Xicão Xukuru, líder dos Xukuru de Pernambuco, ao ser assassinado, não foi enterrado, mas plantado na aldeia. Isto indica uma simbologia vegetal (como a de tronco/rama) forte nos grupos da região, a ser ainda trabalhada. Esta equação do enterramento funerário com a plantação vegetal evoca equações similares, de grupos indígenas não nordestinos, como, por exemplo, os Kamayurá (Menezes Bastos 1989).
Praiá e seus cantos eram reprimidos.
Esta estratégia de ocultamento durou até o momento que denominam como tempo da
luta. Este período compreende o tempo presente, iniciado a partir do processo de
ressurgimento do grupo e da afirmação de sua identidade indígena. É um tempo de batalha, no qual o grupo torna-se mais forte na medida em que se reconhece e é reconhecido como Kalankó. No tempo da luta a comunidade conseguiu incorporar mais um gênero musical, o praiá, visto como relevante por todos. Desde então, os Kalankó procuram afirmar sua identidade diferenciada a fim de terem acesso a seus direitos previstos na lei brasileira, principalmente a terra.
O terceiro período, denominado tempo futuro, ainda não está muito bem definido na mentalidade Kalankó. É um tempo localizado em um futuro indefinido e que só poderá ser atingido após inúmeras batalhas. É o tempo ideal, no qual o alto-sertão alagoano vai voltar a ser e pertencer ao índio. E os ancestrais encantados terão maior poder de atuação sobre a caatinga alagoana.