É bastante claro e conhecido por todos, que o berço do Modernismo, enquanto movimento cultural no Brasil, foi o estado de São Paulo. Embora as primeiras manifestações artísticas modernas em um momento inicial não tenham uma grande influência na arquitetura em geral, estas preparam o caminho para o desenvolvimento de uma arquitetura moderna brasileira de reconhecimento internacional.
a) Pressupostos imediatos
A partir do começo da I Guerra Mundial (1914-1918), despertaram com mais veemência no Brasil, movimentos a favor de uma consciência mais nacionalista. Em São Paulo, as raízes dessa mesma consciência talvez tivessem que ser buscadas alhures, já que o clero paulista teve no passado um papel preponderante para o despertar de uma igreja mais preocupada com as questões locais322. De qualquer modo, dentre vários fatores, um dos motivos que levou a um olhar mais introspectivo para a questão da própria nacionalidade no início do século XX, foi justamente a crise buscada pela grande Guerra na Europa, e que de certa maneira veio estourar de modo mais agudo em São Paulo.
321 “Oscar Pereira da Silva foi aluno de Victor Meirelles, tendo estudado pintura na Academia Imperial de Belas
Artes no Rio de Janeiro. Estudou em Paris onde morou até o ano de 1896. De volta a São Paulo, lecionou no Liceu de Artes e Ofícios. [...] Entre 1903 e 1911, o pintor se envolveu no trabalho de execução de painéis no teto do salão nobre do Teatro Municipal [...]. [...] A igreja da Consolação e o Museu Paulista possuem igualmente trabalhos executados por Pereira da Silva”. Site de arte em São Paulo, disponível em http://www.sampa.art.br/saopaulo/Biog.%20Oscar%20Pereira%20da%20Silva.htm, acesso em 11.06.20011.
322 Veja-se, por exemplo, as idéias do Padre Diogo Antônio Feijó (1784–1843), regente do Império e pertencente
ao clero diocesano paulista, sobre a idealização de uma ‘Igreja brasileira’, sem deixar de ser católica-romana. Cf. MATOS, Henrique Cristiano José. Nossa História. 500 Anos de Presença da Igreja Católica no Brasil. Tomo 2, São Paulo: Paulinas, 2002, p. 51s.
O grande motor da economia paulista era então o café, mas em virtude do belicismo foi taxado como produto supérfluo, e desse modo não encontrou mais no mercado europeu compradores. Com a crise advinda desse processo, a elite paulista procurou outras oportunidades, encontrando no próprio mercado interno uma válvula de escape. Com isso, foram dados os primeiros passos em direção ao início do desenvolvimento do parque industrial paulista, que nasceria para suprir o próprio mercado interno.
A proclamação da República no Brasil também foi mais um fator que contribuiu para a formação de um ideal de nacionalismo. Embora a República tenha sido proclamada em 15 de novembro de 1889 no Rio de Janeiro por um militar, o Marechal Deodoro da Fonseca, esta ajudou a forjar ainda no início do século XX uma consciência com valores profundamente nacionais323 imbuídos de fortes elementos de militarismo.
Nesse mesmo período a Igreja no Brasil, que já havia passado pela crise da famosa “Questão Religiosa”324, e que marcara definitivamente o fim do Império, começava a olhar
agora, no início do século XX, com um pouco menos de desconfiança para o novo regime Republicano325 e a incentivar o gosto pelas coisas nacionais326.
Diante desses dados, principiou a formar-se também do ponto de vista intelectual e cultural, notadamente em São Paulo, um movimento que ia igualmente na direção do nacionalismo. Uma das figuras principais desse movimento foi o escritor paulista Monteiro Lobato, editor e proprietário (1918) da Revista do Brasil. Uma das atribuições dessa revista era a promoção do conhecimento das tradições e da história brasileiras. Além disto, ela teve também o seu papel como agente aglutinador de artistas e intelectuais, e muito contribuiu para consolidar a ideia de nacionalismo nesses meios.
323 “Os militares tiveram, então, a ideia de iniciar uma intensa campanha cívica, e de ampla ressonância na
juventude brasileira. [...] O capitão Gregório da Fonseca sugeriu, em seguida, ao Ministério da Guerra o nome de Olavo Bilac, autor do Hino à Bandeira, do qual era velho amigo. Bilac aceitou o convite e no dia 9 de outubro de 1915, fazia a primeira conferência na Faculdade de Direito de São Paulo. [...] Em 1917, era criada em São Paulo a Liga Nacionalista”. AZZI, Riolando. A Igreja e os Migrantes. Vol. 3, São Paulo: Paulinas, 1988, p.20.
324“A chamada ‘Questão Religiosa’ foi na realidade a consumação de um longo processo de desavenças entre a
Igreja e o Estado no período imperial, sobretudo desde que a Reforma Católica começou a ser implantada efetivamente”. MATOS, Henrique Cristiano José. Nossa História... p. 247s.
325 “Portanto, nos primeiros decênios após a Proclamação da República (1889–1910), a Igreja conversou,
negociou, brigou por seus direitos, até atingir, quase resignada, um nível de aceitação dos fatos e de composição com o governo que apontasse perspectivas favoráveis para os trabalhos da missão pastoral”. LUSTOSA, Oscar de Figueiredo. A Igreja Católica no Brasil República. São Paulo: Paulinas, 1991, p.20s.
326 “Entre outros, aderiram ao movimento [nacionalista] o poeta Coelho Neto, o ex-deputado Rafael Pinheiro e o
bispo salesiano D. Aquino Correia. Este último, em discurso pronunciado a 19 de novembro de 1915, afirmava: ‘Senhores, o culto da bandeira não é um fetichismo, não é uma idolatria, porque não é uma adoração, porque não pára neste retângulo de seda, mas evola-se a coroar dos nossos afetos, das nossas carícias e dos nossos beijos a fronte imaculada e soberana da pátria’”. AZZI, Riolando. A Igreja e os Migrantes..., p.20s.
No âmbito da arquitetura paulista, o nacionalismo veio à tona através do estilo neocolonial, iniciado no ano de 1916327, como uma forma de fazer frente aos diversos estilos inspirados em terras europeias.
b) A Semana de Arte Moderna
O fato é que a conjunção de todos esses elementos apontava para a busca de uma identidade própria, e essa busca afunilou-se emblematicamente em um evento que sinalizou uma ruptura com os modelos até então propostos pelos ditames da academia: A Semana de Arte Moderna de 1922328.
Apesar de existirem manifestações de arte moderna em São Paulo, anteriores à Semana de 22329, foi justamente esse evento que marcou a inserção cada vez maior do Modernismo330 nas artes em São Paulo, rompendo331 com as tradições até então vigentes em matéria de artes plásticas. Embora a Semana de 22 para a arquitetura trouxesse de fato pouca
327“Em São Paulo, o neocolonial nasceu oficialmente em 1916, ano em que o arquiteto e exilado português
Ricardo Severo pronunciou célebre conferência na Sociedade de Cultura Artística propugnando pela definitiva adoção dos velhos estilos pátrios, que tiveram seu ponto alto no barroco do século XVIII, época das mais belas casas e solares portugueses e brasileiros”. LEMOS, Carlos A. C. Arquitetura Brasileira, São Paulo: Melhoramentos, 2000, p.131.
328“A historiografia brasileira convencionou a realização das manifestações da Semana da Arte Moderna como
início de uma nova etapa em nosso desenvolvimento literário, a do movimento modernista ou modernismo. A Semana tem sido superestimada, sem dúvida alguma, pois sua importância, meramente episódica, embora característica, sob muitos aspectos, do verdadeiro caráter do movimento, foi muito menor do que pretendem alguns de seus participantes e alguns de seus cronistas. Trata-se de uma série de atividades características realizadas em São Paulo, em fevereiro de 1922, com grande alarde e no intuito de provocar escândalo. Seus participantes pretendiam subverter os padrões estéticos dominantes: o escândalo destinava-se a chamar a atenção do público para as novas manifestações. Era uma ruptura com as idéias vigentes, mas uma ruptura sob a proteção das representações mais consagradas do regime, as mais austeras, as mais conservadoras” SODRÉ, Nelson Werneck. In: XAVIER, Alberto (org.). Depoimento de uma Geração – Arquitetura Moderna Brasileira. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 32. Para a Semana de Arte Moderna ver também PRADO, Yan de Almeida. A Grande Semana de Arte Moderna. São Paulo: Edart, 1976.
329 Em São Paulo acontecem duas exposições de pintura que colocam a arte moderna de um modo concreto para
os brasileiros: a de Lasar Segall, em 1913, e a de Anita Malfatti, em 1917. A propósito da exposição de Anita Malfatti, ver o artigo de Monteiro Lobato publicado no Jornal “O Estado de São Paulo” edição de 20 de dezembro de 1917 e intitulado: “A propósito da Exposição Malfatti”.
330 “Modernização se refere a uma série de processos tecnológicos, econômicos e políticos associados à
Revolução Industrial e suas conseqüências; modernidade das condições sociais e experiências, que são vistas como os efeitos desses processos. Sobre o significado de modernismo, no entanto, a concordância é bem mais difícil de ser obtida. No uso comum, significa a propriedade ou a qualidade de ser moderno ou atualizado. Contudo, tende também a implicar um certo tipo de posição ou atitude que se caracterizaria por formas específicas de resposta tanto à modernização como à modernidade”. HARRISON, Charles. Modernismo. São Paulo: Cosac & Naify, 2001, p. 06.
331 “É comum associar o moderno na arte com um colapso do decoro tradicional na cultura ocidental, que
previamente conectava a aparência das obras de arte à aparência do mundo natural. Os sintomas típicos desse colapso são a tendência de as formas, cores e materiais da arte ganharem vida própria, produzindo combinações inusitadas, oferecendo versões distorcidas ou exageradas das aparências da natureza e, em alguns casos, perdendo todo contato óbvio com os objetos comuns de nossa experiência visual”. Idem, p. 08.
influência332, as mudanças que viriam a se tornar uma das características mais marcantes da cidade de São Paulo - a arquitetura moderna – aí germinaram333.
1.4.4 Primórdios de uma Arquitetura Moderna Religiosa no Brasil