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televisão, era restrito a determinadas classes com melhor poder aquisitivo, ainda que não possamos restringir o acesso da população com menor renda à programação e às transformações gerais na cultura e cotidiano proporcionadas pelo advento das transmissões televisivas.205

Logo, posso concluir que a vida nas grandes cidades brasileiras foi paulatinamente sendo modificada à medida que chegavam as transmissões televisivas e que se desenvolvia o novo meio de comunicação de massas. O hábito distraído do ouvir ao rádio como “fundo musical” para as mais diversas atividades cotidianas ia perdendo espaço para os olhares atentos e envoltos pela imagem enquadrada da tv. Por motivos e com condições diferenciadas ao que já foi falado sobre os Estados Unidos, a relação público privada também sofria abalos por

para que pudessem consumir os produtos que ajudavam a fabricar. Assim, apesar de obter uma menor margem de lucro por unidade vendida, Ford conseguia manter seus trabalhadores relativamente satisfeitos, ganhava uma propaganda positiva ao ter seus funcionários dirigindo os carros que produziam – um indício de qualidade do produto – e vendia mais, lucrando mais, ao final, com um maior número de unidades vendidas. Essa prática popularizou-se entre as outras indústrias automobilísticas, que, ao perder mercado para a concorrente, aderiram à prática, e, paulatinamente, nas demais indústrias estadunidenses. Essa prática passou a ser defendida por muitos como uma prova incontestável da superioridade da democracia liberal estadunidense, que garantia uma melhor qualidade de vida para os seus cidadãos com acesso igualitário aos bens de consumo básicos.

205 É de certa forma bem conhecida na historiografia a dificuldade de se

trabalhar com a recepção dos veículos de comunicação nas sociedades. Assim, é sempre complexo prever o alcance de determinados veículos impressos, por mais setorizados que sejam, uma vez que a circulação desses veículos é dinâmica e complexa no meio social, podendo atingir outros setores que não aqueles de foco da publicação por meio de doações, empréstimos, leituras em locais públicos, divulgação boca a boca, etc. O caso da programação de tv, nesse sentido, é ainda mais complexo, já que não possui a barreira da necessidade da alfabetização. A medida que foi se consolidando esse meio, locais públicos passaram a disponibilizar televisores como forma de atrair clientes, promover socialização e integrar comunidades, entre outros motivos. E também havia a camaradagem: grupos de amigos que se cotizavam para comprar e dividir o aparelho e vizinhos que se reuniam para assistir aos programas favoritos. Não se pode deixar de citar o caso de funcionários de empresas e empregadas domésticas, que tinham acesso a televisores em seu trabalho.

aqui, marcando as divisões de classe: entre os mais abastados, o espaço público da tv expandia o domínio do privado, da reserva. Entre esses setores, os hábitos coletivos de ir ao cinema ou prosear à frente das casas é deslocado para a intimidade da sala de estar em frente ao “altar” onde é posto o novo artigo “de luxo”. Já entre os menos favorecidos, ainda sem condições de adquirir um televisor, reúnem-se nas casas dos vizinhos ou nas praças públicas, onde algumas prefeituras ou associações de bairro disponibilizam-no, para, entre uma conversa e outra, ouvir as notícias, dar boas gargalhadas com as comédias pastelões ou, principalmente, acompanhar os capítulos do gênero cada vez mais popular das telenovelas.

Esse gênero, que, a propósito, se faz presente desde a primeira década da tv no Brasil – inicialmente com inspiração das radionovelas ou releituras de scripts de sucesso em outros países206 – torna-se um dos grandes responsáveis por encobrir as diferenças de classe que a cultura de consumo punha em evidência na sociedade brasileira.

A novela é como um fio invisível do qual poucos se orgulham mas que perpassa a sociedade e aponta um universo de segredos íntimos compartilhados. Ela oferece para o público amplo do horário nobre a visão indiscreta do cotidiano de uma certa classe média alta, urbana, moderna, glamourosa e idealizada, tal como vista de fora por um estranho ou excluído. E aquilo que é uma construção relativamente arbitrária, um reflexo caricatural dos gostos e preocupações das classes médias urbanas, ganha estatuto de realidade; se torna referencial para escolha de móveis, para o balizamento de opiniões, para o exercício do direito de julgamento. Ao assistir à novela, o publico pertencente aos segmentos menos favorecidos da sociedade imagina que está penetrando o universo dos segmentos mais abastados. Estes, por sua vez, embora também se inspirem em novelas e assistam a elas, quando o fazem, alegam estar acompanhando o programa predileto das classes baixas.

206 É apenas a partir da década de 70 que as telenovelas começam a ser

desenvolvidas nacionalmente, tornando-se um importante e lucrativo mercado. Para maiores informações a respeito da história das telenovelas no Brasil e seu desenvolvimento ao longo das décadas, vide Hamburguer, Esther. Op. Cit..

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Nesses momentos, a novela atualiza seu potencial de sintetizar uma comunidade imaginária, cuja representação, ainda que distorcida e sujeita a uma determinada variação de interpretações, é verossímil, vista e apropriada como real e legítima.207

Cria-se, destarte, uma espécie de cultura homogênea universal, que, ainda que pouco se espelhe na experiência cotidiana, funciona como referência para muitas pessoas, gerando identificação, espelhamento. Funda-se, em outras palavras, uma espécie de comunidade imaginada e que, enquanto tal, na era da erupção visual, produz subjetividades, inspira mudanças de comportamento para além das barreiras definidoras dos papéis sociais.

Nomes de artistas e personagens inspiram a escolha de nomes para crianças recém-nascidas. O figurino também é motivo de atenção especial. Ao copiar modelos das novelas, telespectadores revelam que estão “por dentro” e sugerem sua disposição de ir além dos espaços supostamente demarcados por sua condição social, sua identidade de gênero ou raça.208

Além disso, outro hábito que também foi transformado pelo sucesso das novelas na televisão brasileira foi a ida ao teatro. Se antes da chegada do aparelho as peças eram uma das opções de entretenimento preferida das classes médias e altas urbanas, agora os artistas estavam migrando para a nova mídia em busca de melhores salários, o que indica que o sucesso das encenações no palco estavam em queda. É o que podemos notar com a matéria de 24 de maio de 1952 de Manchete (Imagem 19).

Compara-se a transferência dos artistas da Broadway, em Nova Iorque, e outros meios estadunidenses para a televisão e cinema com o que ocorre no Brasil, demonstrando que era um fenômeno não apenas local, mas comum a todos os lugares onde havia chegado e se popularizado o novo meio de comunicação.

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