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Buscando agora ampliar algumas conclusões dos capítulos 1 e 2, lembramos que sonhar é uma forma de exibição, uma forma de ver algo desejado tomando forma e, ao mesmo tempo, uma forma de manter os olhos fechados para esse desejo. Num sonho tentamos dosar o grau de abertura de nossas pupilas, permitimos que os olhos se abram um pouco mais e, literalmente, criamos as imagens necessárias para essa solução de compromisso. A censura é que controla essa abertura. Assim, há um anteparo e evitamos, quando possível, a angústia. Tecemos um envoltório psíquico para o desamparo.

O que ocorreria caso ficássemos sem esse anteparo, sem essa proteção? Aproximamos aqui essa suposição da situação metaforicamente tratada por Saramago em seu livro Ensaio sobre a cegueira2

. Nesse livro, Saramago conta a história de uma

cegueira branca que, inexplicavelmente, se alastra pelas pessoas, provocando o caos absoluto nessa sociedade. Apenas uma mulher continua enxergando durante a trajetória de cegueira das demais pessoas, dando testemunho de toda uma organização que se

1 CARVALHO, p. 8. 2

tornou falida e, ao mesmo tempo, dosando as informações que transmitia para seus companheiros cegos, servindo, assim, de seu anteparo.

Com a “cegueira branca”, há um homem que tem medo, que mata para sobreviver, que discrimina e classifica seu semelhante por alguma característica, e não lhe interessa saber o nome dessas pessoas, ou seja, um homem que revela seu lado insuportável, que não deveria ser visto. Temos um homem que se depara com sua fragilidade e desamparo absolutos, que se demonstra completamente dependente da visão física, a única com a qual consegue lidar por ser a melhor opção para camuflar esse desamparo incessantemente negado.

Por isso, supomos, a cegueira branca indica não uma cegueira, mas um excesso de visão. Encontramos um homem que perde seu anteparo criado pelo recalque e que se desorienta quando passa a ver demais, jogando por terra todos os construtos que mantêm sua estrutura social de pé. Ele vislumbra as conseqüências do fim do recalque e a explicitação desordenada das pulsões. Saramago não cegou o homem; ele o fez ver algo insuportável, abriu seus olhos e o fez ver demais: fez o homem ver a si mesmo.

O efeito de uma cegueira branca descrito na obra de Saramago é exatamente o efeito da ofuscação, do deixar de ver pelo excesso de luz, o que ocorre quando se dilata a pupila em grau elevado. Não vemos nada por ver demais. A realidade entra num grau exagerado e cega a retina, saturando-a pelo excesso de luminosidade. Temos que fechar os olhos e controlar a quantidade de estímulos e excitações que penetram em nós a todo o momento. Se essa excitação exceder os limites suportáveis por nosso aparato psíquico, nós a limitamos, fechamos completamente nossos olhos e nos cegamos.

Diríamos aqui que os sonhos de angústia representam um instante em que abrimos demais nossos olhos e acabamos vendo o insuportável do que foi rejeitado anteriormente, ou seja, um momento em que vislumbramos a “cegueira branca” de Saramago. Os sonhos de angústia são aqueles em que um desejo onírico foge à censura e à distorção conseqüente dessa censura, fazendo com que o sonhador experimente sensações desagradáveis. Eles ocorrem quando a censura está total ou parcialmente ausente, e “a subjugação da censura é facilitada nos casos em que a angústia foi produzida como uma sensação imediata decorrente de fontes somáticas”.1 Quando surgir a necessidade de uma defesa contra algum desejo, ele será submetido à censura e

à distorção, ou seja, ao fechamento necessário das pupilas para que se torne aceitável para todas as instâncias envolvidas. Nos sonhos, “não há neles nada de arbitrário”.1

Quando surge alguma dúvida sobre a exatidão do relato de um sonho ou de algum de seus pormenores, Freud afirma que essa situação se trata de “um derivado da censura onírica, da resistência à irrupção dos pensamentos oníricos na consciência. Essa resistência não se esgotou nem mesmo com os deslocamentos e substituições que ocasionou; persiste sob a forma de uma dúvida ligada ao material que foi admitido [na consciência]”.2

...há alguns sonhos que são realizações indisfarçadas de desejos. Mas, nos casos em que a realização de desejo é irreconhecível, em que é disfarçada, deve ter havido alguma inclinação para se erguer uma defesa contra o desejo; e, graças a essa defesa, o desejo é incapaz de se expressar, a não ser de forma distorcida.3

Qual é, então, a função da censura? “Assim, podemos notar claramente a finalidade para a qual a censura exerce sua função e promove a distorção dos sonhos: ela o faz para impedir a produção de angústia ou de outras formas de afeto aflitivo”.4 A

censura é mais uma tentativa de cegar o sujeito. É mais uma forma de fechar os olhos ou, então, de controlar a abertura deles, pois distorcer as coisas é apresentar para si mesmo uma forma aceitável de algo recusado anteriormente. Temos um sonho e, pela ação da censura, nos esquecemos dele. Fechamos nossos olhos novamente.5

1 FREUD, 1900, p. 547. 2 FREUD, 1900, p. 578. 3 FREUD, 1900, p. 176. 4 FREUD, 1900, p. 293-294.

5 Pensando ainda sobre o tema específico dos sonhos, convém destacar algo que tangencia essas

elaborações sobre “fechar os olhos”: o esquecimento dos sonhos. Freud apresenta a falta de garantia que temos de conhecer os sonhos tal como realmente ocorreram tendo em vista uma tendência comum ao esquecimento de parte dos sonhos, ou de sonhos inteiros na vida de vigília, devido aos efeitos da elaboração secundária e da organização que damos aos sonhos ao relatá-los. Com o passar do dia, também é comum acentuar-se o esquecimento dos sonhos, considerado por Freud como tendencioso e, em grande parte, como efeito da resistência , pois é muito mais “freqüente o sonho arrastar consigo para o esquecimento os resultados [de sua] atividade interpretativa do que [sua] atividade intelectual conseguir preservá-lo na memória” (FREUD,1900, p. 294).

Fundamentalmente, o esquecimento estaria relacionado ao recalque. Segundo ele, o recalque “(ou, mais precisamente, a resistência criada por ele) é a causa tanto das dissociações quanto da amnésia ligada ao conteúdo psíquico destas”. Além disso, “o estado de sono possibilita a formação de sonhos porque reduz o poder da censura endopsíquica” (FREUD, 1900, p. 294).

Diríamos, então, que fechamos mais uma vez, progressivamente, nossos olhos, depois de os termos abertos durante a noite. Freud, porém, tenta manter essa abertura e dispensa sua interpretação tanto a elementos mais ínfimos e insignificantes, quanto aos mais certos e nítidos, ou seja, ele atribui idêntica importância “a cada um dos matizes de expressão lingüística em que eles nos forem apresentados”

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